MUDANÇA DE CORAÇÃO

2 Os padrões estabelecidos são rígidos


"Me amar pode ser mais difícil

Do que amar outra pessoa

Vamos admitir

Os padrões que eu estabeleci

São mais rígidos para mim mesmo"

— tradução do trecho da música Answer: Love Myself de BTS (방탄소년단).

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Eram três horas da tarde e faltavam três dias para o natal, Hogwarts estava mais iluminada que o normal e as árvores espalhadas por todo castelo estavam cobertas por uma falsa neve criada magicamente para dar a mesma sensação externa nos cômodos internos. A mesa da Lufa-lufa era a mais diversificada em termos de vestimentas, muitos usando roupas coloridas e andando de meia longa. A Sonserina e a Corvinal eram silenciosos e estavam todos apreciando o clima agradável com conversas baixas e exalando companheirismo, ao contrário da Grifinória que por mais que Hermione pedisse silêncio para ler era ignorada. Harry continuava tagarelando sobre Draco Malfoy e como ele estava aprontando alguma coisa naquele ano pelo simples fato de estar quieto demais, argumento do qual Hermione teve que olhar incrédula.

Estavam em seu sexto ano e deviam se preparar para as provas de final de ano, que seriam muito importantes para sua futura carreira – ela estava em dúvida entre ser promotora ou defensora pública. Quer dizer, não existia nada mais excitante para Hermione do que ser útil à sociedade. Claro que no início ela estava focada nos elfos domésticos, mas com o tempo começou a vislumbrar todos os que eram considerados párias, como os duendes, nascidos-trouxa, mestiços e, por incrível que pareça, Hermione começou a se perguntar se mulheres puro-sangue poderiam ser incluídas na lista por toda a submissão que eram criadas para serem submetidas.

E foi pensando sobre isso que parou para observar como claramente Daphne Greengrass e Pansy Parkinson pareciam competir para ver quem conseguia chamar mais atenção dos meninos, mas enquanto Greengrass parecia inflar com as bajulações, Pansy Parkinson iniciou um processo tão grande de autodepreciação que Hermione não se perdoaria se não fizesse nada para impedir, por mais que ela detestasse ter que se envolver com qualquer coisa que envolvia a loira. Todo mundo sabia que Pansy Parkinson e Theodore Nott estavam envolvidos em algum tipo de amizade colorida ou relacionamento aberto; não se sabia muito sobre isso e Hermione se recusava a acreditar em qualquer fofoca proferida por Padma e Lilá.

Embora Parkinson sempre andasse com Daphne Greengrass e Millicent Bulstrode por entre as aulas, ela sempre fora mais próxima de Draco Malfoy e Blaise Zabini, mas esse ano Malfoy sempre parecia avoado e Zabini tinha começado a namorar Sue Li e quando não estava estudando com Malfoy, estava aos beijos com Li, o que era algo que Hermione preferia nunca ter presenciado, mas andando pelo castelo nos horários de monitoria já vira tanta coisa que as vezes queria ficar cega por algumas horas para ter paz.

Tendo muito pouca atenção dos amigos e as migalhas que Theodore Nott lhe dava não era a toda que Parkinson estivesse cada dia mais irritada, o que significa descontar nos grifinórios, sempre arrumando briga e fazendo cena pelos corredores. Hermione tentou morder uma unha que já estava roída enquanto desviava os olhos da leitura de aritimância e encarava a loira que observava Theodore flertando com uma quintanista.

Hermione revirou os olhos para todo aquele drama adolescente. Quando o salão principal estava quase todo vazio, Hermione pediu licença aos amigos e saiu em disparada, parando na frente da loira. Pigarreou tentando chamar sua atenção e quando Pansy a notou, sorriu maliciosamente.

— Veio se vingar?

— Não! – exclamou Hermione ofendida. – Eu vim conversar de garota para garota.

— Então você realmente se considera uma garota! – Pansy fingiu surpresa fazendo Hermione querer estapeá-la. Desistiu completamente da ideia de conversar com Parkinson. Tinha uma ideia estabelecida de empatia e companheirismo com qualquer ser vivo que precisasse de ajuda, mas até ela tinha seus limites e, de forma alguma, era obrigada a ouvir ofensas de uma mimada idiota. — Minha mãe me ensinou sobre o seu tipo – Pansy continuou com o mesmo olhar malicioso. — Sangue-ruins são sem classe, por isso seu cabelo é tão bagunçado, por isso sua pele é tão queimada e sua cultura tão inferior. Quando eu te conheci, Granger, eu sabia que minha mãe falava a verdade.

Hermione parou fechando os punhos com raiva.

— Então foi a sua mãe que te ensinou a ser racista?

Pansy franziu o cenho.

— O que quer dizer sobre isso?

— Você acha que ter a pele mais clara, o cabelo mais liso e arrumado, e dinheiro o suficiente para manter a hegemonia da cultura puro-sangue te faz superior a mim, então o que é difícil de entender? – rosnou mais que falou, virando-se e colocando as mãos em cima da mesa. Sua agitação chamara a atenção de Rony, mas Harry o segurou; a muito tempo tinha aprendido que Hermione gostava de batalhar sozinha, mas isso não queria dizer que ele não ficaria de olhos nas duas garotas.

— Isso não faz sentido, Blaise Zabine é negro e não existem muitos rapazes mais finos e elegantes que ele, e eu certamente nunca o colocaria como inferior a mim.

— Ah, Parkinson, existe muitas outras formas de se sentir superior a outras pessoas e nem sempre a cor de pele é a causa. Quando você se sente superior a outra cultura, como você denomina isso? E não é apenas seu preconceito com culturas diferentes que é preocupante. Por exemplo, você certamente parece colocar os garotos num pedestal. Você por acaso acha que os garotos possuem algum tipo de superioridade?

Pansy inflou as bochechas ofendida.

— Eu não!

— Todo mundo sabe que você está louca para prender o Nott em um casamento por conveniência!

— É fácil pra você falar! Desde o divorcio minha mãe se sustenta com as migalhas que meu pai dá. Você acha que ela recebeu alguma herança sendo mulher?

— Esse é o ponto que eu quero chegar – Hermione estalou a língua no céu da boca. – A sociedade puro-sangue exclui pessoas diferentes, segrega culturas e oprime mulheres. Entendeu?

— Eu até entendo que uma pessoa que viveu sem uma cultura forte como base como você poderia ver as coisas dessa maneira – zombou. – Mas o que isso tem a ver com meu relacionamento com o Theo? Você fugiu completamente do foco e ainda insiste que essa baboseira faz sentido.

— Você está enganada! – suspira. – Opressão acontece de maneiras sutis, como quando quando permite que Theodore Nott pise nos seus sentimentos, faça pouco caso enquanto está se divertindo com outras meninas.

Pansy zombou.

— Nunca soube que você seria tão desatualizada. Nós temos um relacionamento superior aos conceitos ultrapassados que você insiste em me acusar de seguir. Diferente da relação ciumentas dos relacionamentos a dois, nós nos permitimos novas experiências.

Hermione sorriria se não sentisse tanta pena.

— Não existe um relacionamento superior, Parkinson, ou ele é saudável ou ele não é.

— Está acusando meu relacionamento de não ser saudável?

Hermione suspirou audivelmente.

— Não pelo que você imagina que seja.

— E o que exatamente você acredita que eu imagino?

— O que você sente quando ele está com outras garotas? Você está confortável com isso? E você sai com outros garotos?

— Isso é um interrogatório? – zombou. – Eu não me importo que ele saia com outras garotas e eu não preciso sair com outros garotos, não tenho obrigação de ter sentimentos por outras pessoas e nem de te dar explicações.

Hermione ainda a encarou de maneira duvidosa.

— Você pode ter razão, me desculpe. Não tenho motivo para duvidar de seu relacionamento. – Hermione estala a língua pensativa. Sentou-se mais próxima da loira que a olhou confusa. – Mas você entende que ele não pode te obrigar a nada, seja um relacionamento monogâmico ou não, ou mesmo um beijo ou algo a mais.

Pansy olhou para o lado desconfortável.

— Não sabia que trocávamos bilhetinhos sobre nossos sentimentos, Granger.

Hermione fez uma careta sabendo que ela tinha razão, mas não desviou do rosto da loira, analisando seu aspecto de perto.

— Você realmente gosta do seu cabelo assim? Vale a pena ter três diferentes feitiços lançados em si mesma para parecer tão mais pálida e jovem? – Pensou em apontar as diferentes pintinhas que ela tinha pela bochecha aos onze e doze anos que não estavam mais por ali, mas desistiu. – Você seria bonita mesmo se apenas saísse apenas com o rosto lavado por sabonete.

Pansy virou o rosto de supetão.

— O quê?

— O que eu quero dizer – Hermione pigarreou. -, é que se você gosta de como é agora e está satisfeita, eu estou errada em te pressionar, mas senão, eu fico feliz em ajudar.

— Eu não preciso da sua ajuda – sussurrou duvidosa.

— Sabe, eu já me importei muito com meu cabelo e adorava enrolá-lo e deixá-lo ondulado, fazia os meninos se virarem e olharem para mim e pensarem: "uau, Hermione Granger é uma menina". É um pensamento bobo, certo? Mas me fazia feliz e durante o quinto ano eu estava realmente feliz em ser notada, mas no fim eu não sentia que essa era eu. Talvez não faça sentido para você e seja uma coisa minha, mas estou feliz por ser eu mesma novamente e gastar menos tempo no espelho e mais tempo dormindo de manhã – Hermione terminou de dizer rindo sem graça. Pansy a encarava nos olhos sem piscar e o estômago de Hermione parecia embrulhar; ela pigarreou e se levantou.

— Seu cabelo é muito bonito, Parkinson, mas não deixe minha opinião importar.

— Como se eu ligasse – Pansy sussurrou, mas Hermione nem mesmo chegou a ouvir, andando até seus amigos que a encaravam sem entender por que ela estava falando com uma sonserina.

E essa foi a última vez em que se viram antes da guerra.

.x.x.x.

Hermione Granger estava em seu sétimo ano, finalmente. Depois da guerra todos os alunos iriam repetir o último ano perdido, mas nem todo aceitaram a situação em vista das memórias tenebrosas de momentos de tortura e terror que passaram na Batalha de Hogwarts. A primeira coisa que Hermione notou quando sentou na mesa da grifinória era que na mesa da Sonserina apenas cinco alunos haviam retornado para o último ano, chegando a repetir os nomes de todos que se lembrava e entre eles não estava Pansy Parkinson, o que era uma pena porque a meses desejava tirar satisfação com a garota que tentara entregar seu melhor amigo a Voldemort.

McGonagall insistiu para que Hermione fosse a monitora-chefe e após pensar com cuidado aceitou de bom grado. Já fazia uma semana que as aulas haviam começado e já estava fazendo ronda, quase dez da noite, sentindo o sono pesar, quando entrou na torre de astronomia e viu uma garota de cabelos pretos e curtos, a pele pálida brilhando na luz da lua que entrava pela janela, enquanto fumava de olhos fechados.

— Hey! – gritou com o rosto vermelho. A garota levou um susto, e embora seu corpo tivesse tremido, ainda estava no chão e após abrir os olhos a encarou, os olhos azuis mais escuros que Hermione já havia visto, mas não foi pelos olhos, mas pelas feições que Hermione a reconheceu, embora estivesse tão chocada que quase não conseguira fechar a boca aberta. Pansy Parkinson havia não só cortado o cabelo como pintado, o rosto pálido apresentava duas pintinhas na bochecha, duas mascas tão pequenas e escondidas perto da clavícula e orelha que se Pansy não estivesse com os cabelos lisos atrás da orelha mal nem teria se dado conta. – Uau – continuou sem perceber, a cara de choque cada vez mais embaraçosa que fez Pansy ficar vermelha, só não sabia se de raiva ou vergonha.

— Uau pra você também – respondeu, a voz mais grave do que Hermione se lembrava, o que fez a grifinória se perguntar se a sonserina estivera passando pela segunda puberdade, um que fazia sua voz ficar menos enguiçada e mais sexy, e quase se estapeou mentalmente pelo pensamento idiota. – Vejo que deixou o cabelo maior – comentou apontando para os cachos que desciam até a cintura. – Usou magia para fazê-los crescer mais depressa? Isso não é justo – brincou antes de tragar o cigarro, fazendo seu cabelo sacudir, trazendo Hermione de volta a realidade em que ela estava com raiva de Pansy Parkinson e queria muito soca-la, que junto a sua curiosidade a fez gritar.

— O que você pensa que está fazendo fumando aqui? E esse cabelo? O que você fez? E como ousa pisar em Hogwarts depois de tanto tempo e ainda mais depois de tentar matar meu melhor amigo! Sua...

— Okay, Granger – Pansy lamentou apagando o cigarro com pesar. – Não precisa de ofensas, eu sei. Sou a pior pessoa para você encontrar depois de tanto tempo, e sim, eu cheguei agora e perdi aula, grande merda...

Hermione chiou quando escutou o palavrão. Pansy a ignorou, seu semblante ficando melancólico.

— Me desculpa, eu fui imatura. Na verdade, eu sempre fui imatura e eu estava com tanto medo, meu pai era um comensal da morte e eu me senti tão pressionada – choramingou puxando as pernas e escondendo o rosto. Hermione desviou o olhar para o céu estrelado através da janela, as árvores de pinheiro criando uma paisagem atraente, boa o suficiente para a distrair do choro baixo da ex-loira. – Você tinha razão – continuou Pansy –, eu amava mais o Theo do que ele me amava.

Hermione queria estar com raiva, mas sorriu com simpatia sentindo que estava sendo encarada, logo permitindo-se olhar para a sonserina novamente.

— Em um relacionamento isso tem uma grande chance de acontecer, não é o fim do mundo – consolou.

— E você tinha razão, eu não queria que ele tivesse outras pessoas.

Hermione suspirou.

— Sinto muito, eu queria que tivesse dado certo.

— Eu também. Eu me esforcei muito, sabe? Mas a culpa é minha por insistir em um relacionamento com alguém que não gostava de mim.

— Você tinha muitas expectativas – concordou Hermione. – E a culpa é mais dele do que sua por não ter estabelecido seus sentimentos de imediato ao invés de te enganar.

Hermione fez careta, mas Pansy não chegou a ver.

— Até me aproveitei do relacionamento aberto e dei uns beijos no Draco – desconversou Pansy. -, mas parecia que eu estava beijando meu irmão. – Pansy fez careta com lágrimas brilhantes ainda caindo de seu rosto.

— Não pode ter sido assim tão ruim, ele é bonito – Hermione tentou amenizar o clima já sentindo-se bastante desconfortável. Pansy pareceu notar, logo tratando de limpar as lágrimas do rosto. Hermione sentou do seu lado, puxando a mão que limpava as lágrimas e a apertando. O coração de Pansy acelerou e ela desviou o olhar para as mãos sentindo-se confuda. – Quero dizer – Hermione continou e deu de ombros. -, ele é muito chato mas até que tem seu charme.

— Granger! Eu não imaginava que você tinha uma queda pelo Draco.

Hermione corou.

— Eu não tenho – resmungou. – Ele nem faz meu tipo.

— Então você não gosta de loiros.

Hermione a encarou com seus novos cabelos escuros.

— Ou de meninos – completou a grifinória fazendo Pansy se engasgar com a própria saliva.

— M-mas...

— O Vitor Krum? – Hermione completou achando graça da boca aberta da ex-loira. – Ele até que tentou e eu tentei, mas era como beijar um irmão, entende? – ela brincou batendo o cotovelo nas costelas da outra que arregalou mais ainda os olhos.

— Então quer dizer que você gosta de mim? – Hermione soltou a mão de Pansy revirando os olhos e a garota de olhos azuis se arrependeu da pergunta. Nem sabia de onde tinha vindo aquilo, só estava brincando.

— Tanto quanto você gosta de Severus Snape.

— Eu já tive uma quedinha por ele – segredou Pansy sentindo-se melhor agora que estavam conversando amigavelmente.

— Eca, Parkinson, não me faça ter pesadelos.

— Não foi nada demais – reclamou do drama da morena.

— Por favor, cala a boca.

Pansy suspirou

— A gente se vê nas aulas? – perguntou depois de um tempo em silencio.

— Olha só, agora que sabe que gosto de garotas já quer se livrar de mim – reclamou a morena brincando.

— Ah, mas você é besta.

Hermione riu do uso de palavras.

— Por que você pintou de preto e cortou?

Pansy olhou para o nada pensativa antes de responder.

— Eu cortei porque sempre achei o comprimento irritante e depois da guerra lembrei do que você me falou e comecei a me perguntar o que gostava em mim e o que eu queria fazer por mim, então a decisão foi fácil.

— Mas e a cor?

Pansy sorriu maliciosa.

— Você disse que gostava do meu cabelo, então eu queria mudá-lo completamente. Imagina que humilhação ter uma – Pansy fez suspense. – nascida-trouxa gostando de algo em mim. Um absurdo.

— Realmente, decadente – continuou Hermione.

— Um crime.

— Uma afronta – Hermione exclamou puxando uma mecha de seus cabelos escuros fazendo Pansy gemer, o que manteve Hermione em alerta a fazendo se levantar rapidamente. Pansy levantou uma sobrancelha e tentou acender outro cigarro, se Hermione não fosse mais rápida, tomando o maço da sua mão e o jogando pela janela. – Agora sim, Parkinson, boa noite.

Hermione se virou e começou a andar, apenas seus passos sendo ouvidos no silencio da noite.

— Boa noite, Hermione – concluiu Pansy olhando para suas costas que se distanciavam.