Made of Fire

3 II - Minha única certeza é o álcool que em meu corpo age


Notas iniciais
POV de Rich. Boa leitura *-*

Eu estava analisando a mesa de sinuca e calculando meus movimentos quando a sensação de estar sendo observado me atingiu com violência. Ergui a cabeça, intrigado, deparando-me com curiosos olhos verdes estancados em mim. Ah, droga!

O rapaz de cabelos claros desordenados e feições familiares estava imóvel, os olhos vidrados em minha direção. Parecia significantemente desorientado.

Franzi o cenho, me perguntando se vesti uma roupa de palhaço sem perceber. Por que outro motivo meu aluno me olharia como se eu fosse um extraterrestre?

Ah, é claro! Sou o professor com mais probabilidade de passar o dia em casa escrevendo listas da maldade com os nomes dos alunos. Talvez, até, praticando canibalismo. Encontrar-me em um bar jogando sinuca e bebendo cerveja com mais dois seres humanos é algo muito improvável de acontecer.

No mesmo instante, William piscou algumas vezes antes de desviar o olhar para os amigos, parecendo que, apenas então, dava-se conta de que me encarava.

— Richard? — A voz risonha de meu irmão me tirou do transe. — Muito difícil, não é? Não se preocupe, todos têm a tendência de desistir quando se trata de um jogo contra mim — disse ele, claramente me provocando.

Revirei os olhos, agora percebendo que mantinha o taco na mão, ainda sem jogar. Rob segurava uma latinha de cerveja e estava escorado na mesa de jantar, com o rosto divertido. Estava usando uma camiseta azul e uma calça jeans simples.

— Todos, exceto eu — deixei claro, encaçapando a bola amarela na primeira tentativa.

Rob riu alto e puxou o taco da minha mão, ao passo que Becca bufava.

— Quero jogar também — resmungou minha irmã. — Vocês estão é com medo que eu os faça passar vergonha na frente de todos! Sabem que ninguém é melhor na sinuca que eu — completou, convencidíssima.

Estava linda com os cabelos castanhos soltos e a roupa de rockstar. Tomava um energético — que deus nos ajudasse! - e tinha os olhos cinzas cheios de determinação.

Rob se inclinou concentrado sobre a mesa, sorrindo levemente ao dizer: — Parece que o espírito competitivo dos Turner ainda corre em nosso sangue. — Então fez sua jogada, encaçapando a bola verde.

Sorri ao ver minha irmã nos lançar um olhar feio.

Robert e Rebecca são ambos meus irmãos mais novos. Aparentemente, meus pais apreciam uma boa aliteração. Ou simplesmente a letra r. Nunca perguntei.

Apesar de Rob ser apenas dois anos mais novo que eu, sua postura extrovertida e espontânea muitas vezes já o fez parecer mais velho e experiente. É mais sociável que eu e isso o ajudou muito na empresa da família. Com vinte e sete anos, Rob tem uma formação admirável e um trabalho fixo como sócio na Turner Imóveis. Apesar de haver boatos de que a empresa pratica nepotismo, Rob conseguiu o emprego com sua dedicação e habilidade. Tem o espírito aventureiro e já fez muita besteira, mas sabe ser responsável quando quer.

Olhei para meu irmão, que tinha o rosto e a postura relaxados como se estivesse na própria casa, e não em um bar. Era irônico que fôssemos tão diferentes — quase opostos — se nos parecíamos tanto fisicamente. Qualquer um poderia perceber que somos irmãos. Se Robert não fosse loiro e tivesse olhos azuis, como nossa mãe, poderíamos passar por gêmeos.

Becca se parecia muito com nossa mãe, mas herdou os mesmos cabelos castanho-escuros de meu pai e os mesmos olhos acinzentados meus. Nasceu cinco anos depois de Rob, e foi um terror para a gente. Uma menina no meio de dois garotos mais velhos? Ela queria estar sempre por perto e reclamava de tudo. Por ser a caçula, sempre conseguiu as coisas do seu jeito e sempre levava a razão nas brigas. Muito já conseguiu que brincássemos de casinha com ela, na base do choro e escândalo.

Foi criada entre garotos e tem o sangue Turner, então a competitividade foi instantaneamente adicionada à sua lista de qualidades. O que não sabíamos é que ela se transformaria nesta mulher determinada e inteligente tão rápido. Ao longo dos anos, não precisava mais dos choros ou de nossos pais para conseguir o que queria. Era na base da estratégia. Esperta pra caralho – para nosso desespero –, descobria nossas travessuras e as usava como ameaça. Becca teve suas fases de rebeldia, como todos nós, mas agora andava mais responsável. Cursava a faculdade de Design de Moda e parecia muito feliz com sua escolha. Ela sempre soube o que queria, e lutou por isso.

Nunca admitiríamos, nem Rob nem eu, mas Becca realmente sempre foi a melhor na sinuca. Sorri ao observá-la.

— Rich? — chamou-me pelo apelido ridículo. — Temo que você está sendo alvo de gargalhadas — completou ela, apontando com a cabeça para o balcão localizado na entrada do bar.

Passei a frequentar o Dan's há algumas semanas, com Jay. Aparentemente, ele é amigo do dono e até ajudou um pouco com a inauguração, na parte artística. Eu gostei do local porque é espaçoso, possui um cardápio e boas bebidas, sem falar nas mesas de sinuca. A iluminação é perfeita, vindas de um lado a outro do local, em diferentes cores. Não era muito chamativa, do tipo que deixa o pessoal tonto, mas discretamente completava o local. No fim, Dan's era um bar respeitável.

Olhei para a parte do balcão perto da entrada do bar, onde vários jovens riam de forma escandalosa e alguns destes nos encaravam descaradamente. Reconheci alguns de imediato, como Louis, o garoto ruivo com a risada característica. Ao lado deste estavam Gabriel e Jonathan, os outros amigos de William, o garoto dos olhos verdes. Este estava quieto, e desta vez concentrava sua atenção no copo que segurava, rodeando-o nos dedos.

Havia mais deles, e olhando para o lado pude ver alguns alunos mais antigos, como Adam e May. Esta foi uma aluna dedicada, e após correr atrás, passou de primeira em minha matéria. Passei a admirar isso. Depois de alguns anos, percebi que passar nas minhas matérias sem repetir uma única vez é bastante raro.

Suspirei. Não esperava encontrá-los aqui.

— São seus alunos? — perguntou Rob, surpreso.

Só então percebi que meus irmãos também prendiam a atenção na entrada do Dan's. Ora, que grande merda!

— Sim — respondi, com cansaço —, são meus alunos. E é péssimo que me vejam em um bar, devíamos ir embora — falei, olhando tentadoramente para a porta.

— ... um filho da puta para me dar aquela nota!

Tive certeza que meus irmãos também ouviram a voz feminina, quando a música vinda do palco baixou um pouco o volume. Laurel, reconheci. Fechei os olhos com frustração, ao passo que Rob soltava uma gargalhada.

— Caramba, eles não parecem gostar muito de você não, Rich — disse Becca, rindo também.

— Claro que não — respondi com uma careta. — É meu trabalho ser justo com as notas. Eles erram tudo e a nota sai ruim. Obviamente, na cabeça deles, a culpa é minha por isso.

— Nunca imaginei você como professor — disse ela, sentada na cadeira com as pernas cruzadas. — Mas se você me desse aula, provavelmente também te odiaria. Você consegue ser irritantemente exigente, Rich.

Antes que eu respondesse, Rob se pronunciou, depois de revirar os olhos.

— Isso é porque você ainda não passou da fase universitária, Becca — disse ele, depois virando para me encarar. — Acho que está fazendo um trabalho muito bom. Os piores professores são os melhores. Quando entramos na faculdade, precisamos de uma dose de realidade – completou, sorrindo.

Olhei agradecido para Robert. Era exatamente assim que eupensava.

Andei até nossa mesa para pegar mais uma latinha de cerveja, vendo que Becca deu um pulo da cadeira e pegou meu lugar no jogo. Rob a encarou indignado. Claro que ela não se aguentaria, pensei.

Sentei-me na mesa para observá-los melhor.

Minha família ficou bastante surpresa quando decidi mudar de cidade para virar professor. A princípio, meus pais até ficaram chateados com meu afastamento e minha recusa de seguir no negócio da família. Robert me apoiou sem questionar. Ele sempre entendeu minha necessidade de sair de Mallow Coast e viver minha vida como bem queria, longe de tudo. Já a Becca não falou muito, mas eu sabia que estava magoada por tê-los "abandonado". A verdade é que ela sempre teve essa necessidade de ter-nos por perto, exatamente como nossa mãe. O que me explicou, no entanto, é que era muito difícil aguentar a menopausa de mamãe sem ter os dois irmãos para ajudá-la. Dramática desde sempre.

Nossos pais comandam uma imobiliária na qual batalharam e se dedicaram a vida inteira. É admirável que tenham construído uma empresa tão grande a partir de tão pouco. Sempre quiseram que trabalhássemos lá com eles, seguindo seus passos. Por ser o mais velho, essa responsabilidade foi primeiro jogada à mim. Sem pressão, disseram eles.

Acabei cursando Contabilidade com o objetivo de assumir um cargo alto na empresa e o fiz. Por um ano.

Amo muito meus pais e sempre fui extremamente grato pela boa criação e vida maravilhosa que tive. Porém, a casa, a comida, o carro e o dinheiro do qual sempre usufruí são deles. O mérito da Turner Imóveis haver crescido e se expandido tanto pelo país também é deles.

A verdade é que sempre quis ter uma vida própria, com meu próprio dinheiro e minhas próprias coisas. Sempre quis construir minha vida e ter o mérito por isso. Não é orgulho somente. É a necessidade de ser livre, de alguma forma. Trabalhar na empresa de meus pais não me fazia sentir muito independente. Então, depois de um ano, recuei.

Apesar de ter entrado na Contabilidade para o cargo da Imobiliária, os números sempre foram minha paixão. Eu cresci dentro de empresas e admirando meus pais pelo que fazem. Administrar, gerenciar e dirigir são coisas que simplesmente vêm de forma natural pra mim.

A vaga de professor universitário há alguns quilômetros da minha cidade natal me pareceu uma oportunidade muito interessante na época. Era o que eu queria: trabalhar com o que gosto e ter um emprego fixo, longe dos meus pais. Podia visitar sempre já que Hybridfield fica próximo à minha cidade natal, e não me afastaria tanto deles. Ainda poderia tomar conta de Rob e Becca. Era perfeito!

Isto é, até eu começar a dar as aulas.

Encarei novamente meus alunos. Pareciam estar se divertindo ao conversar animadamente, rir e beber. A fase universitária é como um ritual de passagem. Apesar de ter alunos bastante inconsequentes, me sentia satisfeito por saber que estavam aproveitando ao máximo essa fase. Eu sei que eu aproveitei nesta idade. Balancei a cabeça, afastando as lembranças.

Ser professor é uma tarefa muito difícil, mesmo que não pareça. Descobri isso na prática, da pior forma possível. Já havia dado aulas em um cursinho para concurso no meu estágio, mas dar aulas em uma universidade é uma coisa completamente diferente. A maioria dos alunos recém saíram do colégio e não fazem a menor ideia do que querem. Sabem o que não querem, pelo que percebi nos últimos anos: estar ali estudando.

Depois de um semestre analisando os alunos e seus comportamentos, e de passar por alguns inconvenientes, aprendi que ser bonzinho não adiantaria porra nenhuma. Nem a eles, nem a mim. Afinal, eles nem ao menos sabiam o que estavam fazendo ali! Eu tive alunos tão ignorantes que não sei como conseguiram sequer entrar na faculdade. O jeito era deixar claro o que a universidade significa: independência.

Mudei minhas estratégias a partir de então. Dar aula é como um jogo, afinal. Não sou tão carrasco como meus alunos pensam, mas minha falta de paciência é bem real. Se estão ali para assistir aula, então o farão. Não vão mexer nos celulares, conversar ou dormir. Respeito é bom e é grátis, pensei.

Tive professores rígidos também. Os detestava, mas foram os únicos que tiraram o melhor de mim e me incentivaram a buscar a excelência. Apesar de tudo, eu queria que meus alunos tivessem um futuro brilhante pela frente. Não me importava que eles me odiassem, desde que não fracassassem em suas carreiras.

Fiquei algum tempo observando-os, perdido em pensamentos antes de desviar o olhar para meu lado. Esperei ver meus irmãos, mas tudo que vi foi a cara de quem aprontou de Rebecca. Demorei um instante para perceber o que havia acontecido. Olhei ao redor em pânico, buscando por Rob e encontrando-o próximo ao balcão de entrada, ou seja, próximo aos alunos. Mas que droga!

Dirigi um olhar irritado para Becca, que apenas encarou desdenhosa suas unhas pintadas de roxo. Voltei minha atenção novamente ao balcão. O burburinho de conversa dos alunos cessara um pouco com a proximidade de Rob e a maioria o encarava enquanto este pedia mais cervejas no bar. Virou-se para meus alunos – maldito! –, e lhes disse alguma coisa. Tentei escutar, mas a banda ridícula resolveu tocar um rock mais pesado justamente no momento.

Não sabia o que fazer. Bebi um gole de cerveja. E mais um. E mais um.

O que diabos eles estavam falando?

A troca de palavras durou cerca de segundos, mas pareceu uma eternidade. Então, vislumbrei meu irmão e boa parte dos alunos andando em nossa direção.

Virei para Becca, mas ela apenas ergueu as mãos e disse: — Não me olha assim, Rich. A ideia não foi minha!

— Muito inocente que você é, hein, Becca? As ideias sempre são suas! – reclamei, irritado.

— Richard, encontrei um grupo de pessoas que adoraria jogar uma partida com a gente! — disse meu irmão, sorridente.

Os alunos me encaravam com expectativa e ouvi uma onda de "oi, professor". Olhei feio para Rob enquanto murmurava um "boa noite" para eles.

— Seremos nós contra seus alunos. O que acha? — perguntou-me, os olhos alegres como se fosse o dia mais divertido de sua vida.

Observei-os começar a falar, todos ao mesmo tempo. Sobre o jogo, sobre Rob, sobre Becca. Lancei um olhar feio para um dos alunos quando vi o jeito que secava minha irmã com o olhar.

— Devo dizer que sempre fui muito bom na sinuca, Sr. Turner — Chris pronunciou-se. Usava uma roupa escura e tinha uma cara diabólica, como quem diz: você vai pagar por todas as vezes que me fez repetir a matéria, professor.

— Adoraria jogar, mas temo que estou com muita dor de cabeça. Podem jogar vocês, vou lá pegar mais uma cerveja pra ver se passa — falei, direto, enquanto sentia o ar à minha volta pesar.

— Mas, Rich...

Lancei um olhar tão assassino para minha irmã que ela se calou sem ao menos terminar a sentença. Voltei meus olhos aos alunos, parecendo me odiarem um pouquinho mais. Adam parecia simplesmente decepcionado.

— Estou mesmo cansado. Quem sabe outro dia, não? — Sorri para eles. May sorriu de volta.

Andei a passos largos em direção ao balcão enquanto ouvia os murmúrios de como fariam o jogo. Apesar da minha abdicação do jogo, eles pareciam bastante animados com a partida. Deviam estar querendo jogar faz um tempo, já que todas as outras mesas de sinuca estavam ocupadas.

Cheguei ao balcão, só então percebendo que ali haviam permanecido William, Jonathan e uma garota que não era minha aluna. Ao menos, não me lembrava dela. Estavam sentados nas cadeiras altas do balcão e bebiam Vodka, percebi ao ler a garrafa.

Sentei à direita de William, mantendo uma cadeira entre nós.

— Um Whisky, por favor, Dan — pedi, pensando que a cerveja não era forte o suficiente para me impedir de matar meus irmãos.

— Claro, professor — disse ele, divertido.

Dan devia ser uns dez anos mais velho que eu, e usava roupas simples. Tinha tatuagens pelos braços, um piercieng na sobrancelha e usava uma corrente com uma cruz no pescoço. Apesar de tudo, tinha um rosto amigável. Encarei-o com surpresa.

Ah, claro. Eles deviam estavam falando de mim.

Fechei rapidamente a cara, logo observando-o rir antes de me servir um copo da bebida.

— Relaxa, cara. Eles são jovens ainda — disse ele, sorrindo.

— Sim, mas muitos já são adultos. Deviam agir como tal — disse, bebendo metade do copo, enquanto Dan ia atender outro cliente.

Pude ver William me olhar de relance. Jonathan estava abraçado à garota desconhecida – devia ser sua namorada – e conversava abertamente com ela. Will encarava o copo à sua frente.

— Talvez você pudesse ser mais razoável nas aulas... professor — disse ele, girando o copo com os dedos. Me surpreendi ao perceber que falava comigo.

William não chamava muita atenção nas aulas. Boa parte do tempo, parecia distraído com os próprios pensamentos. Até a aula passada.

Às vezes, alguns alunos conseguem passar do limite. Infelizmente, paciência não foi uma característica que deus achou importante que eu tivesse. Pude ver que Louis havia falado alguma coisa claramente engraçada durante a conversa cochichada deles, porque William se esforçou bastante para controlar a risada. No entanto, não foi sua risada que me incomodara, mas a forma como me afrontara. Havia um certo desafio nos olhos verdes enquanto me respondia com ironia. Ainda bem que o bom senso o atingiu, porque não sei o que teria feito com o garoto se continuasse com aquilo.

— Alguns alunos, por mais esforçados que sejam, têm certa dificuldade em aprender — continuou ele, os olhos em seu copo. — Seria muito bom um pouco de razoabilidade neste caso, Sr... Turner.

Encarou-me, então, com os olhos brilhantes. Não parecia estar bêbado, mas certamente já estava um pouco alterado. A dose de coragem já o havia atingido, percebi.

— Certamente — concordei. — Mas razoabilidade, assim como a confiança, é algo que se conquista, William — completei, pedindo mais um copo.

Obviamente já havia pensado nisto, não sou um ogro. Muitos alunos têm dificuldade em aprender. Acontece que, eu fico no plantão da disciplina durante cinco horas por dia e nem uma única alma estudantil aparece lá para pedir explicações da matéria. Posso contar nos dedos os que apareceram e o número de vezes em que apareceram. Eram sempre os mesmos, e nunca os que realmente têm dificuldade. Razoabilidade, neste caso, é muito relativa.

— Will — corrigiu ele, sem mais nada dizer. Parecia refletir à respeito.

Bom, pensei, desviando o olhar.

Ele ficou me olhando de lado durante alguns segundos, o suficiente para me deixar desconfortável. Então virou completamente o corpo em minha direção e inclinou a cabeça um pouco para o lado esquerdo, como se me analisasse. Tinha o braço esquerdo apoiado no balcão e segurava o copo com a mão direita. Estava usando uma camisa social verde que fazia a cor de seus olhos ainda mais intensas.

— Não sabia que tinha irmãos, Sr. Turner — disse ele, com a expressão divertida. Encarei-o sem piscar, perturbado com a súbita mudança de assunto.

Não é como se fôssemos amigos à longa data e eu tivesse esquecido de contar uma parte importante da minha vida. Não soube o que responder.

— Parecem-se muito com o senhor — continuou, sorrindo.

Virei para a direita, deparando-me com meus irmãos rindo e se divertindo junto aos alunos. Estes também pareciam estar gostando da partida, trocando de lugar a cada jogada.

— Sim — respondi simplesmente, com o que espero que tenha sido um sorriso e não uma careta.

— Irmãos caçulas têm a tendência de aprontar com os mais velhos — disse ele com sabedoria, observando minha reação.

Fiz uma careta e esperei que meu gemido soasse como uma afirmação. Estava tão óbvio que a partida de sinuca era contra minha vontade?

— Sempre quis dar aulas de Administração Financeira? — perguntou, os olhos grandes concentrados em mim.

Aquilo me pegou desprevenido.

— Não precisa puxar assunto só porque estamos lado a lado, William — respondi, desconcertado.

Por que diabos ele estava conversando comigo e fazendo perguntas pessoais?

— Will — corrigiu novamente, com certa irritação.

Fez-se silêncio por um instante, e pedi mais um copo. Por estar acostumado à bebida, o álcool demorava um pouco mais de tempo para fazer efeito em meu organismo.

Voltei a atenção ao meu aluno, que agora virava o copo de Vodka inteiro enquanto chamava Dan para pedir mais uma garrafa. Parecia levemente impaciente. Ao seu lado, Jonathan e a garota se beijavam. Instantaneamente entendi por que ele conversava comigo. Revirei os olhos.

— Ora, William, por que não vai jogar sinuca com seus colegas e meus irmãos, se está tão entediado?

Piscou lentamente, com uma careta. Sua desorientação parecia vir do álcool. Achei que fosse corrigir seu nome novamente, porém ele me olhou e piscou mais algumas vezes antes de responder simplesmente: — Não sei jogar.

Então por que não ia embora?

— Vim de carona com o Gabe, e moro longe demais para pagar um táxi — disse ele, os olhos desfocados, como se lesse meus pensamentos.

Ponderei por alguns instantes, sentindo-me inclinado a ceder por compadecimento. Depois de um tempo em silêncio, limpei a garganta algumas vezes antes de voltar a falar.

— Só pensei em dar aulas depois que vi a vaga de professor universitário aberta — respondi tardiamente à sua pergunta —, mas era uma boa oportunidade e... — Tomei mais um gole da bebida. — Não a deixei passar.

Ele ergueu a cabeça, parecendo interessado novamente. Nunca me senti tão analisado e observado antes, como um animal no zoológico, tamanha a curiosidade nos olhos alargados.

— E gosta? — perguntou. — Porque, sinceramente, Sr. Turner, o senhor não parece gostar muito — concluiu, rindo descontraidamente.

Ergui as sobrancelhas com a ousadia do garoto. Este parou rapidamente ao ver que eu não ria também e limpou a garganta, parecendo prestes a pedir desculpas.

— Eu gosto, na verdade — respondi antes que ele abrisse a boca. — Sei que não parece, mas gosto — concluí, com sinceridade.

William piscou algumas vezes, parecendo surpreso. Tinha as bochechas um pouco vermelhas, provavelmente devido à bebida.

— É mesmo? — perguntou em um murmúrio.

Assenti, de certa forma, descomposto. Já me sentia meio embriagado, e não tinha certeza que era devido ao álcool.

— Administração é uma das únicas certezas que tenho na vida — completei, sorrindo.

Seus olhos perderam o foco por alguns instantes antes de voltá-los à mim como se pudesse ver minha alma. Então sorriu também.

— É uma das únicas certezas que tenho também.

Enquanto o sorriso preguiçoso de Will se alargava cada vez mais, seu rosto inteiro pareceu relaxar. Estava iluminado não só pelas luzes verdes e vermelhas do bar, como por sua beleza genuína. William era um rapaz bonito, percebi estranhamente. Tinha os dentes bem alinhados e a boca estava úmida por causa da bebida. Os cabelos irritantemente desgrenhados pareciam loiros com iluminação do local e os olhos verdes brilhavam tanto que cheguei a ficar tonto.

Estranho.

Desviei o olhar ao perceber que estávamos nos encarando por mais tempo que a boa educação permitia. Will tossiu desajeitadamente, e eu me virei para beber o último gole do copo. Encarei Will novamente, com curiosidade, a tempo de vê-lo recuperar-se do rubor que tomou conta de todo o seu rosto.

Céus, isso realmente era embaraçoso!

— Will! — Laurel chamou, alcançando o balcão com um sorriso no rosto. — Ganhamos duas partidas! — disse ela, abraçando-o com descontração. Ao dar-se conta da minha presença, no entanto, seu sorriso sumiu.

— Boa noite, professor — disse ela, com desdém.

— Boa noite, Srta. Bennet — falei, com educação.

Deixei algumas notas no balcão antes de pôr-me em pé. Virei em direção à parte de trás do bar, de onde tanto meus alunos quanto meus irmãos vinham dispersos, conversando alegremente.

— Perdeu uma partida e tanto, Rich — disse Becca, passando seu braço ao redor de meus quadris ao olhar-me com reprovação. Estava zangada por eu dar no pé na hora da execução de sua ideia idiota.

— Creio que está na hora de irmos, entretanto — disse Rob, olhando para o pessoal que pedia mais bebidas, enquanto alguns se separavam para ir ao banheiro. — Amanhã, apesar de ser sábado, tenho que trabalhar!

— Tudo bem. — Adam falou ao dar de ombros. — Podemos combinar outro dia de jogarmos novamente, Rob — disse ele, como se conhecesse meu irmão a vida inteira —, e dessa vez, talvez o Sr. Turner esteja disposto a participar também.

— Claro — menti com um sorriso, reprimindo a vontade de correr porta afora.

A voz de Will chamou-me a atenção, enquanto este olhava para Jonathan: — ... ficaram se pegando o tempo inteiro — contou a Laurel, irritado.

Desviou, então, os olhos esbugalhados em minha direção, ainda com o rosto corado. Já não soube dizer se pela bebida, ou pelo constrangimento. Piscou algumas vezes e sorriu levemente para mim antes de voltar o olhar aos amigos, desorientado. Assim como eu.

O que diabos havia acontecido?

Nos despedimos com rapidez, e acenei para Dan. Meus irmãos dormiriam em meu apartamento para, no dia seguinte, partirmos os três para a nossa cidade natal. Ficava apenas há três horas de distância de Hybridfield, mas seria irresponsabilidade nossa irmos depois de termos bebido tanto. Já era hora de eu visitar meus pais, antes que eles mesmos viessem até aqui passar sermão por eu ficar tanto tempo longe.

Enquanto nos dirigíamos à saída, ouvi meus irmãos tentarem explicar a ideia genial de confraternizar com meus alunos, no meio de álcool e tabaco, em um bar. Becca riu divertida, afirmando gostar de meu emprego agora que conhecia uma parte dele. Revirei os olhos. Se eu houvesse passado a imagem errada, afinal, podia acabar sendo até mesmo demitido. Preparei-me mentalmente para xingar eles durante todo o caminho até meu apartamento.

Cruzei a porta do Dan's, sem olhar para trás nem uma única vez.

Notas finais
Jay irá aparecer mais nos próximos capítulos! Atualizada: 07/2017.