Made of Fire

6 V - Manual de instrução para tirar dúvidas inexistentes


Notas iniciais
Gente, A HISTÓRIA NÃO ACABOU! Cometi a grande proeza de dar como concluída a fanfic sem querer! Perdão, perdão! Perdi acompanhamentos - e favoritos - por isso, mas o pessoal da equipe conseguiu ajeitar pra mim, graças aos céus! Desculpa mesmo, nem sei como fiz essa merda ahahha Mas enfim, vim aqui postar mais um capítulo como desculpas e como comemoração sobre eu ter pego exames em praticamente todas as matérias na faculdade desse semestre! Viva! Estou com um humor sombrio hoje, sorry. Will's POV Boa leitura! *-*

Há um certo momento do Animal Planet em que o leão encontra sua presa. Em um primeiro instante, ele não ousa nem piscar, encarando com os olhos ferozes a pobre criatura que logo servirá de almoço. Faz estratégias ao mirar o alvo sobre a melhor forma de se aproximar. E no instante seguinte, ele ataca.

Então, foi mais ou menos assim que me senti quando ergui a mão, interrompendo a aula da fera. Digo, do Sr. Turner. Obviamente, eu era a presa.

O Dragão parou de falar quase imediatamente e, depois de dar um pesaroso suspiro e pressionar os lábios, inflou as narinas — caramba! - ao me encarar.

— Algum problema, Will? — perguntou, os olhos pegando fogo.

Por algum motivo desconhecido, Turner chegou na sala de aula com um mau humor do cão. Antes de começar a explicar a matéria, precisou de alguns segundos para se acalmar e não jogar nada na parede. Ao menos, foi o que pareceu.

Podia-se concluir que, se seus olhos queimassem, estaríamos todos mortos agora.

— O que você tá fazendo, maluco? — Gabe cochichou, inclinando-se em minha direção.

— Absolutamente, professor — respondi ao ignorar Gabe, com a maior cara de paisagem que consegui. — Eu só estava aqui me perguntando... Se o Índice de Liquidez Corrente se refere ao quanto a empresa arranja em recursos, a curto prazo, para saldar suas dívidas — comecei, parando um segundo para tomar fôlego —, o que o Índice de Liquidez Seca indica?

As sobrancelhas de Turner elevaram-se tanto que quase pude ver a junção destas com seu cabelo. Estava surpreso, percebi com satisfação.

Ao longo destas primeiras semanas do semestre, frequentei bastante a sala do nosso professor de Administração Financeira. Decidido a ser aprovado na matéria e comprovar minha capacidade, estive estudando o conteúdo dado em aula e procurando Turner com o objetivo de tirar minhas dúvidas.

No fundo, eu sabia que este não era meu único objetivo, mas deixemos isto de lado.

Apesar das frequentes visitas no plantão, eu nunca havia me manifestado em suas aulas. Tentei inutilmente reprimir o sorriso enquanto o Sr. Turner me questionava com o olhar, talvez sem saber o que dizer.

— Dei uma lida no material antes da aula — expliquei, sorrindo.

— Claro — murmurou, perdido. — Bom, os índices... — Limpou a garganta, recompondo a postura. — O Índice de Liquidez Seca mede o quanto esta empresa pode dispor de Ativo Circulante para saldar as dívidas a curto prazo — disse ele, enquanto eu assentia com a cabeça —, sem vender seus estoques. Eu estava prestes... — Parou, encarando a turma. — Prestes a explicar este assunto. Digo, explicar para vocês. Sobre os pagamentos. Agora — completou, piscando muito.

Toda a energia ruim do nosso professor foi substituída por embaraço. Demorou um tempo ainda para ele se recuperar e incorporar o mau humor novamente. Francamente, o que havia acontecido com o homem para tanto aborrecimento?

Depois que as aulas daquele dia acabaram, satisfatoriamente guardei meu material – um caderno e um estojo –, saí da sala e me dirigi às escadas. Se eu não comesse alguma coisa logo, meu estômago iria devorar os outros órgãos ao redor, sem dó nem piedade.

Porém, antes de descer o primeiro degrau, senti alguém me puxar pelo braço.

— Quem é você e o que fez com meu amigo? — perguntou Cenoura, com os olhos verde-claros meio confusos, meio divertidos.

Olhei ao redor, mas não encontrei nenhum dos outros por perto. Já deviam estar almoçando há séculos.

— Do que você está falando? — perguntei, sem me deixar abalar, continuando o caminho.

— Do que eu estou falando? — Olhou-me duvidoso ao me acompanhar. — Não sei, talvez do nerd que resolveu sair de dentro de você e dar uma aparecida hoje?

Tenho certeza que minha gargalhada ecoou pelo prédio inteiro.

— Estou falando sério! — disse ele, me empurrando de leve. — Todo mundo ficou meio chocado, principalmente o professor — completou, rindo também.

— Eu sei! Esse é um dos motivos pelos quais ando estudando mais — expliquei, vendo-o franzir o cenho com sardas. — Para fazer ele se arrepender de me reprovar! — concluí, tentando parecer convincente.

Cenoura apenas estreitou os olhos, fazendo uma careta.

— E também — acrescentei antes que ele falasse, dando de ombros —, eu preciso passar na matéria este semestre e isso não vai acontecer se eu não aprender o conteúdo monstro do Dragão — concluí, sabendo que era verdade. — Você devia fazer o mesmo.

Ao chegar no térreo, ouvi a resposta do Cenoura em forma de risada.

— Mesmo assim... — retorquiu ele. — Eu não acho que seja... — A voz característica de meu amigo foi diminuindo aos poucos, até sumir.

Levantei os olhos de meu celular, confuso, para descobrir que o ruivo tinha um sorriso bobo no rosto e os olhos fixos no lado de fora do prédio. Virei bruscamente o rosto para ver o que havia chamado a atenção do meu amigo.

Tão logo pus os olhos do lado de fora, reconheci a figura esguia.

— Tem alguma coisa que queira me contar, Cenoura? — perguntei, segurando o riso.

Do outro lado do vidro, havia um grupo de pessoas conversando que passaria despercebido aos meus olhos, se não fosse pela morena de jaqueta jeans. Reconheci imediatamente os cabelos negros ondulados da noite fatídica no Dan's. A moça virou em nossa direção, cruzando o olhar com Cenoura, e sorriu, antes de voltar a conversar com seus amigos.

O rosto inteiro do Cenoura ficou da cor de seu cabelo, enquanto ele lutava para deixar sair de sua boca algo além de risos baixos e murmúrios envergonhados.

Segurei o riso, impressionado com seu jeito abobalhado. Não achei que eu fosse viver para ver o Cenoura apaixonado. Olhei para o céu lá fora, com discrição. Não, não parecia que iria chover.

— É só uma garota que eu conheci. Jess — explicou ele, por fim, ao chutar alguma coisa invisível no chão e virar o rosto pro outro lado.

Isso eu já sabia, pensei.

Não sei por que o Cenoura não contou para ninguém que esteve trocando mensagens com a garota do bar durante longas semanas. Tive que descobrir por acaso, nas férias, quando peguei seu celular para jogar em um aplicativo. O aparelho vibrou e pude ver a foto da garota com o nome de Jess aparecer nas mensagens. Ela havia mandado um emoticon de beijinho.

Isso era um bom sinal, certo?

— Cara, vai lá falar com ela! — indiquei, praticamente empurrando-o para fora.

— Não! Você tá maluco? — respondeu ele, com os olhos esbugalhados.

Revirei os olhos, pensando que eu sempre havia sido maluco, afinal. Abri a porta de vidro do prédio e saí, puxando o ruivo comigo antes que ele cavasse um buraco no chão e se enfiasse. Reprimi o riso ao ver ser rosto colorir com a cor avermelhada.

— Louis! — A morena chamou ao nos ver do lado de fora, acenando em nossa direção. Praticamente ao mesmo tempo, escutei meu estômago roncar.

Eu e toda a universidade.

— Vai lá que eu vou comer alguma coisa — falei, vendo-o virar na direção dela com relutância. — Ei, Cenoura! — chamei sua atenção baixinho ao vê-lo hesitar. — Se você não for falar com ela, eu vou — acrescentei, com um sorriso sacana, quando ele voltou os olhos para mim.

Cenoura praticamente me matou com o olhar antes de virar as costas novamente — e desajeitadamente -, seguindo em direção à garota bonita.

Sorri comigo mesmo ao caminhar em direção ao restaurante universitário. Cenoura nunca teve muito sucesso com as garotas e esta parecia gostar mesmo dele. Pelo menos assim o parecia, já que estavam conversando há meses.

Felizmente, reprovar na matéria do Dragão não me fez reprovar o semestre inteiro. Fiquei para trás em Gestão de Pessoas I também, é claro, mas eu sabia rever minhas prioridades. No caso, o importante era passar de semestre, e não passar de semestre sem alcançar o topo dos limites, com as calças nas mãos.

As férias haviam passado como um vulto. Nos primeiros dias, não fiz muita coisa além de ficar jogado no sofá assistindo filmes com Caleb e dormindo o dia inteiro. Depois, achei que seria sensato de minha parte arrumar um emprego provisório para ajudar em casa. A lanchonete do bairro pareceu uma ideia estupenda, mas tudo foi por água abaixo quando eu estive, de fato, trabalhando no local. Local com escassez de higiene e abundância de pessoas estressadas. Fiquei muito alegre quando dei um adeus para a equipe de lá, planejando nunca voltar.

Juntei o pouco do salário que ganhei com o dinheiro que minha mãe me emprestou, e comprei um celular de presente para Caleb, em seu aniversário. Saí algumas vezes com o pessoal, embora Gabe tenha nos deixado na mão mais de uma vez. Estava estranho fazia um tempo e ninguém sabia dizer o que havia de errado com ele. Laurel pareceu entrar numa TPM infinita depois de voltar a sair com Adam, para logo terminarem de vez.

No fim, K foi a que passou mais tempo lá em casa. Tivemos a chance de matar a saudade de todos aqueles dias que ficamos sem nos esbarrar, mesmo morando um ao lado do outro. A faculdade fazia isto com as pessoas, além de transformá-las em zumbis vivos.

Cenoura também passou um período com a gente, dizendo querer escapar um pouco das garras da sua vó materna, a senhora Watson. Ela havia se mudado há pouco tempo para a casa do ruivo, devido à problemas de saúde e, segundo ele, já havia conseguido deixar todo mundo de cabelo em pé. Eu, particularmente, adorava aquela mulher!

Cheguei no restaurante universitário, sentindo o cheiro de comida invadir minhas narinas e fazer meu estômago reclamar mais uma vez. Me servi e sentei com um suspiro, pronto para matar a fome. Já fazia duas semanas em que eu almoçava na universidade durante mais vezes que o normal, já que o professor Turner ficava de plantão à tarde. Segunda e sexta, os dias de suas aulas, eu ia até sua sala nos horários da monitoria, depois do almoço.

Sorri ao lembrar da primeira vez que apareci em sua sala neste semestre: — Não pareça tão surpreso professor, eu disse que viria! — dissera com um sorriso, ao ver suas sobrancelhas se arquearem quando eu entrara na sala.

O Sr. Turner havia começado as aulas de maneira diferente desta vez, para a surpresa de todo mundo. Chegou mais tarde do que de costume e parecia nervoso quando mencionou que havia mudado algumas coisas na maneira de dar as aulas. Nervoso!

Não preciso dizer que fiquei levemente chocado. Eu e todos os alunos que estavam repetindo a matéria. Ele se deu o trabalho de mudar todos os slides da aula para uma linguagem mais clara e explicar o conteúdo de forma mais simples e fácil de entender. Não pensei que ele estivesse falando sério, mas pude ver, logo em seguida, que as aulas fluíram com rapidez.

Fiquei um pouco chateado comigo mesmo por ser tão instável. Digo, eu passei as férias inteiras odiando o meu professor e, com um par de palavras, ele conseguiu fazer toda a raiva que eu sentia magicamente evaporar.

Naquela segunda primeira aula, ele me olhou no rosto enquanto repetia as minhas palavras daquela noite no bar. Ele se lembrava do que eu havia dito meses atrás! E pior, levou-as em consideração, ditando-as perfeitamente em frente à turma inteira. A vibração no meio de meu peito, que fizera com que eu balançasse a perna em um tique nervoso durante a aula inteira, não era raiva.

Não tirei os olhos do meu professor durante aquela aula inteira e ele percebeu, com certeza. Meus colegas podiam não notar muita diferença nele – porque, apesar de tudo, ele ainda não sorria –, mas eu notava. Eu reconheceria aqueles olhos brilhantes em qualquer lugar. Eu já conhecia aquela pessoa postada na frente da turma. Havia-o conhecido em um bar.

O Sr. Turner era ranzinza como professor, com certeza, mas não era o caso durante aquele dia. Mais tarde, eu descobriria que nos dias posteriores àquele também não. A mudança de atitude deve ter surgido efeito, já que o famoso Dragão houvera retraído as garras e o fogo, e manteve-se assim pelas próximas semanas.

Ao conseguir compreender parte das aulas, pensei que seria a oportunidade perfeita para aprender o conteúdo de vez e comprovar que eu merecia passar de semestre. Comprovar que ele estivera errado em manter-me na matéria, que eu era um ótimo aluno.

Ao menos, este era meu objetivo inicial.

Desconfiava que eu houvera entrado em um avião para a Caverna das Enrascadas, de olhos vendados e sem passagem de volta. Aconteceu primeiramente quando o busquei na sala logo após a primeira aula, e nossos dedos se encostaram levemente durante meio segundo. Pude sentir a eletricidade que parecia vir de Turner, atingindo-me por inteiro. Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, acabei descobrindo – não sei se por sorte ou azar – que consigo deixar meu professor deslocado. E este foi o ticket de entrada.

Bastava eu chegar perto demais, encará-lo demais ou sorrir demais para que ele ficasse todo atrapalhado. Descobri também que eu gosto desta sensação. Sinceramente, deixá-lo deslocado tem sido bastante satisfatório para mim nos últimos dias. É completamente fascinante!

Obviamente, havia uma explicação para isto. Ocorria por pura satisfação pessoal, como aluno. Era bom ter conhecimento de que eu, como aluno, tenho qualquer tipo de controle sobre um professor. Ainda mais, um professor que, por pouco, não me fez perder um semestre inteiro da faculdade. Era perfeitamente normal, devido ao comportamento hostil do Dragão durante meses, que eu goste de saber que há coisas que o desestabilizam. Não é nem um pouco estranho.

Suspirei, sabendo que era um pouco estranho sim. Bastante estranho.

Parte de mim, por mais que eu não quisesse admitir, estava apenas curiosa e queria conhecer melhor a pessoa por trás dos olhos acinzentados. Parte de mim só queria continuar a conversa com o cara do bar.

*

Depois de almoçar e ficar um tempo atirado na grama lendo Sherlock Holmes, me locomovi até o prédio da Administração, já tão familiar aos meus olhos. Subi as escadas até o segundo andar, como agora eu já sabia, e caminhei até a sala no fim do corredor.

Bati na porta e abri, assim como na primeira e nas últimas cinco vezes.

O Sr. Turner ergueu os olhos em minha direção, agora já não mais surpresos e acenou para eu entrar. Olhei ao redor de forma rápida e caminhei em sua direção, percebendo que a sala estava do mesmo jeito que quatro dias atrás. Exceto pela mesa à direita, desta vez, vazia.

Parei em frente a sua mesa, deixando minha mochila escorregar pelo ombro direito. Analisei-o por um instante. O aborrecimento da manhã, desta vez, parecia estar concentrado apenas em sua testa enrugada.

Suspirei aliviado. Ao que parecia, o pior já havia passado.

— Tudo bem se eu entrar? — perguntei com cuidado, ignorando o fato de que eu já havia entrado.

— Claro — respondeu, com um olhar questionador. — Por que não estaria?

— Bom... — comecei, sorrindo largamente. — Você parecia estar inundado em uma má energia nesta manhã, professor — respondi, vendo-o abrir a boca, surpreso. — Deve ter acontecido alguma coisa realmente grave pela aura ruim.

Ao se recuperar da surpresa, Turner revirou os olhos quase que imperceptivelmente. Largou na mesa, sem nenhuma delicadeza, a caneta que tinha em sua mão, resmungando.

— Sim, foi uma noite ruim. Meu vizinho estava... — Parou, provavelmente ao perceber a irrelevância do assunto e bufou. — Bom, não consegui dormir nada esta noite — concluiu, então. Tinha a boca numa linha fina, claramente irritado apenas com a lembrança.

Reprimi um sorriso ao vê-lo suspirar, voltando os olhos para mim.

— Não achei que fosse ver você nesta semana, Will — disse ele, batendo de leve os dedos na mesa.

Estava vestido em uma roupa social, como sempre, porém, usava um colete cinza por cima de sua blusa branca, como eu já houvera percebido durante a aula. O paletó estava apoiado no braço de sua cadeira.

Apenas quando o silêncio invadiu meus ouvidos que prestei atenção nas palavras que ele havia dito. Pisquei algumas vezes, focando os olhos em seu rosto, onde havia uma sobrancelha arqueada. Abri a boca rapidamente para responder, mas logo a fechei, franzindo o cenho.

— Por quê? — perguntei, confuso.

Depois de um instante, pude ver seu rosto relaxar e seus lábios, antes pressionados, subirem de leve pelos cantos. Indicou a cadeira para que eu me sentasse.

— Ora, tive a impressão de que você já está a par do conteúdo, pelas aulas — respondeu ele, enquanto eu sentava na cadeira. — Está à frente de metade da turma, pelo que percebi.

— Bom, sim. Quero dizer, dei uma lida no conteúdo, nada demais — respondi, atrapalhado.

O Sr. Turner assentiu levemente. Apoiou os braços na mesa, com as mãos juntas, inclinando-se de leve para frente, com os olhos em mim e o rosto sério.

— Certo. Mas você não precisa vir toda semana, Will. O conteúdo parece estar fluindo com facilidade para você agora — falou devagar, parecendo cauteloso ao escolher as palavras.

Ele estava de saco cheio de mim ou estava pensando que o único motivo para que eu fosse até ali era porque eu achava que devia?

— Eu sei — respondi, rápido demais. — Eu sei, mas... Mas eu ainda tenho dúvidas — tentei, falando as palavras mais devagar.

Pude vê-lo acenar, então, me encarando por mais um instante. Esbocei um sorriso, para então vê-lo ajeitar-se na cadeira e acenar com a cabeça.

— Muito bem. Quais suas dúvidas? — perguntou, interessado.

Encarei os olhos acinzentados, focados em mim.

Eu tinha dúvidas. Tinha mesmo. O conteúdo podia estar fluindo para mim agora, mas ainda assim era difícil. Tanto a parte teórica quanto as contas tinham muitos detalhes e coisas que eu não entendia, motivo pelo qual eu havia desistido de estudar no semestre anterior. Só que naquele momento, minha mente estava em branco. Eu sequer lembrava do conteúdo.

Abri e fechei a boca algumas vezes, encarando-o com os olhos esbugalhados, com a mente a mil.

O que eu estava fazendo ali, afinal, se não tinha nenhuma dúvida concreta?

Pude ver sua testa franzir novamente, abaixo dos cabelos escuros alinhados. A este ponto, eu já sabia que não eram pretos, eram castanho-escuros. Os olhos cinzentos, quando expostos ao sol, como naquele dia em que esbarrei com ele do lado de fora, parecem azuis intensos. Havia, também, uma pequena cicatriz ao lado do olho esquerdo e o rosto ao lado da boca sustentava linhas finas, marcas de sorrisos, que deixavam-me intrigado.

Como seria se ele sorrisse sempre?

— Will? — perguntou a voz grave do meu professor. Professor este que eu havia memorizado o rosto e suas características. Senti meu rosto queimar quando percebi que estava encarando-o por tempo demais.

Ai, meu deus! Que merda eu estava fazendo?

Quanto mais eu pensava, mais o pânico se expandia pelo meu corpo. Eu não sabia como estava entrando em pânico, e sequer entendia o porquê.

Levantei em um pulo, ouvindo a cadeira ranger quando empurrada para trás. Eu não sabia o que dizer nem o que fazer. A vibração em meu corpo subitamente se concentrou em minhas pernas.

Saía correndo ou dizia alguma coisa antes de sair correndo?

— Will, você está bem? — perguntou ele, também levantando de sua cadeira. Aparentava preocupação, mas parecia indeciso sobre o que fazer.

— Sim — respondi, forçando o cérebro a trabalhar. Olhei de relance para a porta e quando voltei os olhos para Turner, este havia contornado a própria mesa e, em seguida, parou ao meu lado.

— Tem certeza? — perguntou com apreensão, colocando uma das mãos em meu ombro.

Olhei bruscamente para sua mão, assustado.

Céus, estava mesmo formigando ou era impressão minha?

Virei os olhos para seu rosto, perigosamente perto demais. Era certo: haviam mais detalhes neste que eu podia gravar, como os cílios finos e escuros. No entanto, Turner tinha os olhos jocosos e estava segurando o riso, percebi, ao desviar o olhar para sua boca. O quê?

— William, o que houve? — perguntou, deixando escapar o riso baixo. — Parece que viu um fantasma! — completou, as sobrancelhas arqueadas e os dentes alinhados à mostra.

Estava sorrindo abertamente.

Só então, tentei relaxar o rosto ao perceber que o professor mais rabugento da história deixou a apreensão de lado para rir de mim. Minha cara devia estar mesmo engraçada, eu não duvidava nem um pouco.

— Não, nada — falei, percebendo minha voz falha demais. Engoli em seco. — Eu estou bem. Eu só... Eu estou bem! — confirmei, assentindo com rapidez, quando a pressão em meu ombro cedeu.

Tive uma discussão interna comigo mesmo antes de tentar me explicar.

— Eu achei que hoje era... Era um dia mas não. Não é — expliquei, fazendo todo o sentido.

Turner inclinou a cabeça para o lado, franzindo o cenho, confuso. Abriu a boca, mas no desespero, lhe interrompi antes que falasse algo.

— Você tem namorada? — perguntei rápido, evitando mais alguma pergunta sua. Tão logo falei, fechei meus olhos, xingando-me mentalmente.

O problema de pensar rápido demais é que... Não se pensa.

Turner deu um passo para trás, piscando algumas vezes, os belos olhos cinzas ficando cada vez mais confusos.

— Não — respondeu, cautelosamente, me encarando como se eu fosse maluco. Pareceu que falaria mais, mas manteve-se quieto, esperando alguma reação minha. Ou melhor, alguma explicação minha.

— Oh — respondi, brilhantemente.

Se a janela estivesse aberta, correria até lá e me jogaria, com certeza.

Então, como se ouvidas as minhas preces, a porta se abriu, dando espaço para o Sr. Edwards entrar. Girei o rosto no mesmo instante, vendo os cabelos esbranquiçados do meu provável futuro professor.

Então, virei rapidamente para o Sr. Turner, que se encontrava há uns três passos mais longe de mim do que em alguns segundos antes. Tinha a postura reta, diferentemente de antes, e respondia o "bom dia" do professor mais velho que havia entrado.

Sem pensar muito, peguei minha mochila da cadeira rapidamente e encarei o Dragão de olhos intensos.

— Muito obrigado, professor — falei, de forma rápida. — Eram só estas dúvidas que eu tinha mesmo. Foi muito esclarecedor — completei, sorrindo.

— Claro, William — respondeu, relanceando o Sr. Edwards, já sentado em sua mesa. — Fico feliz que tenha esclarecido suas diversas dúvidas — completou com ironia, uma das sobrancelhas arqueada.

Ri baixinho antes de virar-me em direção à porta e a abri com agilidade. Voltei os olhos ao meu professor mais uma vez e sorri largamente, deixando de lado todo o pânico que sentia.

— Volto na semana que vem, Sr. Turner — falei, surpreendendo a mim mesmo, antes de fechar a porta.

Caramba, eu teria coragem de voltar depois da vergonha que passei hoje?

O primeiro pensamento foi que eu só podia ter endoidado de vez para colocar os pés ali, de novo. No entanto, não precisei raciocinar muito para responder a mim mesmo que sim, voltaria.

O motivo, porém, eu não quis questionar.

Notas finais
Tenho alguns exames pra fazer (nem comecei a estudar para o de amanhã, btw), então não sei quando posto o próximo cap, mas não demora muito.. E desculpa de novo por ter conseguido essa proeza! E comentem, please! Porque eu adoro coments e literalmente pulo de felicidade quando recebo! Sou carente de amor e carinho ahahhaha Atualizada: 07/2017.