Made Of Stone REIMAGINED
3 Entre o Prazer e a Maldição
E dias se passam, Hermione estremece se sentindo uma covarde. O vento assobiava lá fora, empurrando a lona da barraca como dedos invisíveis tentando rasgar o tecido da realidade. Hermione estava sentada no mesmo canto de sempre, as pernas cruzadas, olhando fixamente para o mapa que pulsava em dourado sobre seu colo. A chave para a Sala Sem Nome repousava ao lado, silenciosa, como um convite que ela se recusava a aceitar.
Fazia semanas. Semanas com aquele segredo queimando sob sua pele, pulsando no fundo da mente como um segundo coração. Ela não conseguia, não podia. Pelo menos não ainda, não enquanto Harry e Rony estavam sendo lentamente destruídos pela influência da Horcrux.
E como se o universo decidisse que já era o suficiente, veio o estopim.
— Sabe o que é, Harry? Eu cansei! — A voz de Rony explodiu, tão alta e carregada de rancor que a lona da barraca pareceu vibrar. — Cansei de fingir que a gente sabe o que tá fazendo! De fingir que você tem algum plano, que a gente tá chegando em algum lugar, quando na verdade não temos nada! Nada, Harry!
Hermione se levantou num salto, jogando o mapa de lado. O coração batia descompassado, a boca seca.
Quando saiu da barraca, encontrou a cena que temia. Harry estava imóvel, olhos arregalados, encarando Rony como se não reconhecesse mais quem estava na frente dele. E Rony... Rony parecia um animal acuado, olhos vermelhos, mandíbula trincada, os punhos cerrados.
— Rony, para com isso — tentou, a voz embargada. — Isso é a Horcrux, ela está te afetando, esse não é você.
Ele a olhou com ódio, a Horcruxes tremulando em seu pescoço como se zombasse dela.
— Não, Hermione. Isso sou eu — respondeu, cortante. — E sabe do que mais? Eu estou cansado de ser só... só... o resto. O coadjuvante da vida de Harry Potter. E... — ele respirou fundo, como se fosse cuspir um segredo sufocado há anos —... de ser só seu amigo. Porque para você, é só isso, não é?
O mundo pareceu parar.
Harry congelou. Hermione congelou. Até o vento pareceu prender a respiração.
— O quê? — A palavra escapou, trêmula, mais um soluço do que uma pergunta.
— É isso mesmo que você ouviu — Rony disparou, o rosto vermelho, os olhos brilhando de vergonha, raiva e... mágoa. — Você nem percebe, né? Nem percebe que... que eu... — A voz falhou, e ele chutou uma pedra como se isso pudesse desenterrar as palavras que não saíam. — Esquece.
Ele arrancou o medalhão do pescoço com tanta força que o cordão arrebentou, e lançou-o no chão. O objeto girou, batendo contra uma pedra antes de parar, pulsando, vivo, maligno.
— Fiquem aí, você dois, se protegendo e fazendo de conta que sabem o que estão fazendo. Cuidando um do outro e fingindo, eu estou fora.
—Ron...ESPERA! — Gritou Harry, mas já era tarde demais. Com um estalo seco, o ruivo desapareceu.
O silêncio que ficou foi tão ensurdecedor que parecia ter som próprio.
Hermione ficou ali, olhando pro nada, os olhos ardendo, a respiração presa no peito. O choque era tão grande que sua mente parecia incapaz de formar qualquer pensamento coerente.
Ele... Ele gostava dela? Daquele jeito?
Ela levou as mãos ao rosto, apertando as têmporas, tudo girava.
Sempre achou que aquilo fosse...super estimado. Algo que todo mundo parecia gostar em exagero. Paixões súbitas, beijos roubados, amassos em corredores escuros, ou suspiros escondidos atrás de livros. Até mesmo os flertes toscos durante o jantar, tudo parecia fazer parte de uma coreografia invisível da qual ela nunca aprendeu os passos. E por um longo tempo ela nem queria, nem via sentido.
Muitas vezes fazia passadas pesadas nos corredores para anunciar sua chegada dando tempo para os infratores, fingindo que não ouvia os gemidos abafados atrás de tapeçarias ou no fundo de uma sala esquecida, quando patrulhava o castelo como monitora. Diabos! Todos pareciam coelhos.
Todo mundo, desde sempre, descobrindo paixões, namorando, ou pelo menos se pegando. E ela? Só observava. Não vendo muito sentido em trocar fluidos pessoais com alguém sem saber se o mesmo escovava os dentes.
Realmente ela nunca sentiu aquele clique. Aquela urgência que parecia reger o mundo. Nem mesmo, nunca precisou da presença de outra pessoa pra sentir prazer. Era prática. Era lógica. E, de certa forma... fria. Não porque fosse incapaz de amar, mas porque, honestamente, nunca entendeu por que o mundo inteiro parecia girar em torno daquilo.
Desde que sua prima Candace começou a namorar, sua mãe, num misto de pânico e zelo, fez questão de ter aquela conversa. Sexo seguro, consentimento, riscos, precauções. Camisinhas, gravidez, doenças. E ela ouviu tudo com atenção, como sempre fazia, mas por dentro só pensava:
"Pra quê tudo isso?"
Se eu quisesse, ela refletia agora, com uma ponta de amargura, bastava fechar a porta do meu quarto e brincar com minhas mãos. Rápido, prático, sem constrangimento. Sem precisar negociar silêncios, expectativas, toques errados. Sem lidar com a respiração de outra pessoa, com olhares tortos, com a pressão de ter que querer algo que nunca fez sentido pra ela.
Na realidade ela nunca entendeu a mística toda, a fascinação, como se fosse transcendental. Como se o mundo girasse ao redor de orgasmos. Para Hermione, sexo parecia só... supervalorizado.
"Talvez eu só não tenha experimentado."
Mas o mais honesto seria admitir: talvez ela fosse apenas diferente. E tudo bem. Ou pelo menos, pensou assim por um bom tempo.
Até que chegou à idade em que os hormônios gritavam mais alto e com eles, uma espécie de curiosidade metódica. Não era um desejo urgente. Era quase... científico. Um experimento. Ela começou a considerar encontrar um candidato. Não por carência. Por lógica. Se todos falavam tão bem desse prazer, talvez valesse testar.
Por conveniência e uma dose de carinho acumulado, Viktor Krumm se tornou esse nome. Haviam mantido contato após o Torneio Tribruxo. Cartas ocasionais viraram frequência. Ele era gentil, carinhoso, até respeitoso. Um pouco bruto, sim, mas havia nele um certo cuidado que ela apreciava.
E, como se fosse um cálculo, ela ponderou: ele a respeitava. Era atraente. E parecia querer conhecê-la. Compatível.
Quando ele voltou à Inglaterra em uma visita breve, marcaram de se encontrar. Ela contou à mãe, afinal, no mundo bruxo já era maior de idade, mas na casa dos pais, seguia o senso de responsabilidade.
— Se eu moro sob o teto deles, dou satisfação — murmurou, arrumando o cabelo diante do espelho.
A mãe a encheu de conselhos e boa sorte.
O encontro foi simples: uma caminhada nos arredores de Hogsmeade, perto de um lago. E, por uma rara ousadia, foi Hermione quem o beijou primeiro. Ele retribuiu. E, por alguns minutos, ela tentou acreditar que estava tudo certo. Que agora sim aquilo faria sentido. Que os livros estavam certos, que finalmente seria como as cochichadas das colegas no dormitório.
Os beijos continuaram, mais intensos, as mãos bobas, estava gostoso, mas não tudo aquilo! Ela continuou se dedicando, pensando que talvez, depois, no momento do ato, tudo encaixasse. Que a conexão surgisse.
Quando ele sugeriu irem para um lugar mais privado, ela hesitou, mas assentiu. Ela tinha deixado claro que era virgem, mas que gostaria de tentar. Estava mais que disposta.
Antes, porém, ele disse que precisava avisar o amigo com quem viera. Hermione foi com ele até o Caldeirão Furado e, enquanto esperava, decidiu comprar uma bebida. Algo forte, só para ajudar a conter o nervosismo.
Foi quando ouviu.
Uma conversa abafada atrás de uma mesa, em búlgaro, idioma que Viktor fizera questão de ensiná-la, palavra por palavra, como se quisesse incluí-la em seu mundo.
— Ela é linda, inteligente e gostosa — disse ele, rindo. — Mas estranha — completou. — Não sei... parece que não está ali. Sempre pensando em outra coisa. Como se beijar fosse tarefa de casa...mas eu gost...
O amigo gargalhou. A porta rangeu. Silêncio.
Hermione congelou. A caneca tremeu nas mãos. Uma sensação viscosa subiu pela garganta. Como se estivesse prestes a vomitar algo que nunca engoliu direito.
"Gostosa, mas estranha."
Ela deixou a caneca cair no chão e saiu.
—Hermione espera... Não é isso que você entendeu!
Passos rápidos, o coração acelerado. Viktor tentou alcançá-la, confuso, chamando seu nome. Quando tentou segurar seu braço, ela se virou e o socou. Um golpe seco, uma mistura de raiva, humilhação e vergonha.
Ele pediu desculpas, tentou se explicar o resto do verão. Mandou cartas, mensagens, flores que ela nunca abriu.
Até que ele entendeu. E parou.
Depois disso, tudo mudou. As expectativas. As tentativas. Os olhares que ela começou a evitar. Como se o mundo estivesse dançando em outro compasso, e ela fosse sempre o erro no ritmo.
E toda vez que cogitava tentar de novo, se permitir de novo, aquela lembrança voltava.
"Gostosa, mas estranha."
Como se seu corpo fosse um presente bonito, mas com o conteúdo trocado.
Desde então, preferia a lógica. O controle e a segurança de estar só.
Se quisesse, bastava fechar a porta do quarto, desaparecer sob as cobertas e pronto. Rápido, silencioso e sem julgamento.
Sem precisar lembrar que, mesmo quando era desejada... nunca foi suficiente.
E agora… aquilo. A bomba de Rony, jogada sobre ela como se fosse óbvio. Como se ela soubesse o que fazer com esse tipo de sentimento.
Quando percebeu, lágrimas já escorriam silenciosas.
Harry, também em choque, se moveu. Caminhou até ela, devagar. E, num gesto que parecia absurdo, improvável, mas absolutamente certo, estendeu a mão.
— Quer... dançar?
Ela piscou, surpresa, a boca se abrindo num riso nervoso, uma mistura de incredulidade, dor e exaustão.
— Dançar?
— É... — Ele sorriu, meio sem graça, meio triste. — Só... por um minuto. Esquecer que o mundo está desabando.
E ela aceitou. Porque era isso ou cair no abismo.
Os dois se balançaram ao som da música chiada do velho rádio trouxa que o senhor Weasley cedeu, uma melodia cafona, lenta, os pés se arrastando desajeitados no tapete. E, por um instante, riram. Riram de dor, de cansaço, de desespero, da própria tragédia de estarem ali naquele inferno de missão. Riram porque era a única coisa que ainda podiam fazer que não doía.
Quando a música terminou, Hermione soltou as mãos dele e, ao olhar para o chão, viu o medalhão. Odiava aquele objeto. Odiava o que ele fazia com eles. O que ele provocava.
Sem pensar muito, pegou o medalhão e, com raiva, prendeu no próprio pescoço.
— Hoje eu fico com ele. Você já está mal o bastante.
Harry apenas assentiu, aliviado por não ter que usar aquela coisa.
Ela se sentou novamente, abraçando os joelhos. A garganta apertada. As palavras começaram a escorrer, sem filtro, sem freio.
— Harry... eu nunca... nunca vi o Rony assim. E... eu nunca pensei que... que ele... que ele pudesse gostar de mim. Desse jeito.
Harry respirou fundo e sentou ao lado dela.
— Eu também não, juro, Hermione. Nunca percebi nada. Achei que éramos só... nós três. Amigos, sempre foi isso.
Ela balançou a cabeça, encarando o chão, a voz saindo quase num sussurro:
— Eu... — Ela hesitou, cruzando os braços com força sobre o peito. — Harry, eu acho que... talvez eu simplesmente não seja como todo mundo.
Ele a olhou de lado, os olhos suaves.
— Como assim?
Hermione mordeu o lábio, as bochechas ardendo de vergonha. Falar daquilo com Harry, um garoto, era... insuportavelmente constrangedor, mas, de algum modo, era também necessário, afinal ela não tinha visto uma garota á meses. Apenas focada na missão. Não tinha com quem conversar.
— Eu nunca senti aquilo, Harry. Nunca. Com ninguém real. Só... comigo mesma. E mesmo assim, só às vezes. Não é como as pessoas descrevem. Essa coisa de desejar alguém, de precisar do toque de outra pessoa eu não entendo. Não sinto isso.
Ela fez uma pausa, o rosto escondido nas mãos.
— Eu tentei. De verdade. Nas férias fui a um encontro com o Krumm, beijei ele, rolou uns amassos, mas foi só desconfortável. Quase mecânico, eu achei que estava fazendo certo, sentindo certo até que...bem não rolou...
Ela riu, sem humor.
— Aí, um dia em uma brincadeira trouxa uma garota amiga da minha prima tentou me beijar. Achei que talvez fosse isso que talvez eu gostasse de garotas. Mas, Harry... — ela olhou para ele, os olhos marejados, mas com um brilho irônico — ela quase me afogou com a língua. E pior: eu percebi que também não era isso. Eu não sinto aquilo, nem por homens e nem por mulheres. E pelo visto por ninguém.
Ele continuou ouvindo em silêncio. E Hermione continuou, baixinho:
—Só acho que não vale a pena essa coisa toda de se doar para uma pessoa e trocar fluidos.
Harry ficou em silêncio por um momento. Então, pigarreou e perguntou, sem jeito:
— Então você... ainda é virgem?
Hermione arregalou os olhos, surpresa. Depois assentiu, vermelha até a raiz do cabelo.
— É. E sinceramente? Nem sei se quero deixar de ser um dia.
Harry abriu a boca, claramente sem saber o que dizer, e ela lançou um olhar torto, com um sorriso cansado.
— E você? A ruivinha Weasley já te arrastou para o matagal?
Harry corou violentamente. E depois soltou uma risadinha nervosa, esfregando a nuca, o rosto visivelmente corado.
— Hermione... não tem nada de errado com você. Nada. — A voz dele era baixa, mas firme como pedra. — Você é a pessoa mais incrível, mais brilhante, mais corajosa que eu conheço. E ser virgem? Não te faz menos. Nem esquisita. Só te faz... você.
Ele sorriu de canto, deixando o ar ficar mais leve.
— Na verdade, eu é que devia ter vergonha. — Fez uma careta exagerada. — E não, ninguém me arrastou pro mato, se é isso que você quer saber.
Fez uma pausa dramática e murmurou, quase teatral:
— Eu fui por vontade própria. Um pequeno demônio me seduziu.
Hermione riu, de verdade dessa vez. Aquele tipo de riso que vem com o alívio, como uma válvula de escape. O olhar dela encontrou o dele e por um momento ela sentiu-se inteira, vista e acolhida.
Bem que ela ouvira Ginny no dia anterior ao casamento de Gui e Fleur, num sussurro entusiasmado com Luna:
"Eu vou seduzir o Harry hoje. Não vou perder o amor da minha vida por causa da covardia dele. Ele só precisa de um empurrãozinho. O problema é que ele é tímido demais."
— Obrigada pela conversa, pela brincadeira — sussurrou. — Eu acho que... precisava desse tempo.
Harry sorriu de leve, apertando um pouco mais sua mão.
— E se algum dia alguém te fizer duvidar que você é especial por favor me avisa. Eu darei um jeito neles.
Ela ergueu o rosto devagar, mordendo o lábio para conter as lágrimas que ameaçavam cair de novo. Aquelas palavras ditas assim, sem julgamento, sem pena eram como um cobertor quente depois de um dia inteiro na tempestade.
Hermione soltou um riso abafado, limpando o rosto com as costas da mão.
— Obrigada, Harry. De verdade. Você não tem ideia do quanto isso... ajuda.
— Sempre. — Ele deu de ombros, como se fosse óbvio. — A gente tá junto nisso. Até o fim.
Ela respirou fundo, sentindo, pela primeira vez em dias, o peso dentro do peito ceder só um pouco. Levantou-se devagar, esticando os braços como se, de repente, lembrasse do próprio corpo.
— Vou tomar um banho. Tentar dormir. Amanhã...
— ...a gente pensa no que fazer — ele completou com um sorriso cúmplice.
Ela assentiu, já virando em direção à área dos fundos da barraca, onde a pequena pia e o chuveiro improvisado se escondiam atrás de uma cortina encantada.
— Boa noite, Harry.
— Boa noite, Hermione.
E ela foi, sem olhar para trás. Mas, por dentro, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se... menos sozinha.
Horas mais tarde...
O mundo estava escuro e silencioso.
Hermione não sabia dizer se estava acordada, dormindo ou perdida em algum lugar entre os dois. Sentia-se suspensa, leve como ar, mas contida dentro do próprio corpo, como se estivesse presa sob a própria pele, imóvel, vulnerável, à mercê de algo que não compreendia.
O prazer a envolvia em ondas ritmadas, subindo pela espinha como fogo líquido, queimando da raiz dos cabelos até os dedos dos pés. Sua pele parecia viva, pulsante, e sua intimidade latejava, molhada, sensível a toques que não vinham de lugar nenhum e, ainda assim, a deliciavam por inteiro.
Ela gemeu. Um som baixo, abafado, arrancado da garganta como se confessasse um pecado. Um toque fantasmagórico acariciava seu clitóris com lentidão quase cruel, como se saboreasse cada detalhe da sua reação, a maciez da pele, a forma como ela arqueava os quadris, o calor crescente que se acumulava entre as pernas.
“Merda…”, pensou. “Se o sexo for assim, agora eu entendo a loucura coletiva.”
Enquanto o prazer a consumia, outra mão com dedos longos, esbeltos, habilidosos apertou seus seios com firmeza, como se percebesse sua distração. Ela mordeu os lábios para conter o grito que subia, as costas se curvando numa entrega inconsciente. Mãos fantasmagóricas que só existiam em sua cabeça.
Foi então que ela o viu.
No limiar do devaneio, a imagem dele começou a tomar forma. Primeiro os olhos claros, inteligentes, com um brilho cortante como gelo derretendo sob a luz. Olhos verdes frios. Depois, os traços: a mandíbula bem desenhada, os lábios finos e levemente curvados num sorriso provocador, e o olhar... como se ele a conhecesse profundamente, e gostasse do que via.
Ele era lindo. Jovem. Talvez com pouco mais de vinte anos. Alto, elegante, o tipo que despertaria olhares em qualquer lugar, mas que parecia feito sob medida para os desejos que ela nunca ousara verbalizar. Lembrava um modelo inglês que sua mão era fã, mas mais novo, menos polido, com uma centelha de algo perigoso nos cantos da boca.
— Olha só você... — ele disse, com voz grave e arrastada, como um veludo que acariciava seus ouvidos. — Tão brilhante. Tão poderosa. E ainda assim, ninguém parece enxergar a mulher que você é.
Ela estremeceu.
— Eles te subestimam, não é? — ele continuou aproximando-se, seus dedos fantasmas explorando o corpo dela. — Acham que você é só uma ratinha de biblioteca, a sabe tudo irritante...
Hermione arfou, quando sentiu o corpo dele se encaixando no meio das pernas dela, os olhos pesados de prazer e incredulidade. Estava sonhando. Sabia que estava sonhando. E mesmo assim... aquilo parecia real demais para ser ignorado.
O corpo dele se encaixou no dela, pressionando sua abertura sensível com uma intimidade ardente, e ela deixou a cabeça cair para trás, quando uma sensação de esticamento em seus músculos, um membro grosso parecia entrar com dificuldade, os cabelos colando na nuca úmida dela. Uma queimação sutil e depois prazer, mas ela sabia que não podia ser possível. Não era real. Ele não existia, era apenas um espectro.
Porém, ela estava completamente entregue.
— Mas você é linda — ele sussurrou se mexendo pela primeira vez de forma longa e intensa — Forte, viva...tão poderosa!
Cada palavra era um toque, um beijo, um afago. Cada sílaba acendia algo dentro dela que ficara tempo demais adormecido.
Estocadas profundas e ritmadas provocavam seu interior, mexendo com suas terminações nervosas. Seu clitóris latejava sob as carícias invisíveis, os seios sensíveis ardiam em êxtase, o corpo inteiro se curvava para um ápice que vinha como uma maré incontrolável.
E então, ela explodiu.
Foi como atravessar um véu de luz. Um orgasmo avassalador a rasgou por dentro, levando sua mente, sua alma e todo o resto consigo. Ela gritou ou pensou que gritou, mas o som sumiu no vácuo do sonho. Tremores atravessaram seu corpo, a respiração descompassada, os músculos tensos em um espasmo de prazer absoluto.
— Sabe, Hermione... — A voz dele era uma carícia, um sopro quente sem o calor devidamente real de um ser humano contra a pele arrepiada. — Você é diferente. Única. Sempre soube, não? Sempre sentiu que não se encaixava nesse joguinho patético de desejos mundanos...
O som dele era suave demais. Intenso demais. Como se fosse tecido com veneno e seda. E por um instante, ela se lembrou... do medalhão. Da Horcruxes.
Pesada. queimando contra seu peito, mesmo ali, mesmo no sonho. Como se fosse real.
Como se... ainda estivesse com ela.
Ela franziu levemente o cenho. O medalhão não devia estar ali. Era apenas um sonho, não era? Mas então... por que o medalhão parecia pulsar no pescoço dela, latejando junto ao seu coração como uma segunda batida, mais escura, mais profunda?
A pele embaixo parecia ferver.
E quando o homem se inclinou novamente, os dedos deslizando pelo colo dela, contornando os seios com uma reverência quase sádica provocando sem tocar de verdade, brincando com a fronteira entre o suportável e o insuportável. Hermione sentiu o corpo se acender mais uma vez, contra a própria vontade.
— Mas não é porque você não sente, Hermione... — ele sussurrou, os lábios quase roçando o canto da boca dela — ...é porque nunca ninguém foi... suficiente. Nunca ninguém esteve à sua altura, nunca ninguém... te viu de verdade.
O polegar fantasmagórico roçou o centro do mamilo, e o choque percorreu sua espinha com a força de um feitiço não verbalizado. Um gemido escapou de sua garganta, trêmulo e revoltado. O corpo arqueou em resposta, como se clamasse por mais. Por tudo.
Ela quis gritar, quis negar, quis odiar-se por permitir aquilo. Mas o que sentia ali... era real. A pele queimava, o ventre contraía com vida própria, o centro do seu ser vibrava num compasso que ela nunca conhecera antes. Era como descobrir que havia mais de si mesma do que ousava supor. E isso a apavorava, mas também...Parte dela queria ver até onde aquilo podia ir.
"Isso não sou eu. Isso não sou eu. Isso não pode ser eu."
Mas era, era ela. Era uma descoberta crua, desconfortável, violenta de um lado escondido... um lado talvez jamais tocado. Um lado que se contorcia, agora, à flor da pele. E no fundo do peito, o medalhão queimavam pulsando e vibrando com algo que parecia rir de sua hesitação.
Não era só um sonho, ela sentia isso agora. Sentia com uma clareza aterradora. Esse sonho tinha cheiro de magia e de algo mais, algo escuro. Como se o próprio medalhão houvesse escorregado para dentro de sua mente e encarnado um desejo que não era inteiramente seu... mas que também não era totalmente estranho.
E ele o homem de olhos hipnóticos e sorriso afiado percebeu.
O sorriso dele se alargou, predador, como se dissesse: Agora você sabe.
— Vê? —Tom Riddle ronronou, arrastando a mão translúcida e agora esverdeada pela cintura dela, apertando com força, como quem marca território. — Você não é feita de pedra, Hermione. Só nunca encontrou... alguém que soubesse como acender você.
O toque voltou ao seio agora mais ousado, mais íntimo, apertando, beliscando de leve. E o corpo dela cedeu num espasmo de prazer tão brutal quanto humilhante.
— N-não... — ela gemeu, num fio de voz, incerta se falava com ele ou com a própria consciência.
— Ah, mas sim... — ele murmurou ao pé do ouvido, deslizando a boca quente pelo pescoço dela, mordendo de leve, os dentes arranhando como aviso. Ela sabia que ele não era físico, mas as sensações eram tudo, menos irreal— Você sente. Você quer. E isso, minha cara, é o que torna tudo isso delicioso.
Foi então que houve um estalo. Não dele, dela, da raiva, do terror, da vergonha. E, mais fundo ainda, da verdade suja, crua e latejante. Sim, o corpo dela sentia, mas não era por ele, nunca seria por ele.
Os dedos começaram a se mover. Primeiros trêmulos, depois certeiros.
A mão encontrou a varinha e a percepção dela se abriu. Não havia mais neblina, nem doçura no desejo. Apena fúria.
— Chega. — A palavra saiu rasgada.
O sorriso dele vacilou por um segundo e depois... rachou.
A perfeição do rosto tremeu, as linhas suaves se desfizeram como tinta escorrendo. Rachaduras negras cortaram a pele, como vidro trincando por dentro. Dos olhos, o vermelho emergiu. O nariz se retraiu em fendas. O rosto perdeu a humanidade.
Voldemort.
A forma verdadeira. O monstro por trás da máscara.
— É isso que você é — cuspiu Hermione, os dentes cerrados, a varinha firme. — Atrás de toda essa lábia... dessa ilusão... você é só isso. Um pedaço quebrado. Um erro mal costurado.
Ele rosnou, as sombras ao redor se agitaram e as paredes da barraca estremeceram como se a realidade vacilasse.
— Você vai se arrepender, garota... — a voz agora era um chiado grave, serpentino, escorrendo ódio.
Ela apertou o medalhão com uma mão, sentindo o calor dele como ferro em brasa e a varinha com a outra.
— Nunca. — E sorriu. — Porque agora eu sei quem eu sou. E você... — seu olhar faiscou — ...é apenas um eco.
O feitiço explodiu da ponta da varinha, branco, violento, como um raio atravessando o mundo dos sonhos.
A forma dele se desfez em mil fragmentos escuros, como vidro negro estilhaçado. O grito que reverberou foi agudo, disforme, horrível.
E então... o silêncio.
Hermione caiu de joelhos, tremendo e ofegando. O corpo ainda vibrava com os resquícios do calor, do toque, do prazer corrompido. Cada poro parecia gritar, cada músculo clamava por alívio, por descanso, por esquecimento.
Ela arrancou o medalhão do pescoço como se fosse uma criatura viva. Atirou-o longe, com nojo. Como quem arranca de si uma parte que não sabe se quer enterrar... ou compreender.
O peito subia e descia, descompassado. As pernas, frágeis, não obedeciam.
E no meio do torpor, do suor, das lágrimas e do desejo... uma constatação surgiu, insidiosa, honesta:
“Talvez... talvez eu não seja tão alheia ao sexo quanto pensei”
Não era que ela não sentia, era que nunca ninguém foi suficiente.
Nunca ninguém tocou a mulher nela. Nunca ninguém ousou.
E, tragicamente, quem fez isso, quem rasgou o véu, foi um pedaço corrompido de alma.
— Maldito... — ela rosnou, levando as mãos ao rosto, o coração aos pulos, entre o choro, o suor e um desejo que não sabia mais onde guardar. — Maldito... maldito...
Fale com o autor