Ma Chérie
35 Surpresa
Notas iniciais
Pov Liz
No dia seguinte eu tive a noção de que meu despertar estava sendo diferente de tudo o que eu já havia experimentado na vida. Talvez fosse o meu gênio romântico exagerando nas proporções do que isso significava, mas se fazia parte de minha personalidade, como não usufruir? Depois da noite que tivemos, de ver o brilho orgulhoso e carinhoso tomar as orbes azuladas mais apaixonantes que alguém poderia ter, eu finalmente percebia a situação como ela era. Eu estava amando alguém no sentido mais sincero, singelo, intenso e assustador. Alguém que era tão diferente e divergente de mim que chegava a ser engraçado o modo como ao mesmo tempo combinávamos.
Então, despertar e sentir os braços dela envolvendo meu corpo e me mantendo perto tinha um significado diferente. Ter meus sentidos todos voltados para ela nos meus primeiros segundos do dia. Sentia o calor de seu corpo, o toque suave onde nossas peles se roçavam. Inspirar profundamente sentindo o cheiro que exalava delicado do corpo que se mantinha próximo do meu. Abri os olhos e me deparar com a cena de um anjo moreno adormecido. Então minha mente idealizava que aquela mulher era minha, meu corpo estremecia e meu coração tinha suas primeiras batidas erradas do dia e aquele friozinho gostoso se fazia presente.
Isso era completamente diferente do que eu esperava sobre o amor... Porque era ainda melhor. Quando mais jovem, fantasiava com os príncipes, de ser mimada e viver um romance como nos contos de fadas. Na minha mente, sempre vinha um jovem europeu, de porte aristocrata, educado e que faria debates sobre a atualidade enquanto tomávamos uma dose de vinho em nossa mansão. Iriamos viajar pelo mundo e viver aventuras que o dinheiro poderia pagar, ver belas paisagens, comprar coisas bonitas e fazer juras de amor nos locais mais românticos que existiam. Mas a minha realidade? Eu tinha abandonado a tudo para andar sobre minhas próprias pernas e havia descoberto que tudo isso era fútil, que as coisas simples se tornavam verdadeiras conquistas se aplicadas a intensidade certa.
Eu havia sido conquistada por uma mulher brasileira, sem muitas posses e que trabalhava mais do que seria considerado saudável, pois o estresse de relacionar-se com os outros e manter-se sempre criativa deixava Victoria no limite as vezes. Ela era sem pudores, direta, espontânea em suas palavras. Mal sabia sobre a etiqueta e preferia falar de jogos do que de política, de mulheres do que assuntos que assolavam a realidade internacional. Xingava, ria alto, invadia o espaço. Era uma conquistadora barata, que conseguia a maior parte das coisas com um sorriso cafajeste e um jeitinho malandro que eu desconfiava pertencer em especifico as pessoas desse país.
Mas quando eu estava ali, a observando dormir tão serena e com tantas coisas para realizar com esse jeitinho dela, eu me pegava mordendo o lábio para conter um suspiro. Ela era linda, pele com uma sutil cor morena, cabelos castanhos que agora estavam maiores já que tinha decidido deixar crescer mais um pouco para tentar um novo corte futuramente. Eu a observava atentamente, decorando mais uma vez cada detalhe de seu rosto e percebia que pertencia cada vez mais a ela. Mas pela primeira vez, eu sentia que Victoria também era minha em igual intensidade. O que me fazia corar forte ao lembrar de como segui o impulso de querer fazer amor com ela e, levada pelo momento, chegar a verbalizar e quase exigir. Gemi baixinho surpresa de como havia me comportado.
–É feio ficar observando os outros assim – Victoria disse ainda de olhos fechados.
–Eu... – tentava formular, mas só de ver aquele sorriso de canto começando a nascer, eu lembrava mais uma vez como havia sido ousada exatamente como Victoria era – Oh mon Dieu – cai de vez na cama botando a mão sobre o meu rosto – Mademoiselle Vic, eu fui tão... tão...
–Intensa? – Vic abriu os olhos e agora fitava-me divertida sabendo que eu me referia ao comportamento da noite passada – Ousada? Direta? Atrevida?
–Eu não costumo ser assim! – me defendi sentindo corar cada vez mais.
–Tem certeza de que não é? – Victoria arqueou as sobrancelhas – Porque foi você quem planejou toda a nossa primeira vez e foi bem ousada, eu diria.
–Eu não deveria ser...
–Claro que deveria, meu amor. Olha eu entendo... – ela virou o corpo, deitando de lado e apoiando-se sobre um braço conseguiu tomar todo o meu campo de visão – Você deve ter sido criada todo no contexto tradicional e conservador. Mas isso não se encaixa aqui. Você tem curiosidade quanto ao sexo e sexualidade, deixa transparecer isso de uma maneira sutil. Mas quando estiver sozinha comigo, não tenha medo de experimentar e descobrir. Nenhum sexo é vergonhoso quando se há cumplicidade.
Não havia dúvidas de tudo o que eu sabia sobre amar e fazer sexo eu estava aprendendo com Victoria. Era impossível não ser curiosa ou deixar-se dominar por algo tão poderoso quanto a química sexual.
–Na verdade eu adoro o quanto você é direta as vezes e espontânea, você não segura ou contorna, é sincera quanto ao tesão que está sentindo e isso é encantador e excitante – Victoria disse sorrindo e acabou rindo – Chérie, nós vamos fazer muitas loucuras ainda.
–Loucuras? – e ali estava a minha curiosidade se fazendo presente.
–Sim, muitas – Vic pousou os dedos sobre minha barriga e começou a fazer desenhos abstratos de maneira distraída, ela adorava fazer isso e eu amava que o fizesse, era como se houvesse a necessidade de algum tipo de toque por menor que ele fosse – Posições, fetiches... Ah temos tanto o que experimentar ainda.
–Como o que?
–Transar pela casa toda! Oh sim, e fazer uma maratona de sexo só pra ver quantas vezes conseguimos chegar lá. Definitivamente temos de fazer um meia nove e brincar com algumas fantasias sexuais.
–Você tem fantasias sexuais?
–Claro que tenho, um monte delas e você deve ter também, e se não tiver, com o tempo elas vão surgindo como ideias e vontades secretas. Mas adivinha só? Você tem uma namorada incrível que vai querer realizar cada uma delas.
O jeito tão natural dela de se gabar acabou por provocar uma delicada risada em mim, isso foi o suficiente para que Victoria achasse que eu deveria rir mais e, consequentemente, começar a fazer cócegas nos meus pontos fracos. Oh, ela já conhecia todos eles. Começar a manhã desse jeito, conversando abertamente sobre coisas intimas, rindo e sendo amada por olhares da garota que você gosta...
Eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida.
(...)
Faltavam exatamente cinco dias para o natal. Era uma data que para mim não tinha tanto significado, já que desde que mamãe morrera ninguém naquela mansão ligava para feriados em que o espírito familiar se fazia mais presente. Participávamos na verdade de alguns eventos de caridade, ou íamos para alguma festa que seria politicamente correto ir para se conquistar influências. Por isso foi realmente diferente quando eu notava aquela animação toda, de como a cidade inteira estava decorada e agitada para os feriados de fim de ano.
Victoria ainda se encontrava atarefada com o trabalho, já havia percebido que em épocas festivas o investimento do comércio aumentava, consequentemente as propagandas especializadas também. Mas para mim essa época estava deixando-me com menos trabalho, já que a maior parte dos alunos mais jovens e até mesmo alguns adultos entravam de férias. As turmas estavam diminuindo e o trabalho seguindo mais fácil e proveitoso, pois com menor quantidade eu poderia dar mais assistência.
Frankie entrou naquela mesma semana no meu grupo de Jazz e no Hip-Hop de Anne. Ela era realmente boa com os movimentos, sua especialização era o improviso. A garota sabia sentir a música... Mas não tinha técnica nenhuma. Era como pegar uma grande promessa que nós poderíamos moldar e criar algo grande.
–Acho que já podemos encerrar por hoje – finalizei com um sorriso para a minha turma – Vocês foram muito bem! Mas temo informar que passaremos um par de dias distantes por conta dos feriados, a academia só retornará na segunda semana do ano novo. Aproveitem bem as férias e dancem bastante!
–Espera, professora! – Duda veio todo agitado para perto – Nós temos alguns presentes de natal para você!
–Teoricamente deveríamos esperar para a confraternização, mas vai ter algo lá também, porém esse é em especial da turma!
Aquilo me emocionou e abalou em demasia. A turma havia se juntado e comprado um par de coisas, como uma sapatilha de dança realmente cara, um porta retrato e uma caneca com silhuetas dançando estampado. Eu abracei a cada um enquanto chorava e agradecia, nenhum deles parecendo se importar de meu francês se embolar com as palavras em português. No final, tiramos uma foto com toda a turma.
Eu queria voltar para casa e contar tudo para Victoria. Mas sabia que estava saindo mais cedo e que levaria no mínimo duas horas para me encontrar com a minha amada. Sabendo disso, resolvi passear e comprar ingredientes para um jantar bem elaborado. Estava feliz e queria fazer algo delicioso para nós três, já que era bem óbvio que Anne logo iria se intrometer na nossa refeição.
Quando finalmente atravessei a porta do apartamento, estava agitada e feliz com o dia que estava tendo e com a possibilidade de fazer um ótimo jantar com pessoas que eu aprendi a amar. Mas para minha deliciosa surpresa, a televisão estava ligada e Victoria estava ali, sentada assistindo.
–Mon amour! Porque não avisou que viria mais cedo? Bastava mandar uma mensagem – falei fechando a porta atrás de mim.
Coloquei minha bolsa pendurada no cabide, deixei as compras e os presentes sobre o balcão da pia e fui atrás do que realmente me interessava naquele dia. Victoria havia levantado do sofá e paralisado no meio da sala. Os olhos azuis pareciam surpresos e me avaliavam de cima abaixo. Eu amava quando ela parecia me olhar como se fosse a primeira vez.
–Mas estou mesmo feliz que tenha vindo mais cedo – disse com um suspiro bobo.
Ao ficar bem pertinho, fiquei na ponta dos pés e colei os nossos lábios em um selinho que pretendia transformar em um beijo. Mas Victoria ficou tensa, nem ao menos tinha fechado os olhos ou retribuído o toque. Estaria estressada com alguma coisa do trabalho? Afastei-me franzindo o nariz, sentindo finalmente uma fragrância diferente vindo dela. Eu sabia exatamente qual era os aromas dos perfumes que ela costumeiramente usava e aquele era mais forte. Ela odiava perfumes fortes.
–Comprou um perfume novo, chérie? – questionei um pouco confusa, também a notando com roupas mais delicadas, afinal aquela era uma calça bem justa e a blusa era bonita e delicada, de cor rosa bebê – Comprou roupa nova também? Eu nunca esperaria que você usasse algo assim. Hoje é alguma data especial e deixei passar?
Afastei-me alguns passos, notando também que ela finalmente tinha cortado o cabelo, estava menor e até mesmo com uma franja lateral discreta. Arqueei as sobrancelhas, aquela era definitivamente uma nova Victoria. Usando perfumes mais fortes e femininos, um conjunto de roupas novas e até mesmo um corte de cabelo novo. Teria sido por causa dos feriados próximos?
–Nós estamos casadas...? – ela parecia estar mais indagando do que afirmando.
–Oh, non! Muito cedo para isso mon amour, até mesmo para mim! – ri da expressão confusa que ela tinha no rosto – Você vive dizendo que eu que sou uma romântica e que tenho ideias que ninguém mais tem, pensei que seria totalmente resistente ao casamento Vic!
–Então namoramos – ela falou como se aceitasse a ideia – E eu estou apaixonada por você...? De verdade?
–Porque está questionando isso? Pensei que já estávamos ultrapassando essa fase das dúvidas e incertezas... Aconteceu algo pelo qual eu deva me preocupar? Você está diferente, Victoria o que está acontecendo?
–Ahn... Eu... Bem, eu não...
–Ma chérie, cheguei! A porta está aberta então eu sei que você já deve estar---
De todas as coisas que eu já presenciei na vida, nada foi mais confuso e absurdo do que aquilo. Porque uma Victoria estava passando pela porta, usando exatamente as mesmas roupas que eu a tinha visto por em seu corpo para ir trabalhar. Calça jeans escura, blusa social do trabalho, sapatilhas pretas. O cabelo levemente bagunçado ainda grande, exatamente como antes... Mas ao mesmo tempo havia outra Victoria ali a pouquíssimos metros de mim, diferente e ao mesmo tempo idêntica.
Deus, eu me afastei levemente assustada e extremamente confusa, enquanto Victoria abria bem os olhos azuis enquanto fitava a sua cópia fiel e mais feminina.
–Veronica o que faz aqui?! – Victoria quase gritou.
–Ora essa, maninha, aparentemente eu estava conhecendo a sua namorada.
A Victoria que na verdade parecia se chamar Veronica abriu um sorriso maldoso, um que eu nunca vi desenhar os lábios de minha Victoria. Eu olhava de uma para outra, confusa e tentando incansavelmente compreender o que estava acontecendo enquanto via as duas travando uma batalha de olhares entre si. Victoria ficando vermelha e tensa, Veronica sorrindo soberba e divertida com a situação. Até que então minha compreensão começou a se formar.
–Mademoiselle Victoria, você tem uma irmã gêmea?! – pela primeira vez na vida eu gritei uma informação.
Ambos os olhos azuis viraram em minha direção. Elas eram estupidamente idênticas, como se fossem clones exatos. Victoria, a minha Victoria, encolheu os ombros e passou a me fitar como se pedisse desculpas.
–Infelizmente – ela resmungou e se aproximou deixando a bolsa cair em qualquer lugar – Liz, essa é Veronica, minha irmã.
–Irmã mais velha por cinco minutos – Veronica acrescentou rapidamente, aparentando fazer isso apenas para provocar Victoria e conseguindo com extrema facilidade, pois a minha garota bufou e fechou as mãos em punhos – Vim fazer uma surpresa... Então, surpresa!
Oh sim, definitivamente aquilo foi uma surpresa!
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