Maçã com Canela
33 Capítulo 33
Notas iniciais
— Então meninos, isso é o melhor que eu consegui arranjar. — Anunciou Emma entrando com uma bandeja contendo três copos com suco e três pratos com sanduíches. — Acho que dá para enganar a fome enquanto Regina não chega. — Ela repousou a bandeja na mesa de centro e confidenciou, sussurrando — Só não contem a ela que comemos aqui na sala, ok?
Os meninos desviaram os olhos da TV assim que Henry pausou o jogo. Olharam para a loira e sorriram, cúmplices. Ela abriu as duas mãos em direção aos meninos e eles bateram nelas, fazendo um “Hi-5” duplo.
— E então, quem está ganhando? — Questiona pegando o prato e o copo que restou sobre a bandeja, enquanto olha para eles, que devoravam os sanduíches em silêncio.
— Eu, tia Emma! — sorriu Roland com a boca rodeada de farelos de pão.
— Mas só por enquanto. — Murmurou Henry, por trás do copo, bebendo em seguida. — É porque eu ainda não peguei a manha! — exclamou ofendido.
Emma achoou uma graça e pôs-se a rir dos dois. Ela adorava passar o tempo com eles, pois faziam-na voltar a ser criança.
— Você é ruim mesmo, mano! — Roland riu com aquela gargalhada infantil gostosa, fazendo Emma rir junto. Henry fez um bico brabo muito fofo, na opinião da loira.
— Sinceramente acho que sou muito pior que qualquer pessoa nesse jogo. Então, se tem alguém que deve ser zoado com certeza sou eu. — interviu Emma, tentando aliviar o clima para que nenhum dos dois ficassem emburrados ou pior, que brigassem. Ela não tinha toda a desenvoltura de Regina para agir com eles, mas tentava com todas as forças fazer seu melhor.
— É verdade! Você tem que ver a mãe jogando mano, ela se atrapalha toda! E a mamãe! Ela nunca sabe qual botão que pula! Sempre confunde a bolinha com o “x”. — Henry rola os olhos, como se aquilo fosse um absurdo. Roland repete o ato do irmão e depois eles riem, olhando para Emma.
— Então é assim? Os dois vão ficar rindo da minha cara e da Regina? Deixa, quando ela chegar vamos fazer uma maratona de cócegas em vocês e ai eu quero ver quem vai rir aqui. — Ela comenta numa falsa ameaça. Os meninos se olham com olhos arregalados. Sabiam que as duas eram mestras em fazer cócegas, tanto que uma vez quase fizeram xixi nas calças de tanto rirem, e só não o fizeram porque Regina freou Emma antes do “acidente”.
— A gente tava brincando, tia Emma.
— É mãe, não dá bola. A gente sabe que você só é ruim porque não tem a manha. — Eles riram baixinho, fazendo Emma segurar o riso.
— Então, vamos ver quem é o melhor no esconde-esconde? Aposto que vocês não ganham de mim. — Ela levantou, pegando os pratos e os copos e os colocando na bandeja. — Vamos, coloquem os tênis enquanto eu lavo essas louças. Vamos brincar lá fora.
Os meninos berraram animados enquanto pulavam no sofá. Quando Emma ficava sozinha com os dois a bagunça era geral. Era só eles olharem para ela com aqueles olhinhos pidões e aquelas carinhas fofas que ela fazia tudo o que eles quisessem. Em completa concordância, claro.
Quando ela terminou de lavar tudo os meninos já estavam na cozinha com ela, contando como foi a aula de cada um. Esporadicamente um fazia comentário no relato do outro, uma vez que estudavam na mesma escola e ficavam juntos nos intervalos, embora estivessem em séries diferentes.
Emma foi em direção à sala arrumar a pequena bagunça de almofadas, enquanto eles a seguiam e falavam sem parar. A loira ria, comentava, perguntava, e eles falavam animados a cada segundo.
Tudo limpo e arrumado, eles foram para o jardim dos fundos. Era final de tarde e o sol estava quase se pondo.
— Certo, vamos tirar “dois ou um” para ver quem começa contando. — Disse Emma amarrando os cabelos no alto. Roland abaixou a cabeça, tristonho.
— O que foi, pequeno?
— Tia Emma, eu só sei até o 30. — Ele disse baixinho.
— Ah, mas 30 segundos é mais do que o necessário, garoto! — Emma disse animada. — A regra diz que é 30 o máximo. — Inventou Emma. O menino voltou a olhá-la animado. — Então vamos lá? Ah! Não vale dentro de casa, ok? — Eles concordaram com um acendo de cabeça. — Certo. Dooooooiiis ou um!
Eles mostraram os dedos: Emma, dois. Roland, dois. Henry, um.
— Ah, não! Eu não quero contar. — Reclamou emburrado.
— Mas é assim que se brinca filho. Todos nós vamos contar, é o jogo.
— É mano! Vamos! — Roland tinha ficado tão animado que chegava a dar pulinhos. — Vai lá na macieira da ti Gina, anda! — Ele dizia sorrindo.
— ‘Tá bom! — Respondeu o mais velho contrariado. Ele debruçou-se sobre a macieira. Embora pequena ainda, a arvorezinha já tinha um porte ideal para aquela brincadeira. — Um. Dois. Três...
Emma e Roland correram para se esconder. Emma ficou no canto da casa e Roland foi para trás de um arbusto. Aquela sensação gostosa da brincadeira apoderava-se dos três. Ao final da contagem, Henry saiu em busca da dupla, avistando o cabelo da loira voltando para trás da casa logo após ela espiar para ver se ele estava vindo.
— Te achei mãe! — O menino gritou, correndo em direção a macieira rindo enquanto a loira fingia que estava dando tudo de si naquela corrida. — 1, 2, 3, Emma!
— Ah não! — A loira reclamou falsamente, enquanto sentava na grama. Ela se divertia muito com os meninos. Henry foi em busca do irmão.
Eles ficaram assim por mais uns 30 minutos, até que o barulho do carro de Regina é ouvido e a loira tem uma ideia.
— Hey! Venham aqui. — chamou ela e eles prontamente atenderam, formando uma rodinha com ela.
— O que vocês acham de nós darmos um susto na Regina? — pergunta sorrindo e ofegante. Eles estavam sujos de grama, com os rostos vermelhos, suados e ofegantes de tanto correr. Os meninos ficam animados com a ideia e correm para se esconder. O plano era sair gritando do esconderijo quando Regina chegasse ao jardim.
—------------------------------------------
Regina chegou em casa mais tarde que o normal. O dia tinha sido cheio, pois um cavalo adoecera e o veterinário contratado não conseguira achar a causa. Isso causou um surto geral, uma vez que poderia ser uma doença altamente transmissível, e eles tinham uma égua grávida no haras que não poderia adoecer, além dos outros cavalos.
Um veterinário externo teve de ser chamado com urgência e a tarde toda foi resumida à isso, tanto que até Regina pôs a mão na massa e ajudou os domadores a transportar os cavalos dos estábulos para a pista coberta. E depois ainda tiveram que acomodar cada equino, pois eles passariam a noite ali, uma vez que os estábulos e o pobre cavalo adoecido ficariam isolados até descobrirem a causa, tratamento e cura do vírus.
A morena tomou um banho rápido antes de sair, só para tirar um pouco do cheiro forte em que estava, mas mesmo depois da rápida ducha, ainda podia sentir que estava fedida. E cansada. Muito cansada, como se tivesse carregando um dos cavalos nas costas morro à cima.
Ao estacionar o carro, estranhou as luzes internas apagas e as do jardim dos fundos acesas. Geralmente apenas as luzes perto da casa ficavam ligadas, as do centro do jardim não. Então ela seguiu vagarosamente para lá, tomando o corredor lateral de fora, até ver uma loira agachada na quina da casa, espiando a porta dos fundos. Regina sorriu. Emma se deixara levar pelas crianças de novo, e era sabido que não precisava-se de muito esforço para isso. Ela se abaixou devagar atrás dela.
— Por que você está se escondendo? — sussurrou no ouvido dela, que estremeceu de susto e caiu sentada em cima de Regina.
— Ai! — reclamou a morena ao ter as pernas esmagadas.
— Regina! Por onde você veio? Você acabou com a graça! — A loira cruzou os braços fazendo biquinho, parecendo uma garotinha emburrada, o que ficou ainda mais engraçado, pois ela estava com os cabelos desarrumados, bochechas vermelhas e suada. Regina riu daquela cena enquanto sentava direito ainda com a loira em seu colo.
— Esqueceu do corredor? — perguntou sinalizando para o caminho atrás de si que dava diretamente na entrada. Emma torceu a boca e concordou.
Regina se desculpou e lhe deu um selinho.
— Do que vocês estavam brincando? Cadê os meninos?
— Estávamos brincando de esconde-esconde. Eles estão escondidos esperando você aparecer pela porta dos fundos. — Explicou enquanto Regina colocava os fios soltos atrás da orelha, molhando levemente os dedos por conta do suor da loira.
— Certo. — Disse levantando-se e obrigando a loira a fazer o mesmo. — Não vamos acabar com a graça, não é? Volta para o seu esconderijo que eu vou fazer o “combinado”. — Emma abriu um sorriso juvenil e deu um selinho na morena, que voltou pelo corredor para entrar em casa.
Ela abriu a porta, largou sua bolsa no sofá e foi logo acendendo as luzes, enquanto encaminhava-se para a cozinha, onde ficava a porta que dava para a área externa e o quintal. Tudo isso sempre chamando pelos seus três “pestinhas”.
No esconderijo, os meninos, juntos atrás de um arbusto, sentiam aquela adrenalina de ficar escondidos. O sorriso não saia de seus rostinhos e aquela vontade súbita de não ficar parado os incomodava. Sem contar aquela pequena vontade de fazer xixi que sempre dá quando brinca-se de esconder.
A expectativa aumentou quando eles viram as luzes de dentro de casa se acenderem e a voz da morena procurando por eles. Quando a silhueta dela apareceu pelo vidro da porta eles estavam quase pulando de empolgação. E então a porta foi aberta.
— Emma? Henry? Roland? — A morena chamou, projetando o corpo para fora.
— AHHHHHHHHHHHHHHHH! — Eles gritaram enquanto corriam em direção a Regina, que colocou a mão no peito fingindo estar assustada. Logo depois, o ambiente é preenchido pelas gargalhadas dos pequenos.
— Muito engraçado. — ralhou fingindo estar brava. — De quem foi a ideia? — Ainda rindo, os pequenos apontaram para a loira, que abriu a boca e se fez de indignada.
— Ah, então é assim? É só a rainha questionar que vocês me entregam?
Eles riram, enquanto ela cruzou respeitavelmente as mãos nas costas e gangorreou um pouquinho o corpo.
— Muito bonito, senhorita Emma Swan. Eu deixo as crianças com você por uma tarde e você já os leva para o mau caminho? — Elas trocavam olhares cúmplices, enquanto os meninos se divertiam com a suposta bronca que Regina dava em Emma.
— Mamãe, não precisa brigar com a mãe não. A gente estava só se divertindo.
— É tia Gina. Era só brincadeirinha.
E era impossível resistir àquelas carinhas fofas juntas.
— Dessa vez passa. Agora venham me dar um beijo. — Ela se abaixou e abriu os braços para os meninos, que vieram rapidamente. Então ela beijou a bochecha suada de cada um, voltando a ficar reta em seguida.
— Você também, Miss Swan. — chamou sorrindo. Emma abraçou a noiva e lhe deu um beijo estalado no lado esquerdo do rosto. Ao sentir o cheiro que a morena exalava, franziu o nariz.
— Que cheiro é esse, amor? Ficou agarrada ao Rocinante a tarde inteira?
— Sim e não. Mas te explico mais tarde. Agora, — ela se virou para os meninos — que tal um banho?
— Ah, não! — reclamaram juntos.
— Ah sim! Vamos indo! Quero os dois no banheiro em 1 minuto, e logo Emma e eu estaremos lá. Vamos!
Os meninos foram arrastando os pés e fazendo manha, mas entraram e subiram as escadas em direção ao banheiro bonitinhos depois que viram que a manha não adiantaria de nada. Regina e Emma os seguiram, ambas sorridentes.
— Vou ganhar um “oi” decente? — Perguntou a loira parando no começo do corredor, enquanto puxava Regina pela cintura.
— Claro. — sussurrou Regina contra os lábios de Emma antes de beijá-los.
Após o beijo elas continuaram abraçadas, até Regina dar a mão para Emma e puxá-la para o quarto, onde a beijou mais uma vez.
— Você me ajuda com os meninos ou prefere ir tomar banho primeiro? — questionou a morena, enquanto tirava os sapatos, jóias e dobrava as mangas da camisa social até a altura dos cotovelos. Olhando as horas no relógio de punho, antes de colocá-lo sobre a penteadeira, notou que já era quase 20h30. — Vocês já jantaram?
— Ainda não. — disse Emma que estava encostada no batente da porta do quarto e olhava com admiração o “ritual de desarrumação”. — Fiz um sanduíche para nós, mas isso era umas 18h. Se você quiser, — propôs, indo em direção à morena e abraçando sua cintura. — podemos pedir pizza!
Ela não pode evitar sorrir ainda mais quando Regina estreitou os olhos para ela.
— Eu sei que é segunda-feira, mas também sei o quanto você está cansada amor. Amanhã comemoremos comida caseira. E eu te ajudo a picar os legumes. — enquanto dizia isso, ela massageava os ombros da morena, tentando tornar a persuasão mais eficaz.
— Já comentei que você é muito cara de pau e folgada, Miss Swan? — Elas riram juntas.
— Ah, amorzinho, ‘tô só juntando o útil ao agradável. — Resmungou manhosa, dando um rápido selinho em Regina.
— Espertinha. — Regina estreitou os olhos e sorriu sem mostrar os dentes, para logo depois suspirar cansada e abraçar a loira, deitando a cabeça na curva de seu pescoço. — Mas você está certa.
— Então, você pede a pizza rapidinho e toma um banho, — sugeriu, acariciando os cabelos negros — enquanto eu deixo os pestinhas arrumados.
— Você é a melhor, sabia? — Ela levantou o rosto para encarar Emma, e acariciar sua face com carinho.
— Tenho que ser, para merecer você. — Emma sorriu de forma galante.
— Você não existe, Emma Swan. — A morena riu e a beijou.
— Mamãe? — O beijo foi interrompido por um garoto de 6 anos vestido apenas pela cueca dos Vingadores. Elas o olharam.
— Vocês vão demorar? Porque a torneira travou e a banheira ‘tá quase vazando. — disse agitado e com o semblante preocupado.
— Ai meninos! — Emma saiu correndo para o banheiro com Henry em seu encalço. Regina, apesar de tensa com a bagunça que poderia resultar, sabia que a loira daria um jeito. Então, concentrou sua atenção em ligar na pizzaria.
—------------------------------------------
Os quatro já estavam de banho tomado e apenas aguardavam a pizza, que estava demorando mais do que devia. Os meninos montavam lego no chão da sala, enquanto o casal assistia a uma comédia na TV. Assim que Regina pegou o telefone para fazer uma reclamação, a campainha tocou.
— Deixa que eu atendo. — declarou a loira pegando o dinheiro sobre a mesa de centro e seguindo até a porta.
Ao abri-la, seus olhos arregalaram-se e ela deu um passo para trás involuntariamente. Seu corpo retesou-se inteiro.
— Robin?
— Boa noite, Emma.
— O que você está fazendo aqui? — Questionou fechando as mãos para conter a raiva.
— Oh, eu estou bem, obrigada por perguntar. E você? Ah, não, não quero entrar, obrigada. — Disse debochado, divertindo-se com o incômodo dela. A loira apenas revirou os olhos.
— Acabou? Agora responde.
Robin contraía a mandíbula, tentando manter-se focado. "Controle-se". "Sapatão maldita". Virando a cabeça ele tentou puxou mais ar e parecer indiferente. "Não, não. Calma, Robin. Respira. Essa não é a resposta."
— Amor, tá tudo bem? Por que a demora? — A voz tranquila de Regina é ouvida ao fundo e cada vez mais alta, conforme aproximava-se da porta. Porém, assim que parou atrás de Emma, ela congelou.
— Robin? — conseguiu balbuciar, sem demonstrar outra coisa que não surpresa.
Sim, elas estavam contando que isso aconteceria; Ter que vê-lo e enfrentá-lo. Mas não no primeiro dia da saída dele. E certamente não a noite, quando algumas lembranças ficavam à espreita.
— Regina. — O olhar do homem tomou um ar de adoração e sua voz saiu melíflua, tornando-se extremamente agradável perante a morena. — Como você está linda! — constatou abobalhado.
— Seu filho da…
— PAPAI! — gritaram os meninos, interrompendo a loira.
O corpo de Emma se tenciona ainda mais, juntamente com suas mãos que se apertam e seus pés ameaçam um passo em direção ao homem. Regina enrosca sua mão direita na dela e com a outra acaricia seu braço, tentando acalmá-la. Não podiam criar cena na frente dos meninos, que já estavam abraços à Robin.
— Meus filhos! — Ele tinha lágrimas nos olhos. — Senti tanto a falta de vocês!
— Papai o senhor vai viajar de novo? Diz que não! — Pediu Henry.
— É papai! Eu senti saudade. — Roland agarrou-se ao pescoço de Robin, que estava de cócoras, com os meninos em seu colo.
— Viajar? — Questiona, olhando de um garoto ao outro.
— É, mamãe disse isso. — Roland volta a se agarrar-se ao pai. Dos dois ele era o que mais sentia falta, pois vivia junto com Robin.
— As minhas também. — Comentou Henry, olhando para as mães que continuavam quietas, observando atentamente a cena a frente. Robin olhou para elas, revirando os olhos. “Não podiam ter inventado nada mais criativo?”. Mas, pensando bem, ele teve que dar crédito à desculpa. Era simples e não criava suspeita na cabeça das crianças.
— Não, o papai promete não viajar tanto tempo de novo. — Assim que terminou a promessa, a gritaria e a comemoração dos garotos preenche o ambiente, fazendo Robin quase cair antes de conseguir ficar em pé novamente. — Mas por hora, eu vim apenas buscar o Roland para irmos embora.
A gritaria parou e os meninos “murcharam”.
— Ah não, papai. — Resmungou Henry. — O senhor não pode ficar? Nós pedimos pizza! E vocês poderiam dormir aqui e…
— Henry, seu pai está cansado e amanhã vocês têm aula. Roland pode dormir aqui no final de semana, se a mãe dele deixar. — interrompeu Regina, cessando o entusiamo do filho.
— Mas mamãe… — Choramingou Henry.
— Sua mãe está certa, filho. — Emma e Regina encararam Robin, surpresas. — No final de semana vocês ficam juntos e brincam o dia todo.
— Mas e você? — Questionou aninhando-se ao pai.
— O que tem?
— Quando eu vou ver o senhor de novo?
O silêncio se instalou no ambiente. Os três adultos se encaravam sem saber o que responder.
— Bem, Henry, eu e seu pai vamos combinar primeiro e depois eu te respondo, pode ser?! — sugeriu Regina, suavemente.
— Tá bom. — respondeu emburrado o pequeno. — Mas por que o Roland fica mais com o papai do que eu?
— Porque o Roland mora comigo, filho.
— E por que eu não posso também?
— Porque você mora com a gente.
— Mas por que...
— Já chega, Henry. — cortou Regina. — Se despeça do seu pai.
O menino com lágrimas nos olhos deu um abraço no pai e no irmão, e depois entrou cabisbaixo. Emma o seguiu, mas só porque sabia que Robin não tentaria nada com Regina na frente de Roland.
Robin mudou Roland de braço, ajeitando-o melhor em seu colo.
— Bom, a Marian deixou ele aqui? Você sabe onde ela está?
— Não exatamente. Ela precisava ir ao centro e perguntou se poderíamos ficar com ele por algumas horas.
— Certo. Obrigada por ficar com ele, Regina. Eu vou ligar para ela e...
—Robin? — uma voz fina e temerosa pronunciou-se. Robin virou-se lentamente, afim de não balançar muito Roland, que começava a cochilar na curva de seu pescoço.
— Marian! Eu estava te procurando!
A mulher parecia ter visto um fantasma. Estava estática no lugar, e não conseguiria mexer nem se tentasse. Robin era a última pessoa que ela queria ver. Justo agora, que estava tudo dando certo, seu sonho estava iniciado e tudo se encaminhava... Por que ele tinha que voltar pra estragar o ritmo bom que conseguira?
— Eu... Eu...
Nada. Ela simplesmente não sabia o que falar.
“Pelo amor de Deus! 6 meses fora e não consigo uma recepção calorosa. Ou que envolva mais de dez palavras animadas. É completamente desanimador.”
Repreendendo-se mentalmente pela linha que seus pensamentos seguiam, Robin fechou os olhos e os abriu lentamente. Não queria lamentar. Aliás, não podia. Manter-se tranquilo e um bom ouvinte era o princípio de sua recuperação. Assim, ele deu um meio sorriso e tentou estimular a eloquência de Marian.
— Por que está voltando tão tarde? Já são quase 22h! Por onde esteve?
“A verdade ou a mentira?”, pensou Marian. Se contasse a verdade seus planos cairiam por terra. Se inventasse uma mentira talvez pudesse ter mais dias para resolver tudo e partir. E por nada ela diria o que andou fazendo a Robin. Logo não foi muito difícil optar pela segunda opção.
— Eu... Eu estava no centro e... O ônibus em que eu estava voltando quebrou no meio do trânsito, com o maior engarrafamento. Então fui tomar outro ônibus e, estava tão cansada pela correria do dia, que acabei pegando o ônibus errado. Voltei ao centro, peguei outro ônibus, o certo desta vez, e aqui estou.
Ela desviou o olhar do rosto dele por um segundo, mas depois empertigou-se e o encarou, num desafio mudo para contrariá-la.
— Tá, que seja. Vamos?! Estou cansado.
— Sim, eu só...- Marian olhou para Regina. Queria ir até ela para lhe agradecer, porém Robin estava entre elas.
— Ah, certo. Estarei no carro.
Marian encolheu-se ao máximo quando ele passou, porém sutilmente, tentando não encostar-se nele.
— Vocês sabiam? — sussurrou Marian quando ele já estava longe da entrada.
— Emma recebeu uma ligação ontem pela manhã, mas não acreditamos muito.
— Por que não me avisaram?
— Desculpa, mas achávamos que tinham te avisado também.
— Não avisaram.
— Desculpa. Não disse nada mais cedo pra não deixar tudo pior.
— Sim, sim. Fez bem. — disse enquanto tentava recobrar a postura e sua calmaria interior.
— Henry entendeu a situação e está na sala desenhando. — disse Emma aproximando-se e quebrando o silêncio. — Ah, oi Marian. — cumprimentou.
— Oi Emma. Enfim, eu só queria mesmo agradecer por vocês ficarem com o Roland e me desculpar pela demora. O fotógrafo atrasou e aí já viu, atrasou toda a sessão. Mas a princípio, as fotos ficaram lindas. Terei elas em 15 dias.
— Que bom Marian! Parabéns! — Felicitou Emma, abraçando Regina por trás e encostando seu queixo no ombro esquerdo dela. — Você já conversou com aquele meu amigo?
— Sim! Ele ficou de me ligar para eu entregar as fotos. Acho que as coisas darão certo daqui para frente. — Comentou reflexiva.
E então cada uma ficou perdida em pensamentos, desejosas que as palavras de Marian se transformassem em realidade. Cada uma tinha um receio com a volta de Robin. Cada uma, em sua particularidade, tinha um medo. Ou vários.
Elas são tiradas de seus devaneios particulares pela buzina do carro de Robin.
— Bem, já vou indo. Obrigada por olharem o Roland para mim. — disse com um sorriso apreensivo.
— Não precisa agradecer. E não hesite em nos ligar se precisar, ok? Estamos juntas nessa. — declarou Emma, abraçada à Regina.
— Pode deixar. Muito obrigada. E desejem-me sorte!
Então, ela se virou e foi em direção ao carro, que já estava ligado. Nem Emma e nem Regina saberiam dizer se a última sentença foi em relação ao trabalho que iniciara ou à Robin.
O casal entrou em casa em silêncio, e retornaram a sala. Regina parou entre a porta e os sofás, e encarou Emma por um momento, tentando entender o que havia ocorrido.
— O que diabos acabou de acontecer? — cochichou para que Henry não as ouvisse.
Desde quando Robin era agradável e não fazia cena? O auto controle dele havia sido admirável, ela não podia negar. E seu olhar não parecia mais indicar que elas estavam em perigo. Ela não saberia dizer exatamente o que era, mas tinha notado alguma coisa diferente nele. Contudo, por mais que quisesse vê-lo bem, não aceitaria tão cedo aquela nova postura.
— Não faço ideia. Mas não parece bom. Tenho dó da Marian….
— É, não parece. Eu também, mas ela sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Infelizmente. E eu não estou certa de que saberei lidar com um Robin tão civilizado assim. Depois de tanto tempo, me acostumei com o temperamento explosivo dele.
— Realmente. Porém, Regina, acho que podemos responder na mesma moeda. Fingir que não temos nenhum histórico e tals. E nós temos uma vantagem que ele não tem.
A morena a olhou, claramente sem entender.
— Nós temos você. Aparentemente a única coisa que não mudou foi você ser a única pessoa que ele de fato escuta.
— Pretendendo me usar como isca, Swan? — perguntou sorrindo lentamente — Ótimo!
— Não, não foi isso que eu estava querendo dizer.
— Mas parece bom também e já é algum lugar pra começar. E a minha vantagem é que tenho você. — disse rapidamente, com uma careta de incentivo, pra em seguida ir ficar perto do filho.
— Como chegamos a isso?! — perguntou irritada. — Maldito Robin. — murmurou pra si mesma. — Maldita boca, Swan.
Ela mal sentou no sofá quando a campainha tocou novamente.
— Mas o que será agora? Que saco. — Resmungou zangada, indo em direção à porta.
— Boa noite, senhorita. Sua pizza.
Fale com o autor