Maçã com Canela
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Emma viu o vulto de Marian espiar pela janela quando ela tocou a campainha. Seria uma conversa difícil e ela estava torcendo para que Marian fosse receptiva. E se ela não fosse, Emma teria um problema que não queria.
A casa possuia um tamanho médio, com arquitetura simples e de dois andares. Ela era pintada em um estilo de listras beges, bem discreta. A janela ao lado da porta era grande e também branca. O lugar era bem bonito por fora. E a vizinhança não era ruim, mesmo sendo um pouco afastada do centro da cidade. Emma, na verdade, esperava por algo bem diferente daquilo.
Ao abrir a porta, Emma analisou a mulher a sua frente. Com a pele de tom moreno, quase oliva, os olhos escuros e o rosto fino, era fácil entender porque Robin a namorava. O traje despojado dela, calça jeans desbotada, camiseta cor uva e os cabelos escuros soltos, contrastava com o modelo mais sério de Emma. Seus cabelos presos no alto, sua jaqueta azul, calça jeans escura e camiseta marrom eram o vestuário perfeito para a imagem intimidante que ela queria passar.
— Marian.
— Emma.
— Posso entrar? Estou congelando aqui fora.
Completamente contrariada e insatisfeita, Marian deu espaço para que ela entrasse.
— O que você quer? — perguntou direta e seca. — Robin não está.
— Eu sei. Ontem ele… Robin está preso, Marian.
— O quê?!
— Ele invadiu a casa noite passada. E, bem, como você pode ver, ele estava alterado.
Marian a observava com um olhar felino e desconfiado. Emma achou ter visto algum brilho de simpatia quando ela a observou, mas foi apenas um relance. Aquela mulher aparentava uma calma e uma compostura que ela não contava presenciar. Aliás, Emma estava sendo surpreendida constantemente ali.
— Você está falando sério?
— Eu não tenho porquê mentir. Ele foi preso por invasão e violência.
— Quanto tempo?
— Seis meses.
— Não, não. Eu poderia pagar a fiança e trazê-lo para casa. — murmurou ela, mais para si própria do que para que Emma a ouvisse.
— Ele não tem direito a fiança, Marian. Ele tem que cumprir os seis meses… Mas vamos olhar pelo lado positivo, talvez ele melhore aquele temperamento horrível nesse tempo.
— Você não sabe o que está dizendo. Robin é um homem bom. O que eu vou dizer pro Roland quando o pai dele não vier pra casa? Isso tudo é culpa de vocês…
— Você não sabe do que está falando. E é por causa das crianças que eu estou aqui. Regina e eu pensamos muito sobre essa questão, e concluímos que o melhor é dizer que Robin teve que resolver uns negócios fora.
— Eu vou dizer o que quiser. Vocês já estragaram a minha vida demais, Emma. Por favor, saia daqui.
— Pense no Henry e no Roland! — apelou Emma, ignorando sua expulsão.
— É o que eu estou fazendo!
— Não, não é! Esses garotos estão ficando completamente abalados com toda essa situação que aquele idiota do Robin insiste em criar.
— Não fale mal dele! — advertiu Marian com raiva e quase gritando.
— Eu falo o que quiser — Emma disse cuspindo as palavras e olhando ferozmente para ela. Ao chegar, ela tinha prometido manter toda sua calma e revelar o mínimo possível para a mulher, mas a postura iludida dela abalou seus nervos.
— Você acha que isso foi a única coisa que ele fez? — ela apontava para o próprio rosto, a amargura em sua voz totalmente perceptível. — O que uma mulher mais teme que um homem faça com ela, Marian? Seu namorado tão bom entrou na nossa casa de fininho ontem, totalmente bêbado, e tentou obrigar Regina a fazer algo que ela não queria. E Henry estava dois quartos ao lado. Quando ela fugiu, ele partiu pra cima de mim. Mas posso dizer que o deixei com marcas tão horríveis quanto as minhas. E com uma dor ainda pior.
Todo o controle que Marian sustentava desapareceu diante aquela declaração de Emma. Ela não tinha pretendido ser cruel, apenas fazer com que aquela mulher enxergasse que Robin não era o bom samaritano que ela achava. Mas talvez ela tenha sido dura demais. Marian aparentava estar na casa dos 20 anos e pouco e, talvez, um pouco mais de tato teria sido bem-vindo. No entanto, Emma estava segura de estar fazendo um favor pra mulher ao tentar abrir seus olhos.
— Ele conseguiu? — disse ela chocada e sentado-se na poltrona branca ao seu lado. A sala onde estavam era simples e bem iluminada. Um toque que Emma apostaria ter sido dado por Marian.
— Não. Nem comigo e nem com ela. Mas foi por pouco, Marian. Muito pouco.
— Eu… eu não imaginava que ele… que ele pudesse…
— Regina é a pessoa mais maravilhosa do mundo. Ela ama as pessoas pelo que elas são. E se ela o deixou, acredite, foi porque ele se tornou intolerável.
— Ele já me bateu uma vez — confessou Marian sem olhá-la. — Mas Robin me ama, então eu o perdoei.
Emma se controlou para não ir até ela e chacoalha-la.
— Marian, Robin não ama ninguém além dele mesmo. Desculpe lhe dizer isso, mas é verdade. Agora ele pôs na cabeça que precisa ter a Regina de volta. Ele está obcecado com ela e com o que causou ao seu orgulho masculino.
— Por estar com você?
— Sim, principalmente por isso. E porque Regina o dispensou diversas vezes e agora está com a guarda total do Henry.
Marian balançou a cabeça em sinal de desaprovação. Sua primeira reação foi de levantar e quebrar tudo. Contudo, ela estava com muita raiva de Robin para fazer qualquer movimento. Ele vivia com aquela conversa de que a mulher deveria servir e obedecer o marido, e criar os seus filhos. Ela acreditara nele. Ela largou seus sonhos por ele, esperando que ele a amassasse e lhe pedisse em casamento, mas não. Ele estava atrás de Regina novamente. Ela nunca havia sido importante pra ele a ponto de ser considerada a este ponto. Só havia aquela maldita Regina.
— Eu sempre o agradei, fiz tudo o que ele pedia. Eu só queria que ele me amasse, só queria que…
Ela engoliu o choro que surgiu e escondeu o rosto entre as mãos que tremiam. Emma foi até ela e lhe deus alguns tapinhas delicados nas costas, na tentativa de acalmá-la. Quantas mulheres mais ela teria que consolar por causa daquele canalha? Bem, ela não poderia reclamar tanto, porque senão fosse por isso ela não teria encontrado Regina e nem Henry. Porém, ela estava incomodada de qualquer jeito. Após alguns minutos, ela insistiu no assunto que a havia levado até ali.
— Marian, eu preciso que você nos ajude. Principalmente em relação às crianças.
— Mas eu não sei o que fazer. Ainda mais sem Robin. Ele que se responsabilizava por Roland, eu não entendo nada de crianças. Eu não queria um filho. Roland foi um acidente.
— Ei! Não diga isso! O garoto é um encanto e você está fazendo um bom trabalho com ele.
— Eu não acho, Emma. Eu não gosto de ter que lidar com ele. Eu estou completamente frustrada e sem Robin aqui para ajudar, eu me sinto perdida.
— Não acredito que você contava tanto assim com ele.
— Ele não era tão ruim com o garoto.
— E o que você vai fazer depois que ele voltar? Você acha que ele vai se preocupar em cuidar de vocês e educá-lo bem? Esperamos que não, mas ele vai estar mais vingativo que nunca, Marian.
Os olhos marejados de Marian se abriram encarando-a e suas pupilas dilataram. Emma sabia o que aquilo significava: medo.
— Você poderia planejar sair daqui e começar a viver apropriadamente. Quem sabe talvez achar um alguém que seja merecedor de você...
— Não há muitas pessoas por aí que são como você, Emma. Ainda mais homens. Eles não estão interessados em alguém que vai trazer um filho a tiracolo.
— Não pode-se generalizar, Marian. E Roland faz qualquer um se apaixonar por ele.
— Bem, eu quero que alguém se apaixone por mim e não só pelo meu filho.
Emma queria revirar os olhos. Marian não era de todo ruim, mas parecia estar acostumada a conseguir o que queria e do modo como queria. Emma não tinha muita paciência com pessoas assim.
— Você nunca quis fazer nada da sua vida? Se afastar às vezes é uma boa opção…
— Eu queria ser modelo. Robin disse que ia me ajudar, mas depois ele pediu para que eu cuidasse da casa e logo Roland apareceu. Não há a mínima chance de eu conseguir isso agora, ainda mais carregando um filho para cima e para baixo.
— Você acha que Roland é um problema tão grande na sua vida? — disse Emma bruscamente. Ela sentou no braço da poltrona oposta, olhando para Marian.
— Eu não o chamaria de problema, afinal de contas é meu filho, mas, como eu disse, ele não foi planejado. E eu não levo jeito em ser mãe.
— Se eu propor um acordo Marian, pra te ajudar, você pensaria em fazê-lo? Porque talvez isso ajude a nós duas.
— O que você quer? — perguntou ela novamente, mas sem arrogância.
— Obviamente eu ainda tenho que conversar com Regina, mas… talvez nós possamos cuidar de Roland pra você. Assinaríamos alguns papéis que nos faria guardiãs dele na sua ausência. E sobre ser modelo, eu acho que ainda há chances. Eu tenho um amigo em Nova York que talvez possa te ajudar. Você liga e conversa com ele. Seu prazo é de seis meses, Marian. Antes que Robin volte e transforme você no brinquedinho dele de novo.
— Eu não sou o brinquedo de ninguém — garantiu ela elevando a voz e erguendo o queixo. Emma podia ver a raiva chispando nos olhos dela e todas as considerações que lhe cruzavam a mente. Ela estava fazendo o que podia e agora cabia a Marian decidir.
— Em troca de quê?
— Ah sim, em troca de você manter a versão sobre a viagem de Robin.
— Só isso? Simples assim?
— Simples assim.
Ela inclinou a cabeça desconfiada.
— O que você ganha com isso? Por que está me ajudando?
— De fato eu não ganho nada e estou te ajudando porque é o que eu faço. Eu ajudo as pessoas. Eu sou feliz agora e gostaria que todos no mundo conhecesse esse tipo de felicidade.
— Isso tudo é por causa da Regina? Essa mulher tem açúcar? Não é possível...
Emma deu uma risadinha.
— Ela é um doce, não nego. E é especial. Sim, é tudo por causa dela.
Marian não disse nada por um longo momento e Emma aproveitou para pensar melhor no que havia lhe dito. Às vezes ela tinha essa mania de falar sem pensar, e foi o que havia acabado de fazer.
“Será que Regina vai me matar quando eu contar sobre cuidar de Roland? Dinheiro certamente não seria o maior problema. Nós temos o suficiente para nos manter. E Henry iria adorar ter o irmão por perto. Ele estava pedindo por isso outro dia, não estava? Até que era um bom plano. Tomara que Regina pense o mesmo.”
— Acho que Robin estava errado sobre vocês. — constatou Marian baixinho, interrompendo os pensamentos de Emma.
— Desculpe. O quê?
— Sobre vocês serem estúpidas por estarem vivendo juntas e que isso, além de sujo, é também errado. — Ela disse isso com um olhar que pedia desculpas por estar sendo sincera. Por mais que Emma apreciasse a franqueza dela, aquilo a deixou um pouco zangada.
— Você acha que eu estar envolvida romanticamente com Regina seja um empecilho para criar Roland? Porque eu te garanto que nós somos tão normais quanto um casal convencional.
— Não, eu não acho. Não mais. Eu vi o quanto vocês prezam a família que formam. Ontem, quando Regina deu aquele tapa em Robin eu achei que ela estava fazendo-o apenas por estar ofendida, mas acho que foi uma maneira de defesa e de esclarecer as coisas.
— Hmmm sim, pode ser…
— Eu a admiro, na verdade. Vocês duas. Por assumir o que vocês têm e o que são.
— E o que nós somos, Marian? — perguntou ainda enraivecida.
— Mulheres fortes... e independentes, que não precisam de ninguém e nem se importam com a opinião alheia.
Emma a encarou. A resposta realmente foi boa, mas onde ela queria chegar com aquilo?
— Você realmente pensa isso?
— Sim. Agora sim.
— É bom saber que você tem caráter e que não se deixou influenciar pelo que Robin disse. Acho que isso é importante, ainda mais na carreira que você quer.
— É… O que eu quero na verdade, Emma, é pedir desculpas. Por ter sido conivente. Essa proposta que você me fez é muito mais do que já me ofereceram. Do que Robin já me ofereceu. Eu queria ser amada incondicionalmente por alguém. Assim como vocês duas parecem se amar. É estranho pensar nisso, admito, mas eu não tenho nada a ver com a vida de vocês e se vocês gostam uma da outra…
Emma não sabia como encarar aquele comentário. Ela queria rir e também bater em Marian.
— Uh… obrigada?
Emma começou a encaminhar-se para a porta, sem esperar qualquer outra resposta. Mas lembrando-se do que tinha dito, ela voltou-se e perguntou:
— Você realmente vai considerar o que eu disse? Porque se for, eu vou lhe deixar o número daquele meu amigo.
Marian a olhou e respirou fundo três vezes.
— Sim, eu vou.
Emma tirou uma caneta e um bloquinho do bolso interno da jaqueta e rabiscou o nome e os números que ela precisaria discar.
— Seis meses, Marian. E não se esqueça de que Robin está viajando. Temos um acordo?
— Mas e se não der certo? Você vai ser a única beneficiada.
Emma negou com a cabeça.
— Não sou eu a beneficiada. São os meninos. Você não está fazendo isso por mim, mas por Roland.
O comentário ficou sem resposta, porque Emma abriu a porta e saiu, enfrentando o vento frio e a neve que caia. Na casa, Marian ficou olhando para o papel, com o peito apertado e lutando para decidir-se entre arriscar ficar com Robin e com o filho ou ir atrás do que queria e deixar o menino em mãos mais experientes.
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À noite, Regina e Emma conversaram sobre o que havia sido discutido com Marian. Elas não chegaram a um acordo. Regina achava que seria uma confusão a mais para lidar com Robin e que Marian era volúvel demais para confiar.
— No entanto, eu realmente gostaria de ajudar o Roland. E Henry ficaria feliz em tê-lo aqui — concordou a morena.
— Acho melhor deixarmos para falar sobre isso quando a hora chegar, então.
— Se ela chegar.
— Você acha que Marian não consideraria?
— Não sei, Em. Mas não confio nela. E nem você deveria.
— E eu achando que você era a boazinha de nós duas.
— Mas eu sou eu!
Emma riu sarcasticamente, embora estivesse mesmo divertida.
— Não é não! E eu até gosto. Eu não posso ser a malvada sempre.
— Tudo bem, então! — disse Regina bufando exageradamente — Eu vou ser a malvada dessa vez.
— Ótimo. Porque eu adoraria punir você.
— Não, não, querida. Eu que vou punir você, por ser boazinha demais.
Regina riu gostosamente e a enlaçou para um beijo.
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