MINHA OUTRA FACE

36 Até que a morte nos separe


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═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil — Sala da presidência ✧✦🎭═══

Rodrigo estava boquiaberto. Soraia, de queixo erguido, arqueou uma sobrancelha, olhando-o de cima para baixo.

— Assustado? — provocou. — Claro que tá, né? Achou que eu estivesse morta.

— O que significa isso? — Rodrigo conseguiu dizer, ainda atônito.

— Significa que você vacilou feio. — respondeu fria. — E eu tô aqui, vivíssima... e muito mais perigosa.

— Eu atirei em você. — retrucou, a voz trêmula. — A velha também atirou. Como você... como você escapou?

Soraia sorriu debochada.

— Porque eu sou uma gata, bebê. Tenho sete vidas.

Ela se aproximou lentamente, ficando perigosamente perto dele.

— Fiquei muito decepcionada, sabia? — disse, em tom íntimo. — Por um instante, eu achei que você não teria coragem de puxar o gatilho. Achei que o que a gente tinha significasse alguma coisa pra você.

Rodrigo engoliu seco.

Soraia deu as costas, caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira da presidência, cruzando as pernas.

— Mas me enganei. — continuou. — Eu não passei de um objeto descartável nas suas mãos.

— Diga logo, o que você quer? — perguntou ele, seco.

— Você agora é o presidente da Mulambo. — comentou, olhando ao redor. — Quem diria, hein? Conseguiu arrancar o seu Meireles dessa cadeira. Tá aí... você é mais esperto do que eu imaginava.

Rodrigo perdeu a paciência.

— Chega de rodeio. Fala logo. É dinheiro? Eu faço um pix agora.

Soraia soltou uma risada curta.

— Não me subestime. Que não sou tão idiota. — levantou-se. — Eu sei que você tá nadando em dinheiro... e correndo atrás de muito mais através de seus golpes. Você acha mesmo que eu ia me contentar com migalhas?

Ela começou a caminhar pela sala, tocando nos móveis.

— Nesse tempo em que fiquei desaparecida, eu planejei o meu retorno. — disse. — E, claro, investiguei ainda mais as suas tramoias. E cheguei a uma conclusão simples: nós dois não valemos nada, fomos feitos um pro outro. E foi aí que pensei... por que a gente não se casa?

— Você enlouqueceu, Soraia.

— Não, meu amor. Tô lúcida como nunca. — aproximou-se novamente. — E vamos nos casar, sim. E digo mais, em comunhão total de bens. Tudo o que é seu passa a ser meu. Tenho que garantir meu futuro depois que eu ficar viúva. — disse ela, sem pudor. — Porque, claro... depois do casamento, eu vou dar um jeito de te matar.

Rodrigo puxou o celular e começou a digitar.

— Você anda muito iludida. — rosnou. — Não tem nem cacife pra me enfrentar. Seu pix continua o mesmo? Vou te mandar aqui uma boa grana. E você trate de sumir da minha vida.

Antes que ele concluísse, Soraia arrancou o celular da mão dele e o jogou na lixeira de papel que tinha ao lado.

— Acho que você ainda não entendeu. — falou, firme. — Eu tô falando sério, Rodrigo. Pega seus documentos e vamos pro cartório. O nosso casamento já tá até marcado.

Ela se inclinou sobre a mesa, encarando-o nos olhos.

— Porque daqui, meu amor, eu só saio com dois destinos: ou pro cartório, pra me casar com você... ou pra delegacia, contar tudo o que eu sei. E você não faz ideia das provas que eu juntei contra você. Então... o que você escolhe? Vai pagar mesmo pra ver se eu tenho cacife, ou não?


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil — Sala do Meireles ✧✦🎭═══

Angelina, Fabinho e Daiana estavam reunidos na sala. Daiana permanecia tensa, com medo de que alguém flagrasse Gabriel na outra sala.

— Tá tudo bem, minha filha? — perguntou Angelina, observando-a com atenção. — Você parece tensa.

— Oi? Sim... tô bem. — respondeu Daiana, tentando disfarçar. — É que toda essa história envolvendo o golpe do Rodrigo tá me deixando assim.

Fabinho tentou tranquilizá-la.

— Fica tranquila, minha irmã. Ainda não sei como, mas a gente vai dar um jeito nessa situação.

Nesse instante, Meireles entrou na sala.

— Ué, já voltou? — estranhou Angelina. — A reunião foi rápida, então.

— Não houve reunião. — explicou ele. — Foi adiada. O investidor não pôde comparecer.

O coração de Daiana disparou.

— E o Rodrigo? — perguntou, tentando parecer casual. — Ele também voltou?

— Sim. — respondeu Meireles. — Veio um pouco antes de mim. Deve tá lá... na agora sala dele.

O rosto de Daiana empalideceu. Sem dizer mais nada, saiu apressada. Ao dobrar o corredor, deu de cara com Soraia, que saía da sala da presidência.

Soraia abriu um sorriso venenoso.

— Ora, ora... se não é a canelinha de seriema. — debochou, olhando-a de cima a baixo. — Parece que suas canelinhas tão até mais secas. Cuidado, viu? Elas podem quebrar.

Daiana ficou paralisada.

— Eu tô maluca... — murmurou. — Ou agora tô vendo fantasma?

Soraia riu, satisfeita.

— Fantasma, eu? — disse. — Como ver, tô muito bem viva. Voltei direto do inferno, só pra te aterrorizar.

Daiana permaneceu boquiaberta.

Nesse momento, Rodrigo saiu da sala. Estava sério, abatido, com cara de poucos amigos. Soraia não perdeu a chance de humilhá-la mais uma vez.

— Desculpa, querida. Eu adoraria continuar trocando farpas com você. — disse, exibindo a aliança no dedo. — Mas eu e meu noivo estamos indo pro cartório. Nós vamos nos casar.

Ela entrelaçou o braço no de Rodrigo.

— Vamos, querido.

Rodrigo lançou um último olhar para Daiana, abaixou a cabeça e seguiu com Soraia.

Daiana acompanhou os dois com o olhar até as portas do elevador se fecharem.

Só então correu até a sala da presidência. Tentou a maçaneta.

Trancada.

O desespero tomou conta.

— E agora...? — sussurrou. — O que aconteceu com o Gabriel?

Nervosa, Daiana pegou o celular e ligou.

— Graças a Deus você atendeu... — disse, aflita. — Onde você tá?

Do outro lado, a resposta veio rápida:

— Calma. Eu consegui sair sem ninguém me ver. — disse Gabriel. — Tô num quiosque do outro lado da rua. Vem pra cá que eu te explico tudo.

Daiana respirou fundo e saiu apressada.


═══🎭✦✧ Em frente ao restaurante ✧✦🎭═══

Ludmila, Carla e Edson caminhavam em direção ao carro de Edson, estacionado logo à frente.

— Acho que tivemos uma conversa bem civilizada, né? — comentou Carla, satisfeita.

— Eu sou uma pessoa muito civilizada, meu amor — respondeu Ludmila, com um sorrisinho debochado.

Carla soltou uma risadinha curta, balançando a cabeça.

— Hanhã... eu sei bem como é.

Ludmila parou por um segundo, virou-se para os dois e apontou discretamente para Edson.

— Mas tô falando sério. O problema é que o seu namoradinho aí é muito fresco.

— Ludmila, não vamos estragar tudo. A gente tava indo tão bem — pediu Carla.

— Deixa, Carla. Ela tá certa. — Edson respirou fundo. — Eu realmente errei por ter me metido na relação de vocês duas. Foi insegurança... acho que um pouco medo de te perder.

Ludmila fez uma expressão exagerada, levando a mão ao peito.

— Ai, gente... que bonitinho. Assim eu vou acabar chorando.

Carla puxou Edson pela camisa, colando os lábios nos dele.

— Também não precisa dessa lambição toda, né? — reclamou. — Tô carente. Não posso ficar vendo essas coisas.

Os dois se afastaram rindo. Carla encostou a testa no peito de Edson, ainda sorrindo.

— Boba — murmurou.

— E como vai o seu rolo com o Glauber? — perguntou Edson.

Ludmila congelou. O sorriso morreu no rosto. Ela se encostou no capô do carro, cruzando os braços.

— Não existe rolo nenhum. A gente só deu uns pegas. O Glauber é do job, deve tá agora correndo atrás de algum coroa.

Ela respirou fundo, desviando o olhar para a rua.

— Quem eu realmente quero não quer mais saber de mim. — engoliu seco. — E eu entendo... eu vacilei muito.

— Ludmila, fala sério... — disse Edson, incrédulo. — Você tá de zoeira? Tá querendo me convencer que realmente gostando do Fabinho?

— Acredite Edson. — afirmou Carla. — Conheço bem essa piranha. Tá arrastando um bonde por causa do Fabinho.

Ludmila soltou uma gargalhada curta, nervosa.

— Quem? Eu? Eu mesma não, minha filha. Até parece que vou arrastar bonde por causa de macho.

Ela deu dois passos, depois parou. A voz saiu mais baixa.

— Mas... — virou-se com cara de choro. — Ai, Edson... o que eu faço pra reconquistar ele? Eu sinto tanta falta dele.

Edson trocou um olhar cúmplice com Carla e sorriu de canto.

— Não tô nem acreditando. Quem diria... — disse, balançando a cabeça. — Ludmila apaixonada de verdade.

Carla se aproximou da amiga e passou o braço pelos ombros dela.

— Bem-vinda ao clube, amiga.

Ludmila respirou fundo, tentando sorrir.

— Porra de clube. Ai que ódio.


═══🎭✦✧ Quiosque – Em frente à Mulambo ✧✦🎭═══

O quiosque era simples, quase vazio àquela hora do dia. Gabriel estava sentado de costas para a rua, boné puxado para baixo, mexendo distraidamente no copo de refrigerante, atento a cada movimento ao redor.

Quando viu Daiana se aproximar, levantou-se de imediato.

— Meu Deus, Gabriel... — ela disse, sem fôlego, segurando o braço dele. — Como você conseguiu sair daquela sala sem ninguém te ver? Eu quase morri quando meu pai disse que o Rodrigo já tinha voltado.

Ela sentou-se à frente dele, as mãos ainda trêmulas.

— Eu fiquei nervoso naquela sala — começou Gabriel, em voz baixa. — Meu sexto sentido parecia apitar. Eu ouvia passos o tempo todo no corredor... qualquer pessoa podia entrar. E o pior: o Rodrigo podia voltar a qualquer momento.

— E de fato voltou, né? — Daiana suspirou. — Ainda bem que você foi rápido. Mas... conseguiu alguma coisa?

Gabriel fez que não com a cabeça.

— Nada realmente decisivo. Tirei fotos de vários documentos que estavam soltos, mas não deu tempo de ler. — Ele se inclinou para a frente. — Só que tinha uma gaveta trancada. Se existe alguma coisa que ele esconde, tá ali dentro. Quando eu ia sair, ouvi a voz dele chegando do elevador. Nem pensei. Corri e desci pela escada de emergência.

Daiana levou a mão ao peito.

— Isso foi por segundos... — Ela fez uma pausa e o encarou. — E você não imagina quem resolveu reaparecer.

— Quem?

— Soraia. Ela também tá viva. E mais debochada do que nunca.

Gabriel ficou sério.

— Eu nunca soube direito o que fizeram com ela depois que me jogaram naquela ribanceira.

— Aqui todo mundo achava que ela estava na kombi com você. Inclusive a polícia. — Daiana respirou fundo. — Mas agora ela apareceu do nada... e saiu da Mulambo dizendo que ela e o Rodrigo iam direto pro cartório se casar.

Gabriel arqueou a sobrancelha.

— E isso te incomodou?

— Claro que não meu amor. — Daiana respondeu firme. — Eles se merecem. O que me chamou atenção foi outra coisa. O Rodrigo tava visivelmente desconfortável. Não era postura de noivo feliz. Aquilo parecia medo.

— Você acha que ela pode tá ameaçando ele?

— Exatamente. — Daiana concordou. — Ela deve estar segurando algum segredo dele. Algo grande o bastante pra fazê-lo aceitar esse circo.

Gabriel apoiou os cotovelos na mesa, pensativo.

— E a gente vai descobrir a sujeirada desses dois. — disse. — Temos que pensar direitinho o nosso próximo passo. Mas agora com muito mais cuidado.

Daiana assentiu, sentindo o peso da situação.


═══🎭✦✧ Em frente ao cartório ✧✦🎭═══

Eles saíam do cartório Soraia à frente, braço entrelaçado ao de Rodrigo, sorriso vitorioso no rosto. Logo atrás vinham Bira e Xavier, observando a cena em silêncio.

Soraia parou de repente, puxou a gravata de Rodrigo e o obrigou a encará-la.

— Eu disse que você seria meu um dia, você não acreditou. — disse, triunfante. Em seguida, apontou para Bira. — E ainda trouxe o meu amante pra ser testemunha do nosso casamento. Que loucura, hein?

Rodrigo riu sem humor.

— Tá se divertindo, né? Aproveita. Quanto mais alto você sobe, maior é a queda.

— Que isso, meu amor... — ela respondeu, fingindo ofensa. — É assim que se fala com a própria esposa? Tem que me tratar com mais carinho.

Antes que ele reagisse, Soraia deu-lhe uma bitoca na boca. Rodrigo não correspondeu e se afastou.

— Tenho mais o que fazer do que brincar de casinha com você. — disse seco. — Bora, Xavier.

— Epa! — Soraia cruzou o caminho dele. — Como assim "bora, Xavier"? Pode ir, Xavier, cuidar da sua vidinha. — Ela voltou-se para Bira, sorridente. — Bira, meu amorzinho, obrigada pela presença. Você também já pode ir.

Depois, encarou Rodrigo, firme:

— Já você, meu querido marido... vai comigo pra nossa casa.

— Você tá abusando, garota. — rosnou Rodrigo.

— A brincadeira tá só começando. E acho bom você saber brincar, porque eu posso apelar — ela ameaçou.

Xavier deu um passo à frente, ponderado.

— Rodrigo, faz o que ela tá pedindo. Vai com sua mulher pra casa. Depois a gente conversa e vê o que faz.

Bira completou:

— Se cuida, Soraia.

— Obrigada, Bira. — respondeu ela, sem tirar os olhos de Rodrigo.

Xavier e Bira se afastaram, cada um seguindo seu rumo. O sorriso de Soraia desapareceu. Ela se aproximou de Rodrigo, ficando a centímetros dele.

— Posso até parecer idiota... — disse em tom baixo. — Mas você me conhece muito bem. Quando eu quero uma coisa, eu vou até o fim, custe o que custar. Eu não vou descansar enquanto não me vingar de você. Aquele tiro que você me deu, vai lhe custar tão caro que você nem imagina.

Ela se virou e caminhou em direção ao carro, mudando completamente de humor.

— Agora bora. — completou, já abrindo a porta. — Tô louca pra dar a boa notícia pra minha sogrinha.

Rodrigo respirou fundo, engoliu a raiva... e entrou no carro.


═══🎭✦✧ Rua — próximo a Mulambo ✧✦🎭═══

Gabriel e Daiana estavam parados numa rua discreta, não muito longe da Mulambo. O movimento era moderado, carros passando, gente indo e vindo — nada que chamasse atenção, exatamente como eles precisavam.

Daiana segurou a mão dele por um instante a mais.

— Que pena que você precisa ir... — disse, num tom baixo. — É tão bom ficar com você.

Gabriel sorriu.

— A gente não pode dar bandeira, meu amor. Ainda mais aqui, tão perto da Mulambo.

— Você tá certo. — Daiana assentiu. — Alguém pode te ver.

— Deus me livre. — ele respondeu sério. — Isso colocaria tudo a perder. Dessa vez não tivemos muita sorte, mas a gente tem que tentar de novo.

Gabriel fez uma pausa, pensativo.

— Eu pensei em ir investigar lá na casa dele. Entrar como o Rodrigo. Aproveitava e via minha mãe.

Daiana arregalou levemente os olhos.

— Gabriel, não. — advertiu. — É arriscado demais. Você pode não conseguir segurar a emoção quando ver sua mãe.

Ele respirou fundo, concordando.

— É verdade. — admitiu. — Tô com tanta vontade de rever ela que eu com certeza sairia do personagem.

Daiana tocou o rosto dele com carinho.

— Então é melhor não arriscar, meu amor. — disse com convicção. — Logo a gente vai conseguir colocar o Rodrigo atrás das grades. E aí, sim, você vai poder ver sua mãe... ver o pessoal do orfanato... voltar pra sua vida de antes.

Gabriel fechou os olhos por um segundo, absorvendo aquilo.

— Você tá certa. — disse, decidido. — Agora eu preciso ter foco.

Daiana olhou o celular.

— Seu carro tá chegando. — apontou. — É esse que tá se aproximando.

O veículo reduziu a velocidade e parou.

— Daiana? — perguntou o motorista pela janela.

— Boa tarde. — ela respondeu. — É ele que vai.

Daiana e Gabriel se aproximaram, trocaram um beijo rápido, contido, como quem sabe que não pode se demorar.

— Se cuida. — ela murmurou.

— Não se preocupe, vou ter cuidado. — ele respondeu.

Gabriel entrou no carro. A porta se fechou. O veículo arrancou, deixando Daiana sozinha na calçada, observando até desaparecer na esquina.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

A porta se abriu e Rodrigo entrou acompanhado de Soraia.

Joana e Kléber estavam na sala. Ao vê-los, trocaram um olhar imediato de estranhamento.

— Boa tarde. — disse Rodrigo, tentando soar natural.

Joana franziu o cenho, examinando a mulher ao lado do filho.

— Ué, meu filho... já chegou? — perguntou, confusa. — E essa moça... ela não estava desaparecida?

Kléber se levantou do sofá, alarmado.

— Não só desaparecida. — completou. — A polícia tá achando que ela tá morta.

Soraia sorriu descaradamente.

— Ressuscitei. — disse, abrindo os braços. — Não vai me dar um abraço, sogrinha?

Joana arregalou os olhos.

E antes que pudesse reagir, Soraia se aproximou e a abraçou, firme, como quem marca território. Joana ficou dura, sem saber o que fazer.

— Eu e o seu filho acabamos de nos casar. — anunciou Soraia, com satisfação.

— Casados?! — conseguiu dizer, afastando-se. — Como assim, casados?

Soraia voltou-se para Kléber e Joana, agora com o olhar frio e calculado.

— E é importante que todos saibam: casados em comunhão total de bens. — enfatizou. — Ou seja... essa casa também é minha.

O silêncio caiu pesado sobre a sala.

Joana virou-se lentamente para Rodrigo.

— Rodrigo... meu filho o que é que significa isso?

Ele desviou o olhar, visivelmente desconfortável.

— Depois eu explico melhor. — disse, apressado. — Vem, Soraia.

Sem esperar resposta, segurou o braço dela e os dois seguiram em direção ao quarto.

Joana e Kléber ficaram parados, olhando um para o outro, completamente desnorteados.

— Você entendeu alguma coisa, Kléber? — Joana perguntou, ainda atônita.

— Nada. — respondeu ele, sério. — Mas uma coisa eu sei: a polícia tá atrás do paradeiro dessa moça.

Ele respirou fundo.

— Acho que é importante a gente informar que ela tá aqui.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes- Quarto do Rodrigo ✧✦🎭═══

Assim que a porta se fechou, Soraia se aproximou de Rodrigo e lançou os braços ao redor do pescoço dele. Ele permanecia sério, rígido. Ela, ao contrário, parecia saborear cada segundo. Distribuía pequenas bitocas na boca dele enquanto falava, provocadora.

— Não tem como fugir do destino, bebê. — sussurrou. — Nós dois fomos feitos um pro outro. Mesmo você insistindo em perder tempo com aquela canelinha de seriema... olha onde a gente veio parar.

Rodrigo segurou os braços dela e os afastou com firmeza, criando distância.

— Agora me conta. — disse, seco. — Como você escapou? Já entendi que o Bira te ajudou.

Soraia sorriu de lado. Caminhou até a cama, sentou-se com calma e começou:

— Ok. Vou matar sua curiosidade. Vou te contar direitinho o que aconteceu. — fez uma pausa dramática. — Era pra eu estar morta, sim. E estaria... se dependesse de você.

Rodrigo não reagiu.

— Mas a minha sorte foi que o Bira se encantou pelos meus belos olhos. — continuou. — Ele viu quando a velha tava manuseando a arma, dizendo que era pra mim matar. E ele fez exatamente aquilo que eu desejei que você tivesse feito.

Rodrigo arqueou a sobrancelha, atento.

— Ele adulterou as balas da arma. — explicou Soraia. — Substituiu as de verdade por algo cenográfico, tipo festim. Quando foi ao paiol me buscar, me contou tudo. Disse o que tinha feito e o que poderia acontecer. Ele ainda me deu uma bexiga com sangue falso. Coloquei por baixo da roupa. Quando você atirou, eu apertei a bexiga e me joguei no chão, como se tivesse sido atingida. Me encolhi, fiquei imóvel.

Respirou fundo antes de continuar:

— Eu nem esperava, mas a desgraçada da velha também atirou. Só que na verdade, nada me acertou. A mata tava escura, vocês nem se deram conta. Depois, o Bira ainda me puxou e me jogou dentro do buraco, pra parecer mais real, caso vocês olhassem pra trás.

Rodrigo soltou um meio sorriso, incrédulo.

— Impressionante. — disse. — Nunca imaginei que um pangaré daquele teria uma ideia tão mirabolante. Mas onde você ficou escondida esse tempo todo?

— O Bira tem um meio-irmão que mora ali pela região. — respondeu. — Irmãos só por parte de pai, sem nenhum parentesco com a Rita. Foi lá que eu fiquei. Juntando provas contra você... e planejando meu retorno.

Rodrigo assentiu lentamente.

— Tenho que reconhecer. — disse. — Vocês foram espertos.

Ele se aproximou, puxou Soraia e a envolveu pela cintura. Sabia que enfrentá-la naquele momento seria perigoso. Melhor jogar o mesmo jogo.

— Quer que eu seja bem sincero? — murmurou, próximo ao ouvido dela. — No fundo, eu gostei que você voltou. Posso até amar a Daiana... mas é você que me tira do eixo.

Soraia sorriu, um sorriso lento, consciente. Reconhecia a lábia, mas isso não diminuía o efeito. Pelo contrário, tornava tudo mais interessante.

— Estava com saudade do seu corpo... da sua pele... das nossas brincadeiras. — completou ele, deslizando a mão com intimidade calculada.

Ela ergueu o rosto, os olhos brilhando de malícia.

— Ah, é? — murmurou, provocativa. — Tô gostando disso.

Rodrigo a puxou para si. O beijo veio intenso, carregado de desejo antigo, perigo e atração. Os corpos se reconheceram imediatamente, como se nunca tivessem se separado. Mãos exploraram, respirações se confundiram, o mundo lá fora deixou de existir por alguns instantes.

Ali, naquele quarto, não havia amor inocente — apenas dois jogadores experientes se entregando a uma paixão tóxica, tão perigosa quanto irresistível.


═══🎭✦✧ Em uma rua qualquer ✧✦🎭═══

O carro de aplicativo reduziu a velocidade ao se aproximar de uma pequena praça. No centro, uma igrejinha antiga se destacava, discreta, quase esquecida pelo tempo.

Gabriel olhou pela janela e depois se virou para o motorista.

— Ótimo, aqui já tá bom pra mim. — disse. — Quanto que deu?

O homem respondeu com um forte sotaque português:

— A moça descontou no cartão de crédito dela. A corrida já está paga.

Gabriel franziu levemente a testa.

— Certo, então.

Ele puxou a maçaneta, pronto para sair, quando o motorista falou novamente, num tom mais baixo, quase cauteloso.

— Seu Rodrigo... espere um instante.

Gabriel congelou, confuso.

Virou-se devagar, encarando o homem pelo retrovisor.

— Sou eu, Artur. — continuou o motorista. — O portuga. Lembra de mim? Da TexHold?

O silêncio dentro do carro ficou pesado.

Gabriel sustentou o olhar, o rosto impassível, mas por dentro o alerta estava ligado. Aquele homem tinha alguma ligação com o Rodrigo, ele poderia revelar ali algum segredo.

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