Maçã com Canela
41 Capítulo 41
Notas iniciais
O barulho ensurdecedor zumbiu em seus ouvidos. A dor insuportável era semelhante a vários espinhos cravando e perfurando a pele ao mesmo tempo e em todos os ângulos possíveis. Era a angústia que causava tal sofrimento e não a bala em si.
Seus olhos procuraram fixar-se em algum ponto, mas sua consciência esmaeceu de forma intensa e rápida, numa fração de segundos que findou quaisquer sentimentos e pensamentos. Sabia o que estava acontecendo, mas na verdade não importava. Ele já não tinha mais tempo para reagir.
A sombra distinta da morte tomou conta do cômodo e uma serenidade absurda formou-se em sua mente. Enfim, as verdades haviam sido queimadas e as mentiras silenciadas.
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Os carrilhões do relógio soavam tão alto que sua atenção era desviada totalmente para eles. Regina ainda recordava o relógio que ficava na sala da casa de seus pais, contando os lapsos de sessenta minutos, que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono. Como ela o odiava por marcar tão secamente sua insensatez e suas fortunas.
Os ecos altos e claros do tom musical preenchiam sua cabeça agora, mesmo sendo apenas uma lembrança. Se ele pudesse falar, zombaria dela naquele momento. Maldita hora em que achou que iria descansar e alcançar um pedaço do céu, que naquele exato instante desmoronava resoluto. E cada minuto parecia fazer o relógio soar mais frívolo, obscuro e mortal.
— O que está acontecendo? — perguntou a voz amuada que entrava na sala. Os olhinhos escuros observavam atentamente a expressão dos adultos que o rodeavam, e não gostavam do que viam. Suas mães empalideciam à sua aproximação e seus avós tentavam ocultar o quão alarmados estavam.
O tom melindroso de Henry despertou Regina, que esquecia-se do relógio e ouvia agora somente o som abafado das batidas de seu coração. Ela nunca soube exatamente como acontecia, mas naquelas situações um interruptor era acionado dentro dela, fazendo com que deixasse de ser somente Regina para ser a mãe que o garotinho assustado a sua frente precisava.
— Não sabemos ainda, meu amor. — a voz dela soou embargada. Quando fez questão de se por de pé para chegar até o filho, Emma a interrompeu adiantando-se até ele e apoiando-se em um joelho pra ficar na sua altura.
— Henry, está tudo pronto? Você terminou de colocar os guardanapos na mesa? — ele acenou positivamente, encarando-a com toda sua atenção e sagacidade. — Vou precisar sair, e você estará responsável por ajudar seus avós e sua mãe, okay?
— Tudo bem. Mas onde você vai? Não pode ficar e jantar com a gente?
— Estão me chamando na Delegacia.
— Por causa do papai de novo?
As paredes da sala pareciam mais próximas e frias, e o ar pesado e silencioso carregava uma hesitação tão significativa e profunda que parecia ser capaz de sufocá-los.
— Sim, querido. É por causa do seu pai.
Emma achou que ele fosse disparar inúmeras outras perguntas para cima dela, mas não foi o que fez. Ao invés de tentar obter respostas para suas dúvidas, ele a abraçou pelo pescoço e ficou ali inalando o cheiro de banho que ela tinha. Sabendo que ele deveria ter ouvido o que Regina disse e que o choque ainda não o permitira processar o que significava, ela o pegou no colo e sentou-se perto da morena novamente.
Como podia achar que ele seria capaz de entender o que havia ouvido, se nem eles estavam compreendendo? E o que uma criança sabe sobre falecimentos? Nada. Crianças não deveriam saber nada, pensou com amargor.
— Está tudo bem, garoto. Tudo vai ficar bem. — murmurou Emma enquanto Regina encostava sua cabeça nas costas dele e lhe afagava o bracinho esquerdo. O céu continuava caindo e ela não sabia o que fazer.
— Henry, — chamou a morena puxando-o com toda delicadeza para seu colo — teremos que adiar o jantar. Você quer comer ou prefere um copo de leite?
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, enquanto brincava com a corrente de prata que ela levava no pescoço.
— Talvez mais tarde, então. Nós precisamos resolver alguns problemas, filho, e as coisas vão se complicar por aqui. Você quer ficar na casa de algum amiguinho? Do Thomas, talvez? Não gostaria de passar a noite brincando com ele?
O aceno negativo aumentou o nó em sua garganta. Cora e Henry, que permaneciam calados desde o telefonema, resolveram mediar a situação, na tentativa de alegrarem Henry e apagar a expressão desolada do rosto bonito da filha.
— E que tal ir pra casa da vovó? Podemos brincar na minha roca e contar algumas histórias. Aposto que ainda não te contamos sobre o Rei Midas.
— Não, — murmurou demonstrando certo interesse — não contaram. E nós vamos dormir lá? Todos nós?
— Sim! — garantiu Henry aproximando-se e estendendo os braços pra ele — Garoto! Sinto dizer, mas não sei se poderei te pegar mais no colo não. — revelou quando ele aceitou mudar de colo. — Você está cada dia mais crescido e pesado! O que você anda comendo? Chumbo?
— O que é chumbo, vovô? Eu nunca comi isso.
— Seu avô se expressou mal, querido. Chumbo não é de comer. É um metal. Mas eu te explico melhor depois, quando for te contar a história do Rei Midas. Agora, vamos pegar o pijama para podermos ir.
Henry soltou-se do avô e ficou olhando para as mães, que apesar de estarem encarando-os pareciam um pouco alienadas. O pedido mudo de permissão fez Regina abrir a boca e depois fechá-la. Talvez por ser uma extensão da sua própria casa, a casa dos avós parecia um refúgio atrativo para filho. E não poderia negar, pra ela também.
— Sim, vá arrumar as suas coisas. — confirmou, sabendo que concordaria até com uma viagem à lua, caso isso fosse deixá-lo mais animado.
— Vocês também precisam pegar o pijama. E a escova de dentes! Eu não preciso mais, porque o vovô e a vovó me deram uma pra deixar lá.
O orgulho era evidente na voz dele, que ainda saía em meio a pequenas pausas. Regina tinha certeza que logo ele estaria andando pra cima e pra baixo com um dicionário nas mãos e não precisaria mais deles para explicar nada. Pelo contrário, seria ele a dar explicações. Aquela imagem do filho crescido e ainda mais expressivo lhe permitiu ter algo diferente no qual pensar.
— Claro, querido. Mas Emma e eu precisamos falar com seus avós primeiro, então vá na frente. E não esqueça de pegar seu dinossauro!
— O que vocês precisam falar?
— Ah… Bem, nós precisamos resolver sobre…
— Toda a comida que temos. — interviu Emma indo em seu socorro — Você acha que devemos levar tudo ou separar?
— Vamos levar tudo e fazer um piquenique!
— Vai ser divertido. — disse Henry, olhando para Cora no instante em que o celular de Emma apitou novamente. Isso fez com ela se abaixasse para pegar o telefone que jazia esquecido no chão. Apressadamente ela digitou uma mensagem explicando a situação para Alexa, e garantindo que em trinta minutos estaria lá.
O vento forte assobiou do lado de fora, e inesperadamente um som crescente e contínuo contra a janela da sala recomeçou.
— Henry? — chamou o avô antes do garoto sair. — O que é que cai de pé e corre deitado?
Inclinando levemente a cabeça para o lado, ele repetiu a pergunta baixinho.
— Eu não sei, não.
— As gotas da chuva. — revelou fazendo um sinal com a mão para que ele prestasse atenção. — Está chovendo de novo!
— Será que vai nevar? Tomara que neve.
— Neve em outubro? Se o tempo continuar oscilando assim, viraremos sorvete antes do Natal! — gritou Emma quando ele saiu.
Assim que ficou de pé, Regina ouviu uma risada fraca vindo das escadas e soube que Henry ficaria bem. E essa era a única coisa coerente que lhe passava pela cabeça no momento, porque o restante era irracional.
— Não consigo acreditar no que está acontecendo... Que Robin está realmente morto. — deixou escapar enquanto tentava direcionar seus pensamentos.
Cora e o marido abaixaram a cabeça, e Emma tentou segurar sua mão, mas ela a tirou de seu alcance. Seu coração batia tão rápido como um tambor que anunciava guerra. A consciência que o pesadelo só estava começando a atingiu como um dos raios que caía lá fora.
— Sejam sinceros comigo, qual de vocês o matou?
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Uma vez no interior de sua casa, ou melhor, dentro do lugar que lhe servia de abrigo, já que casa no sentindo profundo da palavra lhe era desconhecido há muito tempo, Robin sentiu-se enjoado e destruído. Aquele pequeno e desolado cômodo era parte do único local que tinha para ir, mas nem ali sentia-se confortável mais. Era somente uma sala sem voz, um pedaço ínfimo da sua vida fragmentada.
Ver a mulher que tanto amava estirada no chão lhe fez estremecer e sentir o estômago quase sair pela garganta. E depois o filho lhe virou as costas, exatamente como a mãe havia feito.
“Fiquei esperando por este momento e você nunca veio. Agora segui em frente e estou feliz. E Henry também.” Cada palavra dita lhe perfurara o coração, como um punhal cortando a carne. E, mesmo agora, ele sentia a dor e o pânico invadindo-o. Nunca se sentira tão sozinho e triste como naquele momento. Aquela escuridão que o cercara quase fazendo-o sufocar o obrigou a sair dirigindo como louco para bem longe do número 108.
Ao seguir em frente, sem parar numa esquina que dava para a avenida principal, ele quase chocou-se com uma motocicleta que vinha no sentido oposto e em uma velocidade tão rápida quanto a dele. O motoqueiro buzinou, praguejando e xingando-o, mas ele não não se importou. Não lhe importava mais nada, afinal. Tudo que havia planejado escapou por entre seus dedos, tão rápido quanto água. Não conseguira ter a seu lado a mulher maravilhosa que Regina era e tampouco destruir a felicidade que ela possuía longe dele.
Naquela manhã, quando acordara, decidido a acertar as coisas, não cogitou, nem por um minuto sequer, que a lacuna que havia em seu peito poderia aumentar. E, agora, lá estava, conhecendo e sentindo-a mais intimamente.
Desespero. Agonia. Dor. Estes e outros sentimentos que não sabia como nomear queimavam seu peito e sua garganta. Depois de todos aqueles anos, deveria ter sido óbvio que Regina e ele não ficariam juntos. Por que não conseguiu ver isso? E por que diabos Cora tinha que estar tão malditamente certa? Regina era agora outra pessoa. E ele também, não podia negar. Mas no que havia se tornado? E por que não pode enxergar antes?
A maneira como as coisas haviam ocorrido e ainda estavam acontecendo lhe atormentavam o juízo. Assim como a temperatura lá fora, seus sentimentos alternavam-se e o tom de sépia que começava a atingir as árvores já lhe coloria também a alma. Por que tudo era tão penoso?
Ele não conseguira fazer Regina o amar e isso machucava. Ao fechar os olhos viu seu olhar brilhante, seus lábios vermelhos e seu rosto bonito. E aquilo lhe penicou o corpo, como múltiplos beliscões, fazendo-o compreender que nunca a esqueceria indo embora pela terceira vez.
Ou seria a quarta?
— Maldição! — praguejou.
Ela lhe dera as costas novamente. Não poderia dizer o número exato, mas sabia que não era a primeira vez. E haveria outras, se deixasse.
Robin estava imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não moveu um músculo, e durante esse tempo não se importou com mais nada. Sua concentração voltava-se para cada momento ao lado de Regina, cada conversa que tiveram, cada detalhe que levava no coração. E quando o pesar sobrepôs todo o resto, como já havia feito outras vezes, ele continuou em pé no corredor, mas ignorando as armadilhas amargas de sua mente e prestando atenção somente ao tiquetaquear dos relógios fúnebres que havia pela casa.
Balançando a cabeça e saindo do aparente transe, ele caminhou com passadas largas até a sala que antes funcionara como seu escritório. Parando em frente ao espelho que ficava em cima da lareira, observou com severidade sua figura. Para quem preocupou-se excessivamente com estética uma vez, a situação em que se encontrava agora revelava seus graves problemas com confiança e autoestima.
Suas roupas não estavam tão amassadas, mas os vincos revelavam seu desleixo, e a pele cinza como geada denunciava que não ingerira algo sólido num espaço de tempo considerável. Os sulcos da face evidenciavam os desgostos e a saúde mal cuidada, assim como as sombras sob os olhos lhe revelava o cansaço e os tormentos que andavam lhe massacrando o corpo e o espírito.
Encarando-lhe com espanto e estranheza, a figura no espelho o olhava fixamente, revelando um corredor escuro e vazio por trás dele.
Mas não estava tão desocupado como ele imaginava.
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Devia ter ficado de boca fechada, Regina reconheceu, nauseada. O que quer que ouvisse, seria mais um golpe na sua vida já perturbada e revirada. Seus olhos desfocavam-se facilmente e sua pele estava tão pálida, que Cora temeu que a filha desmaiasse.
— Regina…Volte a se sentar, por favor.
— Conte primeiro o que você fez essa tarde, mãe. Foi você? — perguntou arrastadamente.
— Como ousa me dizer tal coisa? Posso ser baixa e fria, Regina, mas não tanto a ponto de matar um homem. Mesmo que ele merecesse e eu já o tivesse ameaçado de fazer.
Pelo canto do olho ela espiou o semblante do marido. Será que ele… será que Henry poderia ter feito algo contra Robin? Sua boca se apertou até formar uma linha dura, como se isso pudesse resolver o problema de alguma maneira.
— E não me venha com esse olhar inquisidor, porque tenho certeza que não matei ninguém essa tarde. Para ser sincera, passei meu tempo testando meus dotes culinários. Como você sabe, Kate está nos deixando devido a gravidez e queria a receita daquele cheesecake de amora que você gosta. Me propus a aprender a fazê-lo, mas não fui tão bem sucedida nessa tarefa. Aparentemente cozinhar não é mais pra mim.
— Então foi isso que você chamou de loucura? — perguntou Henry levantando as sobrancelhas.
— Não me diga que… Fracamente Henry! — esbravejou Cora indignada — Mas se você quer saber, eu também achei seu comportamento estranho. Você disse que resolveu fazer uma coisa e que eu ficaria sabendo mais tarde. Bem, adivinha? Já é mais tarde. O que você fez?
— Aquilo que você disse sobre surgir coisas… — Regina deixou a frase inacabada, não querendo mencionar o nome de Emma. Se Henry confirmasse, seu mundo cairia. E se lhe dissesse que não fora ele, seu mundo seria transformado em pó, pois só restaria sua noiva como opção.
— Pai, por favor… — implorou mordendo o lábio inferior trêmulo, sem saber ao certo o que pedia. Como era possível estar parada na sala de estar discutido sobre o possível assassinato do ex-noivo? Como chegara aquilo? Apertando a língua entre os dentes com força, resolveu deixar para remoer mais tarde os tormentos que aquela preocupação cega com sua família e desprovida de sensibilidade para com a morte de Robin lhe causava.
— Desculpe por você ter que passar por isso, Regina. Mas não, não fui eu. Trabalhei o dia todo e por mais que quisesse facilitar as coisas pra você, matá-lo não era de fato uma opção.
Cora escondeu as mãos que tremiam, e nada tinha a ver com o ar frio, no bolso do casaco e lançou um olhar para Henry que deixava bem claro que conversariam mais tarde. Seu marido poderia ter sido vago na frente delas ao não revelar o que quis dizer ao chegar em casa, mas assim que estivessem sozinhos iria querer uma resposta decente.
No momento, contudo, sua atenção estava concentrada na filha que inspirava profundamente várias vezes. Olhando por sobre o ombro dela, Cora notou o rosto de Emma ficando tão branco quanto o de Regina, agora que começava a entender a lógica que havia ali.
Regina engoliu em seco, reprimindo a vontade de gritar e vomitar. Voltando-se lentamente, ela encarou Emma. Seu tornozelo latejava, mas ela o ignorou e ficou trocando seu peso de uma perna para a outra. Cada célula do seu corpo estava em alerta e temendo o que seguiria, já que a resposta dela mudaria suas vidas para sempre.
— Em? — chamou sombriamente, enquanto a observava sentar na ponta do sofá e inclinar-se para frente. A loira arregalou os olhos para a noiva ao ouvir a sílaba simples sair de sua boca. Os únicos ruídos eram as chamas crepitando e os passinhos de Henry no andar de cima.
— Fui treinada para matar, — disse lentamente e com voz rouca, enquanto apertava as mãos em punhos — mas não sou uma assassina, Regina. É estranho pensar que, mesmo por um momento, você tenha considerado a possibilidade do meu envolvimento. Ou dos seus pais.
— Oh, não! Você não pode julgar. Vocês, — disse controlando o timbre de sua voz enquanto apontava para Cora e Henry — eu vi o olhar que trocaram quando me ouviram dizer que ele estava morto, e você mentiu pra mim. Alexa disse que não esteve com você essa tarde. Não venha me dizer que estou sendo desleal de alguma forma, porque não estou.
— Não vou ter essa discussão com você agora. Preciso ir ajudar a Alexa.
— Tem certeza que vai mesmo encontrar-se com a Alexa? Porque sabemos que na última vez que ouvi isso era apenas uma desculpa.
— Você está abalada com tudo isso e está descontando na pessoa errada, Regina. E estou com menos humor que você para ficar aqui ouvindo suas alfinetadas.
— Bem, eu vou com você, quer queira quer não.
— Com seu pé desse jeito? Não há a menor possibilidade! E digo isso, enquanto tenente.
— Regina, acho que Emma está certa, você…
— Sim, eu vou. — replicou a morena ignorando o pai. — E digo isso por ser a única pessoa disponível a conhecer a vítima.
Dizer tal palavra fez sua cabeça rodopiar mais um pouco, mas ela reuniu todas suas forças para não deixar transparecer o quão abalada com tudo aquilo estava.
— Se precisarmos de alguma coisa, lhe telefonaremos.
— Ao inferno com telefonemas! Eu vou até lá de qualquer jeito. Você vai preferir me levar ou terei que chamar um táxi?
— Henry! — gritou Cora para calá-las ao ver o neto entrar na sala. — Estávamos decidindo em qual carro você vai e adivinha? Será no nosso!
— Oba! E a comida?
— Pode deixar que depois a levamos. — resmungou Emma, saindo com cara fechada para ir pegar seus casacos.
Regina fechou o zíper do paletó marrom de Henry e lhe beijou a ponta do nariz, enquanto sorria e lhe pedia para se comportar.
— Chegaremos lá mais tarde!
— Tarde que horas?
— Não sei. Mas você nem vai ver o tempo passar! Parece que a vovó fez uma torta com cobertura de amora pra gente. Você pode experimentar primeiro.
Os olhos escuros de Cora deixaram transparecer sua repreensão, já que ela tinha certeza que havia deixado claro que o doce não estava tão comestível quanto gostaria.
— Você consegue calçar suas botas sozinhas? — perguntou Emma secamente.
— Sim, obrigada.
Pegando o calçado das mãos dela, Regina fingiu com toda sua altivez que nunca havia sentindo dor de espécie alguma. Nem física e nem emocional.
Ignorando com dificuldade a morena, Emma despediu-se do filho, de Cora e Henry. Colocando no coldre sua arma, que fora buscar na caixa que deixava trancada no quarto, e no bolso seu celular, ela aguardou Regina sair para acionar o alarme.
Cinco minutos depois, dentro do carro, a única coisa questionada por Regina foi o local para onde iriam. A tenente hesitou por um momento, mas acabou revelando o endereço da casa de Robin. Só houve um murmúrio de surpresa antes do incômodo silêncio prevalecer novamente.
O céu lá fora estava nanquim, e as luzes do farol pareciam brilhar ainda mais em meio à chuva. A dúvida crescente sobre o homicídio de Robin estava atormentando-a, mas reconhecendo que as próximas horas prometiam ser dolorosas, impediu com toda sua força que as lágrimas quentes ofuscassem a indistinta vista da janela.
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O outono em Chicago estava chegando e as folhas já começaram a cair. O vento soprava forte e espalhava lágrimas tristes pelas ruas.
Numa fúria cega, Robin saiu fechando as pesadas cortinas do escritório, para impedir que a luz vespertina revelasse ainda mais sobre sua figura.
Uma janela, contudo, ficou aberta, deixando o vento gelado passar e fazendo os tecidos balançarem lugubremente na parede, representando as figuras sombrias que pareciam envolver o cômodo.
Talvez fosse pelo tempo que passou encarando o espelho que podia sentir o escritório sufocante e ocupado.
Quando era menor, em seus dez ou onze anos, sua mãe costumava recriminá-lo por olhar para o espelho por muito tempo. Ela era uma daquelas pessoas supersticiosas, que acreditavam que espelhos podiam deixar monstros entrar se você permitisse.
Robin, por outro lado, costumava olhar dentro de seus olhos para que a tristeza passasse. Dessa vez, porém, sua tática falhou e o que sua mãe dizia parecia ser verídico.
Após acender o fogo na lareira de pedra, voltou-se com brusquidão para a luz da enuviada tarde que entrava pela sala, juntamente com o vento estrondoso, e os obrigou a ficarem fora de sua profunda meditação e lamentação.
Os fortes pingos de chuva cobriam o barulho da sua respiração e atrapalhavam o rumo que seus pensamentos queriam seguir. No entanto, a voz doce e abalada chegava aos seus ouvidos:
“Você está atrasado. É tarde demais”
— Não, não! — rosnou apoiando as costas na parede e escorregando por ela, como se o seu único desejo fosse afundar no concreto e sumir. — Regina!
Naquele momento, pela segunda vez no dia, ele percebeu que não estava sozinho na casa. O ar ficou pesado e mais quente, como se o Infortúnio o abraçasse, ao invés de apenas sentar-se ao seu lado e o encarar com um olhar cinzento e melancólico. Sua expressão indagadora deixava claro que não queria estar ali, mas de algum modo estava e não sairia agora que se acomodara.
Sim, ele havia tido oportunidades para ser feliz e as deixara passar. Atormentado, olhou mais uma vez para a sombra ao seu lado e notou que a mesma sobrecarga que parecia lhe pender os ombros para a frente o acometia naquele momento. Um peso mortal o dominava, oprimindo seu peito, os móveis da saleta e os copos espalhados que uma vez contiveram líquidos ambares e transparentes .
O álcool, ao qual Robin sempre recorrera durante aquela fase, já não o confortava como antes. E a ressaca pelas manhãs o deixava ainda mais irritado.
Robin culpava a sombra da infelicidade pelo abandono da noiva, bem como por sua predileção por bebidas, que possuíam um jeito misterioso de fazer as dores físicas e emocionais passarem. Na única vez que se descuidara, a volubilidade tão característica do azar se instalara no fundo de sua alma e lá ficara até hoje, transformando-o junto com ele.
A Melancolia chegou, acompanhada pela Solidão, ambas tão sorrateiras e ardilosas que era impossível dizer o segundo exato em que o consumiram. A única coisa que reconhecia com precisão era o quanto o chicote que elas brandiam o machucava. O estalo provocado dentro do seu peito deixava seus ouvidos alheios ao som da chuva, da casa e da tarde que se findava.
Como era possível sentir tão vividamente aquele estado de vácuo aparente em que sua alma mergulhara? Sua garganta estava fechada e pesada.
“Vá embora. Esqueça que nós existimos!”
Só agora notava que, com o passar dos anos, havia ficado mais sombrio e consumido pela sua obsessão com Regina e pelo amor exacerbado. A morena o rejeitava e ele a perseguia. Como chegou a isso? Perda e rejeição viraram sua zona de conforto.
O descontrole sobre suas vontades e atitudes o incomodava. Já dera valor demais à aparência, mas agora tudo estava exposto através de seu desmazelo, fosse sua personalidade insegura ou seus sentimentos verdadeiros. Há anos não conseguia manter uma conversa longa e profunda, ou um contato visual demorado. Pelo contrário, sua comunicação era superficial, sem revelar muitas opiniões ou sentimentos. Uma vez considerou seu trabalho sua única escapatória, um mecanismo de defesa para ocultar determinados pontos fracos, isso agora, porém, se fora. Da mesma forma que as pessoas do seu círculo íntimo.
A dissimulação de sua verdadeira natureza passara despercebida até mesmo pra ele, mas sob o açoite ao qual era submetido foi capaz de enxergar. Durante muito tempo vivera disfarçando sua inveja e a tentativa de rebaixar o mérito alheio, que em sua opinião sempre dependeu da sorte ou da ajuda dos outros. Fora o que fizera com Regina uma vez. Bem como acusá-la de infidelidade ou de preferência exclusiva pelo filho.
Era capaz de ouvir o Infortúnio caçoando ele. Aqueles comportamentos denunciavam sua disposição mental em mudar de assunto rapidamente ou tecer críticas com frequência, como se fossem comentários “sinceros”.
Como se tivesse sido vítima de um feitiço, ele se sentia preso por amarras invisíveis das quais não podia escapar. Sua vida imperfeita lhe causava grande dor interior.
Lúgubres são os domingos passados nas sombras. E queridas eram elas, as inúmeras sombras com as quais convivia.
Tudo parecia mais espaçado e o tempo arrastava-se. Após diversas lamentações, finalmente esgotara seu pessimismo e suas falsas racionalizações sobre nunca desistir e sempre vencer.
Quando se perde a felicidade em viver, você começa a questionar o sentido da vida. Sem Regina não havia mais felicidade pra ele. Ou vida.
Seus pensamentos eram um buraco negro no qual ele não queria entrar, mas nada o impediu de cair. A sensação de desejar tanto alguém que até dói corria tão forte por suas veias que seu peito parecia estar a ponto de dilacerar-se. Sentira-se sozinho com Marian. E incompleto sem Regina. Irritou-se e amaldiçoou a tempestade, o céu, o trovão, as mulheres e toda sua vida. E em sua maldição percebeu que estava terrivelmente infeliz e tinha consciência de que havia feito aquilo a si mesmo e de que era sua culpa.
As pessoas são impiedosas, gananciosas e perversas. E ele fora uma delas. Em tudo o que tocava injetava as características de seu estilo, que é nervoso, veloz, febril e quente feito ferro em brasa. Ao seu toque tudo queimava e virava cinzas.
Perdera a noção de sua vida e princípios quando tentou buscar novamente a aprovação da noiva e de os outros por meios escusos. Suas lágrimas e mágoas eram todas em vão.
Ou ficaria maluco e sozinho ou morreria. Como a primeira opção já era concreta, só lhe restava a resignação de que não havia diferentes caminhos pelos quais trilhar agora. Na verdade, ele não queria nenhuma outra opção.
Então, como uma canção ruim que não sai de nossa mente, insinuou-se em sua imaginação a ideia do doce repouso que o aguardava no túmulo. Chegou suave, furtivamente e foi necessário certo tempo para que ele pudesse apreciá-la devidamente, mas uma vez concebida, ela lhe atormentou cada minuto seguinte.
Havia dado vários passos, mas sempre acabava no mesmo lugar, rodeado por trevas e vácuo. A vida havia desaparecido a medida que escolhia atalhos duvidosos para seguir. Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e foi isso que fez aquela ideia parecer bem mais atrativa do que realmente era.
Saltou do lugar onde estava, num estado de êxtase, derrubando o que encontrava em seu caminho e dirigiu-se para o armário perto da escrivaninha, que ficava na extremidade do cômodo.
Lá dentro, guardadas à chave, havia uma nove milímetros, uma calibre 32 e um rifle de caça. As lembranças de quando usava tais armas para treinar sua mira e perseguir várias espécies de aves, cervos e antílopes trouxe um brilho inquieto aos olhos abatidos. Bons tempos aqueles; quando tudo era mais simples, incluindo ele mesmo.
Mas sabia que não poderia voltar no passado, mesmo querendo loucamente. O brilho metálico da nove milímetros em sua mão o fez considerar findar com a vida de outra pessoa. Havia dito que destruiria a felicidade de Regina, mas não teve forças para isso. Talvez agora pudesse fazer com eles ficassem juntos, mesmo que não fosse em carne.
Com um urro de revolta ele caiu de joelhos. Falava de amor para ela, mas dava-se conta ao pensar naquilo que seu coração estava desprovido dele. Não poderia fazer mal a ela. Não poderia. Mas queria que ela pensasse nele com a mesma intensidade e necessidade com a qual pensava nela.
E se dessa vez desse um sumiço na loira? Talvez sufocar a causa de seus tormentos fosse a solução. Estava cheio de planos e pensamentos quebrados, e a realidade se sobrepôs, lembrando-o que não os poderia consertar.
“Quero que você esqueça que nós existimos! Eu, Henry, Emma, meus pais. Esqueça-nos. Segui em frente e estou feliz. Verdadeiramente feliz.”
Tais conjecturas não tinham objetivo algum e, certamente, ele não alimentava mais nenhuma esperança em relação à Regina. Às vezes o ódio tem que acabar. E pro ódio acabar, às vezes tem que se findar com o amor também. Com tudo.
Não. De nada adiantaria tentar atingi-las, pois seu destino seria o mesmo. Tinha que reconhecer que perdera o amor de Regina e não o recuperaria mais. Mesmo se Emma não estivesse na jogada.
Maldita Cora! Novamente ela estava certa. Uma rainha bem posicionada vale mais do que um rei. Há quanto tempo havia estado em xeque não saberia dizer, mas era hora de desistir.
Se pudesse começar de novo, há milhões de milhas dali, talvez pudesse encontrar um caminho. Mas sua vida só tinha um sentido: Regina. A cada gesto, olhar e até mesmo em meio a bofetadas, Robin se apaixonava cada vez mais por ela. Se tivesse aceito a oferta de Henry e Cora, sentiria aquele vazio do mesmo jeito.
Não era só totalmente irracional, mas efetivamente perigosa a vontade que sentia de mantê-la perto de si e poder observá-la a cada momento. A vida deixaria de ter sentido se perdesse sua amada. Mas, ironicamente, ele já havia perdido.
Na conversa que tiveram hoje, se é que podia-se chamar aquilo de conversa, ela deixara claro que sua presença não seria mais suportada. Marian partiu e Regina se casaria. E era de seu conhecimento que nenhuma das duas deixariam os filhos perto dele. Por seus erros estúpidos. Gradualmente perdera todas as coisas preciosas que tinha na vida.
Nos últimos seis anos, sua vida fora uma verdadeira sucessão de baixos, com raros momentos de altos. Com o golpe final, havia chegado ao seu limite. O fundo do poço era de pedras e o deixara em pedaços sangrentos. E sinceramente, não queria fazer nenhum esforço de sair de onde se encontrava.
Seu coração estava abalado de raiva e negatividade. Procurava concentrar-se na dor, a única coisa real a sua volta, pra ver se ainda poderia sentir. Mas não podia e não queria. Estava decidido a acabar com tudo.
Um coche negro de dor já o aguardava, parado e imutável entre a porta de madeira e o piso escuro da sala. Seu mundo chegava a um término, e a esperança deixava de ter significado.
O que havia para temer?, questionou-se enquanto sentia o objeto frio na mão direita.
Assim, com um meio ao alcance de por fim aos seus tormentos, decidiu encerrar aquele nefasto dia.
O barulho ensurdecedor zumbiu em seus ouvidos. A dor insuportável era semelhante a vários espinhos cravando e perfurando a pele ao mesmo tempo e em todos os ângulos possíveis. Era a angústia que causava tal sofrimento e não a bala em si.
Seus olhos procuraram fixar-se em algum ponto, mas sua consciência esmaeceu de forma intensa e rápida, numa fração de segundo que findou quaisquer sentimentos e pensamentos. Sabia o que estava acontecendo, mas na verdade não importava. Ele já não tinha mais tempo para reagir.
A sombra distinta da morte tomou conta do cômodo e uma serenidade absurda formou-se em sua mente. Enfim, as verdades haviam sido queimadas e as mentiras silenciadas.
Xeque mate.
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