Maczelli
1 Capítulo I
Notas iniciais
As luzes dos postes ainda oscilavam quando passei pelas ruas frias de Harmon. Pessoas acenavam e se despediam dos parentes com lágrimas nos olhos, como se fosse um adeus definitivo. Tenho certeza que a situação estava pior que muitos velórios que já presenciei.
Talvez eu fosse uma das pessoas ásperas que estavam lá. Não expressava uma sequer emoção no corpo. Exceto o nervosismo por me livrar daquele lugar. Antes de me aproximar da multidão, escuto meu nome sendo gritado.
— Nine! — chamava
A pronúncia correta, “Nani”, em vez de como se lê, dava de perceber que era alguém que me conhecia. Mais do que isso, pois suas voz revelava um som que já estava acostumada. Ivy era o único motivo para querer ficar, que sempre me entendia e que nunca me abandonou. Mas agora era um recomeço. Um recomeço sem Ivy.
Dentro de mim, senti como se um muro que me protegia dos medos e inseguranças desabasse. Corri na sua procura, recebendo inúmeros empurrões. O preço por estes foi muito gratificante. Aquele era meu abrigo das tempestades da minha família. Abracei-o fortemente deixando o choro chegar. Baguncei os cabelos negros como a noite, pensando em quando os veria de novo. Nunca mais?
— Tome. — disse entregando um bracelete — Quando a situação não estiver boa por lá, lembra que um pedaço de mim está com você. Coloquei meu nome do lado de dentro e alguns enfeites barulhentos. — riu — E não se esqueça de mim!
Eu só queria que o tempo parasse. As pessoas em prantos, os primeiros V-8 — que eram uma espécie de V-7 que cabiam mais do sete pessoas — partindo, crianças acenando sem entender muito o quê ocorria e eu, com meu melhor amigo.
— Como vou esquecer com esse treco barulhento me alertando toda hora quem me deu? – brinquei
Com o seu sorriso mais amarelo, fingiu felicidade por mim. Eu sabia desde o começo que não queria que eu fosse para o Maczelli, que se pudesse, me botaria em um potinho para não me perder para o mundo.
— Se cuida.
Falando isso, beijou minha bochecha e me encarou como se quisesse se lembrar de cada detalhe do meu corpo.
Assim que encontrei com seus olhos, percebi que gotas de um possível choro ameaçavam despencar. Não consegui me segurar.
— Oh não, por favor, não me deixe pior do que já estou me sentindo. Como posso ir sabendo que você vai ficar assim? — enxuguei seus olhos.
— Sobre isso, acho que se não for agora, vai perder o V-8. Também não quero me culpar por fazer você perder a oportunidade da sua vida. — apertou minhas mãos.
Abracei ainda chorando, pensando em não manchar seu moletom cinza de rímel.
Soltei-me do seu corpo de forma lenta, sentindo o seu perfume com clareza. Quando o larguei, um simples "adeus" saiu de ambas as bocas e sintonia.
Caminhei um pouco, olhando às vezes para trás, achando um par de olhos infelizes grudados em mim. Mais cedo ou mais tarde, sabia que dos mesmos sairiam tantas lágrimas a ponto de transformar Harmon inteira em um pequeno oceano.
Na fila para embarcar, garotas pareciam doentes pelas fungadas e barulhos que emitiam. Eu mesma não deveria estar muito melhor, pois uma delas chegou a me perguntar se precisava desabafar. Claro que neguei. E eu seria louca ao ponto de falar tudo que sentia para uma estranha?
Já na plataforma de metal, que era uma espécie de escada rolante plana e sem a parte de escadas, uma mulher checou meu nome nos registros e conferiu minha digital. Só havia mais algumas meninas na minha frente quando senti meu braço sendo puxado.
— Vai me deixar mesmo?
Com os olhos avermelhados ao redor, Ivy parecia ainda não acreditar.
— Você sabe que não é assim.
— Sim — começou a correr na frente da multidão tentando acompanhar a espécie de "calçada automática" em que eu estava. -, não me esqueça, por favor!
— Tudo bem.
Ele correu um pouco mais para frente, onde a plataforma terminava, e me esperou.
Lembranças como meu irmão ainda pequeno tentando me ajudar a falar, a família reunida na mesa em uma ceia, o assassinato da mamãe, as invasões no quarto do Ivy no meio da noite quando meu pai voltava alterado pela bebida... Muitas coisas. Aquilo tudo seria deixado para trás.
— Promete que não vai se esquecer de mim? — disse quando me aproximei.
Deixei algumas meninas passarem na frente para poder responder.
— Eu prometo.
E soltou meus ombros.
Os bancos eram muito confortáveis, com televisores e fones embutidos, algumas barras de cereais e fora um monte de botões com múltiplas funções. "Ele gostaria disso", lembrei.
Por dentro, estava inconformada por Ivy não ter passado. Tinha se esforçado tanto como eu, estava preparado, era só aguardar seu nome estar na gigantesca lista de convocados. Acontece que não foi bem assim que aconteceu. Sentia que ele merecia mais do que eu mesma.
Aproveitei o caminho longo para dormir, só acordando com os outros brincando de brincadeiras típicas de passeio escolar. Levei um susto quando começaram a bater palmas. Por alguma razão, o parque de Harmon me veio aos pensamentos. Calmo e grande, com familiares juntos e pequenos garotos correndo. Nunca mudava.
Bati a cabeça no vidro blindado, por conta de uma curva. Acordei de um profundo refúgio mental em que estava. Eu sonhava acordada.
— Por quanto tempo dormi? — perguntei ao menino ao meu lado.
— Não sou um relógio. — grosseiramente, o menino respondeu e arrumou os cabelos cheios de gel. Pareciam mais duros que pedra.
Uma árvore antiga e grande, seguida de outras semelhantes. Não era mais minha cidade. No entanto, era como se aquilo fosse normal.
Meses atrás, nos dias de provas e testes, o programa tentava nos fazer certa pressão para ver nossa resistência. Mostravam o mundo fora da Nova União. Como ele realmente era sem a baboseira dos livros que nos mandavam ler para não nos preocuparmos. E era o que via, com menos terror. Apenas plantas secas e sem vida.
Uma verdadeira ilusão. Fazer qualquer coisa ouvindo os gritos desesperados de uma criança durante uma guerra, independente do que fosse, parecia uma missão impossível. Foi quando descobri Tobis. Gosto de pensar que ele me escolheu, mas ambas as versões são boas.
Estatura ideal para um garoto de 14 anos, músculos que revelavam dias intensos de trabalho braçal e olhos azuis cor do mar que ficam perfeitos com o topete dourado. Digamos que parecia um anjo, e ao em vez de assas, usava óculos.
— Posso me sentar aqui?
Deveria estar muito preocupada naquele dia, pois nem queria saber quem pedia para sentar comigo.
— Claro, mas não faça barulhos.
— Nervosa? — sussurrou seguro de si. Pude sentir o cheiro da sua pasta dental. Menta.
— Muito. — coloquei a testa nos meus braços, que formavam uma espécie de almofada para deitar sob a mesa gelada.
Os primeiros tablets em que as provas seriam feitas, começavam a serem distribuídos para os 40 alunos da sala.
— É por que você vê as coisas da forma errada. — começou
— E qual a forma certa então? — disse pela primeira vez o encarando. Realmente era lindo.
— Silêncio todos ou serão eliminado. — ecoou a mulher que fiscalizava de todos os cantos. Ela era um holograma, dos bem realistas, mas que via tudo por câmeras escondidas.
— É que se você...
— Não ouviu o aviso? – cochichei, e pus o dedo indicador no meio da minha boca.
Ele fez um beicinho irresistível de partir o coração. Nem passados cinco segundos, voltou a falar com seu sorriso radiante.
— Sou Tobis. Você é...
— Nine. — respondi com rapidez. — Tobis, podemos falar sobre qualquer coisa depois? Alguém vai perceber essa conversa.
— Nine. — respondi com rapidez. — Tobis, podemos falar sobre qualquer coisa depois? Alguém vai perceber essa conversa.
— Okay! Vou me lembrar disso. Se soubesse onde fica o...
— Fica quieto que te mostro a cidade inteira! Por favor. – agora era a minha vez de jogar um olhar de cachorrinho
Mesmo não satisfeito, assentiu com a cabeça e não falou mais nada, nenhuma palavra. Senti um pequeno arrependimento por ter feito isso. Sua voz masculina era reconfortante.
E assim foi até a hora que recolheram as avaliações das carteiras.
— Como conseguiu? — perguntei
— Depende, porque se for te deixar mais curiosa por não ter me escutado antes, foi fácil. — deu de ombros
— Por acaso não ouviu o escândalo das mulheres perseguidas? E os tiros que mataram fugitivos da guerra? Como agiu com tanta calma?
Tudo parecia novo para mim, mas ele agia naturalmente. Como se já tivesse feito a prova diversas vezes.
— Na verdade, ouvi sim. Eu só não liguei muito.
Só poderia ser brincadeira. E de mau gosto. Será que percebia o que dizia?
— Por acaso você tem uma máquina do tempo? — neguei sua pergunta. — Então não posso fazer nada com o que já aconteceu. Foi assim e pronto. Mas o que acontece agora e o que ainda vai acontecer, isso sim é o que eu quero e preciso mudar. Não se chora pelo leite derramado. Arruma a sujeira e tenta não deixar o mesmo acontecer.
Aquilo lembrou a sensação de levar uma bolada na cara. E eu merecia. Pois foi uma pancada tão grande, que me fez pensar diferente.
— Desculpa, eu não queria ter sido grossa...
— Entendo. – corta minhas desculpas — Eu também era assim. Ainda vou te cobrar o tal passeio em Harmon. Mas deixa para outro dia. — ele pegou suas coisas e começou a sair.
— Espera. Tobis! — corri ainda perplexa logo atrás do garoto na direção do aglomerado de estudantes — Aonde você vai? Sei que não é daqui.
— Não se torture. — voltou e arrumou uma mecha rebelde que fugia do meu coque. — Não estou bravo com você. Só quero voltar para o hotel que a Maczelli ofereceu para os alunos de outras cidades e tomar um banho para refrescar. Já tive muita coisa para um dia só.
E sumiu pela multidão.
Agora estava indo com o destino a Maczelli e minha principal preocupação era se ele havia conseguido como eu. Ou havia sido como Tobis?
— Será que vai chover? — perguntou uma menina baixinha e meio tímida.
— Essas nuvens são cirros! — um garoto alto e parecendo do tipo valentão começou a ir à direção dela. — Como conseguiu passar da fase um se é tão burra?
Os que sentavam perto deles começaram a rir, fazer cumprimentos de comemoração e trocar piadas sobre a ingenuidade da menina.
Em um transporte de possíveis revolucionários, ninguém fez nada. Nenhum apoio para a vítima do garoto. Apenas olhares esperando uma movimentação. Mas então deu em nada mesmo.
— Sabe, é melhor ser burra do que idiota.
— O que você disse? — o mesmo garoto de antes se levantou novamente para ir para cima da menina.
Um homem, de carne e osso, sem aqueles negócios de hologramas, com roupa igual aos pilotos de V-1 que passavam para rondar de noite as casas após o toque de recolher, abriu uma porta, a que ia ao espaço dos coordenadores do programa e representantes da região. Sem movimentos bruscos, no mesmo instante que o garoto apontava o dedo para a menina, ele apertou um botão do relógio, o que seria para mostrar o cronometro.
Como estava sentada entre o meio termo de fundo e frente do V-8, assisti tudo de camarote. Os jovens que discutiam e que sentavam nas primeiras fileiras, simplesmente caíram. Tipo, do nada mesmo! Por sorte, o menino não bateu a cabeça na lixeira de metal.
— Jeon! Eu te disse que eles não queriam ferimentos!
A mulher, que não era holograma também e gêmea ao homem, só que com a roupa na versão feminina, o que não era também tão diferente assim, se posicionou na frente do irmão.
Ela tentou recuperar o fôlego e disse a ele algo em outra língua e muito baixo para não pudéssemos entender. Ele revirou os olhos algumas vezes e então, estendendo a mão contra o corpo da mulher, passou por ela, na direção da cabine do motorista. Para se mostrar um pouco mais zeloso com os desmaiados subitamente, passou devagar para não pisar neles.
O V-8 parou.
— O que tá acontecendo? – ouvi vindo de uma pessoa mais do fundo
— Por que eles caíram?
— Vocês vão nos matar também?
Muitas perguntas para uma pessoa só. Olhei para o identificador da gêmea e consegui enxergar por uma fração de segundos. “Sra. Mild”. Ela parecia mais nervosa do nós. Foi quando explodiu.
— Quietos agora ou incluo nas fichas de vocês! – gritou friamente. Fez uma pausa, como a de quando apareceu, e prosseguiu, pensando quais seriam as palavras certas. – Tivemos um contratempo com o meu... Com o Sr. Pyo. – corrigiu – Não precisa de pânico, foi só um mal entendido. Amanhã vocês estarão em suas novas casas, tendo que se preocupar apenas com provas e trabalhos.
Ela olhou seu relógio e clicou no cronometro. Só me lembro de minha visão escurecer e de minha cabeça cair no colo do menino do gel, que estava na ponta da janela.
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