MEMÓRIAS
11 CAPÍTULO 10 - E se for ela?
Emmett chegou à casa de Billy às oito e vinte da noite.
Não levou Rosalie.
Edward já estava lá.
Jacob também.
A primeira coisa que Emmett percebeu ao entrar foi que ninguém estava comendo.
A segunda foi a caixa sobre a mesa.
A mesma caixa de fotografias antigas da noite anterior.
Emmett fechou a porta atrás de si.
— Isso está começando a parecer uma intervenção.
Ninguém riu.
Ele olhou para Edward.
— Certo. Agora fiquei preocupado.
Billy indicou a cadeira.
— Senta.
— Quando você fala assim, piora muito.
— Emmett.
Ele sentou.
— Estou sentado.
Olhou para Jacob.
O amigo estava encostado perto da janela, braços cruzados, expressão fechada.
— O que aconteceu?
Edward respirou fundo.
— Jacob descobriu uma coisa hoje.
— Sobre Sarah?
— Sim.
Emmett olhou imediatamente para Jacob.
— Ela está bem?
Jacob fechou os olhos por um instante.
Billy percebeu.
Edward também.
A reação de Emmett fora exatamente a mesma daquela tarde.
Antes de querer saber qual era o segredo, perguntara se Sarah estava bem.
— Está — Jacob respondeu.
— Então fala.
Jacob não falou.
Edward assumiu.
— Sarah tem uma cicatriz na testa.
Emmett esperou.
— Certo.
— Ela não sabe como conseguiu.
— E?
Edward olhou para Jacob.
Jacob finalmente se afastou da janela.
— Ela sofreu um acidente quando era criança.
Emmett franziu a testa.
— Que tipo de acidente?
— Não sabe.
— Como não sabe?
Jacob sustentou o olhar dele.
— Porque perdeu a memória.
O humor desapareceu completamente do rosto de Emmett.
— O quê?
Silêncio.
— Repete.
Jacob falou devagar:
— Sarah não se lembra da infância antes do acidente.
Emmett ficou imóvel.
— Quanto antes?
Ninguém respondeu imediatamente.
Então Edward disse:
— Oito anos.
Emmett perdeu a cor.
— Não.
Jacob soltou uma pequena risada sem humor.
— Foi o que nós dois dissemos.
Emmett olhou para Billy.
O homem permanecia sentado, sério.
— Pai...
Billy assentiu.
— Eu sei.
Emmett levantou-se.
— Não. Espera.
Começou a andar.
— Espera.
Passou a mão pelos cabelos.
— Ela tem vinte e três anos.
— Sim — Edward respondeu.
— Nossa Sarah teria vinte e três.
— Sim.
— Tem o mesmo nome.
— Sim.
— Nós três sentimos que conhecemos ela.
— Sim.
— Ela sorri como a mãe.
Billy corrigiu:
— Como Esme.
Emmett apontou para ele.
— Exatamente.
Voltou-se para Jacob.
— E agora você está dizendo que ela sofreu um acidente aos oito anos e não lembra de nada antes disso?
Jacob ficou em silêncio.
— Sim.
Emmett simplesmente sentou de novo.
— Meu Deus.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Billy foi o primeiro.
— O que exatamente ela contou?
Jacob respirou fundo.
— Estávamos trabalhando. O cabelo dela caiu no rosto e ela jogou para trás.
Tocou a própria testa.
— Tem uma cicatriz aqui.
Billy prestou atenção.
— Grande?
— Não. Pequena. Quase fica escondida pelo cabelo.
— E você perguntou?
— Perguntei como conseguiu.
Jacob engoliu em seco.
— Ela passou a mão na cicatriz e disse que não lembrava. Que, quando era criança, caiu de algum lugar e bateu a cabeça.
Billy ficou muito quieto.
— Caiu de algum lugar?
— Foram as palavras dela.
Emmett fechou os olhos.
Edward olhou para o chão.
Jacob continuou:
— Eu brinquei que ela devia ser uma criança terrível.
Por algum motivo, sua voz ficou mais baixa.
— E ela disse que só lembra das traquinagens depois dos oito anos.
Billy respirou fundo.
— Então você perguntou por quê.
— Sim.
— E?
— O pai contou que ela sofreu um acidente, bateu a cabeça e perdeu as memórias anteriores.
Billy apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Harry contou.
— Foi o que Sarah disse.
— Ela sabe onde aconteceu?
— Não perguntei.
— Quando exatamente?
— Não perguntei.
— Hospital?
— Ela disse que ficou internada algumas semanas.
Billy ergueu rapidamente os olhos.
— Semanas?
— Sim.
O silêncio ficou pesado.
Emmett falou quase num sussurro:
— Sarah poderia ter sobrevivido.
Jacob virou-se imediatamente.
— Não.
— Jacob...
— Não faça afirmações.
— Eu disse poderia.
— Não sabemos.
Emmett levantou-se.
— Mas agora existe a possibilidade!
Jacob bateu a mão na mesa.
— Sempre existiu!
Todos ficaram em silêncio.
Jacob respirava rápido.
— Sempre existiu porque nunca encontramos o corpo. Só que ninguém dizia em voz alta porque era mais fácil enterrar uma criança do que passar a vida esperando que ela voltasse!
Emmett ficou imóvel.
Jacob percebeu o que dissera.
Virou-se.
— Desculpa.
Emmett não respondeu imediatamente.
Depois se aproximou.
— Não precisa.
Jacob passou as mãos pelo rosto.
— Eu não sei o que fazer com isso.
Billy respondeu:
— Nada.
Jacob olhou para ele.
— O quê?
— Por enquanto, nada.
Emmett arregalou os olhos.
— Pai...
— Ouçam.
Billy levantou-se.
— Ontem tínhamos semelhanças. Impressões. Memórias de comportamento. Hoje temos algo mais concreto, mas ainda não temos prova nenhuma.
Edward assentiu lentamente.
Billy continuou:
— Uma mulher de vinte e três anos ter sofrido um acidente aos oito e ter amnésia não faz dela Sarah Cullen.
— Mas...
— Emmett.
Billy ergueu a mão.
— Não estou dizendo para ignorarmos.
Olhou para Jacob.
— Estou dizendo exatamente o contrário.
Billy caminhou até a caixa de fotografias.
Abriu.
Retirou uma fotografia de Esme.
Depois outra.
E mais uma.
Colocou as três sobre a mesa.
Emmett e Edward se aproximaram.
Jacob ficou onde estava.
Billy apontou para uma fotografia de Esme ainda jovem.
— Quando Sarah entrou aqui ontem, foi isso que eu vi.
Edward observou.
O sorriso.
Os olhos.
Era desconfortável.
Emmett puxou outra foto.
— Meu Deus.
Jacob não queria olhar.
Mas olhou.
E imediatamente se arrependeu.
Esme sorria para a câmera.
Não era o rosto de Sarah Clearwater.
Não exatamente.
Mas estava ali.
Na curva do sorriso.
Na expressão dos olhos.
Em alguma coisa difícil de medir.
— Isso não prova nada — Jacob disse.
Billy assentiu.
— Não.
— Pessoas se parecem.
— Sim.
Billy pegou outra fotografia.
Dessa vez, Sarah Cullen aos oito anos.
Colocou ao lado.
Jacob virou o rosto.
— Pai.
— Não estou fazendo comparação de rosto.
— Então o quê?
Billy olhou para a criança.
— Estou tentando lembrar.
Edward se aproximou.
— Do quê?
— Do dia do ataque.
O ambiente mudou.
Billy fechou os olhos.
— Charlie encontrou vocês dois primeiro.
Olhou para Emmett e Edward.
— Depois encontrou Jacob.
— Sim — Edward respondeu.
— Jacob disse que Sarah tinha caído no rio.
Jacob ficou rígido.
— Eu sei o que disse.
Billy olhou para ele.
— Não estou questionando.
A voz suavizou.
— Estou tentando reconstruir.
Emmett sentou.
Billy continuou:
— A corrente era forte. Houve busca por dias. Equipes seguiram o rio.
— E não acharam nada — Edward disse.
— Não.
Billy olhou para Jacob.
— Nem corpo.
Jacob fechou os olhos.
— Nem corpo.
Billy permaneceu pensativo.
— Se ela sobreviveu...
Jacob abriu os olhos.
— Pai.
— Se.
Billy enfatizou.
— Se sobreviveu, a corrente poderia tê-la levado muito além da área principal de busca.
Edward entendeu.
— E alguém poderia ter encontrado.
Billy assentiu.
— Uma criança ferida. Inconsciente. Sem documentos.
Emmett ficou pálido.
— Sem memória.
Silêncio.
A frase pairou entre eles.
Jacob sentou-se pela primeira vez.
Parecia cansado.
— Não.
Mas dessa vez não havia convicção.
Edward puxou a cadeira.
— Precisamos descobrir onde aconteceu o acidente de Sarah Clearwater.
Billy assentiu.
Jacob ergueu os olhos.
— Sem perguntar a ela.
— Concordo — Edward respondeu.
Emmett franziu a testa.
— Então como?
Billy pensou.
— Harry.
Jacob imediatamente recusou:
— Não.
— Eu não disse para confrontá-lo.
— Qualquer pergunta estranha pode chegar até Sarah.
— Então não será uma pergunta estranha.
Edward olhou para Billy.
— Você conhece Harry?
— Conheço de nome. Já estivemos nos mesmos eventos algumas vezes.
Emmett pensou.
— A Clearwater Foods patrocina aquela fundação empresarial.
Edward assentiu.
— Harry faz parte do conselho.
Billy continuou:
— Não precisamos chegar perguntando sobre Sarah.
Jacob não gostava.
— Ainda é arriscado.
Billy olhou para ele.
— E qual é sua alternativa?
Jacob ficou em silêncio.
— Ficar olhando para a cicatriz dela pelos próximos seis meses?
— Se for necessário.
Emmett arregalou os olhos.
— Seis meses?
— Dez anos.
A resposta foi imediata.
— Se for necessário para não machucá-la.
Billy observou o filho.
Entendeu.
Não era apenas medo de descobrir.
Jacob estava protegendo Sarah novamente.
Mesmo da própria esperança.
— Existe outra coisa — Edward disse.
Todos olharam.
— O nome.
Emmett suspirou.
— Já sabemos.
— Não. Pensem.
Edward inclinou-se sobre a mesa.
— Se uma criança de oito anos sofreu traumatismo e perdeu a memória autobiográfica, como saberiam que ela se chamava Sarah?
Silêncio.
Billy franziu a testa.
Jacob ficou imóvel.
Emmett falou:
— Talvez documentos.
— Talvez — Edward respondeu.
— Ou ela lembrava do nome.
Jacob sentiu o coração bater mais forte.
Billy olhou para ele.
— Você perguntou?
— Não.
— Não pergunte — Billy respondeu imediatamente.
Jacob ficou surpreso.
Billy continuou:
— Seria específico demais.
Edward concordou.
— Podemos descobrir de outra forma.
Emmett olhou para os três.
— Vocês perceberam o tamanho disso?
Ninguém respondeu.
Ele apontou para a fotografia.
— Se ela for...
A voz falhou.
Emmett parou.
Tentou outra vez.
— Se Sarah Clearwater for Sarah...
Não conseguiu terminar.
Edward baixou os olhos.
Billy fechou a caixa.
Jacob levantou-se.
— Não digam isso ainda.
Emmett olhou para ele.
— Por quê?
Jacob demorou.
— Porque eu não sei o que acontece comigo se eu acreditar.
Na manhã seguinte, Sarah percebeu imediatamente que alguma coisa estava errada.
Entrou no elevador.
Edward já estava lá.
— Bom dia.
Ele virou-se rápido demais.
— Bom dia.
Sarah apertou o botão.
Silêncio.
Sentiu o olhar.
Virou-se.
Edward desviou.
— Você estava me olhando?
— Não.
Sarah estreitou os olhos.
— Estava.
— Não estava.
— Vocês combinaram?
— O quê?
— Você e Jacob.
Edward ficou tenso.
— Por quê?
— Porque ontem ele passou metade da manhã me encarando como se eu tivesse três cabeças. Agora você está fazendo a mesma coisa.
Edward tentou sorrir.
— Coincidência.
Sarah apontou.
— Essa empresa tem coincidências demais.
As portas abriram.
Ela saiu.
Edward ficou parado.
Você não faz ideia.
Sarah mal chegara ao departamento quando Emmett apareceu.
— Bom dia!
Ela olhou.
— Não.
Ele parou.
— Não o quê?
— Você também.
— Eu também o quê?
— Está estranho.
— Eu sou naturalmente estranho.
— Mais.
Emmett sorriu.
Sarah pegou uma pasta.
— O que vocês três fizeram?
— Nada.
— Mataram alguém?
— Ainda não.
— Estão sendo processados?
— Isso acontece com frequência.
Sarah estreitou os olhos.
— É sobre mim?
Emmett perdeu o sorriso por uma fração de segundo.
Ela viu.
— É.
— Não.
— Emmett.
— Sarah.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Ontem Jacob quase fugiu da própria sala depois que falei do meu acidente. Hoje Edward me olha no elevador como se estivesse tentando resolver uma equação. E agora você aparece aqui parecendo um golden retriever culpado.
Emmett levou a mão ao peito.
— Isso foi muito específico.
— E correto.
Ele respirou fundo.
— É trabalho.
— Mentira.
— Assuntos da empresa.
— Outra mentira.
— Como sabe?
— Sou advogada.
— Isso não dá detector de mentiras.
— O seu rosto dá.
Emmett começou a rir.
Sarah balançou a cabeça.
— Vocês são impossíveis.
Voltou ao computador.
Emmett permaneceu olhando.
O sorriso.
Billy estava certo.
Esme.
Como não percebera?
Sarah levantou os olhos.
— Está fazendo de novo.
— O quê?
— Me olhando.
Emmett desviou imediatamente.
— Desculpa.
Sarah franziu a testa.
Aquilo era novo.
Emmett quase nunca parecia desconcertado.
— Está tudo bem?
Ele olhou para ela.
Por um instante, teve vontade de abraçá-la.
Simplesmente abraçar.
Como se pudesse recuperar quinze anos num gesto.
Não fez.
— Está.
Sarah não acreditou.
Jacob passou a manhã evitando o andar jurídico.
Às onze e quarenta, percebeu que estava sendo ridículo.
Às onze e quarenta e cinco, decidiu que continuaria sendo ridículo.
Às onze e cinquenta, Sarah entrou em sua sala sem bater.
— Não.
Jacob levantou os olhos.
— Bom dia.
— Não tente.
— O quê?
Ela fechou a porta.
— O que está acontecendo?
— Nada.
— Péssima resposta.
— É a verdade.
— Não é.
Sarah aproximou-se.
— Você saiu correndo ontem depois que falei da minha cicatriz.
— Eu tinha uma reunião.
— Mentira.
— Sarah...
— Edward está estranho.
Jacob ficou quieto.
— Emmett está estranho.
Mais silêncio.
— E você está me evitando.
— Não estou.
Ela cruzou os braços.
— Então olha para mim.
Jacob olhou.
Erro.
Os olhos.
Esme.
Sarah.
A cicatriz parcialmente escondida.
Tudo de uma vez.
Sarah sustentou o olhar.
— Pronto. Agora fala.
— Não tem nada para falar.
— Eu fiz alguma coisa?
A pergunta atingiu Jacob.
— Não.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Então por que vocês estão agindo assim?
Jacob levantou-se.
— São assuntos antigos.
— Que têm alguma coisa a ver comigo?
Ele ficou imóvel.
Sarah percebeu.
— Têm.
— Não.
— Jacob.
— Sarah, deixa isso.
— Não gosto quando escondem coisas de mim.
— Não estamos escondendo nada.
Ela riu sem humor.
— Outra mentira.
Virou-se.
Jacob sentiu um impulso imediato.
— Sarah.
Ela parou.
Ele se aproximou.
— Você não fez nada.
Sarah olhou para ele.
— Então para de me tratar como se eu tivesse feito.
— Eu não estou...
— Está.
A voz dela baixou.
— Desde ontem.
Jacob respirou fundo.
— Eu só...
Parou.
Sarah esperou.
Ele não podia contar.
Não podia olhar para aquela mulher e dizer que talvez toda a vida que conhecia tivesse começado depois de uma tragédia que ela esquecera.
— Eu fiquei preocupado com seu acidente.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
— Porque parece grave.
— Foi há quinze anos.
Jacob congelou.
Quinze.
Sarah percebeu.
— O quê?
— Você sabe quando aconteceu?
— Mais ou menos.
— Quinze anos?
— Sim.
O coração dele disparou.
— Tem certeza?
— Jacob...
— Tem?
Sarah pensou.
— Eu tinha oito anos.
Ele virou o rosto.
— Certo.
Mais uma peça.
Sarah aproximou-se.
— Por que isso importa tanto para você?
Jacob não respondeu.
— Jacob.
Ele olhou para ela.
Por um segundo, quase contou.
Quase.
Então viu confiança nos olhos dela.
E recuou.
— Não importa.
Sarah ficou magoada.
— Está bem.
Virou-se.
— Sarah.
— Tenho trabalho.
— Espera.
Ela abriu a porta.
— Depois.
Saiu.
Jacob fechou os olhos.
— Idiota.
Sarah entrou no banheiro alguns minutos depois.
Trancou-se numa cabine.
Não chorou.
Nem estava perto disso.
Mas estava irritada.
E confusa.
Passou a mão pela cicatriz.
Por que seu acidente interessava tanto a Jacob?
Por que Edward e Emmett haviam mudado imediatamente depois?
Olhou para o próprio reflexo.
Afastou o cabelo.
A pequena cicatriz apareceu.
— O que tem de tão importante em você?
Nada.
Uma marca antiga.
Só isso.
Então uma ideia surgiu.
Quinze anos.
Jacob reagira quando ela dissera.
Sarah franziu a testa.
Quinze anos atrás.
Oito anos.
O que acontecera com Jacob quinze anos antes?
Ela não sabia.
Nunca perguntara.
Talvez fosse isso.
Talvez o acidente dela coincidisse com alguma tragédia da vida dele.
Sarah respirou fundo.
A curiosidade nasceu.
No fim da tarde, Isabella encontrou Edward no apartamento.
— Você está distraído.
— Trabalho.
— Mentira.
Edward olhou para ela.
— Agora todo mundo resolveu me chamar de mentiroso?
— Quem mais chamou?
Ele percebeu o erro.
— Ninguém.
Isabella sentou-se.
— Sarah?
Edward não respondeu.
— É sobre ela.
— Bella...
— Eu sabia.
— Não é o que está pensando.
— Eu nem disse o que estou pensando.
Edward passou a mão pelo rosto.
Isabella observou.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Edward.
— É uma questão familiar.
A palavra saiu antes que ele percebesse.
Isabella franziu a testa.
— Familiar?
Edward congelou.
— Assuntos antigos.
— Da sua família?
— Sim.
— E Sarah está envolvida?
— Não.
Resposta rápida demais.
Isabella percebeu.
— Edward...
Ele segurou as mãos dela.
— Confia em mim.
— Eu confio.
— Então deixa isso.
Ela assentiu.
Mas não deixou.
Naquela noite, Jacob recebeu uma mensagem de Billy.
Não faça nenhuma pergunta a Sarah. Vou tentar descobrir sobre Harry sem envolvê-la.
Jacob respondeu imediatamente.
Não faça nada sem me avisar.
A resposta veio:
Você é meu filho ou meu chefe?
Apesar de tudo, Jacob sorriu.
Os dois.
Billy respondeu:
Infelizmente puxou a teimosia da sua mãe.
O sorriso desapareceu devagar.
Sua mãe.
Sarah Black.
Jacob olhou para a gaveta.
Abriu.
Fotografias.
Pegou uma em que sua mãe segurava Sarah Cullen no colo.
Sarah devia ter quatro anos.
A pequena corrente estava em seu pescoço.
Jacob não reparou nela.
Ainda não.
Seu olhar estava no rosto da criança.
Nos olhos.
No sorriso.
— Onde você está?
Então corrigiu, quase sem perceber:
— Onde você esteve?
Na casa dos Clearwater, Sarah bateu à porta do escritório de Harry.
— Pai?
Ele levantou os olhos.
— Oi, meu amor.
— Posso perguntar uma coisa?
— Sempre.
Sarah entrou.
Sentou-se diante dele.
— Sobre meu acidente.
Harry ficou atento.
— O que tem?
— Faz muito tempo que não falamos disso.
— Faz.
— Eu tinha oito anos, certo?
Harry assentiu.
— Tinha.
Sarah passou os dedos pela cicatriz.
— Onde aconteceu?
Harry ficou em silêncio por um instante.
Não porque escondesse quem ela era.
Ele próprio não sabia.
Mas porque havia partes daquela história que sempre foram difíceis de explicar sem tocar no início da vida de Sarah que ela desconhecia.
— Por que está perguntando agora?
Sarah deu de ombros.
— Curiosidade.
Harry conhecia a filha bem demais.
— Sarah.
Ela suspirou.
— Uma pessoa viu minha cicatriz hoje e perguntou.
— Quem?
— Jacob Black.
Harry ficou pensativo.
— E isso fez você querer saber.
— Fez.
Harry levantou-se.
Foi até ela.
Acariciou seus cabelos.
— Algumas histórias são complicadas.
Sarah sorriu.
— Sou advogada. Gosto de coisas complicadas.
Harry tentou sorrir.
Mas não conseguiu completamente.
E Sarah percebeu.
Pela primeira vez em muitos anos, olhou para o homem que acreditava ser seu pai biológico e sentiu que havia uma parte de sua própria história que Harry Clearwater não estava lhe contando.
— Pai...
Harry beijou sua testa.
Exatamente sobre a cicatriz.
— Amanhã conversamos.
Sarah franziu a testa.
— Por que não agora?
Harry hesitou.
— Porque algumas coisas merecem ser contadas com calma.
Sarah ficou imóvel.
A curiosidade transformou-se em inquietação.
Harry sorriu, tentando tranquilizá-la.
Mas era tarde.
Ao sair do escritório, Sarah levou a mão à pequena lua escondida sob a blusa.
E naquela noite duas perguntas nasceram em lugares diferentes.
Jacob olhava para uma fotografia de uma menina morta havia quinze anos e pensava:
E se for ela?
Sarah olhava para a porta fechada do escritório do homem que sempre chamara de pai e pensava:
O que aconteceu comigo antes dos oito anos?
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