MUDANÇA DE CORAÇÃO

1 Talvez eu não devesse tentar ser perfeita


“Talvez eu não devesse tentar ser perfeito
Confesso, estou obcecado com a superfície
No final, se eu cair ou se conseguir tudo
Eu só espero que isso valha a pena"

— tradução do trecho da música Nervous de The Neighbourhood.

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Cabelos longos, mas tão longos que poderia se sentar nele se não fosse cuidadosa o bastante e sempre o mantivesse arrumado encima do ombro, tão brilhante e dourado que as vezes se pegava competindo com a luz do sol enquanto se encarava no lago, com os olhos azuis tão escuros que a noite se camuflava na escuridão se não prestasse bastante atenção, a pele tão clara que claramente era mantida longe do sol por feitiços refletores renovados toda as manhãs.

Pansy Parkinson tinha a autoestima firmemente lapidada pelos seus anos de criação como uma puro-sangue, regada de etiqueta e todo tradicionalismo que sustenta a cultura de seus familiares ao longo de cinco séculos até então reconhecidos pela sociedade bruxa. Estava sempre na linha do esperado pelos pais e de vez em quando nem tanto, principalmente na madrugada de um sábado com seus dezesseis anos e uma guerra explodindo em suas costas.

— Vamos embora, Nott – chamou o amigo que paquerava uma garota mais velha perto do balcão de bebidas. O festival de passagem do outono para o verão estava quase no fim, o que queria dizer que já iria amanhecer. Faltando dois meses para o fim do semestre, o verão disputava sua presença com o outono. O amigo não respondeu, então ela se levantou e, carregando sua bolsa de colo, cutucou os ossos da lateral do corpo do moreno.

— Pansy – suspirou seu nome antes de lhe enviar um sorriso sarcástico. – Não existe nada que eu não faria pela senhorita, mas, no momento, estou desfrutando da presença de um ser bastante agradável – disse se referindo a Veela que parecia ser pelo menos uns cinco anos mais velha que ele. Pansy entortou o nariz empurrando sua bolsa prateada nas mãos do amigo.

— Esclarecedor, entretanto – zombou -, você me prometeu que carregaria minha bolsa e pagaria a conta, benzinho.

A Veela olhou para ela com desdém e rolando os olhos puxou o amigo pelo braço. Antes de partirem Nott prometeu a linda garota ruiva que mandaria mensagens, deixando sua assinatura mágica para rastreio num cartão retangular azul. Quando estavam distantes o moreno contornou os ombros da amiga, seu casaco azul apertando os cabelos enquanto ele cheirava o pescoço dela.

— Para com isso, seu otário.

— Você afastou minha companhia, o mínimo que podia fazer era me dar um agrado – comentou sugestivamente levantando uma sobrancelha enquanto enrolava um fio dos cabelos loiros no indicador. Pansy suspirou olhando para a bolsa que estava na mão esquerda do amigo, jogada em cima dos ombros de Nott e seu coração acelerou, então passou as mãos pela cintura magra do amigo levantando o rosto, enquanto o moreno beijava os ossos perto de sua orelha e a apertava mais para perto.

— Só porque eu gosto de você. – A loira suspirou abrindo um sorriso preguiçoso. Nott olhou para os lados vendo se não tinha ninguém por perto e a arrastou para trás de uma hospedaria, empurrando a bolsa contra a parede enquanto passava os braços por cima do tronco da garota, pressionando seu corpo contra os tijolos aparentes. A sensação de quentura do início do novo dia não se comparava com o calor que se alastrava em seu interior com a pressão que os lábios do maior sobre os seus, nem a felicidade que se apoderava de seu ser enquanto ele repetia em seu ouvido o quanto gostava dela, a fazendo desejar que não fossem mais amigos o mais depressa possível, contando cada segundo que tentou segurar o ar para que não precisassem se afastar. Quando se separaram após o quarto ou terceiro amasso o dia já tinha se firmado e Pansy questionou-se internamente se ele já teria se esquecido da ruiva do clube, mas afastou os pensamentos.

— Vamos embora antes que alguém nos veja e comece boatos – Nott sugeriu se afastando dela. – E segure isso. – Empurrou a alça da bolsa para as mãos da loira. Com um toque de sua varinha para a direita, duas para a esquerda e algumas palavras mágicas, uma carruagem arrastada por duas anfisbenas de dois metros, suas assas permitindo carregar a carruagem sem muitas dificuldades. Esperou que o amigo abrisse a porta para ela subir, mas ele entrou sem nem olhar para trás.

— Você não vem? – ele perguntou ouvindo-a resmungar alguma coisa. Pagou quinze sicles para o duende irlandês que comandava o veículo voador não percebendo a cara de frustração da amiga. Queria gritar com ele, sabendo muito bem o tipo de criação rigorosa que ele teve. Notando sua impaciência ele se virou e levantou suas mãos. – Oh, querida, não se aborreça, sabe que temos muita intimidade para sermos tão formais entre nós. – Beijou novamente as mãos delicadas da moça que se derreteu mesmo que repetisse para si mesma que deveria ter mais compostura.

Quando chegaram em Hogwarts era quase sete da manhã e logo o café-da-manhã seria servido, ou seja, alunos estariam andando pelos corredores. Se despediram e cada um subiu para seu quarto. Entrando em silêncio, sentou-se na penteadeira, tirou a maquiagem do rosto, prendeu os cabelos e os amarrou num pano colorido e logo depois jogou um feitiço de ilusão para disfarçar antes de se deitar, já bastante cansada. Ouviu o barulho de Flora e Hestia Carrow se levantando e conversando aos cochichos. Quando acordou mais tarde já era hora do almoço, mas estava tudo bem, era fim de semana e ninguém tinha notado sua ausência do castelo e nem muito menos ninguém a procurou o dia inteiro.

.x.x.x.

— Mamãe, eu já conversei com Nott e ele vai comparecer ao encontro – choramingou para a mãe pela terceira vez na semana. Após discutirem, Theodore tinha prometido que oficializaria seu relacionamento com Pansy aquele mesmo mês, mas desde então se passaram cinco meses e nada, além dos diversos momentos em que ele desaparecera sem avisar. Draco Malfoy apareceu por trás da garota e acenou para ela antes de descer as escadas e sua mãe meneou a cabeça em negação.

— Você tem que parar de ficar rodeada por tantos meninos, minha filha, vai ficar mal falada. Deve ser por isso que o rapaz não aparece aqui em casa, deve estar com vergonha. E seu cabelo, querida – reclamou e Pansy se tornou autoconsciente de que tinha alguns fios soltos causado pelo recente estresse que a fazia passar uma das mãos pelos cabelos que caiam constantemente na frente de seus olhos. – Tão desleixada, desde pequena, e eu tenho sofrido tanto desde que seu pai nos deixou e eu só tenho você, querida – se lamentou fazendo o estômago da jovem embrulhar. – E estaremos desamparadas sem um homem de uma família influente ao nosso lado.

Pansy sentiu-se envergonhada pois a chamada de flu era feita no salão comunal da sonserina, embora ela tenha usado abaffiato para impedir que todos ouvissem, isso não a impedia de sentir alguns olhares sobre si, se tornando autoconsciente de seu cabelo não ajudava sua situação constrangedora. Se despediu da mãe usando a desculpa de que teria aula e saiu correndo para o gramado perto do lago. Encosta-se no gramado e vê Blaise brincando com Draco perto dos carvalhos, revirou os olhos ignorando a infantilidade dos dois. Jogou a bolsa e os livros com raiva no chão, sentando-se o mais calma que sua irritação permitia, pois, querendo ou não, ainda era uma dama.

Daphne Greengrass passou do seu lado com Ernesto Macmillan correndo atrás dela carregando seus livros de um lado para o outro. A loira sorriu para Pansy enquanto sacudia seu cabelo longo perfeitamente alinhado fazendo a bruxa bufar cheia de raiva. Olhou novamente para Draco e Blaise mas não recebeu nenhuma atenção, Nott continuava desaparecido desde o final do horário de almoço e Pansy nunca se sentiu mais sozinha e foi com esses pensamentos degradantes que a loira viu Hermione Granger passar sem prestar atenção ao seu redor, tendo Weasley e Potter em seu encalço, Ginny Weasley sorrindo para algo que ela dizia e Roger Davies tentando chamar sua atenção. A morena riu fazendo o moreno se iluminar e Pansy quase vomitar tamanha adoração que a escola parecia ter pelo trio de ouro, e ainda mais pela rata de biblioteca da escola. Queria socar alguém, principalmente queria socar quem não sabia valorizar o que tinha e lhe era dado de mão beijada.

Analisou a morena com maldade, procurou todos os defeitos que poderia encontrar, o que não foi nada difícil, os dentes podiam ter sido corrigidos mas era meio tortos, o cabelo era tão desgrenhado como antigamente, embora ondulado por mágica, as unhas estavam roídas e nem sequer sua pele era atraente, queimada mais em algumas partes de seu corpo que em outras, Hermione Granger era a definição de desleixada. Inteligente, sim, estudiosa até demais, mas atraente nem um pouco e mesmo assim vivia cercada de pessoas, pior ainda, vivia cercada de meninos. A morena passou por ela e nem o pescoço virou, como todas as outras pessoas, e assim, mantinha Pansy no status de paria, ou era assim que ela se sentia.

Pensou em suas notas e sabia que nunca fora negligente nos estudos, embora não fosse nenhum gênio. Não tinha nada que pudesse apontar fraqueza, nem em beleza, nem em inteligência e mesmo assim se sentia inferior, estando abaixo de alguém tão rejeitado na sociedade. Não pôde se controlar, quando viu já estava seguindo a morena. No instante em que ela ficou finalmente sozinha, quando ela resolveu ir no banheiro e a garota Weasley não a seguiu, graças a Merlin, Pansy viu sua oportunidade de extravasar toda sua raiva.

— Hey, Sangue-Ruim – chamou pela morena que a ignorou. – Estou falando com você, Granger! – gritou e mesmo assim não obteve resposta. Antes que a morena abrisse a porta do banheiro, a loira a puxou pelo braço rosnando. – Não me ignore, sua ridícula.

— Pansy Parkinson – a morena pronunciou seu nome calmamente, mas em seus olhos podia ver o desprezo. – O que me da a honra da sua presença? – perguntou e mesmo que não soasse como zombaria Pansy sentiu-se inflar de tanta raiva que sentia.

— Você é muito ridícula, sabia? Desfilando por ai com seus amiguinhos famosos que só estão com você por pena.

A morena arregalou os olhos.

— O que te faz pensar isso?

— Pelo que mais poderia ser? – perguntou lhe dando um olhar enviesado. – Já se olhou no espelho? Ninguém ficaria ao seu lado por prazer.

A morena crispou os lábios.

— Agora que já me deu sua opinião, pode me soltar? – gritou furiosa.

— Não – exclamou a loira apertando mais ainda o braço, suas unhas grandes cortando a pele, deixando marcas. Hermione tentou pegar sua varinha, mas Pansy foi mais rápida, a chutando na perna. A dor distraiu Hermione tempo o suficiente para a sonserina mobilizar seus dois braços.

— Sua louca, me solte! Pare de descontar em mim o que quer que seja que te chateou porque duvido muito que seja minha existência!

— Aí é que você se engana! – contradisse Pansy. — Sua existência me irrita muito, porque eu que me esforço tanto, ganho tão pouco e, enquanto isso, você não está nem aí e tem uma legião de fãs te perseguindo!

— Você acha que eu quero ser perseguida? E você também acha que eu me esforço tão pouco? Eu estou cansada todos os dias, Parkinson, de tanto estudar, de ter que que ajudar toda vez que Harry ou Rony têm alguma ideia maluca que provavelmente irá mata-los, de ser monitora e ter que dormir mais tarde que todo mundo e acordar mais cedo para ajudar os professores com os cronogramas das aulas e aplicar punições em alunos, enquanto isso você está fazendo o quê? – zombou a morena. — Passando maquiagem, alisando o cabelo, beijando meninos ricos...

— Você não sabe de nada! – Pansy rangeu os dentes frustrada soltando a morena que suspirou em alívio. A morena ia replicar quando Pansy saiu correndo deixando a morena confusa para trás.

Enquanto subia a escada até o seu quarto Pansy começou a chorar pateticamente. O quarto estava vazio, as camas bagunçadas e um silencio perturbador. Buscou na sua gaveta todas as suas maquiagens e produtos caros que tinha ganhado de Nott os jogando no chão e quebrando. Gritou quando o kit de sombras explodiu em diversos pedacinhos, lembrando-se que sua mãe a tinha presenteado antes de vir a Hogwarts, em seu primeiro dia de aula, sempre tomando cuidado de os usar apenas quando fosse sair para eventos importantes e isso incluía seu primeiro encontro com Theodore.

Jogou os brincos de ametista que tinha ganhado quando Theodore disse pela primeira vez que gostava dela e novamente gritou, a joia voando para debaixo da escrivaninha. As lágrimas não mais caiam quando Pansy segurou a caixa de joias e as jogou na parede. Tinha enlouquecido.

— Louca – sussurrou para si mesma quando a realidade do que estava fazendo a acertou. Se ajoelhou catando todas as joias que encontrava, contando para não perde nenhuma. – Sua louca.

Quando terminou de guardar tudo e conseguiu se acalmar, arrumou seu cabelo e saiu do quarto sabendo muito bem qual era seu objetivo. Iria fazer Theodore reconhecer o relacionamento deles mesmo que tivesse que obrigá-lo. Quando desceu as escadas encontrou Theodore entrando no salão comunal e quando ele a viu abriu um sorriso enorme, então sentiu-se sortuda, como se pela primeira vez as coisas tivessem começando a dar certo. Quando se abraçaram conseguiu sentir como ele estava perfumado, o cheiro de laranja impregnando seu nariz a reconfortando.

— Pansy, era você mesma que eu queria ver – cantarolou alisando seu rosto. Ele segurou a mão esquerda dela a puxando para o sofá. Seu coração batia descompassado. – Eu tenho uma coisa muito importante pra te dizer – ele disse suspirando. – Não vou poder participar do jantar com sua mãe essa semana.

Ele sorriu timidamente segurando suas duas mãos e Pansy sentiu seu estômago afundar. Ela queria ser compreensiva, mas a cada semana que Nott arrumava uma desculpa diferente a loira percebia que talvez, mas apenas talvez, ele não estivesse levando a sério seu relacionamento. O moreno beijou sua bochecha começando a alisar sua cintura, mas Pansy não se sentia confortável no momento e quando ele segurou sua mão em direção a sua calça Pansy pulou alarmada.

— Não acho que estou preparada, Theo – sussurrou afastando as mãos dele que suspirou frustrado. – Entenda, ainda é muito cedo...

Ele sorriu, mas parecia mais uma careta e se levantou fazendo pouco caso.

— Estou com sono, Pans, vou dormir. Boa noite!

Pansy segurou os braços deles tentando impedi-lo de ir. – Eu estava pensando em fazer uma franja, o que você acha? – perguntou com a voz arrastada alisando o braço direito dele. Theodore virou o rosto ainda se afastando dela.

— Vai ficar mais feia assim, Pans, já não basta suas bochechas serem bem caídas, não? – perguntou alisando suas bochechas. – Deveria procurar um feitiço para isso também. Você sabe como é chamada por aí, né? Mas não tem problema, tirando isso, você é linda.

Pansy ainda ficou um tempo no sofá o vendo se afastar e suspirou olhando para o relógio que marcava o início do jantar. Fez uma careta se amaldiçoando por ser tão boba, perguntava-se a cada instante qual era o seu problema. Se continuasse assim ela seria trocada. O que adiantava ter um relacionamento se ela não poderia satisfazer o namorado? E ela sabia que era por ser tão medrosa que o estava perdendo aos poucos, pois a cada garota mais velha e experiente, Theo se afastava dela cada vez mais. A preocupação e o medo cortavam seu interior como navalha e seu ar parecia comprimido contra o peito, estando cada vez mais difícil respirar, cada vez mais difícil conviver com a situação em que se encontrava, sentindo-se cada vez mais solitária e insuficiente. Apertou suas bochechas sentindo os olhos arderem e sabia que Theodore tinha razão.