MIB IV | Heirdom
1 Capítulo 1 - Primeiros contatos
Acordei com a claridade invadindo a persiana branca. Meu quarto branco acentuava a luz que incomodava aos olhos. Sr. Timothy, meu gato persa, espreguiçava-se sob minhas pernas; um sinal de que ainda não estava pronto para ser incomodado.
Levantei da cama passando os dedos pelo lençol de seda: queria me despedir de cada partícula de poeira suspensa nas fibras de algodão daquele lugar. Era minha despedida. Estaria dizendo adeus a minha vida por completo. Estava para nascer de novo.
Tomei um banho demorado. Sequei os cabelos sem pressa. Vesti a lingerie azul bebe. Coloquei uma roupa social e desci para o café. Minhas malas estavam prontas para o “intercâmbio”, como acreditava minha amada avó. Por falar nela, encontrei-a na cozinha, os cabelos cheirando a torta de maçã. Abracei-a como se fosse à última vez. E de fato seria.
Um sedan preto buzinou na frente de casa. Um sujeito de terno preto guardou a bagagem no porta-malas. Acenei para ela. Segurei o choro.
— Não precisa segurar — o sujeito me disse pelo retrovisor. Deixei-as cair.
Chegamos à agência por uma entrada em um beco sem saída. Quem diria que a porta de um velho restaurante chinês daria para a maior Agência de Controle de Atividades Alienígenas dos Estados Unidos?
— Bem-vinda, recruta, à MIB — fui recepcionada pela Agente O. — Espero que esteja tudo conforme sua solicitação. Sua bagagem foi deixada em seu novo apartamento. O endereço estará no seu PAD e poderá conferir mais tarde. Siga-me.
Andamos pelos corredores da Agência e pude confirmar todas as aulas teóricas que tive. Finalmente chegamos aos vestiários onde me foi entregue um uniforme e todo equipamento necessário a um principiante.
— Está pronta, recruta, para vestir a última roupa que usará na vida?
Encarei as peças dobradas em seus braços e as vesti. Tudo coube perfeitamente. Era de se esperar, visto que foram confeccionadas sob medida.
— Agora é só não engordar de novo — ela comentou.
— Mãe! — protestei. Sim. Ela é minha mãe.
— Já falei pra não me chamar assim. Aqui na Agência sou Agente O. Assim como você será — e ela me entregou o crachá eletrônico.
— Agente C?
— Meio óbvio, não? Huh. Como ficou a vovó? — ela quis saber e ali eu vi a chefe da MIB perder toda a postura formal.
— Melhor impossível.
Ela engoliu seco e pareceu recompor-se:
— Melhor assim. Ela teve sua época.
— Quando você ficar velha também irei apagar sua memória da MIB?
— Alguns agentes nunca ficam velhos pra MIB.
— E quem decide isso?
— Mais adiante, querida. Mais adiante. Veja seu pai, por exemplo: se ainda restar alguma coisa em pé talvez ele continue por mais tempo.
Continuamos pela Agência onde me foi apresentados todos os compartimentos mais importantes: sala de treinamento, banheiros, refeitório com, pasmem, hamburgueria. Sala de equipamentos e até de experimentos. Nosso tour se encerrou na sala de recrutamento onde eu deparei-me frente a frente com ele.
— Bem-vinda aos Homens de Preto. Eu sou o Agente J. Como eles a chamaram?
— C.
— C? Que original. É um prazer conhecê-la, Agente C.
— Sério que todo esse formalismo é necessário? Sério, você é meu padrinho!
— Não aqui.
Eu revirei os olhos.
— Nós acabamos de receber um código 4878. Johnny, o Samaritano revelou sua forma alienígena para algumas pessoas. Nós estamos indo busca-lo — ele baixou os óculos e analisou as vestes da jovem dos pés a cabeça — Não acha que está faltando pano aí, não? Quem foi que fez isso daí? O que há com essa agência?! Ela é só uma menina! Isso tá decadente! Não dá pra confiar em mais ninguém...
J seguiu para a Van de transporte onde entramos eu e quatro outros recrutas.
— Garotos é o seguinte: nós temos um alienígena um pouco depressivo que de vez em quando se sente marginalizado e quando isso acontece ele costuma assustar as pessoas. Mas não tenham medo. Ele faz isso sempre. E assim é na MIB: dias em que vocês terão apenas algumas cascas de banana pra limpar e dias em que o abacaxi vai fundo.
Todos nós o encaramos com certa confusão nos olhos. J notou isso e decidiu mudar de estratégia pedagógica.
— Olha, apenas façam o que eu mandar.
Descemos da Van com armas erguidas, apontando para o alien com formato de lagarto gigante que ameaçava algumas pessoas em frente ao Central Park.
— Oh, vejam só o que temos aqui. Apenas o alien que estávamos procurando... Johnny, meu caro! Como tem passado?
A criatura encarou J, seus olhos dilataram e ele retirou algo de dentro da pele áspera.
— Johnny, o que está fazendo? — J destravou sua pistola — Largue a arma! Não nos obrigue a fazer isso. Johnny!
— Yeoh mnkh’a yeeseh koh’p strae’dah! GRUUUUAAAA!
— Droga, ele está com raiva. Ok, C. Vou te dar cobertura! Cuidado para não atirar no coração!
Mirei com certo nervosismo, a saliva sumindo de minha garganta e disparei na mão do extraterrestre; a arma voou em seguida. Johnny enfureceu-se com o ataque e avançou pra cima de mim, as garras afiadas em direção ao meu tronco. Fui atirada contra um carro, amassando a lataria e caindo ao chão em seguida.
— CJ! Dispare o eletrocutador! — ouvi J gritar, sua voz parecia distante. O garoto atirou a rajada de raios, o choque imobilizando Johnny. — Ótimo. L, o amarrador! — o outro recruta disparou fios de corda que envolveram os braços e pernas do lagarto e este caiu ao chão, completamente imóvel. A recruta KIM aproximou-se e me ajudou a levantar; ainda me sentia tonta. J chegou em seguida.
— Woa! Você o acertou em cheio! Aqui, tome isto — ele me entregou uma pílula — Vai recarregar suas forças. Bom trabalho a todos. Mesmo que tenha sido uma missão de nível D, é a primeira vez que vejo um grupo agir tão organizadamente. Vocês tiveram um excelente treinamento. Agora vamos neuralizar essas pessoas.
O motorista da Van e o co-piloto chegaram para prender Johnny e o levaram para o veículo. J e nós, os recrutas, acionamos nossos neuralizadores em quase cinquenta pessoas.
— Certo. Vamos voltar para a base. — J guardou o aparelho no terno — Faremos um curto relatório de primeira missão e depois disso estarão dispensados por hoje.
— Só isso? — o agente L pareceu confuso. Ele deveria ser o mais metódico entre nós: extremamente pragmático, racional e às vezes até sinto que ele é um tanto frio. Mas todos eles são verdadeiramente legais. — Achei que já fossemos pegar o período inteiro.
— O’ acredita em não sobrecarrega-los logo de início. Não quer — ele fez aspas — traumatizá-los. O que eu particularmente acho uma grande besteira: salvei a galáxia logo na minha primeira semana. Mas, ordens são ordens. Para o carro.
Após o relatório todos nós fomos dispensados. Todos pareciam animados pelo primeiro dia: já tínhamos muita afinidade uns com os outros.
— E então C — KIM se aproximou — Eu e os rapazes vamos à pizzaria comemorar nossa aprovação. Você quer ir?
— Eu adoraria!
— Mas terá que recusar — uma voz grave disse em meu lugar. K estava na porta e fez sinal para eu o acompanhar. Lancei um olhar significativo para KIM que pareceu compreender. J veio logo em seguida atrás de nós dois.
— Então te contaram que eu cheguei...? — eu sorri amarelo.
— Na verdade eu descobri por acaso. Inacreditável que minha própria filha tenha começado a trabalhar na minha Agência e eu não saiba disso. Inacreditável.
— K, essa é a sua filha! — um sujeito se aproximou rindo — Não acredito. Ela só puxou a O mesmo. Talvez tenha seu humor? Você acha que se parece com seu pai? — ele se dirigiu a mim.
— Bom, eu também faço o bigode às vezes.
O agente riu:
— Há, há, há. Não mesmo! Ela não herdou seu humor!
— Não tem nada melhor pra fazer, Y?
— Uh-hum... Foi mal.
— Sai daqui!
Eu segurava o riso. Encarei J pelo canto do olho e meu padrinho apenas piscou.
— Hunf, o que eu dizia é que você precisa ter cuidado. Sabe que sou contra seu recrutamento desde que nasceu e posso mexer meus pauzinhos pra que saia dele.
— Ah, qual é, K! Deixa a menina! É o sonho dela.
— É a minha filha. Não se intrometa.
— E eu sou o segundo pai, então, tecnicamente, tenho que opinar em seu futuro também.
— Hunf. Maldita hora em que tomei aquele whisky e deixei que você fosse o padrinho.
— Senhor K — um rapaz se aproximou com alguns relatórios. Meu estômago revirou: ele era bonito suficiente pra me deixar desconfortável perto dele — Estão aguardando sua presença na reunião das cinco. Eles disseram que... — sua fala se perdeu quando ele ergueu a cabeça e me encarou — Oi...
— Oi — apenas respondi, a voz ainda meio embargada. Nos encaramos, eu sentia extremo desconforto e até curiosidade. Meu pai esperou que ele continuasse a falar, mas nada aconteceu. Ele então olhou de mim para o novo Agente e sua expressão mudou de confusão para desespero.
— Ei, rapaz! Tira os olhos! É minha filha, garoto.
Senti-me ainda mais desconfortável pelo comentário do meu pai.
— Ah, devia ter imaginado. Então a agência tá mal mesmo.
— Como é? — fiquei surpresa com o comentário. J percebeu o clima que começava a se instalar no corredor, mas meu pai foi mais rápido.
— Filha, este é o Agente B, meu assistente.
— Assistente e ex-futuro parceiro do Agente J.
— Ah... Ex?
— É, ex. Porque parece que até mesmo a MIB prioriza “contatos” no lugar de “habilidades”.
— Ah... eu não entendi.
— Não me surpreende.
— B, já conversamos sobre isso. — meu pai interrompeu — C não está aqui para me substituir, nem ao J e nem a você. Ela é apenas mais uma agente.
— É, diga isso à empresa inteira. Duvido que não vão tratá-la diferente apenas por ser sua filha.
— Oh, entendi. Está com inveja, ciúme, sei lá. Mas escuta, agente B, eu não tenho intensões de substituir ninguém. E caso não saiba, eu entrei por mérito.
— Só se for por mérito de beleza!
Eu me preparei para rebater a ofensa, mas fiquei confusa. Era uma ofensa ou ele me elogiava sem intenções? Ele me acha bonita? Meu pai e J também pareceram confusos, mas o Agente K, obviamente, encerrou a discussão a fim de evitar comentários desagradáveis.
— Agora chega vocês dois. B, você não perdeu seu posto só porque C está aqui. Fique tranquilo quanto a isso. E C, continue com seu treinamento conforme solicitado. E J...
— Eu sou inocente.
— Até que se prove o contrário. Vamos para a reunião.
B e eu ainda nos encaramos por algum tempo e então, com expressões de inimizade, nos afastamos para lados opostos do corredor.
Cheguei em meu novo apartamento, quinto andar: uma cozinha pequena já que a maioria de minhas refeições seriam feitas no trabalho e um quarto amplo, confortável, com vista para a avenida. Em meu guarda-roupa apenas uniformes e algumas poucas peças para finais de semana: esse monocromatismo me incomoda. Olhei ao redor de tudo, pus as mãos na cintura e suspirei:
— E então, o que um agente MIB faz nas horas vagas?
XxxxxxXxxxxxX
Notas finais
xx
Fale com o autor