MEMÓRIAS

27 CAPÍTULO 26 - A mulher que nunca foi escolhida


Irina passou a manhã tentando não olhar para a porta do escritório de Sarah.

Falhou.

Às nove e quinze, viu Jacob entrar.

Às nove e quarenta, ele saiu sorrindo.

Às dez e vinte, Sarah atravessou o corredor com Edward.

Às onze, estava na sala de Emmett.

Ao meio-dia, os quatro saíram juntos.

Era ridículo.

Irina sabia.

Sarah era irmã de Edward e Emmett.

Tinha crescido com Jacob.

A proximidade era perfeitamente explicável.

Mas nada parecia perfeitamente explicável quando Irina olhava.

Porque não via apenas Sarah Cullen.

Via uma invasão.

Em poucas semanas, aquela mulher entrara na empresa, conquistara espaço, recuperara o sobrenome Cullen, fora reconhecida como herdeira, aproximara-se dos irmãos e agora...

Jacob.

Sempre Jacob.

O filho de Billy.

Irina fechou os olhos.

E novamente viu a noite anterior.

A mão de Jacob na cintura de Sarah.

O sorriso.

O beijo.

A facilidade entre os dois.

Depois viu outra coisa.

Billy segurando Sarah Black.

Décadas antes.

O mesmo maldito sorriso.

— Chega.

Levantou-se.

Não pensou.

Se tivesse pensado, talvez não tivesse ido.


Sarah estava sozinha.

Finalmente.

Depois do desastre absoluto daquela manhã — Emmett descobrindo seu constrangimento, Edward entrando na brincadeira e Jacob transformando as próprias mãos numa arma deliberada contra sua capacidade de concentração — ela conseguira terminar a petição.

Estava revisando o último tópico quando ouviu duas batidas secas.

A porta abriu antes que respondesse.

Irina.

Sarah levantou os olhos.

— Bom dia.

Irina entrou.

Fechou a porta.

Sarah percebeu imediatamente.

Alguma coisa estava errada.

— Precisamos conversar.

Sarah salvou o documento.

— Sobre?

— Você.

Sarah recostou-se.

— Assunto abrangente.

Irina não sorriu.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Esse tom.

Sarah observou-a.

— Você entrou no meu escritório sem ser convidada e anunciou que quer falar sobre mim. Estou tentando descobrir exatamente qual é o assunto.

Irina aproximou-se.

— Seu comportamento.

Sarah piscou.

— Meu comportamento?

— Sim.

Agora havia algo diferente na voz de Irina.

Não era a frieza habitual.

Não era cálculo.

Era raiva.

Sarah ficou mais atenta.

— Seja específica.

Irina riu sem humor.

— Claro. A advogada precisa de especificidade.

— Normalmente ajuda.

— Seu envolvimento com Jacob.

Sarah ficou imóvel.

Então entendeu.

Irina sabia.

— Minha vida pessoal não é assunto seu.

— Passa a ser quando acontece dentro desta empresa.

Sarah fechou lentamente a tampa da caneta.

— Se você tem alguma questão objetiva envolvendo política interna, conflito de interesses ou governança corporativa, pode apresentá-la formalmente.

A resposta pareceu irritar Irina ainda mais.

— Você transforma tudo em argumento jurídico.

— Quando alguém invade meu escritório para questionar minha vida pessoal, ajuda.

— Vida pessoal?

Irina soltou uma risada curta.

— Você realmente não tem vergonha nenhuma.

Sarah parou.

A palavra mudou tudo.

— Cuidado, Irina.

— Com quê? Com a verdade?

— Com a forma como fala comigo.

Irina avançou um passo.

— Você mal voltou para esta família e já está agindo como se fosse dona de tudo.

Sarah levantou-se.

Devagar.

— Eu não “voltei para esta família” por decisão sua. Eu descobri quem eram meus pais biológicos. Existe uma diferença.

— Carlisle era meu irmão.

— E meu pai.

A resposta saiu imediatamente.

Irina apertou os lábios.

— Você não o conheceu.

Sarah sentiu.

Mas não demonstrou.

— Conheci durante oito anos.

— Dos quais não se lembra.

Silêncio.

Irina percebeu tarde demais.

Sarah não mudou a expressão.

Mas os olhos mudaram.

— Interessante.

Irina parou.

— O quê?

— Você parece bastante interessada no que eu lembro ou deixo de lembrar.

— É natural.

— É?

— Sou sua tia.

Sarah quase sorriu.

— Curioso. Você só se lembra disso quando é conveniente.

Irina perdeu mais um pouco do controle.

— Você é insolente.

— E você está evitando explicar por que entrou aqui.

— Eu já expliquei.

— Não. Você mencionou Jacob.

Sarah cruzou os braços.

— Continue.

Irina a encarou.

— Eu vi vocês.

Sarah não respondeu.

— Ontem.

Ainda nada.

— Na sala dele.

Sarah compreendeu.

O beijo.

Irina os vira.

— Certo.

A tranquilidade irritou Irina.

— “Certo”?

— O que você esperava que eu dissesse?

— Talvez que tivesse algum pudor.

Sarah demorou um segundo.

— Perdão?

— Você ouviu.

A expressão de Sarah endureceu.

— Ouça com bastante atenção, Irina. Você pode discutir comigo sobre empresa, ações, contratos, sucessão ou qualquer assunto que diga respeito à Cullen & Black. Mas não vai entrar no meu escritório para fazer insinuações sobre a minha moral.

— Moral?

Irina riu.

— Interessante você falar nisso.

Sarah não respondeu.

E Irina avançou.

— Você entrou aqui há poucos meses sem sequer saber quem era. Emmett imediatamente colocou você dentro da empresa. Edward começou a agir como seu protetor. Billy praticamente a recebeu como se nunca tivesse desaparecido. E Jacob...

Ela parou.

Sarah percebeu.

Foi pequeno.

Mas percebeu.

A voz de Irina mudara quando pronunciara o nome dele.

— Jacob o quê?

— Você sabe muito bem.

— Quero ouvir você dizer.

Irina estreitou os olhos.

— Agora dorme com ele.

Sarah sentiu a raiva.

Forte.

Mas não deu a Irina o que ela queria.

— Isso continua não sendo assunto seu.

— Você se comporta como se não houvesse consequência para nada.

— Consequência de quê? De dois adultos terem um relacionamento?

— Relacionamento?

Irina riu.

— É assim que chama?

Sarah ficou em silêncio.

Irina deveria ter parado.

Não parou.

— Você se oferece a ele, desfila pela empresa como se já fosse dona do lugar, faz todos os homens daquela família girarem ao seu redor e ainda espera ser tratada como...

Sarah levantou a mão.

— Pare.

Irina ignorou.

— Exatamente como ela.

Sarah congelou.

— Ela quem?

Silêncio.

Irina percebeu.

Tarde demais.

Sarah deu um passo.

— Quem, Irina?

— Ninguém.

— Você acabou de dizer que eu sou exatamente como “ela”.

Sarah inclinou levemente a cabeça.

— Quem?

Irina desviou.

E Sarah viu.

Não era Esme.

De alguma forma, soube imediatamente.

— Sarah Black?

Irina virou o rosto para ela.

Foi suficiente.

Sarah sentiu uma peça se encaixar.

— É dela que você está falando.

— Não seja ridícula.

— Você falou “ela” enquanto discutia meu relacionamento com Jacob.

Sarah analisava agora.

Não brigava.

Analisava.

— E ontem, quando me viu com ele, pensou em Sarah Black.

— Você não sabe o que está dizendo.

— Então me corrija.

Irina respirou fundo.

— Você não conheceu aquela mulher.

— Conheci.

— Era uma criança.

— Mas você conheceu.

A mandíbula de Irina se contraiu.

Sarah percebeu.

— Muito bem, pelo visto.

— Todos conheciam.

— Billy especialmente.

Irina ficou branca.

Ali.

Sarah viu.

E sua raiva começou a dar lugar a outra coisa.

Compreensão.

— Meu Deus.

— Não.

— Era Billy.

— Cala a boca.

Sarah arregalou levemente os olhos.

Irina nunca perdera o controle daquele jeito diante dela.

— Você era apaixonada por Billy.

— Eu mandei você calar a boca.

Sarah ficou absolutamente quieta.

E, naquele silêncio, confirmou.

Não porque Irina admitira.

Porque reagira.

Sarah conhecia pessoas.

Conhecia testemunhas.

Conhecia partes tentando esconder fatos.

Conhecia o instante exato em que alguém deixava de responder ao que fora perguntado e passava a reagir ao que tinha sido descoberto.

— Você era apaixonada por ele — repetiu, agora sem provocação.

Irina riu.

Mas havia algo quebrado na risada.

— Apaixonada.

A palavra pareceu ofendê-la.

— Você não sabe nada.

— Então me conte.

— Não tenho nada para contar.

— Tem décadas.

Irina aproximou-se.

— Sarah Black fazia exatamente o que você está fazendo agora.

Sarah permaneceu imóvel.

— O quê exatamente?

— Ela entrava numa sala e fazia tudo girar ao redor dela.

— Isso parece mais uma percepção sua do que um comportamento dela.

— Ela sabia.

— Sabia o quê?

— O efeito que causava.

Sarah começou a compreender a profundidade.

— Em Billy?

Irina soltou o ar.

— Em todos.

— Mas principalmente em Billy.

— Você acha que é inteligente demais.

— Não. Só estou ouvindo.

E estava.

Cada palavra.

Cada mudança de voz.

Cada expressão.

Irina continuou:

— Sarah Black nunca precisou fazer esforço. Billy simplesmente estava lá. Sempre. Ela mandava e ele obedecia. Ela sorria e ele esquecia o resto do mundo. Pegava as coisas dele. Invadia a casa dele. Sentava onde queria. Fazia o que queria.

Sarah sentiu um arrepio.

Não de medo.

Reconhecimento.

Batatas.

Ordens.

Jacob reclamando e obedecendo.

O jeito como Billy contara histórias.

— E você odiava isso.

— Eu odiava a arrogância dela.

— Não.

Irina parou.

Sarah olhou diretamente para ela.

— Você odiava que ele gostasse.

Silêncio.

— Você odiava que Billy gostasse quando ela mandava. Que achasse graça quando ela roubava a comida dele. Que procurasse por ela.

Irina apertou os punhos.

Sarah viu.

— Você queria que ele olhasse para você daquela maneira.

— Você não sabe de nada!

A voz saiu alta.

Sarah não recuou.

— E agora você vê Jacob olhando para mim.

Foi como acender fogo.

— Não se compare a ela!

Sarah ficou surpresa.

— Eu não estou me comparando.

— Está, sim!

— Foi você quem fez isso.

Irina respirava rápido.

— Você não é Sarah Black.

— Eu sei.

— Nunca será.

— Também sei.

— E Jacob não é Billy!

Sarah ficou imóvel.

A frase ecoou.

Pronto.

Ali estava.

A verdade inteira daquela discussão.

Não tinha começado com Sarah.

Nem com Jacob.

Tinha começado décadas antes.

— Eu sei que Jacob não é Billy — respondeu calmamente.

Irina percebeu o que acabara de revelar.

Mas já era tarde.

Sarah deu um passo.

— Mas você parece estar tendo dificuldade para lembrar disso.

— Não ouse.

— Foi você que entrou aqui falando do meu relacionamento.

— Porque você está se comportando de forma libertina dentro de uma empresa que leva o nome do seu pai!

Sarah perdeu o sorriso completamente.

— Libertina?

— Você ouviu.

— Ouvi.

Sarah caminhou devagar ao redor da mesa.

Irina continuou:

— Beijando Jacob em salas da empresa. Passando a noite com ele. Chegando junto com ele pela manhã. Exatamente como Sarah Black fazia com Billy, como se regras não existissem para ela.

Sarah parou diante dela.

— Primeiro: o que acontece entre Jacob e mim fora daqui não diz respeito a você.

Irina abriu a boca.

Sarah não deixou.

— Segundo: beijar meu namorado não me transforma em libertina.

Foi a primeira vez que usou a palavra.

Namorado.

Sarah percebeu.

Irina também.

Mas Sarah continuou.

— Ter uma vida íntima não diminui minha inteligência, minha competência, minha carreira ou meu direito de ocupar esta sala.

Irina riu.

— Você acha que ter o sobrenome Cullen lhe dá direitos.

— Não.

Sarah sustentou o olhar.

— A lei dá.

Silêncio.

— E isso deve incomodar bastante você.

Irina ficou rígida.

Sarah finalmente entendeu que havia duas coisas misturadas ali.

Patrimônio.

E inveja.

Uma atual.

Outra antiga.

— Você não está com raiva porque eu beijei Jacob.

Irina não respondeu.

— Também não está preocupada com a reputação da empresa.

Sarah inclinou a cabeça.

— Você está com raiva porque viu alguma coisa.

— Pare.

— Viu Jacob comigo e lembrou de Billy com Sarah Black.

— Pare.

— E isso trouxe tudo de volta.

— Eu disse para parar!

Irina bateu a mão na mesa.

O som ecoou pelo escritório.

Sarah não se moveu.

Ficaram frente a frente.

Irina respirando rápido.

Sarah completamente imóvel.

E foi nesse momento que Sarah deixou de sentir raiva.

Sentiu algo muito mais perigoso.

Curiosidade.

Porque aquela reação era grande demais.

Antiga demais.

Profunda demais.

— Quanto você odiava Sarah Black?

Irina empalideceu.

Sarah viu.

— Essa pergunta incomodou.

— Você é repugnante.

— Não. Estou tentando entender.

— Entender?

— Sim.

Sarah agora falava como falaria durante um depoimento.

Calma.

Precisa.

— Você amava Billy.

— Eu nunca disse isso.

— Não precisava.

— Cuidado.

— Sarah Black ficou com ele.

Irina apertou a mandíbula.

— Eles se casaram.

Silêncio.

— Tiveram Jacob.

A respiração de Irina mudou.

Sarah continuou.

— E você passou décadas ressentida com uma mulher morta.

— Cala a boca.

— Depois eu apareço.

— Cala a boca!

— Com o nome dela.

Irina ficou imóvel.

— Com hábitos que lembram os dela.

— PARE!

— E Jacob começa a se aproximar de mim.

Irina avançou.

— Você acha que venceu alguma coisa?

Sarah parou.

— Venci?

— Você acha que porque Jacob olha para você como Billy olhava para ela, isso significa alguma coisa?

Sarah ficou quieta.

Irina estava completamente descontrolada agora.

— Homens como eles gostam desse tipo de mulher por algum tempo.

Sarah apenas ouviu.

— Mulheres barulhentas. Inconsequentes. Que acham que podem entrar em qualquer lugar e tomar o que quiserem. Sarah Black era assim.

Sarah sentiu uma pontada estranha.

Porque, apesar de não se lembrar completamente daquela mulher, sabia uma coisa.

Sarah Black a amara.

Dera a ela o colar.

Seu nome.

Parte de sua infância.

E Irina estava tentando destruir uma morta para ferir uma viva.

— Não fale dela assim.

Irina riu.

— Está defendendo alguém de quem nem se lembra?

— Estou defendendo alguém que não está aqui para responder.

Sarah deu um passo.

— E talvez esteja defendendo você de dizer mais do que deveria.

Irina parou.

Sarah percebeu o golpe.

— O que quer dizer?

— Você está muito alterada.

— Não estou.

— Está.

Sarah manteve a voz baixa.

— E pessoas alteradas cometem erros.

Irina olhou para ela.

— Isso é uma ameaça?

— É uma observação.

Sarah inclinou a cabeça.

— Profissional.

Silêncio.

Irina recuperou uma pequena parte do controle.

— Você acha que é muito esperta.

— Novamente: não. Eu apenas presto atenção.

— Então preste atenção nisso.

Irina aproximou-se.

— Jacob vai cansar.

Sarah piscou.

Irina sorriu com crueldade.

— Billy também teria cansado.

E ali Sarah viu.

Não ódio.

Não apenas.

Dor.

Humilhação.

Uma ferida que Irina nunca aceitara.

Sarah quase sentiu pena.

Quase.

— Mas não cansou, não é?

O sorriso de Irina desapareceu.

Sarah continuou baixinho:

— Billy não cansou de Sarah.

Silêncio.

— Esse é o problema.

Irina ficou branca.

— Ele a escolheu.

— Pare.

— E continuou escolhendo.

— Pare!

— Mesmo quando você estava ali.

Irina levantou a mão.

Sarah viu.

O gesto foi rápido.

Impulsivo.

Mas antes que qualquer coisa acontecesse, a porta abriu.

— Sarah, eu...

Jacob parou.

Edward estava atrás dele.

Os dois olharam para Irina.

A mão levantada.

Sarah diante dela.

Silêncio absoluto.

O rosto de Jacob mudou.

Instantaneamente.

— Abaixa a mão.

A voz saiu baixa.

Irina virou.

— Jacob...

— Agora.

Irina abaixou.

Sarah olhou para ele.

— Está tudo bem.

Jacob entrou.

— Não parece.

Edward fechou a porta atrás de si.

Observava tudo.

Irina tentou recompor a postura.

— Sua irmã e eu estávamos conversando.

Sarah soltou uma risada curta.

— Essa é uma definição generosa.

Jacob olhou para Sarah.

— O que aconteceu?

Irina respondeu antes:

— Sarah precisa aprender que existem limites.

Jacob virou lentamente.

— Limites?

— Comportamento.

Sarah quase revirou os olhos.

— De novo isso.

Edward franziu a testa.

— Que comportamento?

Irina olhou para Jacob.

Erro.

Sarah viu.

Edward também.

— Ah — Edward disse.

Irina ficou tensa.

Jacob percebeu.

— Isso é sobre mim e Sarah?

— É sobre a reputação desta empresa.

Sarah riu.

— Não é.

Jacob olhou para ela.

Sarah continuou:

— É sobre Billy.

O silêncio caiu.

Jacob ficou imóvel.

Edward olhou para Irina.

Irina perdeu a cor.

— Sarah.

— E sua mãe.

Jacob mudou completamente.

— Minha mãe?

Sarah olhou para ele.

— Irina conhecia Sarah Black muito melhor do que imaginávamos.

Irina avançou.

— Não distorça minhas palavras.

Sarah virou para ela.

— Eu não preciso.

Pausa.

— Você fez um trabalho excelente sozinha.

Edward cruzou os braços.

— O que ela disse?

Sarah não tirou os olhos de Irina.

— Que eu me comporto como Sarah Black.

Jacob franziu a testa.

— Como?

— Segundo Irina? Libertina.

Jacob ficou absolutamente imóvel.

— Ela disse o quê?

— Jacob — Sarah advertiu.

Mas ele já olhava para Irina.

— Você chamou Sarah de quê?

Irina tentou:

— Você não sabe o contexto.

— Não existe contexto.

— Ela está usando você.

Sarah arregalou os olhos.

Jacob quase riu.

— Usando?

— Exatamente como...

Irina parou.

Sarah terminou:

— Como Sarah Black usava Billy?

Jacob encarou a tia.

E alguma coisa nele mudou.

— Você era apaixonada pelo meu pai.

Irina não respondeu.

Edward olhou para Sarah.

Ela assentiu discretamente.

Jacob pareceu precisar de alguns segundos.

Então soltou uma risada sem humor.

— Meu Deus.

Irina endureceu.

— Não olhe para mim assim.

— Como?

— Como se soubesse.

— Eu não sabia.

Jacob deu um passo.

— Mas agora muita coisa faz sentido.

— Não faz ideia do que está dizendo.

— Talvez.

Sarah observou Irina.

A raiva.

O medo.

A vergonha.

E novamente aquela sensação.

Algo estava ali.

Muito mais profundo.

Sarah interveio:

— Jacob.

Ele olhou.

Sarah balançou discretamente a cabeça.

Não ali.

Não daquele jeito.

Ele entendeu.

Respirou.

— Irina, sai.

Ela arregalou os olhos.

— Você não pode...

— Posso.

— Sou acionista desta empresa.

Sarah respondeu:

— E continua sendo. Mas este é meu escritório.

Irina olhou para ela.

Sarah sustentou.

— Saia.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Então Irina pegou a bolsa.

Passou por Jacob.

Parou.

Olhou para ele.

— Você é igual ao seu pai.

Jacob respondeu sem hesitar:

— Obrigado.

Foi o golpe final.

Irina saiu.

A porta bateu.


Silêncio.

Edward foi o primeiro:

— Que diabos aconteceu aqui?

Sarah sentou.

As pernas finalmente perceberam que a discussão terminara.

Jacob aproximou-se imediatamente.

— Ela tocou em você?

— Não.

— Ia tocar?

Sarah olhou para ele.

— Talvez.

A mandíbula dele travou.

Sarah segurou sua mão.

— Jacob.

Ele olhou.

— Estou bem.

Edward permaneceu perto da porta.

— Começa do início.

Sarah respirou.

E contou.

Não tudo.

Não repetiu cada insulto.

Mas contou o suficiente.

Billy.

Sarah Black.

O ressentimento.

As comparações.

A frase sobre Jacob olhar para ela como Billy olhava para Sarah.

Quando terminou, Edward estava muito sério.

Jacob parecia pálido.

— Meu pai nunca falou disso.

— Talvez não soubesse — Sarah respondeu.

Edward olhou para ela.

— Você acha que Irina era apaixonada por Billy?

Sarah corrigiu:

— Eu acho que ela era obcecada por não ter sido escolhida por ele.

Jacob ergueu os olhos.

Sarah continuou:

— É diferente.

Silêncio.

— E pior.

Edward entendeu primeiro.

— Porque não é sobre amor.

Sarah assentiu.

— É sobre ressentimento.

Jacob sentou diante dela.

— Você acha que isso tem alguma relação com...

Não terminou.

Não precisava.

A morte de Sarah Black.

Esme.

O acidente.

Sarah sentiu frio.

A lembrança da discussão voltou.

Quanto você odiava Sarah Black?

A reação de Irina.

— Não sei.

Era importante dizer.

— Não vou transformar uma reação emocional em prova.

Edward assentiu.

Sarah continuou:

— Mas agora temos uma informação que não tínhamos.

— Motivo — Jacob disse.

Sarah olhou.

— Possível motivo.

Ele assentiu.

Advogada.

Precisão.

— Possível.

Sarah se levantou.

Foi até a janela.

— Ela estava com inveja de mim.

Edward franziu a testa.

— Agora?

Sarah olhou para os dois.

— Não.

Pausa.

— Há décadas.

Jacob ficou imóvel.

— Ela não estava vendo a mim.

Sarah finalmente entendeu completamente.

— Quando me viu com você, viu sua mãe com Billy.

Jacob respirou fundo.

Sarah aproximou-se.

— E perdeu o controle.

Edward olhou para a porta por onde Irina saíra.

— Então talvez devêssemos descobrir o que mais ela perde quando perde o controle.

Sarah olhou para ele.

Depois para Jacob.

A advogada dentro dela já estava organizando os fatos.

Irina amara Billy.

Billy escolhera Sarah Black.

Irina ressentira-se dela.

Sarah Black e Esme morreram juntas.

Anos depois Carlisle morreu.

Sarah desapareceu.

Irina recebeu dez por cento da empresa.

E agora, quando Sarah retornara, Irina demonstrava medo de suas memórias e um ódio desproporcional à sua aproximação com Jacob.

Nada daquilo provava crime algum.

Ainda.

Mas Sarah conhecia investigações.

E sabia exatamente o que fazer quando fatos isolados começavam a formar um desenho.

Não acusar.

Não correr.

Não revelar o que sabia.

Observar.

Documentar.

Procurar o elo que faltava.

Jacob segurou sua mão.

Sarah olhou.

Mãos.

Horas antes, aquela imagem a fizera corar.

Agora lhe dava segurança.

Jacob perguntou:

— O que está pensando?

Sarah olhou para a porta.

— Que Irina cometeu um erro.

— Qual?

Sarah voltou os olhos para ele.

— Ela tentou me diminuir.

Pausa.

— E acabou me contando quem ela é.


No elevador, Irina apertou o botão do térreo com tanta força que a unha quase quebrou.

O coração batia violentamente.

Ele a escolheu.

A frase de Sarah não saía de sua cabeça.

Mesmo quando você estava ali.

Irina fechou os olhos.

Viu Billy.

Jovem.

Sorrindo.

Depois Sarah Black.

Depois Jacob.

Depois Sarah Cullen.

A mesma sensação.

A mesma humilhação.

— Não.

O reflexo no espelho do elevador parecia uma estranha.

Ela respirou fundo.

Precisava recuperar o controle.

Aro tinha razão.

Ela estava emocional.

Tinha dito demais.

Muito demais.

E Sarah tinha percebido.

Pior.

Sarah tinha ouvido.

Não como sobrinha.

Como advogada.

Irina conhecia aquele olhar.

O olhar que Sarah fizera nos últimos minutos da discussão não era mais o de uma mulher insultada.

Era o de alguém recolhendo informações.

Organizando fatos.

Construindo perguntas.

Irina sentiu um medo diferente.

Porque, pela primeira vez, compreendeu que talvez o maior perigo de Sarah Cullen não fosse recuperar as memórias.

Talvez fosse não precisar delas.

Talvez bastasse investigar.

As portas do elevador se abriram.

Irina não saiu imediatamente.

Seu telefone estava na mão.

Aro.

Precisava ligar.

Precisava avisá-lo.

Sarah começara a olhar na direção certa.

E dessa vez não era uma criança perdida numa floresta.

Era uma advogada de vinte e três anos.

Inteligente.

Desconfiada.

Protegida pelos irmãos.

Amada por Jacob.

E, sobretudo, começando a compreender exatamente o quanto Irina odiara Sarah Black.

Irina saiu do elevador.

Pela primeira vez desde o retorno de Sarah, não sentia apenas raiva.

Sentia medo.