Made Of Stone REIMAGINED
4 As Correntes Invisíveis
Rony tinha ido embora. Fazia tempo, tempo demais.
Hermione se levantou devagar, os ossos pesados como se cada articulação fosse feita de chumbo, e atravessou o espaço abafado da barraca até onde Harry estava sentado a cabeça levemente pendida, os ombros afundados em si, o olhar perdido num ponto além, como se esperasse que alguma coisa surgisse do nada e salvasse todos eles de um fim que se aproximava devagar. Ele parecia menor do que era realmente, encolhido dentro de si mesmo, uma figura que se diluía um pouco mais a cada dia que passava.
Ela parou diante dele. Estendeu a mão.
— É meu dia — disse, e a voz saiu mais firme do que ela se sentia, como se o próprio ato de falar a obrigasse a se sustentar com mais força do que tinha. O olhar dela desceu até o medalhão que pendia do pescoço dele, escuro, letal, uma presença maligna disfarçada de objeto. — Minha vez de usar.
Harry hesitou. Seus olhos subiram para encontrar os dela, e estavam cheios de cansaço, um cansaço que parecia vir de dentro da alma. Ele parecia implorar, mas sem palavras, apenas com o silêncio pesado de quem já sofreu demais e não sabia como pedir socorro.
— Hermione, eu posso continuar hoje... você não precisa...
— Eu preciso Harry— ela cortou, não com raiva— É o acordo. Todo mundo revezando. E hoje é meu dia.
Ele não insistiu. Não porque concordasse, mas porque já não tinha energia para brigar com o inevitável. Apenas soltou o fecho, colocou o medalhão na palma da mão dela e, por um instante, ela quase recuou. O contato foi curto, mas deixou marcas invisíveis. O frio do metal era quase uma mordida, não gelado como algo sem vida, mas quente como algo que estava vivo demais.
— Tudo bem — ele murmurou, desviando o olhar um pouco culpado, se sentindo aliviado de se livrar do peso. — E quanto a... mudar de lugar?
Hermione demorou um segundo para responder. Precisou piscar, como quem tenta recuperar o foco.
— Se ele voltar, precisa saber onde encontrar a gente — respondeu por fim, e a voz estava baixa, como se se encolhesse junto dela. — Mudar agora seria o mesmo que desistir.
Harry assentiu com resignação. Ela sabia que era difícil para ele, sabia que ele sentia-se culpado por coloca-la nessa situação complicada. Eles não estavam tendo progresso a algum tempo, na realidade nem mesmo quando Ron estava aqui. E, ainda assim, ela viu, no fundo dos olhos dele, ele não aguentaria muito mais tempo. E ela… ela também estava muito perto de quebrar.
O dia seguiu como todos os outros, mas Hermione já não sentia mais o tempo de forma linear. Passou as horas mergulhada no grimório que Dumbledore deixara, um volume antigo de capa desgastada, folhas de textura áspera, cheiro de pó e feitiço esquecido. As páginas pareciam vibrar com alguma energia adormecida, como se à espera de alguém capaz de compreendê-las. As runas saltavam aos olhos, pulsando, trocando de posição quando não se prestava atenção, como se desafiassem a lógica para proteger seus próprios segredos.
Ela lia compulsivamente, com fome de informação, sua mais nova obsessão crescente.
A princípio, era apenas uma fuga, algo para mantê-la ancorada, mas logo ficou claro até para ela que havia um motivo mais profundo a que Dumbledore lhe enviou o livro. Algo nela se inclinava na direção daquele saber proibido. Um impulso instintivo, como se parte de si quisesse entender o que vinha acontecendo.
O que ele, uma mera Horcruxes havia feito com ela. O que o medalhão estava despertando, essa conexão suja...
Ela não confiava nele. Nunca confiaria, mas havia algo ali, algo que puxava seus fios mais íntimos, que tocava não só sua mente, mas aquilo que existia entre os pensamentos, nos cantos escuros onde até ela evitava olhar. Era como correr em direção a um penhasco sabendo que a queda era certa e, ainda assim, correr.
Tom Riddle. Ele sempre voltava, sempre. Desde aquela primeira vez, desde aquela primeira quebra, ele vinha toda vez que ela usava o medalhão. Era como um pacto silencioso, como se ele sentisse o toque do objeto na pele dela e soubesse, de imediato, que o caminho estava livre.
Ele entrava como quem tinha a chave, invadindo sem pedir, tomando o espaço sem pressa. Moldava os sonhos dela à sua vontade, mudando paisagens, memórias, lhe dando toques e sussurros aos ouvidos dela. Era como um mestre afinando um instrumento e ela, apesar de tudo, era o instrumento.
Ele dizia coisas que pareciam doces, mas o veneno vinha sempre logo depois.
Tocava-a com dedos que não existiam. E, mesmo assim, ela sentia. Sentia tanto que acordava com o corpo úmido, quente, envergonhado. Ele a fazia gozar, não pela força, mas pela provocação, pela perversidade refinada de quem sabe manipular alguém com elegância.
E ele gostava disso. Ela sabia que ele saboreava, porque ele fazia questão de ver quando a resistência dela cedia. Quando o corpo dela traía, quando ela ofegava, implorando sem palavras para ele ir embora.
Tom Marvolo Riddle era um demônio.
E só depois quando ela estava sem voz, ele sorria como uma besta e sumia, era a forma dele dizer que podia e que tinha o poder e o mais terrível de tudo era que ela... gostava das sensações que ele a fazia sentir. Não sempre, não de verdade, mas o suficiente para que uma parte dela desejasse que ele viesse, mesmo sabendo o que viria depois.
Porque depois vinha o nojo, a culpa e a vergonha, como se cada prazer arrancado dela fosse uma ferida deixada. Como se ela fosse cúmplice do próprio envenenamento.
Ela realmente nunca contou a Harry. Como poderia?
Enquanto ela era invadida em sonhos, manipulada com desejo, Harry era quebrado com brutalidade. Tom não usava luxúria com ele, usava o medo e a dor. Usava memórias que ardiam, os pais morrendo brutalmente. Sirius implorando, Ginny desaparecendo no escuro... Às vezes ela ouvia os soluços dele na madrugada. Baixos, quase sufocados.
E no dia seguinte, ele apenas dizia:
— Eu estou bem.
E ela... ela sabia que poderia dizer a qualquer dia: “Fica com o medalhão hoje.” Poderia quebrar o ciclo, poderia aliviar o controle do Diabo. Sabia que Harry não negaria, ele se sentia responsável demais por colocar ela nessa situação de procurar Horcruxes, mas nunca que ela pediria para ele repedir o uso do medalhão.
Porque a regra era clara, porque ela também precisava, porque, mesmo se odiando, mesmo se sentindo suja, ela esperava.
Naquela noite, antes de deitar, ela lançou uma proteção muda de silencio em seu quarto e ficou encarando o medalhão pendurado no gancho ao lado da cama improvisada. A corrente balançava suavemente, como se zombasse dela, como se dissesse: “Você não vai resistir.”
E ela não resistiu, os dedos se moveram por conta própria, o objeto pousou de novo sobre sua pele. E Hermione fechou os olhos.
Porque sabia, sabia que ele viria. E mesmo assim... deitou-se.
E esperou.
Horas mais tarde, ela despertou de repente com um estalo mágico, agudo, cortante, uma onda de energia tão intensa que o corpo reagiu antes mesmo da mente entender o que estava acontecendo, algo se alastrou em seu corpo era como se tivesse sussurrado seu nome em um idioma antigo, pedindo socorro, convocando-a, marcando sua pele.
Hermione saltou para fora da cama improvisada, sentindo espasmos, a respiração ofegante, a pele arrepiada, o coração martelando contra as costelas como se quisesse escapar, fugir para longe daquela sensação sufocante. Em um lampejo, lembrou-se do que havia feito: jogado a Horcrux fora do seu quarto, expulsando aquele maldito medalhão que sussurrava segredos e desejos que ela jamais pedira para ouvir. As palavras que ele proferira ainda ecoavam dentro dela, segredos que não estava preparada para encarar.
Assustada, os dedos trêmulos apressaram-se a vestir as roupas gastas da jornada. Ainda sentia na pele o toque invisível dele, o frio ardente que deixara quando a despira em sonhos, deixando-a vulnerável e nua. Agarrou a varinha com firmeza, como um talismã contra o horror que a assombrava, e correu para fora da barraca, sentindo o vento frio bater no rosto suado.
Ali, sob o céu obscurecido, a luz prateada da espada de Godric Gryffindor refletia nas folhas molhadas pelo orvalho recente, lançando brilhos tremeluzentes entre a vegetação úmida. A lâmina parecia pulsar com uma energia antiga, uma chama de esperança em meio à escuridão que os cercava.
Rony estava ali, firme, apesar do cansaço que marcava seus traços, segurando a espada com as mãos trêmulas, o peito subindo e descendo rápido, ofegante, como quem correu uma longa distância para chegar até aquele momento. Aos seus pés, como testemunha silenciosa da batalha, jazia o medalhão de Salazar Sonserina, partido, rachado, estilhaçado em pedaços tão pequenos que pareciam se dissolver no ar.
Dela emanava uma fumaça negra, densa e ondulante, como se a própria essência maligna estivesse se esvaindo, finalmente derrotada.
Harry estava ali também, suando frio, a varinha firme em punho, os olhos fixos em Rony, uma mistura confusa de surpresa, alívio, incredulidade e, talvez, um orgulho silencioso que lutava para se manter contido.
Hermione parou. O mundo ao seu redor perdeu o som, a cor, o movimento. Tudo ficou suspenso naquele instante.
O peito dela apertou-se com uma força tão grande que a dor tornou-se física, sufocante, um nó que se fechava apertado dentro do corpo.
E então, como se reprimida por muito tempo, a tempestade que carregava explodiu.
— VOCÊ! COMO OUSA?! — sua voz saiu em um grito rasgado, cortando o silêncio — COMO TEVE A CARA DE VOLTAR AQUI?!
As mãos dela encontraram Rony com uma fúria contida, punhos cerrados que desferiam socos, golpeando a frustração, o medo, a traição que latejava na pele. Os gritos saíam da garganta em cascata, dolorosos e urgentes, uma catarse de tudo que estava preso e sufocado.
E então ela caiu, desmoronou no chão frio e úmido da floresta, soluçando, desarmada pela própria intensidade, pelo peso da dor que carregava.
Rony arfava ao seu lado, o peito subindo e descendo, tentando falar, a voz embargada:
— Eu nunca deveria ter ido… tentei voltar desde o primeiro segundo...no começo era vergonha, mas depois eu não lembrava onde era o acampamento.
Naquele instante, no meio do caos, da dor e dos pedaços quebrados, algo no peito dela se moveu, se realinhou, como ossos quebrados que, finalmente, voltam para o lugar certo.
A barraca, o campo, o mundo, tudo parecia estranhamente aconchegante após o inferno que viveram. O cheiro do chá quente se misturava ao aroma da terra molhada, ao cheiro da madeira queimando baixinho, e, mesmo em meio ao caos, um fio tênue de paz recém-conquistada se instalava, silencioso, mas firme.
Hermione sentou-se, abraçando uma almofada contra o peito, tentando controlar a tempestade de pensamentos que rodopiava dentro dela. Respirou fundo, buscando organizar a mente ainda turva.
Rony estava do outro lado, inquieto, mexendo nas próprias mãos, como se tentasse controlar o nervosismo que apertava o peito.
— Hermione... eu... — começou, a voz baixa, quase envergonhada, como se cada palavra precisasse ser arrancada com cuidado. — Queria esclarecer uma coisa. Aquelas coisas... que eu te disse antes... — ele pigarreou, evitando o olhar dela. — Na verdade, eu nem sei direito por que falei tudo aquilo. No passado... sim... eu achava que gostava de você. A gente era meio... sei lá... adolescente, perdido demais. — Suspirou, apertando os joelhos com força. — Mas faz tempo que eu percebi que... eu segui em frente, com outra pessoa.
Hermione ergueu uma sobrancelha, o canto da boca se curvando num meio sorriso, divertido e curioso.
— Outra pessoa? Quem?
Rony ficou vermelho instantaneamente, desviando o olhar para o chão.
— Ah... você sabe quem.
Naquele momento, Harry entrou na barraca, com aquele timing perfeito de quem parece ter sido invocado pelos deuses da ironia.
— Olha... eu sempre achei essa briga de vocês meio estranha. Sinceramente, nunca entendi direito. — Deu uma risada, se jogando numa cadeira.
Hermione cruzou os braços, fingindo pensar.
— Humm... deixa eu adivinhar... quem seria...? briga huum...— E, de repente, arregalou os olhos, segurando um riso que ameaçava escapar. — A Lila?
Rony enfiou o rosto nas mãos, rubro como brasa.
— É, sim. É ela. — Bufou, irritado. — Fala baixo, pelo amor de Merlin!
Hermione gargalhou, e pela primeira vez em dias, se permitiu um riso leve, genuíno.
— Porque? Só estamos nós aqui... — disse, antes de levar uma almofada na cara. — Sério, inacreditável. No passado, eu a achava ridícula. Mas... bem... ela até que é legal agora, combina com você, Rony.
Harry riu, balançando a cabeça.
— O mundo está oficialmente de cabeça para baixo.
O riso deles se dissipou no ar, dando lugar a um silêncio que pesava.
Hermione olhou para os dois, os olhos sérios, e falou devagar, como se precisasse de toda a coragem do mundo.
— Tem uma coisa que eu preciso dizer. Eu... preciso sair.
Harry franziu o cenho, preocupado.
— Ir pra onde? Agora que o Rony voltou?
Ela desviou o olhar, apertando a almofada no colo.
— Não posso contar. É uma missão da Ordem. Recebi um recado há pouco. Por favor, não perguntem mais... só confiem em mim.
Rony, que até então parecia aliviado com a presença dela, engoliu seco, os olhos arregalados e um medo surdo crescendo.
— Hermione... é por minha causa? Eu estraguei tudo? Você... vai embora porque eu voltei?
Ela balançou a cabeça, rapidamente.
— Não, Ron. Não é por isso. Você não tem culpa nenhuma. Essa é uma luta muito maior do que qualquer coisa que a gente possa controlar. É confidencial da Ordem. Eu preciso ir porque é o que eu tenho que fazer. Porque... porque se eu não fizer isso, talvez não tenhamos mais chances.
Ele engoliu em seco, o peito apertado pela culpa e pelo medo.
— Mas e se... e se você não voltar?
Ela sorriu, suave, tentando aliviar o peso do silêncio.
— Eu volto. Sempre volto. Não importa o que aconteça.
Harry se aproximou, colocou a mão firme no ombro dela.
— Somos família, Hermione. E família escolhe ficar, mesmo nas piores horas.
Rony concordou, tentando sorrir, apesar do nó na garganta.
Naquele momento, não eram mais apenas três jovens fugindo de uma guerra. Eram... uma família de alma, feita de escolha, de coragem, e de amor.
E, por mais que o mundo lá fora pudesse desmoronar, aquilo, aquilo, ninguém jamais poderia destruir.
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