MEMÓRIAS
9 CAPÍTULO 8 - Tudo o que não faz sentido
Irina Volturi não acreditava em coincidências.
Coincidências eram explicações confortáveis para pessoas que não tinham paciência suficiente para procurar causas. E, desde que Sarah Clearwater atravessara as portas da Cullen & Black, coincidências demais pareciam ter começado a se acumular ao redor dela.
Emmett gostara da jovem imediatamente.
Edward, que normalmente levava meses para permitir que alguém ultrapassasse as barreiras que construíra ao redor de si, comportava-se como se tivesse assumido pessoalmente a responsabilidade de protegê-la.
E Jacob...
Irina apertou os lábios.
Jacob era o que mais a incomodava.
Ele atravessara o prédio porque soubera que Sarah estava em sua sala. Entrara numa conversa da qual não conhecia o conteúdo, posicionara-se ao lado da advogada sem hesitar e, depois, aparecera no estacionamento assim que vira as duas juntas.
Não era próprio dele.
Jacob Black não era impulsivo.
Não mais.
Aos dez anos, talvez tivesse sido. Antes de tudo acontecer, Jacob fora uma criança alegre, espontânea, incapaz de esconder qualquer emoção. Mas o homem de vinte e cinco anos que presidia a Cullen & Black calculava movimentos, media palavras e raramente permitia que sentimentos interferissem em decisões.
Com Sarah Clearwater, aparentemente, não conseguia fazer nenhuma dessas coisas.
Na manhã seguinte ao episódio no estacionamento, Irina fechou a porta de sua sala e fez uma ligação.
— Quero informações sobre uma pessoa.
A voz masculina do outro lado respondeu:
— Nome?
— Sarah Clearwater.
Houve uma pequena pausa.
— Alguma relação com Harry Clearwater?
— Filha.
— O que exatamente quer saber?
Irina girou lentamente a cadeira em direção à janela.
— Tudo.
— Profissional?
— Pessoal também.
— Existe alguma razão específica?
Irina pensou na maneira como Jacob se colocara entre ela e Sarah.
— Quero saber por que ela veio trabalhar na Cullen & Black.
— Talvez porque seja advogada.
— Descubra.
Desligou.
— Você está investigando a garota?
Irina olhou para Aro.
Ele estava sentado no sofá, com um jornal aberto sobre as pernas.
— Estou.
— Por quê?
— Porque alguma coisa não faz sentido.
Aro dobrou o jornal.
— Você está obcecada com essa jovem desde que a viu.
— Não estou obcecada.
— Ela a irrita.
— Sim.
— Sem motivo.
Irina ficou em silêncio.
Aro levantou-se.
— Talvez o problema seja Jacob.
— O que quer dizer?
— Talvez ele esteja interessado nela.
Irina soltou uma pequena risada sem humor.
— Isso explicaria Jacob. Não explica Edward.
Aro não respondeu.
— E muito menos Emmett — ela completou.
— Emmett gosta de todo mundo.
— Não assim.
Aro observou a esposa.
— Então o que acha que está acontecendo?
Irina não sabia.
E odiava não saber.
— É exatamente isso que pretendo descobrir.
Na mesma manhã, Sarah descobriu que Jacob Black era incapaz de pedir qualquer coisa como uma pessoa normal.
Às nove e quinze, recebeu um e-mail.
Sala da presidência. Agora.
Sarah encarou a tela.
Nenhum bom-dia.
Nenhum por favor.
Nenhuma explicação.
Digitou:
Bom dia para você também.
A resposta chegou trinta segundos depois.
Sarah.
Ela sorriu.
Respondeu:
Jacob.
O telefone tocou quase imediatamente.
Sarah atendeu.
— Jurídico.
— Minha sala.
— Estou trabalhando.
— Eu também.
— Fico feliz em saber.
Silêncio.
— Sarah.
Ela começou a rir.
— Estou indo.
Quando entrou, Jacob estava ao telefone.
Ele indicou uma cadeira sem interromper a conversa.
Sarah sentou-se.
Esperou.
E, enquanto esperava, começou a observá-lo.
Jacob era diferente quando trabalhava.
Mais duro.
Concentrado.
Controlado.
Sarah começava, porém, a perceber pequenas coisas que contradiziam aquela imagem quase impenetrável.
A maneira como apertava a mandíbula quando alguém dizia algo de que não gostava.
O modo como girava uma caneta entre os dedos quando estava pensando.
O pequeno vinco entre as sobrancelhas quando analisava números.
Jacob desligou.
— Por que está me olhando?
Sarah piscou.
— Não estava.
— Estava.
— Você se acha muito interessante.
— Você estava me observando.
— Profissionalmente.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Sarah sorriu.
— Aprendi com Emmett.
Jacob empurrou uma pasta na direção dela.
— Péssima influência.
— Ele disse que você diria isso.
— Claro que disse.
Sarah abriu a pasta.
— O que é?
— Uma operação que estamos estruturando. Preciso de uma análise independente.
— Prazo?
— Amanhã.
Ela ergueu os olhos.
— Naturalmente.
— Algum problema?
— Nenhum.
Começou a ler.
Jacob voltou ao computador.
Por vários minutos, permaneceram em silêncio.
Estranhamente, não era desconfortável.
Sarah virou algumas páginas.
Jacob digitou.
Ela voltou duas folhas.
— Isso está errado.
Jacob nem ergueu os olhos.
— Você diz isso com frequência preocupante.
— Porque vocês erram com frequência preocupante.
— Vocês?
— A empresa.
— Agora você faz parte da empresa.
Sarah pensou.
— Então erramos com frequência preocupante.
Jacob sorriu discretamente.
Sarah viu.
— Você sorriu.
O sorriso desapareceu.
— Não.
— Sorriu.
— Trabalha, Sarah.
— Você tem algum problema com sorrir?
— Não.
— Parece ter.
Jacob levantou os olhos.
— Você fala demais.
— Emmett também diz.
— Emmett fala mais do que você.
Sarah arregalou os olhos.
— Isso é biologicamente possível?
Jacob riu.
Não foi apenas um sorriso.
Riu.
Baixo, breve, mas genuíno.
Sarah ficou imóvel.
Alguma coisa naquele som atravessou-a.
Jacob percebeu.
— O quê?
Ela não respondeu.
A sensação desapareceu tão rapidamente quanto surgira, deixando apenas uma inquietação inexplicável.
Sarah levou a mão ao peito.
Jacob acompanhou o movimento.
— De novo.
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Isso.
Ele indicou a mão.
Sarah a retirou.
— Mania.
— Desde quando?
A pergunta saiu antes que Jacob pudesse impedi-la.
Sarah pensou.
— Desde sempre, eu acho.
O coração dele apertou.
— Sempre?
— Não lembro de não fazer.
Jacob desviou os olhos.
Coincidência.
Mais uma.
— Por quê?
Sarah deu de ombros.
— Não sei.
Então sorriu.
— Talvez eu esteja escondendo um grande segredo.
Jacob congelou.
Uma lembrança surgiu sem permissão.
Uma menina sentada na cama.
Oito anos.
A mão sobre o peito.
O que você está escondendo?
Segredo.
Jacob levantou-se abruptamente.
Sarah se assustou.
— O que foi?
— Café.
— Café?
— Quer?
Ela o encarou.
— Você levantou desse jeito por causa de café?
— Quer ou não?
Sarah estreitou os olhos.
— Quero.
Jacob saiu.
Ela ficou olhando para a porta.
— Definitivamente estranho.
No corredor, Jacob apoiou as mãos sobre um aparador e respirou fundo.
Aquilo precisava parar.
Sarah Clearwater não podia fazer um gesto sem que sua mente procurasse Sarah Cullen dentro dele.
Quinze anos.
Quinze anos.
Sarah Cullen desaparecera num rio.
Sarah Clearwater era filha de Harry e Sue Clearwater.
Tinha uma vida.
Uma família.
Uma história.
Não havia ligação.
Nenhuma.
— Jacob?
Ele se endireitou.
Edward aproximava-se.
— O quê?
— Está bem?
— Estou.
Edward olhou para a porta da presidência.
— Sarah está aí?
Jacob imediatamente endureceu.
— Está trabalhando.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Eu só perguntei.
— E eu respondi.
— Certo.
Edward deu alguns passos e parou.
— Bella vai jantar conosco hoje.
— Ótimo.
— Emmett e Rosalie também.
— Ótimo.
— Billy pediu para você ir.
Jacob suspirou.
— Hoje?
— Sim.
— Por quê?
Edward sorriu.
— Porque sente saudade dos filhos.
— Ele só tem um.
Edward ficou sério.
— Tenta dizer isso para ele.
Jacob sorriu.
Billy jamais fizera diferença.
Depois da morte de Carlisle e do desaparecimento de Sarah, recebera a guarda de Emmett e Edward e os criara ao lado de Jacob. Com o tempo, “tio Billy” desaparecera naturalmente em muitos momentos e dera lugar a “pai”.
— Estarei lá — Jacob respondeu.
Edward começou a se afastar.
— Edward.
Ele se virou.
Jacob hesitou.
Quase perguntou.
Você lembra se Sarah fazia isso?
Não perguntou.
— Nada.
Edward o observou.
— Certo.
Foi embora.
Jacob permaneceu no corredor por alguns segundos.
Não precisava perguntar.
Ele lembrava.
Às sete da noite, a casa de Billy Black estava novamente cheia.
Emmett chegou primeiro com Rosalie.
Edward apareceu pouco depois com Isabella.
Jacob foi o último.
— O presidente decidiu nos honrar com sua presença! — Emmett anunciou assim que ele entrou.
Billy apareceu.
— Venha aqui.
Jacob abraçou o pai.
— Oi.
— Você está trabalhando demais.
— Emmett contou?
— Não preciso de Emmett para saber.
— Mas eu contaria! — Emmett gritou da sala.
Billy riu.
Jacob tirou o paletó.
— Onde está Sarah? — Rosalie perguntou.
Jacob virou o rosto imediatamente.
— Sarah?
Rosalie olhou para ele.
— Convidei.
Jacob ficou imóvel.
— Você convidou Sarah Clearwater para jantar aqui?
— Convidei.
— Por quê?
Rosalie cruzou os braços.
— Porque ela é minha amiga.
— Aqui?
— Não sabia que sua casa exigia autorização da presidência da empresa.
Emmett apareceu segurando uma taça.
— Eu apoiei.
Jacob fechou os olhos.
— Claro que apoiou.
Edward entrou na sala.
— Ela vem?
— Disse que talvez.
Jacob olhou para o pai.
Billy deu de ombros.
— Mais uma pessoa à mesa nunca matou ninguém.
— Não é isso.
— Então o que é? — Emmett perguntou.
Jacob não respondeu.
A campainha tocou.
Seu coração acelerou.
E aquilo o irritou profundamente.
Rosalie sorriu.
— Deve ser ela.
— Desculpem o atraso.
Sarah entrou carregando uma garrafa de vinho.
— Eu quase não vim.
Rosalie abraçou-a.
— Ainda bem que veio.
Sarah cumprimentou Emmett.
Depois Edward.
Isabella.
Então viu Jacob.
— Presidente.
— Advogada.
Ela sorriu.
— Você é mais simpático fora da empresa?
— Não.
— Imaginei.
Billy ouviu a risada antes de vê-la.
Saiu da sala de jantar.
— Quem é que...
Parou.
Sarah virou-se.
E, por um instante, Billy esqueceu completamente o que pretendia dizer.
Não foi Sarah Cullen que viu.
Foi Esme.
A sensação foi tão violenta que ele simplesmente permaneceu imóvel.
Os olhos.
Não era apenas a cor.
Era a maneira de olhar.
A luminosidade que surgia neles quando ela sorria.
E o sorriso...
Deus.
Aquele sorriso.
Billy conhecera Esme Cullen por anos. Vira-a rir com Sarah Black em incontáveis jantares, sentar-se ao lado dela na varanda enquanto os filhos brincavam, discutir com Carlisle, repreender Emmett, abraçar Edward, carregar a pequena Sarah no colo.
Conhecia aquele sorriso.
Agora ele estava diante dele.
No rosto de uma desconhecida.
— Pai?
A voz de Jacob rompeu o choque.
Billy não respondeu imediatamente.
Sarah perdeu um pouco do sorriso.
— Senhor Black?
Billy piscou.
— Desculpe.
Sarah aproximou-se.
— Sarah Clearwater.
Outro golpe.
Sarah.
Billy olhou para a mão estendida.
Depois para o rosto.
— Billy Black.
Apertou a mão dela.
— Prazer.
— O prazer é meu.
Billy continuou olhando.
Sarah começou a ficar constrangida.
— Está tudo bem?
— Sim.
Ele tentou sorrir.
— Desculpe. Você...
Parou.
— Eu?
Billy olhou novamente para seus olhos.
— Você me lembrou uma pessoa.
Jacob ficou tenso.
Emmett parou de sorrir.
Edward virou-se completamente para eles.
Sarah apenas pareceu curiosa.
— Alguém que conhece?
Billy demorou um instante.
— Conhecia.
O sorriso dela suavizou.
— Espero que seja uma boa lembrança.
Billy sentiu a garganta apertar.
— Uma das melhores.
Sarah sorriu.
E foi ainda pior.
Billy precisou desviar os olhos.
— Venha. Vamos jantar.
Sarah assentiu e acompanhou Rosalie.
Quando passou por Billy, ele continuou imóvel.
Jacob aproximou-se.
— Pai?
Billy falou tão baixo que apenas ele ouviu:
— Esme.
Jacob congelou.
— O quê?
Billy olhou para Sarah do outro lado da sala.
— Ela sorri como Esme.
Jacob acompanhou seu olhar.
Sarah ria de alguma coisa que Emmett acabara de dizer.
Billy balançou lentamente a cabeça.
— Os olhos também.
O estômago de Jacob contraiu.
— Pai...
Billy levantou a mão.
— Eu sei.
— Não faça isso.
— Eu não estou fazendo nada.
Mas não conseguia parar de olhar.
O jantar começou com Emmett monopolizando a conversa.
Sarah sentou-se entre Rosalie e Jacob.
Por acaso.
Segundo Rosalie.
Jacob não acreditou.
— Você fez isso de propósito — murmurou para Emmett.
— Eu não fiz nada.
— Rosalie fez.
— Então reclama com ela.
Sarah ouviu.
— Algum problema com o lugar?
Jacob olhou para ela.
— Nenhum.
— Ótimo.
Emmett sorriu.
Billy observava.
Tentava convencer-se de que a impressão inicial desapareceria.
Não desapareceu.
Sarah não era uma cópia de Esme.
Tinha traços próprios.
Expressões próprias.
Mas, de tempos em tempos, alguma coisa acontecia.
Ela inclinava a cabeça.
Sorria.
Erguia os olhos.
E, por um segundo, Esme surgia.
Então desaparecia.
Billy sentia o coração apertar cada vez que acontecia.
Em determinado momento, Emmett contou uma história absurda sobre uma reunião.
Sarah riu.
Billy largou lentamente o garfo.
Jacob viu.
— Pai?
Sarah também percebeu.
— Está tudo bem?
Billy olhou para ela.
O sorriso permanecia.
— Está.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mas sua voz saiu emocionada.
Sarah ficou preocupada.
— Eu fiz alguma coisa?
— Não.
Billy sorriu.
— Você não fez absolutamente nada.
Ela assentiu e voltou à conversa.
Billy olhou para Jacob.
Jacob entendeu.
Outra vez.
O sorriso.
Alguns minutos depois, Sarah estendeu a mão na direção do prato de Jacob.
— Me dá isso.
Jacob olhou.
— O quê?
— A batata.
Ele apontou para a travessa.
— Tem batata ali.
— Quero essa.
— Por quê?
Sarah olhou para o prato dele.
— Parece melhor.
Sem pensar, Jacob colocou a batata no prato dela.
— Obrigada.
Silêncio.
Emmett congelou.
Edward também.
Jacob percebeu.
— O quê?
Emmett abriu a boca.
Fechou.
Edward olhava para o prato.
Uma lembrança atravessou os dois.
Uma mesa antiga.
Uma menina de oito anos.
Jacob, me dá sua batata.
Tem mais ali.
Quero a sua.
Por quê?
Porque parece melhor.
Emmett perdeu o sorriso.
Edward olhou para Jacob.
Jacob percebeu imediatamente.
— Não.
Sarah franziu a testa.
— Não o quê?
Emmett pegou o copo.
— Nada.
— Alguma coisa aconteceu.
— Não aconteceu nada.
Sarah olhou para Edward.
— Edward?
— Nada.
Para Jacob.
— Jacob?
— Come sua batata.
Ela arregalou os olhos.
— Minha nossa.
Billy observava todos.
— O que aconteceu?
— Nada — os três responderam juntos.
Sarah começou a rir.
— Vocês fazem isso muito.
— Fazemos o quê? — Billy perguntou.
— Ficam estranhos ao mesmo tempo.
Emmett tentou sorrir.
— Somos sincronizados.
— Assustador.
Billy sorriu.
Mas Edward não.
Nem Jacob.
Pouco depois, Sarah, Rosalie e Isabella foram para a cozinha.
Assim que desapareceram, Billy olhou para os três.
— Agora alguém vai me explicar.
Jacob endureceu.
— Explicar o quê?
— A batata.
Emmett soltou o ar.
— Pai...
Billy esperou.
Edward respondeu:
— Era uma coisa que Sarah fazia.
Billy ficou imóvel.
— Sarah?
— Nossa Sarah.
Jacob levantou-se.
— Não.
Billy olhou para ele.
— Não o quê?
— Não vamos começar.
— Começar o quê?
Jacob passou a mão pelos cabelos.
— A transformar tudo o que Sarah Clearwater faz numa lembrança.
Billy ficou sério.
— Vocês já fizeram isso antes?
Silêncio.
Jacob percebeu que havia falado demais.
Billy olhou para Emmett.
— Emmett?
Ele suspirou.
— Desde que conhecemos ela.
— Como assim?
Edward respondeu:
— Nós três tivemos a impressão de que já conhecíamos Sarah.
Billy ficou imóvel.
— Os três?
— Sim.
Billy olhou para Jacob.
— Você também?
Jacob não respondeu.
— Jacob.
Ele apertou a mandíbula.
— Os olhos.
Billy sentiu um arrepio.
— O quê?
— Quando ela entrou na minha sala pela primeira vez...
Jacob respirou fundo.
— Foram os olhos.
Billy olhou para Emmett.
— E você?
— O sorriso.
Edward completou:
— Comigo foi mais... difícil de explicar.
— Tenta.
Edward pensou.
— Familiaridade. E vontade de proteger ela.
Billy permaneceu em silêncio.
Então olhou para a porta da cozinha.
— Ela parece com Esme.
Jacob fechou os olhos.
— Pai.
— Não estou dizendo que é Sarah.
Emmett ficou sério.
— Eu também percebi hoje.
Jacob abriu os olhos.
— Não.
Emmett sustentou o olhar.
— Não tinha percebido antes.
Edward estava pálido.
— Os olhos.
Billy assentiu.
— Os olhos e o sorriso.
Olhou para os três.
— Vocês eram crianças quando Esme morreu. Eu não era. Eu conhecia cada expressão daquela mulher.
Edward baixou os olhos.
— Ela teria vinte e três anos.
O silêncio mudou.
Jacob virou-se imediatamente.
— Não.
Emmett respirou fundo.
— Jacob...
— Não.
Billy falou com calma:
— Ninguém está afirmando nada.
— Estão chegando lá.
Jacob apontou para a cozinha.
— Aquela mulher tem uma vida. Tem pais. Tem uma história.
Billy assentiu.
— Eu sei.
— Então não transformem Sarah Clearwater na nossa Sarah porque ela tem o sorriso de Esme.
— Jacob...
— E porque pediu uma batata!
A voz dele aumentou.
Emmett levantou-se.
— Fala baixo.
Jacob respirou fundo.
— Vocês não percebem o que podem fazer.
Billy ficou sério.
— Percebemos.
— Não, não percebem.
Jacob baixou a voz.
— E se estiverem errados?
Ninguém respondeu.
— Vão fazer o quê? Perguntar se ela se lembra de cair de um precipício? Mostrar fotografias de uma criança? Dizer que achamos que ela pode ser alguém que morreu quinze anos atrás porque sorri como Esme e pega comida do meu prato?
Edward abaixou os olhos.
Jacob continuou:
— Ela tem uma família.
Billy assentiu.
— Tem razão.
Jacob parou.
Não esperava que o pai concordasse tão facilmente.
— Não faremos nada — Billy disse.
Edward olhou para ele.
— Nada?
— Nada que envolva Sarah.
Billy foi firme.
— Não vamos interrogá-la. Não vamos mostrar fotografias. Não vamos colocar lembranças na cabeça dela.
Jacob relaxou.
— Obrigado.
Billy fez uma pausa.
— Mas também não vou fingir que não vi.
Jacob voltou a endurecer.
— Pai...
— Conheci Esme durante quase toda a minha vida adulta. E aquela jovem entrou na minha casa com os olhos dela e sorriu para mim como Esme sorria.
Jacob não respondeu.
Billy continuou:
— Eu não sei o que isso significa.
Olhou para os três.
— Mas não consigo simplesmente esquecer.
Na cozinha, Sarah não fazia ideia da conversa.
— Está gostando da empresa? — Isabella perguntou.
— Muito.
— Principalmente das pessoas?
Rosalie olhou imediatamente para Isabella.
Sarah não percebeu a intenção.
— Também.
— Edward fala muito bem de você.
Sarah sorriu.
— Ele é muito querido.
Isabella apertou o pano que segurava.
— Querido?
— É.
Sarah riu.
— Um pouco superprotetor, mas querido.
Rosalie interveio:
— Edward é assim.
Isabella olhou para ela.
Rosalie sustentou o olhar.
Sarah continuou:
— Às vezes parece que acha que eu tenho oito anos.
Rosalie congelou por uma fração de segundo.
— Oito?
Sarah riu.
— Modo de falar.
Isabella relaxou.
Rosalie não.
Quando Sarah voltou à sala, encontrou os quatro homens estranhamente quietos.
Parou.
— Outra vez?
Emmett tentou sorrir.
— Outra vez o quê?
— Essa cara coletiva de velório.
Edward tossiu.
— Estávamos conversando.
— Sobre?
— Trabalho — Jacob respondeu.
Sarah olhou desconfiada.
Depois percebeu Billy observando-a.
— Senhor Black...
— Billy.
Ela sorriu.
— Billy.
O coração dele apertou novamente.
Esme.
Por um instante, estava ali.
— Tem certeza de que está bem?
Billy ergueu o rosto.
— Tenho.
— Ótimo.
Sarah sentou-se.
E, sem perceber, levou a mão ao peito.
Billy viu.
Jacob viu.
Emmett viu.
Edward viu.
Dessa vez ninguém disse nada.
Quando o jantar terminou, Sarah despediu-se.
Abraçou Rosalie.
Emmett insistiu que ela deveria voltar porque finalmente havia alguém naquela casa que apreciava seu senso de humor.
Edward pediu que avisasse quando chegasse.
— Está vendo? — Sarah disse. — Superprotetor.
Edward pareceu constrangido.
Isabella percebeu.
Sarah virou-se para Billy.
— Obrigada pelo jantar.
Billy hesitou.
Então a abraçou.
O gesto surpreendeu Sarah.
E surpreendeu o próprio Billy.
— Volte mais vezes.
Ela sorriu.
— Se me convidarem.
— Está convidada.
Emmett abriu os braços.
— Pronto. Agora nem precisamos mais da Rosalie.
— Ei! — Rosalie protestou.
Sarah riu.
Billy fechou os olhos por um instante.
Aquele sorriso novamente.
— Boa noite.
— Boa noite, Billy.
Sarah caminhou até a porta.
Jacob a acompanhou.
Nenhum dos dois comentou que ele não fizera o mesmo com Rosalie ou Isabella.
— Seu pai é adorável.
— Ele gostou de você.
— Eu gostei dele.
Caminharam até o carro.
— Embora tenha me olhado como se estivesse tentando lembrar onde me viu.
Jacob parou.
Sarah percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Vocês realmente precisam inventar uma resposta nova.
Jacob colocou as mãos nos bolsos.
— Sarah.
— Hum?
Ele queria perguntar.
Sobre infância.
Sobre Harry.
Sobre Sue.
Sobre lembranças.
Sobre por que ela tocava o peito daquele jeito.
Não perguntou nada.
— Dirige com cuidado.
Sarah sorriu.
— Você realmente não consegue evitar.
— O quê?
— Cuidar.
Jacob ficou imóvel.
Uma voz infantil atravessou sua memória.
Você sempre cuida de mim.
O rosto dele mudou.
Sarah percebeu.
— Jacob?
— Nada.
Ela abriu a porta do carro.
— Boa noite.
— Boa noite.
Sarah entrou.
Jacob esperou até ela sair pelo portão.
Só então voltou para casa.
Billy estava diante de um armário antigo.
Emmett e Edward permaneciam na sala.
Jacob entrou e percebeu imediatamente.
— Pai.
Billy abriu uma caixa.
— Eu disse que não faríamos nada.
— Então o que está fazendo?
— Lembrando.
Retirou uma fotografia.
Não de Sarah.
De Esme.
Jacob ficou imóvel.
Na fotografia, Esme devia ter pouco mais de vinte anos.
Estava ao lado de Sarah Black.
As duas riam.
Billy colocou a fotografia sobre a mesa.
Emmett aproximou-se.
Edward também.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Billy apontou.
— O sorriso.
Emmett respirou fundo.
Era verdade.
Não idêntico.
Mas parecido o suficiente para incomodar.
Edward olhou atentamente.
— Os olhos também.
Jacob permaneceu longe.
— Filhos se parecem com as mães. Pessoas sem parentesco também podem se parecer.
Billy olhou para ele.
— Eu sei.
— Então guarda isso.
Billy pegou a fotografia.
— Vou guardar.
Colocou-a novamente na caixa.
Jacob relaxou.
Até Billy dizer:
— Mas Sarah Cullen nunca foi encontrada.
O corpo de Jacob enrijeceu.
— Não.
Billy olhou para ele.
— Filho...
— Ela morreu.
— Nós presumimos que morreu.
— Porque ninguém sobreviveria.
— Talvez.
Jacob se aproximou.
— Não diga talvez.
Billy viu a dor.
— Jacob...
— Eu passei quinze anos vendo ela cair.
A voz falhou.
— Quinze anos.
Emmett abaixou os olhos.
Edward ficou imóvel.
— Eu ouvi ela me pedir para não soltar — Jacob continuou. — Eu prometi.
Billy aproximou-se.
— Você era uma criança.
— Eu soltei.
— Você não soltou. Você tentou segurá-la.
— Não foi suficiente.
Billy segurou os ombros do filho.
— Olha para mim.
Jacob resistiu.
— Olha para mim.
Finalmente olhou.
— Você tinha dez anos.
Billy falou devagar.
— Dez.
Jacob apertou a mandíbula.
— E se ela estivesse viva?
A pergunta saiu tão baixa que quase não foi ouvida.
Todos ficaram imóveis.
Jacob parecia assustado com as próprias palavras.
— E se...
Parou.
Billy não respondeu.
Jacob continuou:
— Se Sarah estivesse viva durante todos esses anos...
A voz quebrou.
— Onde ela estava?
Billy sentiu os olhos arderem.
— Eu não sei.
— Por que não voltou?
— Não sei.
— Por que nunca procurou a gente?
— Não sei.
Jacob afastou-se.
— Exatamente.
Foi até a porta.
— Não façam isso.
Emmett falou:
— Jacob...
Ele não se virou.
— Não me deem esperança.
Saiu.
Naquela madrugada, Irina recebeu um arquivo.
SARAH CLEARWATER
Abriu.
Nascimento.
Educação.
Escolas.
Universidade.
Cursos.
Histórico profissional.
Filha de Harry Clearwater e Sue Clearwater.
Nenhum escândalo.
Nenhuma ligação conhecida com o setor automobilístico antes da contratação.
Nenhuma relação aparente com Cullen ou Black.
Irina continuou lendo.
— Nada?
A voz ao telefone respondeu:
— Nada relevante.
— Tem certeza?
— A vida dela parece bastante normal para alguém da posição econômica da família.
Irina percorreu os documentos.
— Quero mais.
— Mais o quê?
— Infância.
— O arquivo inclui escolas.
— Antes.
Houve silêncio.
— Antes de quê?
Irina não sabia responder.
Pensou no rosto de Sarah.
Naquela expressão.
Naquela sensação inexplicável de desconforto.
— Tudo.
— Irina...
— Eu estou pagando para fazer perguntas ou receber respostas?
— Respostas.
— Então encontre.
Desligou.
Olhou novamente para a fotografia de Sarah adulta.
Os olhos.
O sorriso.
Irina sentiu o mesmo incômodo da primeira vez.
Não.
Era absurdo.
Fechou o arquivo.
Permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então abriu novamente.
E ampliou a fotografia.
Dessa vez ficou olhando para os olhos.
Alguma coisa antiga tentou atravessar sua memória.
Irina fechou a tela antes que conseguisse alcançá-la.
Na casa dos Clearwater, Sarah dormia sem saber que seu passado acabara de ganhar mais quatro pessoas procurando respostas.
Sob o pijama, a pequena lua permanecia escondida.
Na casa de Billy, uma fotografia de Esme voltara para uma caixa depois de muitos anos.
No apartamento de Jacob, ele permanecia acordado, encarando o teto, arrependido de ter feito uma pergunta que passara quinze anos evitando.
E se ela estivesse viva?
E no escritório de Irina, um arquivo com o nome Sarah Clearwater permanecia aberto.
Nenhum deles tinha uma resposta.
Ainda.
Mas Billy fora o primeiro a enxergar algo que os outros não tinham conseguido identificar.
Não a menina de oito anos que desaparecera.
A mulher que poderia ter se tornado.
Porque, escondidos no rosto de Sarah Clearwater, estavam os mesmos olhos e o mesmo sorriso da mãe que Sarah Cullen perdera quando ainda era criança.
Esme Cullen.
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