Notas iniciais
Hello, amados! Primeiro, yaay! Capítulo novo! Segundo, estamos nos organizando, então logo responderemos todos os comentários. Terceiro, tem uma musiquinha nesse capítulo, que é Into The West (do Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei) Quarto e último, dedicamos esse capítulo para todos que comentaram e que leram ♥ Esperamos que gostem. Enjoy!

Pulsava-lhe com força o coração. Não ia mais depressa, só pulsava com mais intensidade, como se seu sangue requeresse mais trabalho para mover-se.

Regina sabia que Henry não estaria dormindo ao chegar na casa dos pais. Passava das onze, mas ela conhecia o filho e ele estaria tão aflito quanto ela estava.

A única coisa que sabia que queria naquele momento era não chorar. Ela queria que seu filho a encontrasse firme e era assim que se comportaria: com a postura e porte de uma rainha.

— Regina? — chamou o sr. Henry assim que a filha entrou na sala com Emma ao seu lado. A figura que estava diante deles estava bem vestida e penteada, mas seus olhos estavam vermelhos e a ponta rosada de seu nariz contrastava com a pele pálida de seu rosto. Emma também estava mais branca que o normal, e se isso não denunciasse o rumo dos acontecimentos, o choque e a tristeza estampados em suas faces o fariam.

— Mamãe!

Nenhum músculo em seu rosto denunciou sua dor, o rodopio de sua mente ou o fato dela estar ouvindo as altas batidas de seu coração.

— Cadê o papai?

Emma voltou para a sala após colocar as sacolas com jantar na cozinha e Regina se aproximou calada do sofá, sentindo o olhar de todos sobre ela, e sentando-se, abraçou o filho pelos ombros.

— Henry, querido, com você sabe Emma e eu fomos ver o que houve com Robin. Nós… Ele... O que você mais gosta sobre o seu pai?

As feições infantis a encararam com surpresa e depois, com extrema cautela e concentração, ele disse:

— Ele brinca comigo e me leva no zoológico ou para ver carros.

Aquela declaração simples ao invés de tornar mais fácil para Regina revelar o destino do ex-noivo piorou tudo. Algum lugar dentro dela contorceu-se de ódio e pesar. Robin não conseguira ser a pessoa que Henry precisava. Ela sempre defendeu os direitos paternais que ele tinha, mas ele nunca exercera nenhum. Seu próprio pai era quem levava o menino para acampar e pescar, ela lhe ensinava equitação, Emma como pegar bandidos e até mesmo Cora lhe ensinava a usar sua roca. E durante essas atividades, eles lhe ensinavam conceitos de moral, responsabilidade, gentileza e paciência. E Robin? Ela não sabia bem o que ele havia ensinado a seu filho. Mas ela precisava manter-se positiva e pensar que ao menos o garotinho tinha memórias com o pai.

— O que há de errado, mamãe?

— Henry, seu pai… — a voz morreu na garganta. Como poderia tentar explicar uma coisa que ela mesma não entendia e que era tão dolorosa? Ela queria não ter que lhe contar isso, mas não podia. Henry era apenas uma criança, mas não era bobo. Longe disso. — Seu pai não vai voltar, meu amor.

Embora sua atenção estivesse completamente voltada para o filho, Regina podia sentir os pais e Emma segurando a respiração. Os olhinhos do menino nunca deixaram os seus e ela lhe deu tempo para processar o que estava escutando.

— Lembra daquele feijãozinho que você plantou na escola? Ele cresceu, ficou verde e bonito e depois murchou e secou. Tudo que é vivo um dia vai morrer e quando morremos, não há volta. Robin não vai voltar, Henry.

— Por que não? — perguntou com os olhos marejados, dando ciência à Regina que ele havia entendido.

— Porque ele não vai mais poder correr, dormir, pensar e nem agir. — tentou com a voz embargada, pensando que estar ali, dizendo algo que magoaria e mudaria para sempre a pessoa que mais amava no mundo era o último lugar que ela queria estar naquele momento. — Seu papai morreu, meu amor.

— Por quê?

Ela sabia que ele lhe perguntaria isso, mas nunca, nem um milhão de anos, poderia se preparar para responder que Robin havia optado por aquele caminho. Desde que o havia deixado, sua única preocupação era proteger o filho do homem que ela descobriu que Robin era. Mas agora ela estava de mãos atadas e sentindo um medo e uma tristeza absurdos. Como ela e Emma poderiam saber que isso aconteceria ao falar para Henry que Robin ficaria fora por muito tempo? Como elas poderiam imaginar que ele seria capaz disso? Regina sabia que Robin poderia causar muitos danos a sua família, mas este ela nunca cogitou. Nunca. E seria extremamente difícil contar, mesmo sendo necessário.

— Lembra o que eu disse mais cedo sobre o seu pai? O motivo dele ter derrubado o nosso portão? Ele estava tão perdido e tão cansado Henry, que ele escolheu esse caminho sem volta.

Em meio ao choro, ele se deixou ser abraçado fortemente por Regina. Com os bracinhos envolvendo o pescoço da mãe, ele sentiu o quanto ela o apertava de encontro ao peito e como sua respiração estava entrecortada. Ele sabia que ela estava segurando as lágrimas como sempre fazia perto dele. Como naquela tarde, quando ela estava com tanto medo quanto ele. Mas ele não se despediu do pai. Quando Robin o chamara naquela tarde ele estava tão bravo por vê-lo destruindo sua casa e fazendo sua mãe sentir medo que ele se recusou ir até ele. Fora por isso que seu pai morreu? A culpa era dele?

— Mamãe? — chamou entre uma fungada e outra — O papai morreu porque eu não fui com ele? Porque eu fiquei bravo?

Mesmo em sua tenra idade, Henry já havia aprendido muitas coisas. Uma delas era reconhecer o olhar da mãe. Ele podia identificar o olhar de cansaço, aquele que ela lhe dava quando dizia que o amava, o que usava para que ele soubesse que estava encrencado, o que ela direcionava a Emma, o que ela usava quando falava com seu pai e os clássicos olhares de tristeza e felicidade. Naquele momento, contudo, ele não conseguia identificar só um e sua atenção era sempre desviada para o brilho das lágrimas não derramadas. Mas ele sabia que sua mãe estava triste e, quando falou, ela usou o olhar que direcionava a Robin e depois o que era somente dele.

— Não, Henry. Seu pai não estava bravo com você. Não é sua culpa ou de ninguém. O papai morreu porque ele escolheu isso, filho. Seu pai quis morrer. A decisão foi somente dele, meu amor. Não porque ele queria ficar longe de você, mas porque ele estava muito cansado da vida dele.

— Eu não entendo.

— Nós já conversamos sobre isso, lembra Henry? Quando o pai do Simba morreu e você me perguntou o que significava morrer? — interrompeu Emma, ajoelhando-se perto do garoto e de Regina. — É um processo pelo qual todos nós passamos, seja eu ou o seu pai ou o feijãozinho que você plantou ou um dos seus peixinhos. Todos nós nascemos, crescemos e morremos. Seu pai, meu anjo, quis morrer agora. Não existe culpado para ele querer isso, foi uma escolha que ele fez. Mas é uma escolha que deixou muita gente triste, não é mesmo?

— É, eu não queria que ele tivesse me deixado.

— Ele não te deixou, Henry. — sussurrou Regina quando o menino voltou a chorar — Você é um pedacinho de mim e do seu pai, e mais a mistura de um monte de gente que te ama. Então, toda vez que você olhar no espelho, vai ver a melhor parte do seu pai que é você, filho.

O sr. Henry, ao ver que o pranto desesperado do neto, preparou um chá bem docinho para acalmá-lo. Isso, somado ao cansaço e ao carinho e calor que vinham de Regina, logo diminuíram o choro e fez com que ele adormecesse.

Enquanto a morena o levava no colo até seu quarto, Emma ficou na sala explicando o ocorrido aos Mills, mas sem entrar em muitos detalhes.

— Emma, você está bem? — perguntou o sr. Mills.

— Na verdade, não. Acho que nenhum de nós está. Prometi ao Henry mais cedo que tudo ficaria bem, mas não ficou. É a segunda vez que minto para alguém que amo hoje.

— Você mentiu mesmo para Regina sobre estar com a Alexa?

— Sim. Não era para ser uma mentira, mas optei por não levar a Alexa comigo porque ela acabaria contando para Regina e eu queria fazer surpresa. Ela acha que eu não usarei vestido no casamento, mas encomendei um que combina com o dela. E tinha uma prova agendada para fazer essa tarde... Estou contando somente para vocês, porque... Bem, não sei ao certo o motivo, mas quero que alguém saiba. Não vou contar pra ela agora, senão vai perder o sentido e a surpresa ficará ainda mais ligada à morte de Robin e eu definitivamente não quero isso.

— Claro — respondeu o pai de Regina — Conte conosco.

Emma olhou rapidamente para Cora, mas esta estava cabisbaixa, perdida em pensamentos e não foi possível ver sua reação ao mencionar o casamento. Mas isso não importava mais, pois se ela e a morena já haviam decidido anteriormente planejar tudo com calma, agora, após o incidente com Robin, elas certamente adiariam ainda mais a cerimônia.

— Algumas vezes é mais digno morrer do que viver. — pontuou Cora quando o silêncio começou a se estabelecer.

— Cora! — repreendeu o sr. Henry diante a tal reflexão.

— Diga que estou mentindo! — desafiou a mulher. — Vocês podem considerar o contrário, mas para mim essa foi a coisa mais decente que Robin fez em muito tempo. Pelo menos agora não precisaremos ficar em alerta, sempre temendo e esperando que ele faça algo. Você sabe quantas vezes eu temi pelo pior? E o pior para mim não seria a morte dele, mas a da minha filha. Ou o sequestro do meu neto. Ou até a tortura de Emma, porque sei o quanto isso destruiria a Regina. O que ele fez hoje pode ser a pior coisa que há no mundo, mas ao menos eu dormirei tranquila. Vocês podem querer esconder isso, mas estamos todos aliviados.

— Regina não está. — confidenciou Emma em um suspiro — Eu nunca a vi chorar como ela chorou hoje.

— Acredite em mim, Emma. Ela está. — assegurou Cora levantando-se com expressão gelada. — Mas ela nunca irá admitir porque isso faria dela uma pessoa que ela não quer ser.

— Como assim?

— Se Regina confessar que alguma parte dela está se sentindo bem, isso a faria exatamente como eu. E sabemos que ela não quer isso. Então, não se preocupem e deixem comigo a parte da comemoração.

— Cora, podemos mostrar um pouquinho de respeito à morte do pai do nosso neto? Ou fingir que ele é um estranho e estamos respeitando a morte dessa pessoa?

— Mas eu respeito a morte. O que eu não respeito é a pessoa que morreu! Nós tentamos ajudá-lo, Henry! Nós tentamos mostrar que ele tinha opções, sim. Eu fiz todos sofrerem, mas fui capaz de reconhecer quando era hora de mudar. Ele foi para a prisão e poderia realmente ter feito algo da vida dele. Ele tinha aquela mulher que faria qualquer coisa para deixá-lo feliz e não aproveitou nada. Robin escolheu todo caminho errado que podia. E quem está falando isso sou eu! Acho que posso me dar ao luxo de não ter que fingir estar pesarosa.

— Oh, Cora. Não seja uma megera.

— Só estou sendo eu mesma.

Emma sorriu ligeiramente. Era um sorriso opaco, mas ainda assim era um sorriso e a causa dele era inexplicavelmente Cora Mills. Embora estivesse se distraindo com a franqueza de Cora, ela resolveu seguir Regina para ajudá-la no que fosse necessário e evitar que mais esforço fosse feito ou o tornozelo não desincharia tão cedo.

— Vou ajudar Regina. Precisaremos obrigá-la a ficar de repouso.

— Acredito que precisaremos conversar. Se ela preferir ficar no quarto, iremos até ela. Caso não, ajude-a a descer as escadas e nos encontrem na cozinha. — pediu gentilmente o sr. Henry — Farei mais chá para nós.

Quando ouviu as vozes abafadas que vinha do quarto, Cora virou-se para Henry e olhou atentamente por longos minutos. Durante o tempo em que ficaram com Henry não houve oportunidade para abordar o assunto, pois fizeram todo o possível para distrair o menino. Agora, contudo, ela precisava saber o que estava incomodando-a a noite toda.

— Emma revelou onde esteve durante a tarde, mas você ainda não.

— Sabia que você não deixaria isso de lado tão cedo.

— Mas é claro! Você mesmo disse que eu ficaria sabendo mais tarde.

— Sim, mas eu não esperava que tudo isso fosse acontecer. E me sinto um pouco idiota agora.

Os olhos escuros e vívidos o analisaram de cima a baixo.

— Henry, o que você fez?

— Bem, enquanto você se aprontava para irmos à casa de Regina, eu as tirei do carro e as coloquei em um vaso no nosso quarto. Está em cima da cômoda.

— Um presente? Pra mim?

— É bem simples, Cora. Vá vê-las enquanto preparo o chá.

— O que é?

Ele lhe deu um olhar sugestivo e ela esboçou um sorriso ao se levantar e se dirigir ao quarto. Ao passar na porta do quarto da filha, ela ignorou a pontada de curiosidade que queria saber o que estava se passando e se dirigiu até o final do corredor.

O aroma que inundava o ambiente revelou a surpresa de Henry antes mesmo dela localizar o vaso em cima da cômoda que ficava ao lado direito da porta. As flores ornamentais eram vermelhas e formadas por uma única flor com seis pétalas em cada haste.

Um suspiro de contentamento e um sorriso de genuína felicidade lhe escaparam. Henry havia lhe dado flores. E não qualquer flor, mas tulipas vermelhas, que significavam amor verdadeiro e eterno.

— Não necessitamos fortuna. — começou baixinho, repetindo o que Henry costumava dizer para Regina quando ela era criança — Não necessitamos riquezas. Os Mills só têm que acreditar com mais intensidade que os outros e coisas boas nos acontecem.

Cora riu perante tais lembranças. Ela acreditava em muitas coisas agora, mas a principal é que sua família era o suficiente para ela. Ter a família ao seu lado era suficiente e era uma ótima sensação.

Por um breve momento ela esqueceu de tudo o mais. Foi somente ao parar de frente ao quarto de Regina que ela lembrou que Robin estava morto. E ela não esconderia que estava contente com tal fato.

— Você se importa se eu ficar aqui com vocês? Realmente não quero ficar sozinha hoje e muito menos aqui — murmurou a voz que Cora sabia ser a de Emma. Em seguida ela ouviu um muxoxo de Regina que julgou ser uma risadinha. O que aquilo significava? Que Emma estava com medo dela?

— Nem se você quisesse você ficaria longe de nós, Swan.

— Que bom. Seu pai pediu para descermos e conversar. Acho que eles querem saber o que faremos em relação… em relação…

— Todos nós precisamos descansar — interrompeu Regina para que não fosse necessário falar o nome de Robin — porque serão longos dias e eu não tenho mais forças para lidar com isso agora. Resolveremos tudo amanhã.

— Como está o tornozelo?

— Incomodando um pouco. Mas logo vai passar. Logo tudo isso vai passar... E você, Em? Como está se sentindo?

— Muito mal. Principalmente em relação ao Henry. Prometi que tudo ficaria bem e não ficou. Achei que tudo pudesse ser um engano, mas não foi. E mesmo sabendo que ele é forte, estou receosa de como ele vai encarar tudo isso.

Cora não podia ver, mesmo a porta estando entreaberta, mas a boca de Regina se fechou com firmeza, um gesto habitual quando a parte espontânea de sua personalidade colidia com a grande bondade que mantinha seus pensamentos mais desagradáveis sob controle.

— Em, conversaremos com o Henry e contaremos tudo o que ele quiser saber. Embora seja pequeno, ele vai ter que passar por tudo isso do mesmo jeito que a gente. O importante é tentarmos fazer isso juntos. Ele não vai estar sozinho, nem você e nem eu. E meus pais vão nos ajudar também. Se os conheço bem, eles estão mais chocados do que chateados com isso. Mas é compreensível já que não passaram diretamente por tudo como nós.

— Acho que sua mãe estava certa… — cochichou Emma mais para si mesma do que para Regina.

— Sobre o quê?

— Sobre… hum… sobre...

Cora achou que era a hora de interferir e bateu gentil e silenciosamente na porta.

— Vocês vão descer? — indagou baixinho colocando somente metade do corpo para dentro do cômodo. Cora deu um olhar sugestivo para Emma, que respirou aliviada pela interrupção.

— Acho melhor não forçar mais meu tornozelo. — confessou Regina sentada ao lado de Henry na cama — Melhor irmos dormir.

— Está esfriando cada vez mais… Trarei chá para vocês.

— Obrigada — responderam em uníssono.

Antes de sair, Cora olhou bem para a filha e em seguida para Emma. O cansaço era evidente nos rostos brancos, bem como a tristeza e algo a mais que ela não soube definir. Talvez fosse medo e se fosse ela estaria ainda mais satisfeita com a decisão de Robin.

A última vez em que elas estiveram ali a situação era outra e havia muito mais pavor e nojo do que tristeza envolvidos na situação. Assim como as outras mulheres, ela achou que aquilo fosse o ápice do repertório de Robin, mas claramente não fora. Conscientemente ou não, ele ainda faria todos sofrer mais. Se tinha uma coisa que Cora Mills entendia bem era que a vida muda quando quer, e muitas vezes de maneiras inesperadas. Ultimamente, no entanto, ela não estava sendo gentil com sua família. E isso fez com que sentisse a familiar angústia em seu peito e a garganta oprimida. Eles precisariam acreditar que tudo ficaria bem. Essa era a única opção.

— E então? — perguntou Henry quando a viu entrar na cozinha.

Cora não disse nada por um instante. Ela foi até ele e o beijou rapidamente nos lábios, encaixando, em seguida, sua cabeça na curva do pescoço dele.

— Obrigada Henry. Fiquei extremamente feliz com as flores. — assegurou levantando o olhar para ele.

— Mas?

— Não, não. Não há ‘mas’. Não em relação às flores, pelo menos. A questão é que parece muito injusto e mesquinho eu estar tão feliz quando Regina, Henry e Emma estão se sentindo miseráveis.

Henry a abraçou por um longo tempo, enquanto procurava compreender a situação para dizer a coisa certa.

— Acho que às vezes precisamos nos afastar um pouco e nos conceder a chance de respirar. E como você deve ter percebido, eu não disse que você estava mentindo quando deixou claro sua opinião sobre Robin. Sei que você tem tentado se redimir, Cora. Vejo seu esforço todos os dias, mas teremos que dar esse espaço para eles e para nós. Precisamos repensar algumas coisas e organizar o que estamos sentindo. Acredito que é pra isso que a palavra luto serve.

— Quer dizer, então, que ficaremos de luto por Robin?

— Sim, Cora. Acho… acho que devemos isso a ele e a todos nós. Embora eu esteja tão aliviado quanto você, acredito que tenhamos nosso quinhão de responsabilidade em tudo isso.

— Estou ciente disso também. No fim, tudo se resume ao que se recebe e se acumula, não?

— Acho que sim. Colhemos aquilo que plantamos. — disse ele antes de afastá-la gentilmente e voltar sua atenção para a chaleira.

— Estou com medo, Henry. Isso certamente irá sussurrar mentiras escondidas como verdade.

— Também temo como aqueles três serão afetados. Mas pensaremos como ajudar amanhã, enquanto lidamos com os preparativos para o enterro.

Cora emitiu um som rouco que Henry julgou ser de frustração. Enquanto ela colocava o chá nas xícaras, ele sentou-se na pequena mesa que havia na cozinha e olhou pela janela.

O tempo parecia condescendente, pois enquanto eles choravam por dentro, a chuva, lá fora, chorava impiedosa.

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O quarto estava iluminado com uma luz fraca que vinha do abajur na cômoda e todos deveriam estar dormindo, pois o único barulho que ele ouvia era o que vinha lá de fora.

Mas o que o acordara não fora o barulho contra a janela do ar frio e da chuva ou o fato de ter dormido o suficiente. Ele havia tido um sonho ruim.

Olhando para o lado direito, ele encontrou o rosto adormecido da mãe e ficou olhando-o por alguns minutos. O calor que vinha dela o fazia se sentir seguro, mas ele sabia que havia algo errado porque ela havia chorado e porque estava abraçando-o como sempre fazia quando algo estava indo contra os planos dela.

Ao virar o rostinho para o lado esquerdo, ele encontrou um par de olhos verdes observando-o e, de algum modo, a tristeza que viu ali o fez querer voltar a chorar.

— Está tudo bem, garoto. Não se preocupe. — cochichou Emma, aproximando-se para envolvê-lo com seu braço esquerdo.

— Eu tive um sonho muito ruim, mãe. — confessou com lágrimas mudas e voz baixa.

— O que você sonhou?

— Que meu pai tinha ido embora para sempre.

A voz dele saiu entrecortada pelo choro e pelas tomadas de fôlego, e os olhos de Emma corriam incessantemente pala figura pequenina ao seu lado. Com a mão no braço dele, ela fixou o olhar nos olhos cor de avelã e disse pausadamente:

— Você não imagina o quanto é doloroso lhe dizer isso, meu amor, mas é verdade. Seu pai foi embora para sempre.

O rosto infantil e bonito estava molhado e brilhava na luz amena, mas mesmo com a garganta ardendo ele chorou em silêncio. A mão da tenente nunca deixou seu braço ou seus cabelos, e o calor que vinha delas lhe oferecia algum conforto.

— Eu não fui bonzinho, mãe? Por isso ele foi embora?

Ela levantou metade do corpo para alcançar o copo com água que havia ao seu lado e o fez beber alguns goles.

— Você é uma criança maravilhosa, Henry. E seu pai te amava mais do que tudo no mundo. Amava você e o Roland demais, demais. Vocês eram as melhores coisas na vida dele. Você não fez nada de errado. Nada, nada, nada. Você entende isso? O que houve com Robin não é culpa de ninguém ou porque você não foi bonzinho. Isso aconteceu porque… — ela pensou por um instante antes de continuar — Porque seu pai estava sofrendo muito. Ele não tem culpa também, Henry. E isso é o que eu quero que você guarde: não há culpados nessa história. Explicaremos isso para você depois, porque há um nome para isso e você vai escutá-lo muito. Mas mesmo que as pessoas digam que foi uma coisa ruim o seu pai ter escolhido morrer, você promete que não vai julgá-lo, filho? Você pode sentir raiva dele se quiser. Qualquer coisa que você estiver sentindo é válida. Então, se você desejar chorar, você deve chorar.

Henry fechou os olhos e agarrou-se à blusa de Emma, enterrando seu rosto no espaço entre sua clavícula e seu ombro. Eles ficaram deitados assim até que ele se acalmasse. Dessa vez ele não dormiu, o que permitiu a Emma tentar lhe explicar uma coisa ou duas.

— Eu sei, meu amor. É horrível. Eu sei. Mas não será sempre ruim desse jeito. Um dia, e eu sei que você não pode imaginar isso agora, mas um dia você será capaz de pensar nele sem ficar triste o tempo todo. Mas por hora, você apenas precisa saber que sua mãe e eu estaremos aqui para te ajudar. E você quer saber um segredo?

Ele não se mexeu e nem disse nada, e isso fez com que Emma considerasse o silêncio como um ‘sim’.

— Seu pai foi muito bonzinho, porque ele não te deixou sozinho aqui. E você precisa se lembrar disso. — disse com voz embargada — Ele morreu, mas te deixou aqui comigo, com sua mãe, com seus avós, com o Roland e a mãe dele e seus amiguinhos da escola. Há um monte de gente para cuidar de você. Lembra-se de quando eu lhe contei sobre a senhora que cuidou de mim? Estávamos no hotel com a sua mãe, lembra? — Henry respirou fundo e afastou-se um pouquinho para ouvir o que ela estava falando — Aquela senhora cuidava de mim e outras duas crianças. Nós não éramos irmãos, mas ela fazia questão de frisar que éramos família. Ela cuidou muito bem de nós, até um dia em que não estávamos em casa e um ladrão entrou. Ela morreu naquele dia. E eu fiquei muito, muito, muito triste. Igual você está se sentindo agora. Mas não tinha ninguém para cuidar de mim ou das outras crianças depois que ela morreu, e eu fiquei sozinha e não tinha ninguém com quem conversar.

Ela fez uma pausa, vivendo novamente aqueles dias difíceis até que Henry lhe acariciou o braço do mesmo modo que ela havia lhe feito antes. Aquilo a fez voltar ao presente e sorrir para ele.

— Mas você tem a gente, filho. Você pode falar conosco sempre que ficar triste e chateado. Ou que se sentir muito feliz. Promete?

Ele assentiu com a cabecinha, enxugando o rosto.

— É por isso que você é da polícia agora?

Emma o encheu de beijos.

— Garoto esperto.

— A mamãe nunca me contou essa história.

— É porque ela não sabe. Eu contei só pra você.

— Então eu posso contar para ela depois?

— Pode. — disse Emma com uma risadinha. — Sabe do que eu lembro quando penso nela? Dos anéis de cebola que ela fazia para a gente nos domingos. Feche os olhinhos e pense no Robin. O que você vê?

— Ele segurando minha mão e a do Roland. E o dia que fomos no zoológico. E ele… ele derrubando nosso portão. — disse com voz amuada.

— Está tudo bem, Henry. Seu pai fez um favor pra gente ao derrubar o portão. Eu não gostava daquele portão, você gostava? Agora não precisamos ter pressa para repor outro. Podemos ficar só com as cercas do quintal dos fundos e ter a entrada como das outras casas. O que você acha?

Fora uma boa saída, pensou Regina que ouvia a conversa há algum tempo. Ela havia conseguido dormir um pouco, mas todo seu corpo estava em alerta e quando os cochichos começaram ela despertou. Regina estava consciente do hábito que temos de antecipar a angústia alheia pela nossa própria e de darmos informações além das que se precisa e pediu. Mas Emma tinha uma capacidade incrível de contornar situações embaraçosas. Talvez fosse pelo trabalho que exercia. Talvez fosse pelas lições que a vida tão dificilmente havia lhe ensinado. Ou talvez fossem ambos. Por um momento, até ela quis dizer que não gostava do portão. Mas logo se lembrou dos motivos que as levaram a colocá-lo e isso a manteve calada. Não seria muito inteligente deixar escapar que o culpado pelo portão na entrada era Robin. E a ironia atacava de novo, ponderou ela, já que ele havia sido o motivo para colocarem o portão, que supostamente deveria impedi-lo de entrar na casa, e que naquela tarde quase não cumprira seu propósito.

— Eu também não gostava do portão. — concedeu Henry após um tempo.

— Nunca consegui lembrar de nada do que ela vestia. Você se lembra de alguma roupa dele?

— Não — confessou Henry fungando novamente.

Regina não saberia expressar em palavras o alívio que sentiu pelo filho não se lembrar do casaco cinza claro e a blusa cinza que ele vestia no dia anterior. Mas ver a dor nos olhinhos escuros dele lhe dilacerava o coração.

— Nem do casaco verde? — perguntou Regina bem baixinho pegando-os de surpresa.

— Mamãe!

— Regina! Há quanto tempo você está acordada?

— Só um pouquinho — mentiu. — Você não lembra do casaco verde dele, Henry?

— Ahaaam! Eu lembro! Tinha um bolso na frente e ele usava com luvas! Eu lembro sim!

Houve um breve sorriso no rostinho dele que deixou as duas mulheres satisfeitas.

— Muito bem, garoto. Vamos cuidar para que você não se esqueça dele e nem do que ele usava ou gostava. Combinado?

— Combinado.

— Vamos falar mais sobre isso mais tarde, meu anjo. E se você quiser ir conosco se despedir dele, você poderá ir. — assegurou Regina estendendo seu braço para estreitá-los contra si.

— Tenho que ir na escola amanhã? — perguntou preocupado.

Regina acenou negativamente sua cabeça.

— Não. Você não precisa ir até que queira.

— Eu não quero. — cochichou novamente, virando-se para Emma visivelmente aliviado.

— Então você não precisa, garoto. — reforçou a loira. — Mas por hora, acho que devemos dormir.

— Não se preocupe, Henry. — pediu Regina descansando seu rosto no ombro do menino — Estaremos aqui do seu lado se você precisar. Você está com frio ou fome?

— Não.

— Então vamos descansar.

Henry, contudo, não relaxou ao lado delas a ponto de permiti-se dormir. Trocando um olhar apreensivo com Emma, Regina pensou no que poderia fazer pelo filho. Emma acariciava os cabelos do pequeno quando a voz baixa e doce de Regina os envolveu.

“Durma agora e sonhe com os que vieram antes”

O som fraco de sua voz falava de repouso e praias distantes, e do chamado de gerações anteriores. Henry se aconchegou entre elas e fechou os olhos. Regina seguiu perguntando baixinho o que eram as lágrimas no rosto dele e prometendo que os temores não seriam duradouros.

"Logo você verá que todo esse medo passará. Você está seguro em meus braços e está somente dormindo."

Emma segurou a mão dela, que estava sobre Henry, e também fechou os olhos. A última coisa que ela ouviu foi a melodia sutil entoada pela morena e a vontade crescente dentro de si de que aquilo realmente logo se concretizasse.

"Logo você verá que todo esse medo passará.”

Notas finais
Até que a gente não demorou muito né? Para a alegria do povão. ~SPOILER ALERT~ (não me mata, sis) O período dark de MCC ta acabando (amém senhor!), capítulo que vem encerramos essa parte do Robin. Não tenho muito para dizer gente, apenas que estamos as duas de férias (amém again) e que postaremos com mais frequência. Quer dizer, "mais" frequência é eufemismo né, pq estávamos desaparecidas nessa parte do Nyah. Enfim, vocês gostaram? Comentem! A gente sente falta dos comentários de vocês. Sei que não temos respondido tbm, mas como diria meu amigo Jack, vamos por partes. Primeiro vamos atualizar a fic com vários capítulos, pra todo mundo ficar feliz :D Então é isso gente. Queria mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você Xuxa. Brincadeira. Beijo grande, HeyBones.