Madalena

1 Primeira carta, Madalena.


"Não se tratam desses resquícios mundanos que deixara como ossos desintegrados sob meu solo, talvez seja apenas meus joelhos doloridos por rogarem sua aparição, não falo como se fosse fantasma, nem me assustaria te ver parada com véu sem cor a minha frente. Madalena não gostava de branco, não aceitava sequer meus pedidos de casamento. Passam-me pela memória vez em sempre, tuas palavras roucas e firmes: “Eu não sou santa, nem sou filha do pecado”

Desde que o mundo fosse mundo, Madalena não era igual a todo mundo.

Persistia em perguntar justo o que não sabiam responder e ainda que nem mesmo ela já tivesse dado a resposta, talvez porque também não soubesse, isso a fazia parecer mais inteligente que metade daquela gente. Não possuía nenhum traço ilustre, nem carregava consigo uma beleza abundante, mas era notável, atraía olhares. Porque ela era ela, e isso, qualquer um reparava.

Madalena nunca disse que morreria. Parecia eterna. Não falo como quem morre por amor e deixa a vida no que os olhos vêem. Eterna porque não existia sequer uma tênue linha embaixo de seus olhos e não era maquiagem, Madalena não suportava maquiagem. Engraçado como muitos definem a beleza por esse lado. Admira-se mesmo, aquela que está do avesso, mas que sinceramente, veste-me muito bem.

Não se tratam dessas meias palavras ditas a pó, pouco definem um ser tão distinto e atraente, pó foi como ela se foi, suas cinzas não foram jogadas às rosas, mas sim, levadas com o mar. Madalena adorava navegar. Foram muitas pessoas vê-la em seu leito antes de sua última viagem, sem destino e possivelmente, interminável. Eu fiquei ao longe observando. Prefiro a imagem dela enquanto andava pela minha rua. Quando desceu o sol, sua voz ecoou: “Eu gosto da estrela ao lado da lua! Hoje é vênus, amanhã pode não ser, o universo muda o tempo todo” E eu olhei o céu naquela noite, a estrela estava lá, tinha absoluta convicção de que não era vênus. Era ela, Madalena..."