MEMÓRIAS
36 CAPÍTULO 35 - A manhã seguinte
Sarah acordou devagar.
Tão devagar que, durante alguns segundos, não abriu os olhos.
A primeira coisa que percebeu foi o silêncio.
Nenhum telefone.
Nenhuma notificação.
Nenhuma voz.
Nenhum sonho.
A segunda foi o aroma.
Muito mais fraco do que na noite anterior, mas ainda presente.
Lavanda.
O cheiro suave do óleo permanecia na pele, nos lençóis, talvez nos cabelos. Sarah inspirou profundamente e sentiu o corpo pesado daquela maneira boa que só existia depois de uma noite realmente dormida.
A terceira coisa que percebeu foi o calor.
E então veio a mão.
A mão de Jacob descansava em sua cintura.
Sarah sorriu antes mesmo de abrir os olhos.
É claro.
Depois de tudo na noite anterior, eram as mãos dele que continuavam ali.
Quietas agora.
Sem qualquer intenção criminosa.
Pelo menos aparentemente.
Sarah passou os dedos sobre a mão que repousava em sua cintura.
E o corpo lembrou antes dela.
Um arrepio lento percorreu suas costas.
Não foi forte.
Foi pior.
Preguiçoso.
Quente.
Começou exatamente sob os dedos de Jacob e se espalhou pela pele como se o corpo dela tivesse desenvolvido uma memória própria daquelas mãos.
Sarah mordeu discretamente o lábio.
Aquilo era ridículo.
Ele estava dormindo.
Literalmente dormindo.
E mesmo assim a mão dele conseguia produzir efeitos.
— Isso definitivamente deveria ser ilegal — murmurou.
Atrás dela, Jacob se mexeu.
A mão apertou sua cintura por puro reflexo.
Sarah fechou os olhos.
O ar ficou preso por um segundo.
Droga.
Lembrou-se da noite anterior.
Do óleo aquecido.
Dos dedos firmes em seus ombros.
Da forma como aquelas mãos tinham começado com uma promessa perfeitamente inocente de relaxamento e, em poucos minutos, feito exatamente o contrário.
Lembrou-se do calor crescendo sob a pele.
Da respiração perdendo o ritmo.
Do próprio corpo inclinando-se involuntariamente na direção do toque.
Dos lábios quentes de Jacob.
Do jeito como tudo nela parecia despertar ao mesmo tempo quando ele a tocava.
E depois lembrou-se da segunda parte.
Quando as mesmas mãos haviam diminuído o ritmo.
Acalmado.
Desfeito os nós dos ombros.
Passado pelos cabelos.
Ficado sobre ela enquanto adormecia.
Era isso que Sarah ainda não sabia explicar.
Jacob conseguia produzir nela duas reações que pareciam incompatíveis.
Fazia seu corpo incendiar.
E fazia seu corpo baixar a guarda.
Desejo e segurança.
Urgência e calma.
Com as mesmas mãos.
Sarah se acomodou um pouco mais contra ele.
O peito de Jacob tocou suas costas.
Ela sentiu a respiração dele em seus cabelos.
A mão continuava em sua cintura.
E outra coisa aconteceu.
Seu corpo relaxou.
Não apenas os músculos.
Algo mais profundo.
Aquela vigilância permanente que ela nem percebia manter.
O impulso de estar preparada.
De pensar.
Antecipar.
Controlar.
Tudo ficou quieto.
Segura.
Era isso.
Sarah se sentia segura.
Não protegida porque alguém considerava que ela fosse incapaz de se proteger.
Não vigiada.
Não controlada.
Apenas segura.
Cuidada.
Desejada sem ser pressionada.
Amada sem precisar provar nada.
O corpo de Sarah parecia ter entendido aquilo antes da cabeça.
Atrás dela, Jacob despertou.
— Bom dia.
A voz rouca e sonolenta junto ao ouvido fez outro arrepio correr por sua pele.
Sarah fechou os olhos.
— Isso também é injusto.
— O quê?
— Sua voz de manhã.
Jacob riu baixinho.
A vibração do peito dele contra suas costas não ajudou.
— Bom dia para você também.
A mão em sua cintura se moveu lentamente.
Só alguns centímetros.
Um carinho quase distraído.
O polegar passando sobre a lateral do corpo dela.
Sarah inspirou.
A respiração saiu diferente.
Jacob percebeu.
É claro que percebeu.
A mão parou.
— Tudo bem?
Sarah quase riu.
— Esse é o problema com você.
— Qual?
Ela virou o rosto.
— Você sabe exatamente quando eu reajo.
O sorriso apareceu devagar.
— Eu conheço você.
— Meu corpo é um traidor.
— Eu gosto dele.
Sarah virou-se completamente para encará-lo.
— Essa frase poderia ter saído muito errada.
Jacob riu.
Ela olhou para as mãos dele.
Depois para o rosto.
— Sabe que você nem precisa fazer nada?
— Como assim?
Sarah pegou uma das mãos dele.
— Você estava dormindo.
— Sim.
— Sua mão estava parada.
— Sim.
— E mesmo assim...
Ela parou.
Jacob esperou.
Sarah estreitou os olhos.
— Não vou terminar.
— Por quê?
— Seu ego não sobreviveria.
— Acho que consigo correr o risco.
Ela colocou a mão dele novamente sobre sua cintura.
— Fica quieto.
Jacob sorriu.
Sarah fechou os olhos por um instante.
O calor voltou.
Mas agora conhecia a diferença.
Não era apenas desejo.
Era antecipação.
Seu corpo sabia quem estava tocando.
Sabia como aquelas mãos podiam se mover.
Sabia como os lábios dele podiam aquecer sua pele.
Sabia o que acontecia com sua respiração quando Jacob se aproximava.
E reagia antes que ele sequer fizesse alguma coisa.
Sarah abriu os olhos.
— Você é um problema.
— Seu namorado.
— As duas coisas não são incompatíveis.
Jacob a beijou.
Devagar.
Um beijo preguiçoso de manhã.
Sarah sentiu primeiro nos lábios.
Depois em todo o resto.
A mão em sua cintura a aproximou um pouco mais.
Seu coração acelerou.
A pele pareceu ficar sensível de repente, consciente de cada ponto em que os dois se tocavam.
Sarah levou os dedos até a nuca dele.
O beijo durou mais.
O calor cresceu.
Aquela sensação conhecida começou a percorrer seu corpo.
E Sarah sorriu contra a boca dele.
Jacob se afastou apenas alguns centímetros.
— O quê?
— Nada.
— Você está sorrindo.
— Estou pensando.
— Perigoso.
Sarah passou o polegar pela boca dele.
— Estava pensando que sua massagem foi uma fraude.
— Funcionou.
— Eventualmente.
— Você dormiu profundamente.
— Depois de quase entrar em combustão.
Jacob tentou esconder o sorriso.
Falhou.
Sarah apontou.
— Essa cara.
— Qual?
— Essa cara de homem excessivamente satisfeito consigo mesmo.
— Você acabou de dizer...
Sarah colocou a mão sobre a boca dele.
— Não repete.
Jacob beijou sua palma.
O gesto foi simples.
Mas o calor dos lábios no centro da mão provocou outro arrepio.
Sarah retirou-a imediatamente.
— Viu?
— O quê?
— Isso.
— Eu só beijei sua mão.
— Exatamente.
Jacob começou a rir.
Sarah levantou.
— Café.
— Fugindo.
— Preservando o pouco de dignidade que ainda possuo.
Jacob preparava café quando Sarah apareceu na cozinha.
Ela havia prendido os cabelos de qualquer maneira e vestia uma camiseta dele.
O aroma da lavanda ainda permanecia discretamente nela.
Sarah levantou o braço e cheirou a própria pele.
— Vou chegar ao escritório cheirando a spa.
Jacob olhou.
Demorou um pouco demais.
Sarah percebeu.
— Nem começa.
— Não falei nada.
— Seus olhos falaram.
— Gosto da camiseta.
— É sua.
— Exatamente.
Sarah abriu a geladeira.
Sentiu Jacob aproximar-se por trás.
Antes mesmo que ele a tocasse, seu corpo percebeu.
Era absurdo.
Ela sentiu a presença.
O calor.
A proximidade.
Os músculos do abdômen se contraíram levemente.
A respiração mudou.
Sarah fechou a geladeira.
— Nem encostou.
Jacob parou.
— O quê?
Ela virou.
— Você nem encostou em mim.
— E?
Sarah apontou para ele.
— Isso está ficando irritante.
— Ainda não entendi.
— Meu corpo sabe que você está atrás de mim.
Jacob piscou.
Depois sorriu.
Sarah levantou uma mão.
— Não.
— Eu não disse nada.
— Não precisa. Conheço esse sorriso.
— E eu conheço...
— Termina essa frase e você vai trabalhar sem café.
Jacob riu.
Virou-se para a cafeteira.
Sarah ficou observando.
Uma cena absolutamente comum.
Jacob descalço.
O cabelo desarrumado.
A camiseta.
A luz entrando pela janela.
O cheiro de café misturado ao aroma suave que restara da noite anterior.
Sarah apoiou-se na bancada.
Estava relaxada.
Ainda.
Isso era raro.
Muito raro.
Jacob voltou com uma xícara.
— Para você.
Sarah pegou.
— Obrigada.
Ele passou por ela.
E, ao passar, tocou distraidamente suas costas.
Só isso.
A palma da mão deslizando lentamente por alguns centímetros.
Sarah sentiu primeiro o efeito conhecido.
A pele se arrepiou.
Um calor pequeno nasceu sob a mão dele.
A respiração prendeu.
Seu corpo se preparou automaticamente para a continuação daquele toque.
Mas a continuação não veio.
Jacob já tinha se afastado.
E alguma coisa permaneceu.
O calor.
Não o desejo.
O outro calor.
Sarah ficou imóvel.
A xícara entre as mãos.
O coração ainda um pouco acelerado.
Mas então, estranhamente, desacelerou.
O arrepio mudou.
Não desapareceu.
Mudou.
Sarah sentiu os ombros relaxarem.
Os dedos ao redor da xícara afrouxarem.
A sensação de segurança que experimentara na cama voltou inteira.
E, junto dela, veio alguma coisa que não pertencia àquela cozinha.
Sarah congelou.
— Jacob.
Ele imediatamente virou.
— O quê?
Ela ergueu a mão.
— Espera.
Jacob ficou quieto.
Sarah fechou os olhos.
Não perseguir.
Não completar.
Deixar vir.
O aroma.
Não era mais apenas lavanda.
Havia outra coisa.
Flores.
Perfume.
Café?
Talvez.
Não.
Não decidir.
Calor.
Uma mão em suas costas.
Outra sensação de mãos.
Diferentes.
Menores.
Mais delicadas.
Femininas.
Sarah sentiu o coração acelerar novamente.
Dessa vez não por Jacob.
Uma imagem atravessou sua mente.
Luz.
Uma cozinha.
Uma bancada alta.
Não.
Ela é que era pequena.
Pernas infantis balançando.
Sarah sentiu um aperto estranho no peito.
Não dor.
Reconhecimento.
Duas mulheres.
Uma ria.
O som provocou uma reação tão imediata que Sarah sentiu os olhos arderem antes mesmo de conseguir enxergar o rosto.
Não via.
Não conseguia.
Mas conhecia aquela risada.
Ou achava que conhecia.
Não concluir.
Uma das mulheres aproximou-se.
Mãos afastaram os cabelos da criança.
Sarah sentiu o próprio corpo reagir no presente.
Os ombros encolheram ligeiramente.
A nuca ficou sensível.
Como se esperasse o toque.
Frio.
Metal contra a pele.
Uma corrente passando ao redor do pescoço.
Dedos procurando o fecho.
Sarah levou a mão à própria nuca sem perceber.
Na lembrança, o fecho se fechou.
Um pequeno peso caiu contra o peito da menina.
Sarah sentiu a própria mão descer imediatamente até o peito.
Vazio.
O colar estava no quarto.
Mas o corpo procurou.
Antes da consciência.
Procurou a lua.
E então veio a voz.
Clara.
Próxima.
Carinhosa.
— Agora você tem uma lua.
Sarah parou de respirar.
O coração bateu forte.
Uma vez.
Duas.
Três.
Os olhos continuavam fechados.
Ela sentiu lágrimas surgirem.
Não sabia por quê.
Não havia tristeza naquela imagem.
Esse era justamente o que a desorganizava.
Era felicidade.
Seu corpo reconhecia felicidade.
Uma felicidade antiga.
Tão profunda que doía encontrar novamente.
Outra mulher riu.
Uma segunda voz.
Mais distante.
Menos nítida.
— Ficou linda nela.
Sarah sentiu um sorriso aparecer em seu próprio rosto ao mesmo tempo em que uma lágrima escapava.
A contradição quase a fez abrir os olhos.
Mas ficou.
Mais um segundo.
A mão feminina alisando seus cabelos.
O pequeno peso da lua contra o peito.
A sensação de estar cercada.
Amada.
Segura.
A mesma palavra.
Segura.
Sarah abriu os olhos.
A cozinha de Jacob voltou.
O coração ainda batia rápido.
A pele estava arrepiada.
Uma lágrima permanecia em seu rosto.
A mão direita estava pressionada contra o próprio peito.
Jacob estava diante dela.
Imóvel.
A preocupação no rosto era evidente, mas ele não se aproximara.
Não a tocara.
Não perguntara quem ela vira.
Sarah respirou.
Uma vez.
Duas.
As pernas pareciam estranhamente fracas.
Ela apoiou uma mão na bancada.
Jacob imediatamente se moveu.
Parou antes de alcançá-la.
— Posso?
Sarah olhou para ele.
Aquela pergunta quase provocou outra lágrima.
— Pode.
Jacob segurou seu braço.
Nada mais.
Só apoio.
Sarah fechou os olhos por um instante.
Sentiu a mão dele.
Presente.
Quente.
Adulta.
Real.
E agora conseguia distinguir.
Aquilo era Jacob.
A outra mão pertencera a alguém do passado.
As sensações tinham se encontrado.
Mas não eram a mesma coisa.
— Meu celular — pediu.
Jacob entregou.
Sarah abriu o arquivo.
As mãos tremiam levemente.
Ela percebeu.
Parou.
Olhou para os próprios dedos.
— Estou tremendo.
— Quer sentar?
Sarah assentiu.
Jacob puxou uma cadeira.
Ela sentou.
Esperou até a respiração normalizar.
Só então começou a digitar.
MEMÓRIA ESPONTÂNEA.
Contexto de evocação: manhã após massagem. Aroma residual de óleo/lavanda. Sensação de relaxamento físico incomum. Na cozinha, Jacob tocou brevemente minhas costas ao passar. Primeiro houve reação física habitual ao toque dele: arrepio, calor, alteração da respiração. Após o toque cessar, permaneceu uma sensação forte de segurança/relaxamento. A lembrança começou imediatamente depois.
Sarah parou.
Respirou.
Continuou.
Imagem: cozinha ou ambiente semelhante. Eu criança, aparentemente sentada em bancada ou superfície alta. Duas mulheres adultas presentes. Uma delas afasta meu cabelo e coloca uma corrente em meu pescoço. Pequeno pingente em formato de lua.
Resposta física durante a lembrança: arrepio, aceleração cardíaca, sensibilidade na nuca, gesto espontâneo de levar a mão à nuca e depois ao peito antes de perceber conscientemente que procurava o colar. Lágrimas sem sensação predominante de tristeza. Sensação de reconhecimento e afeto.
Frase 1: “Agora você tem uma lua.”
Confiança na frase 1: alta. Já ocorreu espontaneamente em lembrança anterior, antes de confirmação externa.
Frase 2: “Ficou linda nela.”
Confiança na frase 2: média.
Sensações associadas: segurança, carinho, alegria, pertencimento.
Sarah ficou olhando para a última palavra.
Pertencimento.
Aquilo a atingiu novamente.
O peito apertou.
Não de medo.
Saudade.
Talvez.
Mas saudade de alguém que ela não conseguia identificar parecia uma emoção impossível.
Sarah acrescentou:
Possível sensação de saudade após a lembrança. Não sei se é memória emocional ou reação atual ao conteúdo. Não classificar.
Depois:
Rostos: não identificados com segurança.
Não tentar identificar as mulheres por semelhança, histórias familiares ou fotografias antes de eventual confirmação independente.
Salvou.
Ficou alguns segundos olhando para a tela.
Jacob continuava ao lado.
Quieto.
Sarah passou os dedos pelo rosto e percebeu outra lágrima.
— Isso é muito estranho.
— O quê?
— Eu não estou triste.
Jacob sentou diante dela.
— Não precisa estar.
Sarah olhou para as próprias mãos.
— Meu corpo começou a chorar antes de eu entender o que estava sentindo.
Ele ficou quieto.
— E eu procurei o colar.
— Eu vi.
Sarah levantou os olhos.
— Antes de lembrar que ele não estava comigo.
Jacob assentiu.
— Meu corpo procurou.
A voz falhou um pouco.
— Ele sabia onde a lua deveria estar.
Jacob respirou fundo.
Não tentou explicar.
Sarah agradeceu silenciosamente por isso.
— Foi uma lembrança boa — disse.
— Tem certeza?
Ela assentiu.
Um sorriso pequeno apareceu entre as lágrimas.
— Muito boa.
— Então por que está chorando?
Sarah pensou.
— Acho que porque perdi isso.
Pausa.
— Não a lembrança.
Ela tocou o peito.
— A sensação.
Jacob olhou para ela.
Sarah respirou.
— E por alguns segundos eu tive de volta.
Silêncio.
Então Jacob perguntou:
— Quer que eu te abrace?
Sarah sorriu.
— Quero.
Ele abriu os braços.
Sarah foi.
Sem hesitar.
Encostou o rosto no peito dele.
As mãos de Jacob pousaram em suas costas.
Sarah sentiu o corpo reagir novamente.
Mas agora não havia urgência.
A respiração desacelerou.
Os ombros cederam.
O coração encontrou outro ritmo.
Sarah percebeu claramente.
— É isso.
Jacob olhou para baixo.
— O quê?
Ela continuou abraçada a ele.
— A sensação.
— Da lembrança?
— Não igual.
Sarah fechou os olhos.
— Mas próxima.
Ele não perguntou mais.
E Sarah ficou ali.
Sentindo.
Registrando internamente a diferença entre lembrar e preencher.
Entre passado e presente.
Entre a mão de uma mulher sem rosto fechando uma corrente em torno do pescoço de uma criança e as mãos de Jacob envolvendo uma mulher adulta que escolhera ficar com ele.
As duas coisas não eram iguais.
Mas talvez compartilhassem algo fundamental.
Segurança.
Depois de alguns minutos, Sarah se afastou.
— Quero colocar o colar.
Jacob assentiu.
Ela foi até o quarto.
Voltou com a corrente entre os dedos.
A pequena lua refletiu a luz da manhã.
Sarah ficou olhando para ela.
O coração acelerou novamente.
Mais suave dessa vez.
Não precisava que ninguém explicasse ainda.
A lembrança não dizia quem havia comprado a corrente.
Não dizia quem era a mulher que colocara o colar nela.
Não dizia quem era a segunda mulher.
Não provava de onde vinha o pingente.
Mas dizia uma coisa.
Ela conhecia aquela lua.
Não apenas porque acordara com ela depois do rio.
Conhecia antes.
Quando era criança.
Sarah tentou fechar o fecho.
Os dedos ainda estavam ligeiramente trêmulos.
Jacob deu um passo.
Parou.
— Posso?
Ela olhou para ele.
Depois para as mãos dele.
Sorriu.
Virou-se.
— Pode.
Jacob afastou cuidadosamente os cabelos dela.
Sarah sentiu o primeiro toque na nuca.
O corpo inteiro respondeu.
Um arrepio desceu pela coluna.
Ela fechou os olhos.
Por um segundo, duas sensações ficaram próximas demais.
A cozinha antiga.
A cozinha atual.
Mãos femininas.
Mãos de Jacob.
Sarah respirou.
Presente.
Jacob.
Agora.
Sentiu os dedos dele trabalhando no fecho.
O pequeno clique.
A lua caiu contra o peito.
Sarah inspirou bruscamente.
O peito apertou.
Os olhos arderam outra vez.
E uma sensação atravessou seu corpo tão rapidamente que quase escapou.
Carinho.
Profundo.
Antigo.
Sarah colocou a mão sobre o pingente.
— Espera.
Jacob retirou imediatamente as mãos.
Ela pegou o celular.
Acrescentou:
Após recolocar o colar, Jacob afastou meu cabelo e fechou o fecho. Houve resposta física imediata: arrepio intenso, aperto no peito e emoção súbita. Sensação breve de carinho/segurança semelhante à memória, sem nova imagem ou frase. Não classificar como memória factual. Possível associação sensorial provocada pela repetição do gesto.
Salvou.
Jacob observava.
— Você registra até o que acha que pode ser só seu corpo reagindo.
— Principalmente isso.
Sarah tocou a lua.
— Porque meu corpo está lembrando coisas que minha cabeça ainda não consegue organizar.
Ela respirou.
— Mas reação não é prova.
— Seu quadro.
Sarah sorriu.
— Exatamente.
MEMÓRIA.
FATO DOCUMENTADO.
RELATO DE TERCEIROS.
HIPÓTESE.
Jacob completou:
— Não confundir padrão com prova.
Sarah olhou para ele.
— Estou criando um monstro.
— Um monstro metodologicamente responsável.
Ela riu.
E aquilo ajudou.
Uma hora depois, estavam na Cullen & Black.
E Sarah havia se transformado novamente na advogada que todos conheciam.
Ou quase.
Porque Emmett entrou no escritório, olhou para ela e imediatamente parou.
— Não.
Sarah nem levantou os olhos.
— Bom dia, Emmett.
— Você dormiu na casa dele.
Sarah continuou lendo.
— Não sei de quem está falando.
— Está usando a mesma roupa de ontem.
Sarah olhou para si.
Droga.
— Observador.
— E está feliz.
— Isso é proibido?
— Nessa família? Um pouco.
Edward entrou atrás dele.
— O que aconteceu?
Emmett apontou para Sarah.
— Ela dormiu na casa do Jacob.
Edward olhou.
— Certo.
Emmett ficou indignado.
— Só isso?
— Eles namoram.
— Você perdeu completamente o espírito familiar.
Sarah finalmente levantou os olhos.
— Algum de vocês trabalha?
Emmett sentou.
— Não antes de saber se houve massagem.
Sarah congelou.
Edward virou lentamente para ele.
— Por que você quer saber isso?
Emmett sorriu.
— Jacob perguntou ontem onde comprar óleo de massagem.
Sarah fechou os olhos.
— Eu vou matar aquele homem.
— Então houve!
— Emmett.
— Funcionou?
Sarah ficou vermelha.
Edward levantou a mão.
— Eu não quero saber.
— Funcionou muito bem — Sarah respondeu.
Edward fechou os olhos.
— Eu literalmente acabei de dizer...
— Para relaxar! — Sarah quase gritou.
Emmett já estava rindo.
— Claro.
Sarah apontou para a porta.
— Sai.
— Estou no meu trabalho.
— Então trabalhe em outro lugar.
— Ditadura.
— Fora.
Emmett levantou.
Antes de sair:
— Se precisar de indicação de óleo...
Sarah pegou uma pasta.
Ele fugiu.
Edward ficou.
Silêncio.
Sarah olhou.
— Você também.
— Eu vim trabalhar.
— Ah.
Edward sentou.
Abriu o notebook.
Depois de alguns segundos:
— Você realmente parece descansada.
Sarah sorriu.
— Estou.
Ele continuou olhando para a tela.
— Bom.
Pausa.
— Faz tempo que não parecia.
Sarah olhou para o irmão.
Havia alguma coisa naquela frase.
Um carinho discreto.
Típico de Edward.
— Obrigada.
Ele assentiu.
Sarah tocou discretamente a lua escondida sob a roupa.
O gesto foi automático.
Edward viu.
Sarah percebeu que ele viu.
Por um segundo, os olhos dos dois se encontraram.
Edward não perguntou.
Sarah sentiu um aperto no peito.
Pequeno.
Bom.
— Obrigada — repetiu.
Edward franziu a testa.
— Você já disse.
— Eu sei.
Ele olhou para ela por mais um segundo.
Depois voltou ao notebook.
E Sarah sorriu.
Pouco antes do almoço, chegou a atualização que Sarah sabia que viria.
O antigo caseiro da residência Black havia sido localizado.
Vivo.
Setenta e quatro anos.
E concordara em prestar depoimento.
Sarah recebeu apenas a informação básica.
Nenhum conteúdo.
Ainda.
— Quando? — perguntou.
— Amanhã.
— Não quero saber horário.
Do outro lado da ligação, houve silêncio.
— Quem é você e o que fez com Sarah?
Ela sorriu.
— Estou evoluindo.
— Estou emocionado.
— Não exagera.
— Há outra coisa.
Sarah ficou séria.
— O quê?
— A anotação encontrada no caderno de Robert.
Sarah imediatamente pensou na inicial.
I.
— Comparação?
— Ainda não concluída.
— Então não me conta.
Outro silêncio.
— Definitivamente trocaram você.
Sarah riu.
— Quando estiver concluída, liga.
— Combinado.
Ela desligou.
Jacob apareceu na porta.
— Novidade?
— O caseiro será ouvido amanhã.
O sorriso dele desapareceu.
— O homem que, segundo meu pai, disse que não deixou o portão aberto.
Sarah sorriu de leve.
— Muito bem.
— O quê?
— “Segundo meu pai.”
Jacob entendeu.
— Estou ficando bom nisso.
— Convive comigo.
— Excelente influência.
Ele entrou.
Fechou a porta.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— O que está fazendo?
— Nada.
Ele se aproximou.
E aconteceu outra vez.
Antes mesmo do toque.
Sarah percebeu a aproximação.
O corpo ficou alerta.
Mas agora ela reconhecia aquilo.
O coração acelerando.
O calor surgindo.
A atenção inteira se voltando para ele.
Sarah olhou para as mãos de Jacob.
Depois para o rosto.
Ele percebeu.
— Sério?
Sarah sorriu.
— Agora existem dois motivos.
— Quais?
Ela levantou.
Aproximou-se.
Pegou a mão dele.
Só o contato dos dedos fez um pequeno arrepio subir por seu braço.
Sarah olhou para as mãos unidas.
Era quase engraçado.
O corpo dela realmente não tinha nenhuma intenção de colaborar com a dignidade.
— Um deles eu não vou explicar no escritório.
Jacob sorriu.
— E o outro?
Sarah levou a mão dele até o próprio peito, deixando-a repousar apenas sobre o lugar onde o pingente estava escondido sob o tecido.
A expressão dele mudou.
Sarah sentiu o calor da palma atravessar a roupa.
O coração bateu contra ela.
Jacob provavelmente sentiu.
Ela sabia que sentiu porque os olhos dele baixaram por um segundo.
Sarah sorriu.
— Esse me fez lembrar de uma coisa boa.
Jacob entrelaçou os dedos aos dela.
— Então fico com esse.
— Só esse?
— No escritório?
Sarah tentou não rir.
— Sensato.
— Estou aprendendo.
Ela segurou a gravata dele.
Puxou.
— Não aprende demais.
E o beijou.
Um beijo curto.
Ou deveria ser.
O calor veio imediatamente.
Sarah sentiu o corpo inclinar-se um pouco mais para ele antes que sua razão interviesse.
A mão de Jacob permaneceu respeitosamente em sua cintura.
O que, na opinião dela, não ajudava em absolutamente nada.
Quando se afastou, precisou respirar.
Jacob estava sorrindo.
— Não fala.
— Não falei.
— Mas está pensando.
— Muito.
Sarah soltou a gravata.
— Saia do meu escritório.
Ele começou a rir.
— Sua mente está muito comprometida, doutora.
— Jacob.
— Estou indo.
Na porta, virou.
Levantou as duas mãos.
— Essas aqui?
Sarah olhou para elas.
Seu corpo respondeu com um arrepio quase instantâneo.
Ela fechou os olhos.
— Perigosíssimas.
Jacob saiu rindo.
Sarah ficou sozinha.
O sorriso permaneceu.
Depois ela tocou o pingente.
E a expressão mudou.
Agora você tem uma lua.
Dessa vez Sarah compreendia melhor por que a lembrança surgira justamente naquela manhã.
Não porque Jacob tivesse magicamente aberto uma porta em sua mente.
Não porque seu corpo soubesse respostas que os documentos ainda não tinham fornecido.
Mas porque memória podia ser associativa.
Cheiros.
Texturas.
Temperatura.
Toques.
Emoções.
A noite anterior fizera algo muito simples e, para Sarah, muito raro.
Seu corpo deixara de esperar o próximo golpe.
Durante horas, sentira apenas calor.
Desejo.
Cuidado.
Segurança.
As mãos de Jacob primeiro a haviam incendiado.
Depois tinham desfeito, uma a uma, as tensões que ela carregava.
E pela manhã, um gesto banal — uma mão carinhosa passando pelas costas — encontrara alguma coisa antiga.
Outra mão.
Outra cozinha.
Outra sensação de segurança.
Uma pequena lua contra o peito.
Sarah abriu seu arquivo.
Não escreveu que uma das mulheres era Esme.
Não escreveu que a outra era Sarah Black.
Não escreveu que Jacob fizera sua memória voltar.
Nada daquilo estava provado.
Acrescentou apenas:
HIPÓTESE: possível gatilho associativo entre sensação presente de segurança/cuidado e memória infantil com conteúdo emocional semelhante. O contexto físico pode ter facilitado evocação. Não tratar como confirmação de identidade, autoria do presente ou precisão integral da lembrança.
Salvou.
Depois fechou.
Nem toda resposta precisava ser arrancada no mesmo instante.
Algumas precisavam ser preservadas.
Esperadas.
E Sarah começava a perceber uma coisa que talvez fosse mais importante do que qualquer nome.
Sua memória não estava encontrando apenas os lugares onde havia medo.
O penhasco.
O rio.
A queda.
O pedido de desculpas.
Havia outra trilha dentro dela.
Mais silenciosa.
Talvez mais difícil de alcançar justamente porque não gritava.
Uma trilha feita de risadas.
Cozinhas iluminadas.
Perfume de flores.
Mãos cuidadosas afastando seus cabelos.
Uma pequena lua repousando contra o peito.
Segurança.
Pertencimento.
Amor.
E talvez, para encontrar novamente aquela trilha, Sarah tivesse precisado primeiro reaprender no presente o que seu corpo conhecera muito antes de sua memória desaparecer:
como era se sentir segura nas mãos de alguém que a amava.
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