MEMÓRIAS
31 CAPÍTULO 30 - O que ficou escrito
Sarah descobriu que esperar por uma investigação oficial era uma forma particularmente sofisticada de tortura.
Às nove e quinze da manhã já havia aberto o e-mail quatro vezes.
Às nove e dezessete, seis.
Às nove e vinte, Jacob apareceu diante da porta de seu escritório.
Não entrou.
Bateu.
Sarah ergueu os olhos.
— Você está evoluindo.
Ele entrou.
— Obrigado.
— Não era elogio. Era constatação.
Jacob colocou uma xícara sobre a mesa.
Sarah olhou.
— Café?
— Camomila.
Ela ficou ofendida.
— Saia.
— Você já tomou três cafés.
— Está me controlando?
— Estou preservando a empresa.
— De quê?
— Da presidente do departamento jurídico tendo um colapso cardíaco antes do almoço.
Sarah apertou os olhos.
— Eu não sou presidente do departamento jurídico.
— Ainda.
— Jacob.
Ele sorriu.
— Namorada.
Ela apontou para a porta.
— Essa palavra não é salvo-conduto.
— Ainda estou aprendendo as regras.
Sarah pegou a xícara.
Cheirou.
Camomila.
Fez uma careta.
— Isso é horrível.
— Você nem bebeu.
— Posso sentir o gosto pelo cheiro.
Jacob puxou a cadeira.
— Alguma notícia?
O humor desapareceu.
Sarah olhou para o computador.
— Não.
Jacob assentiu.
Não perguntou novamente.
Era uma das coisas que ela começava a admirar nele.
Jacob estava aprendendo a não transformar preocupação em controle.
Ela, por sua vez, estava aprendendo que permitir que alguém permanecesse ao seu lado não significava perder autonomia.
— A oitiva estava marcada para as nove — disse.
— Eu sei.
— Já são nove e vinte e três.
— Sarah.
— O quê?
— Vinte e três minutos não são atraso numa investigação de dezenove anos.
Ela o encarou.
— Odeio quando você faz sentido.
— Aprendi com você.
Sarah tomou um gole.
Fez outra careta.
— Continua horrível.
Jacob sorriu.
O telefone tocou às onze e quarenta e dois.
Sarah olhou para a tela.
Seu colega criminalista.
Atendeu no segundo toque.
— Terminou?
— Bom dia para você também.
— São quase meio-dia.
— Então boa tarde.
— Você está fazendo isso para me irritar.
— Um pouco.
Sarah fechou os olhos.
Jacob, que estava no sofá lendo um relatório, levantou imediatamente o rosto.
— Terminou? — ela repetiu.
Do outro lado, o tom do advogado mudou.
— Terminou.
Sarah sentou mais reta.
— E?
Pausa.
Curta.
Mas longa o bastante para incomodá-la.
— O perito confirmou formalmente que o caderno é dele.
Sarah pegou a caneta.
— Original?
— Sim.
— Foi entregue?
— Voluntariamente. Recebido formalmente para preservação e análise.
— As anotações são contemporâneas?
— Segundo ele, foram feitas durante os trabalhos ou imediatamente depois das diligências daquele período.
Sarah começou a escrever.
Jacob se aproximou.
— E o conteúdo?
Silêncio.
Sarah parou a caneta.
— O que foi?
— Calma.
— Quando alguém diz “calma” antes de responder, normalmente existe um motivo para eu não ficar calma.
— Existe material que, em princípio, justifica diligências complementares.
O coração dela acelerou.
— Que material?
— Sarah.
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Me ligar, dizer que existe alguma coisa e depois usar meu nome nesse tom.
Jacob já estava diante dela.
Sarah levantou uma mão, pedindo que esperasse.
— O que tem no caderno?
— Não vou te narrar um documento que ainda está sendo formalmente examinado.
Sarah apertou a mandíbula.
— Mas?
O advogado respirou.
— Mas uma das anotações chamou atenção.
Sarah ficou imóvel.
— Qual?
Pausa.
— É técnica.
— Eu imaginei que não fosse uma receita.
— Sarah.
— Fala.
— Há uma identificação de componente.
Ela franziu a testa.
— Do sistema de freio?
— Sim.
Sarah olhou para Jacob.
Ele percebeu imediatamente.
— E?
— E essa identificação precisa ser confrontada com os registros da manutenção anterior.
— Por quê?
Silêncio outra vez.
Sarah sentiu um arrepio.
— Por que precisa ser confrontada?
— Porque pode haver uma divergência.
Ela parou.
— Entre quê?
— O componente registrado na revisão e o componente anotado pelo perito depois do acidente.
Sarah não respondeu.
Jacob chegou mais perto.
— Sarah?
Ela levantou um dedo.
— Confirmaram?
— Ainda não.
A resposta veio firme.
— E eu quero que você guarde exatamente essa palavra: não.
Sarah respirou lentamente.
— Pode ser erro de anotação.
— Pode.
— Divergência de lote.
— Pode.
— Substituição legítima posterior.
— Pode.
— Falha no registro da oficina.
— Pode.
Ela fechou os olhos.
— Ou alguém trocou a peça.
O advogado demorou.
— Essa também é uma hipótese.
Sarah abriu os olhos.
Jacob a observava.
— Estão verificando?
— Já pediram confronto documental.
— Quando você vai saber?
— Quando eu souber alguma coisa confirmável, ligo.
— Hoje?
— Não sei.
— Amanhã?
— Sarah.
Ela bateu a caneta na mesa.
— Eu odeio você.
— Isso significa que entendeu.
A ligação terminou.
Sarah continuou olhando para o telefone.
Jacob esperou.
— O que aconteceu?
Ela colocou o aparelho devagar sobre a mesa.
— Existe uma divergência possível entre a peça registrada na última revisão e a encontrada no carro depois do acidente.
Jacob ficou imóvel.
— Trocaram.
— Não.
— Sarah.
— Não faz isso.
— Mas...
— Não faz exatamente o que ele acabou de me impedir de fazer.
Jacob passou a mão pelo rosto.
Sarah apontou para o bloco.
— Ainda pode ser erro documental.
— E se não for?
Ela olhou para ele.
— Então alguém precisa explicar como uma peça diferente foi parar naquele carro.
O telefone não tocou naquele dia.
Nem no seguinte.
Sarah começou a odiar todos os sons eletrônicos que não fossem o telefone.
E-mail.
Mensagem.
Notificação do calendário.
Emmett enviando um vídeo idiota no grupo da família.
Às dez e vinte da manhã do terceiro dia, seu celular tocou.
Ela pegou tão rápido que derrubou uma caneta.
Número conhecido.
— Fala.
— Estou começando a sentir falta de “bom dia”.
— Você pode ter bom dia quando parar de me ligar com suspense.
— Então hoje você não vai gostar de mim.
Sarah parou.
— Confirmaram?
— Parte.
— Que parte?
— As fotografias técnicas da seguradora foram localizadas.
Sarah se levantou.
— E?
— O número parcial visível no componente é compatível com a anotação do perito.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Ordem de serviço?
— Outra identificação.
Sarah fechou os olhos.
Dessa vez não concluiu.
Esperou.
— Sarah?
— Estou aqui.
— Parabéns por não dizer “trocaram”.
— Estou evoluindo.
— Pouco, mas está.
Ela ignorou.
— Há registro de manutenção depois da revisão?
— Até agora, não localizaram.
— Então temos uma peça na revisão e outra depois do acidente.
— Temos indícios documentais disso.
Sarah começou a andar pelo escritório.
— De onde veio a segunda?
Silêncio.
Ela parou.
— Você sabe.
— Ainda não.
— Mas tem alguma coisa.
— Tem uma linha de investigação.
— Qual?
— A identificação anotada pelo perito não corresponde ao estoque registrado da oficina que fez a revisão.
Sarah ficou imóvel.
— Então veio de outro lugar.
— Provavelmente.
— De onde?
— Estão tentando descobrir.
Sarah fechou os olhos.
— Você me ligou só para me deixar pior.
— Liguei porque agora a divergência é muito mais consistente do que era anteontem.
— E o resto?
— Quando houver resto.
Ele desligou antes que Sarah pudesse reclamar.
Ela olhou para o telefone.
— Covarde.
A porta abriu.
Jacob.
— Quem é covarde?
— Meu advogado.
— Pensei que eu tivesse perdido alguma discussão sem participar.
Sarah olhou para ele.
— Confirmaram a divergência.
O sorriso dele desapareceu.
— Confirmaram?
— As fotografias da seguradora são compatíveis com a anotação do perito. E a peça registrada na revisão tem outra identificação.
Jacob sentou lentamente.
— Então alguém trocou.
Sarah olhou.
Ele ergueu as mãos.
— Certo. Não vou dizer.
— Obrigada.
— Mas estou pensando.
— Pensamento ainda não é crime.
— Excelente notícia.
No fim daquele mesmo dia, às seis e quarenta e sete, o telefone tocou novamente.
Sarah estava no elevador.
Sozinha.
Atendeu.
— Agora o quê?
Nenhuma provocação do outro lado.
Isso a fez ficar séria imediatamente.
— Você está sozinha?
Sarah olhou ao redor do elevador vazio.
— Estou.
— A equipe encontrou outra anotação no caderno.
Ela apertou o telefone.
— Qual?
— Uma sigla ao lado da identificação do componente.
— Qual sigla?
— C&B-M.
Sarah não respirou por um segundo.
As portas do elevador abriram.
Ela não saiu.
— Repete.
— C&B-M.
— Cullen & Black?
— Pode ser.
Sarah saiu finalmente quando as portas ameaçaram fechar.
— M de quê?
— Não sabemos.
— Manutenção?
— Não sabemos.
— Mecânica?
— Sarah.
— Materiais?
Silêncio.
Ela parou no corredor.
— Por que você ficou quieto?
— Porque eu não quero alimentar hipótese.
Sarah fechou os olhos.
— Existe alguma razão para acreditar que a sigla seja da empresa?
— Ainda não uma razão suficiente para eu afirmar isso.
— Então por que me contou?
— Porque, se houver documentação interna antiga que explique a sigla, vocês podem localizar a referência, sem abrir uma investigação paralela sobre pessoas.
Sarah entendeu.
— Só descobrir o significado.
— Exatamente.
— Sem procurar retirada.
— Exatamente.
— Sem ligar para ex-funcionário.
— Principalmente isso.
Sarah sorriu sem humor.
— Você conhece Emmett há pouco tempo e já entendeu.
— Foi rápido.
Desligaram.
Sarah ficou parada no corredor.
C&B-M.
Pela primeira vez, a investigação deixava de apontar apenas para o passado das famílias.
Entrava na empresa.
Jacob apareceu dez minutos depois.
— Você anda em círculos quando está pensando.
Sarah parou.
Olhou para os próprios pés.
— Eu faço isso?
— Muito.
— Há quanto tempo sabe?
— Desde que tínhamos uns sete anos.
Sarah estreitou os olhos.
— Informação contaminante.
— Desculpa.
— Não pode mais me contar hábitos infantis.
— Esse eu acabei de contar.
— Exatamente.
Jacob sorriu.
Sarah apontou para a cadeira.
— Senta.
O sorriso desapareceu.
Ela explicou.
A sigla.
C&B-M.
Jacob repetiu:
— Cullen & Black.
— Talvez.
— Sarah.
— Provavelmente.
— M de manutenção.
— Pode ser.
— Mecânica.
— Pode.
— Montagem.
— Pode.
Sarah abriu o notebook.
— Vamos procurar apenas o significado da sigla nos manuais internos da época.
Jacob levantou.
— Agora eu posso ajudar.
— Agora você pode ajudar.
— Finalmente.
— Com uma condição.
— Qual?
— Ninguém procura nome. Ninguém abre livro de retirada. Ninguém liga para ninguém. Só queremos saber o que significava C&B-M.
— Eu sei.
Sarah olhou para a porta.
— Emmett.
Jacob compreendeu.
— Vou tirar o telefone dele.
— Excelente.
O arquivo histórico da Cullen & Black ficava em um prédio separado.
Emmett ficou profundamente ofendido quando Sarah confiscou seu celular.
— Eu tenho vinte e cinco anos.
— E autocontrole de quinze.
— Isso é abuso.
Edward respondeu:
— Entrega.
Emmett entregou.
— Traidor.
Sarah distribuiu as tarefas.
— Estamos procurando uma sigla. Só isso.
Emmett levantou a mão.
— Professora?
— O quê?
— Posso ir ao banheiro?
Sarah fechou os olhos.
Jacob riu.
— Eu vou matá-lo.
— Violência contra irmão é crime?
— Dependendo da intensidade — Sarah respondeu.
Emmett apontou.
— Sabia que ela me amava.
Duas horas.
Nada.
Três.
Nada.
Até Edward puxar uma pasta antiga de procedimentos internos.
— Sarah.
Ela se aproximou.
No alto da folha:
C&B-M/04
Sarah sentiu o coração acelerar.
Edward virou a página.
Manual interno de circulação de peças experimentais e componentes de testes.
C&B-M.
Cullen & Black — Materiais.
Jacob aproximou-se.
— Materiais.
Sarah já lia.
Componentes destinados a testes, protótipos e avaliação de fornecedores recebiam códigos internos antes de eventual homologação.
Ela sentiu frio.
— A peça pode ter passado por aqui.
Jacob ficou imóvel.
— Pela empresa.
— O modelo ou lote pode ter passado pela empresa.
— Você sempre faz isso.
— E vou continuar fazendo.
Emmett perdeu o sorriso.
— Podemos verificar?
Sarah quase respondeu sim.
Então parou.
Olhou para o manual.
Para a indicação do almoxarifado.
Para a referência aos livros físicos de circulação.
E compreendeu.
— Não.
Jacob virou.
— Não?
— Até aqui nós só identificamos uma sigla. Se agora formos atrás de registros de retirada de uma peça potencialmente relacionada a uma investigação criminal em andamento, começamos a mexer justamente no material que pode precisar ser preservado.
Edward assentiu primeiro.
— Ela está certa.
Jacob fechou os olhos.
— Odeio essa frase.
Sarah sorriu.
— Está ouvindo muito ultimamente.
Ela chamou o criminalista.
Dessa vez, a ligação foi curta.
— Encontramos o significado.
— Qual?
— Cullen & Black — Materiais. Almoxarifado técnico. Existem registros físicos de circulação.
Silêncio.
— Não mexam.
Sarah olhou para Jacob.
— Eu sabia que você diria isso.
— Indique localização e responsável pelo arquivo. Só.
— Certo.
— Sarah.
— O quê?
— Não abra os livros.
Ela olhou para as caixas a poucos metros.
— Eu odeio você.
— Ótimo.
Desligou.
Emmett perguntou:
— Podemos pelo menos olhar para as caixas?
Sarah cruzou os braços.
— De longe.
— Essa investigação perdeu toda a diversão.
No dia seguinte, a localização dos registros foi formalmente comunicada.
Depois disso, silêncio.
Um dia.
Dois.
Três.
No quarto dia, Sarah recebeu uma ligação às quatro e dezessete da tarde.
Estava sozinha.
Atendeu.
— Encontraram alguma coisa?
Pausa.
— Encontraram um registro.
Sarah levantou-se.
— De quê?
— Saída de componente do mesmo lote compatível com a anotação do perito.
O coração dela acelerou.
— Quando?
— Três dias antes do acidente.
Sarah ficou imóvel.
— Quem retirou?
Silêncio.
— Fala.
— Não é tão simples.
— Nunca é.
— O registro não aponta retirada por uma pessoa da empresa. Consta liberação para jurídico externo, vinculada a análise de responsabilidade de fornecedor.
Sarah franziu a testa.
— Jurídico externo retirando componente mecânico?
— Era uma prática possível em disputa técnica com fornecedor, desde que houvesse autorização e devolução.
— Qual jurídico externo?
Ele não respondeu imediatamente.
Sarah já sabia.
Mesmo assim, quando veio, doeu.
— Volturi & Associados.
Ela fechou os olhos.
— Quem recebeu?
— Ainda não importa.
— Para mim importa.
— Um mensageiro do escritório.
A frustração foi imediata.
— Então não temos Irina.
— Temos o escritório.
— O escritório é Aro.
— O escritório tinha dezenas de pessoas.
Sarah passou a mão pelo rosto.
— Certo.
— Sarah.
O tom dele mudou.
Ela parou.
— O quê?
— Existe uma autorização interna anexada ao registro.
O coração dela bateu mais forte.
— Quem assinou?
Pausa.
Longa.
— Ainda estamos confirmando a integralidade.
— Você sabe o nome.
— Sei o que aparece na cópia.
— Então fala.
— Não.
Sarah quase explodiu.
— Você me liga para dizer que existe uma assinatura e se recusa a dizer de quem?
— Porque, se amanhã eu descobrir que a folha estava vinculada a outro protocolo, você terá passado a noite acusando mentalmente uma pessoa errada.
Sarah ficou em silêncio.
O pior era que ele tinha razão.
— Quando você confirma?
— Amanhã de manhã.
— Isso é crueldade.
— Isso é cautela.
— É possível ser os dois.
— Amanhã, Sarah.
A ligação terminou.
Ela ficou olhando para o telefone.
Quando Jacob entrou quinze minutos depois, bastou vê-la.
— O que aconteceu?
Sarah respirou.
— Encontraram saída de um componente do mesmo lote três dias antes do acidente.
Jacob parou.
— Para quem?
— Volturi & Associados.
O rosto dele endureceu.
— Irina.
— Escritório.
— Aro.
— Escritório.
Jacob passou a mão pelo cabelo.
— Quem autorizou?
Sarah olhou para ele.
— Descobrimos amanhã.
— Eles sabem.
— Sabem o que aparece numa cópia. Estão confirmando.
Jacob riu sem humor.
— Então temos que esperar.
— Temos.
Ele olhou para ela.
— Odeio sua profissão.
Sarah quase sorriu.
— Eu também hoje.
Naquela noite, Sarah estava na casa de Jacob.
Não conseguiu trabalhar.
Não conseguiu ler.
Não conseguiu fingir que não estava esperando o dia seguinte.
Jacob encontrou-a sentada no sofá.
Sentou ao lado.
— Vem aqui.
Sarah olhou.
— Isso foi uma ordem?
— Convite.
Ela se aproximou.
Jacob a puxou para o peito.
Sarah apoiou a cabeça.
Ficaram quietos.
Depois ela falou:
— Eu tenho medo de querer que seja Irina.
Jacob olhou para baixo.
— Por quê?
— Porque eu não gosto dela.
— Motivo excelente.
Sarah deu um tapa leve em seu peito.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Ela levantou o rosto.
— Se eu começo a querer que seja ela, começo a interpretar tudo para confirmar o que já penso.
Jacob ficou sério.
Sarah continuou:
— E eu quero justiça para sua mãe. Para a minha. Não uma culpada conveniente.
— Nossa.
Sarah parou.
— O quê?
— Você disse “sua mãe e a minha”.
Ela percebeu.
Esme.
Minha mãe.
Os olhos encheram antes que pudesse impedir.
Jacob tocou seu rosto.
— Ei.
Sarah riu baixinho entre lágrimas.
— É estranho.
— O quê?
— Eu amo Sue.
— Eu sei.
— Ela é minha mãe.
— Eu sei.
— E Esme também era.
Jacob assentiu.
— Uma não apaga a outra.
Sarah fechou os olhos.
— Harry disse isso.
— Porque é verdade.
Ela apoiou a testa no ombro dele.
— Eu queria lembrar dela.
Jacob passou os dedos pelos cabelos de Sarah.
— Vai lembrar o que conseguir.
— E se eu não conseguir?
— Então nós contamos quando você pedir.
Sarah sorriu.
— Quando eu pedir.
— Aprendi.
Ela levantou o rosto.
Beijou-o.
Devagar.
Quando se afastou, Jacob ainda mantinha os olhos fechados.
Sarah sorriu.
— Gosto disso.
— Do quê?
— De você ficar assim depois que eu beijo.
Ele abriu os olhos.
— Assim como?
— Meio perdido.
Jacob segurou sua cintura.
— Quer testar de novo?
— Pela ciência.
— Evidentemente.
Ele a beijou.
E por alguns minutos Sarah permitiu que existisse apenas aquilo.
O presente.
Sem Irina.
Sem freios.
Sem laudos.
Sem mortos.
Somente Jacob.
E ela.
Às sete e cinquenta da manhã seguinte, Sarah já estava no escritório.
Às oito e onze, o telefone tocou.
Ela olhou para o nome.
Não atendeu imediatamente.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então deslizou o dedo.
— Confirmou?
— Confirmei.
Sarah fechou os olhos.
— Quem assinou?
— Carlisle Cullen.
Ela abriu os olhos.
Por alguns segundos, não compreendeu.
— Meu pai?
— Seu pai.
Sarah sentou lentamente.
Toda a expectativa construída durante a noite desmoronou de maneira diferente.
— Então era legítimo.
— A autorização para que o escritório recebesse componentes destinados à análise técnica, sim.
Sarah apoiou a testa na mão.
— Então isso pode não ter relação nenhuma com o acidente.
— Pode não ter.
— Carlisle autorizou.
— Autorizou uma entrega temporária dentro de um procedimento empresarial aparentemente regular.
Sarah soltou o ar.
Quase riu de si mesma.
Irina.
Ela tinha passado a noite esperando Irina.
E encontrara Carlisle.
— Certo.
— Sarah.
Ela reconheceu o tom.
Levantou a cabeça.
— O quê?
— A autorização não é o fim do registro.
O corpo dela voltou a ficar atento.
— Como assim?
— O protocolo previa devolução em quarenta e oito horas.
Sarah não falou.
— Não localizamos devolução daquele componente específico.
Ela se levantou.
— Pode ser falha documental.
— Pode.
— Pode ter sido devolvido sem baixa.
— Pode.
— Pode ter sido usado em outra análise.
— Pode.
Sarah começou a andar.
— Quem recebeu?
— Um mensageiro do escritório assinou.
— Está vivo?
— Estamos verificando.
Ela parou diante da janela.
— Então continuamos com o escritório, não com uma pessoa.
— Por enquanto.
Sarah fechou os olhos.
— Por enquanto?
Silêncio.
— Tem mais alguma coisa no documento?
— Tem uma observação.
Ela virou-se, embora não houvesse ninguém ali.
— Qual?
— Ainda estou verificando uma coisa.
Sarah apertou o telefone.
— Não.
— Sarah.
— Você não vai fazer isso de novo.
— Preciso.
— Você acabou de me fazer passar uma noite inteira esperando um nome e me deu o nome do meu pai.
— Justamente por isso eu estou sendo cuidadoso.
Sarah ficou em silêncio.
— Me dá uma hora.
— Uma hora?
— Talvez menos.
— E se você não ligar?
— Eu ligo.
— Uma hora.
— Sarah...
— Cinquenta e nove minutos agora.
Ele desligou.
Sarah ficou olhando para o relógio.
Às oito e quarenta, Jacob entrou.
Ela estava lendo o mesmo parágrafo havia dez minutos.
— E?
Sarah olhou.
— Carlisle.
Jacob franziu a testa.
— O quê?
— A autorização interna foi assinada por Carlisle.
Jacob ficou em silêncio.
— Então...
— A entrega ao escritório podia ser perfeitamente legítima.
Ele sentou.
— E acabou?
— Não sei.
— Como não sabe?
— Existe uma observação que ainda estão verificando.
Jacob olhou para o relógio.
— Quando?
— Cinquenta e... — Sarah conferiu. — Quarenta e dois minutos.
Jacob ergueu uma sobrancelha.
— Você está contando?
— Não.
O celular estava aberto no cronômetro.
Jacob olhou.
Sarah virou a tela para baixo.
— Cala a boca.
Ele sorriu.
— Não falei nada.
— Seu rosto falou.
— Minha presença faz barulho.
Sarah apontou.
— Não use minhas frases contra mim.
O telefone tocou.
Os dois pararam.
Sarah olhou.
Número desconhecido.
Atendeu.
— Alô?
— Senhora Clearwater? Temos uma pesquisa de satisfação...
Sarah desligou.
Jacob mordeu o lábio.
— Se você rir, termino o namoro.
Ele ficou absolutamente sério.
— Nem pensei.
— Mentira.
— Muito.
Sarah quase riu também.
Então o telefone tocou de novo.
Dessa vez era ele.
O criminalista.
Sarah não percebeu que tinha prendido a respiração até atender.
— Fala.
— Confirmamos a observação.
Jacob levantou.
Sarah colocou no viva-voz.
— Estou com Jacob.
— Certo.
Nenhum dos dois falou.
O advogado continuou:
— A autorização principal foi assinada por Carlisle Cullen. Isso permanece.
— Certo.
— A retirada material foi feita por um mensageiro do Volturi & Associados.
— Certo.
— Mas a requisição que originou a entrega não partiu de Carlisle.
Sarah ficou imóvel.
Jacob também.
— De quem partiu?
— Existe uma anotação no protocolo: “Entrega autorizada conforme solicitação da Dra. I.V.”
O silêncio tomou a sala.
Sarah sentiu os dedos ficarem frios.
Jacob não se mexeu.
— I.V. — Sarah repetiu.
— Sim.
— Confirmaram quem podia usar essas iniciais?
— Confirmamos o quadro profissional do escritório naquela data.
Sarah fechou os olhos.
Não queria completar.
Precisava ouvir.
— Quantas pessoas?
— Uma.
Jacob segurou a borda da mesa.
Sarah perguntou:
— Quem?
Dessa vez não houve pausa.
— Irina Volturi.
O nome caiu entre eles.
Sem grito.
Sem música.
Sem confissão.
Apenas um nome em um registro de dezenove anos antes.
Sarah abriu os olhos.
Jacob estava pálido.
Ela levantou imediatamente a mão antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Ainda não prova que ela colocou uma peça no carro.
O criminalista respondeu pelo viva-voz:
— Exatamente.
Sarah continuou, mais para Jacob do que para ele:
— Prova que uma solicitação atribuída a Irina levou à retirada temporária de um componente do mesmo lote que agora está sendo relacionado à peça encontrada no veículo.
— Sim.
— E não há registro de devolução.
— Até o momento, não.
— Isso não prova que seja a mesma unidade.
— Não.
— Não prova que ela tenha tocado nela.
— Não.
— Não prova que ela tenha ordenado sabotagem.
— Não.
Jacob fechou os olhos.
Sarah respirou.
— Mas coloca Irina documentalmente perto da origem possível do componente.
O advogado demorou apenas um segundo.
— Coloca.
Sarah sentiu um arrepio.
Era a primeira vez que ele permitia uma frase daquela força.
— Próximo passo?
— Deixa conosco.
— O mensageiro?
— Estão localizando.
— Aro?
— Sarah.
Ela fechou os olhos.
— Certo.
— Não confrontem Irina.
Sarah olhou para Jacob.
— Não vamos.
— Nem Aro.
— Não vamos.
— E não comentem isso dentro da empresa além de quem estritamente precisa saber.
— Entendido.
A ligação terminou.
Sarah continuou segurando o telefone.
Jacob permaneceu imóvel.
— Três dias antes — ele disse.
— Sim.
— Irina pediu a peça.
— Pediu a retirada de um componente do lote para o escritório.
— Sarah.
Ela aproximou-se.
— Eu sei.
— Você sempre faz isso.
— Porque alguém precisa fazer.
Ele olhou para ela.
— Eu quero odiar ela agora.
Sarah não respondeu imediatamente.
— Então odeia.
Jacob pareceu surpreso.
— O quê?
— Você é filho de Sarah Black. Não é investigador. Não é promotor. Não precisa sentir de forma juridicamente neutra.
Os olhos dele ficaram úmidos.
Sarah segurou sua mão.
— Eu é que preciso separar o que sentimos do que conseguimos provar.
Jacob apertou seus dedos.
— E o que você sente?
A pergunta a pegou.
Sarah pensou em Irina.
Na discussão.
Nas palavras sobre Sarah Black.
Na forma como tentara diminuir Sarah.
Na raiva antiga.
Na inveja que Sarah finalmente reconhecera.
Depois pensou em Esme.
Uma mãe que conhecia principalmente por fotografias.
— Eu sinto raiva.
Jacob não desviou.
— Muita.
Sarah engoliu.
— Mas não vou deixar a raiva me dar uma resposta antes das provas.
Ele assentiu.
— Eu sabia que você ia dizer isso.
— Está decepcionado?
— Não.
Jacob puxou-a para perto.
— É uma das coisas que eu mais...
Parou.
Sarah percebeu.
Ele também.
Por um segundo, alguma coisa muito maior ficou suspensa entre os dois.
Jacob mudou a frase.
— ...admiro em você.
Sarah olhou para ele.
Sabia que não era exatamente o que ele ia dizer.
Mas não pressionou.
Ainda não.
Encostou a testa na dele.
— Perto o bastante para continuar — Jacob murmurou.
Sarah sorriu de leve.
— E longe o bastante para não acusar.
— Odeio ser namorado de advogada.
— Mentira.
— Muito pouco.
Ela entrelaçou os dedos aos dele.
Jacob olhou para as mãos.
Depois para Sarah.
— Não solta minha mão.
As palavras atravessaram os dois.
Mas, dessa vez, não havia penhasco.
Não havia dedos escorregando.
Não havia uma criança aterrorizada tentando cumprir uma promessa impossível.
Sarah apertou a mão dele.
— Não estou soltando.
E permaneceu ali.
Porque talvez aquela fosse a maior diferença entre o passado e o presente.
Aos dez anos, Jacob tentara desesperadamente impedir que Sarah caísse.
Aos vinte e cinco, finalmente permitia que ela o segurasse também.
E, em algum lugar fora daquela sala, havia um registro de dezenove anos antes com duas letras que agora tinham um nome.
I.V.
Irina Volturi.
Só que Sarah já aprendera uma coisa.
Um nome não era o fim de uma investigação.
Às vezes, era apenas o começo.
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