MEMÓRIAS
30 CAPÍTULO 29 - O nome na procuração
Às oito e vinte da manhã, Sarah já havia descoberto uma coisa que odiava profundamente.
Documentos antigos não respeitavam a ansiedade de quem os lia.
Não importava que duas mulheres pudessem ter sido assassinadas dezenove anos antes.
Não importava que um laudo técnico mencionasse intervenção mecânica recente.
Não importava que o nome de um escritório ligado a Aro Volturi aparecesse entre os documentos preservados por Billy.
Papel não entregava respostas apenas porque alguém precisava delas.
Papel exigia método.
Origem.
Autenticidade.
Contexto.
E, sobretudo, Sarah sabia que precisava parar de tratar a pasta encontrada na casa de Billy como se fosse o próprio procedimento policial.
Não era.
Era um arquivo particular.
Podia conter cópias verdadeiras.
Podia conter documentos incompletos.
Podia ter páginas fora de ordem.
Podia até conter alguma coisa que jamais tivesse sido formalmente juntada ao procedimento oficial.
Sarah tinha passado boa parte da madrugada pensando nisso.
Quando Jacob colocou um segundo café sobre sua mesa, ela nem levantou os olhos.
— Você ainda não terminou o primeiro.
— Estou economizando.
— Café não é investimento.
— Dependendo do escritório, é.
Jacob puxou uma cadeira.
Sarah levantou os olhos.
— Você não tem uma empresa para administrar?
— Tenho.
— Grande?
— Razoavelmente.
— Alguns milhares de funcionários?
— Talvez.
— Então vá cuidar deles.
Jacob permaneceu sentado.
— Estou em silêncio.
— Sua presença faz barulho.
Ele sorriu.
— Isso foi quase romântico.
— Foi uma ordem de despejo.
Sarah voltou para os papéis.
Três segundos.
Levantou os olhos.
Jacob continuava olhando.
— O quê?
— Nada.
— Você está olhando.
— Posso olhar.
— Não enquanto eu trabalho.
— Ontem você reclamou das minhas mãos. Hoje é dos olhos.
Sarah ficou imóvel.
— Não.
O sorriso dele aumentou.
— Eu só...
— Não termina essa frase.
Jacob começou a rir.
Sarah apontou para a porta.
— Presidência. Agora.
Ele levantou.
— Sim, doutora.
Chegou à porta.
— Jacob.
Virou.
Sarah sustentou a expressão séria.
— Deixa o café.
Ele sorriu.
— Eu sabia que tinha alguma utilidade.
Quando saiu, Sarah esperou a porta fechar.
Olhou involuntariamente para as mãos dele através do vidro.
E imediatamente voltou para os documentos.
— Trabalha, Sarah.
Às nove e sete, Edward entrou.
Bateu antes.
E trazia uma pasta.
— Consegui uma coisa.
Sarah fechou o arquivo que examinava.
— Oficial?
— Não.
A resposta fez Sarah sorrir.
Edward aprendera rápido.
— Ótimo começo.
Ele sentou.
— Arquivo histórico interno da Cullen & Black. Correspondências preservadas pelo jurídico da época.
— Originais?
— Parte original. Parte cópia.
Sarah estendeu a mão.
— Separou?
— Sim.
Ela sorriu.
— Definitivamente meu gêmeo.
— Não se acostume.
Sarah começou a examinar.
O escritório Volturi & Associados aparecia em correspondências enviadas ao departamento jurídico da empresa depois do acidente.
Aquilo, isoladamente, não era surpreendente.
Aro prestava serviços jurídicos.
O veículo estava ligado a uma holding da família Cullen.
Havia seguradora.
Possível responsabilidade civil.
Patrimônio.
Sucessão.
Uma tragédia envolvendo duas famílias economicamente relevantes geraria advogados por todos os lados.
Sarah não precisava transformar presença em culpa.
— Isso explica por que o escritório aparece — disse.
Edward assentiu.
— Mas não explica tudo.
— Não.
Ele entregou outra folha.
Era uma cópia de procuração.
Sarah leu.
Irina Volturi figurava como outorgante.
O advogado constituído pertencia ao escritório do marido.
Os poderes abrangiam representação perante seguradora e acompanhamento de providências administrativas relacionadas ao acidente.
Sarah leu duas vezes.
— Interessante.
Edward esperou.
— Só interessante?
— Por enquanto.
— Sarah.
Ela colocou a folha na mesa.
— Irina era irmã de Carlisle. Aro já prestava serviços jurídicos. Carlisle tinha acabado de perder Esme. Billy tinha acabado de perder a esposa. É perfeitamente possível que Irina tenha assumido alguma burocracia familiar.
— Billy não lembra de autorizar.
— Não lembrar dezenove anos depois não prova que não autorizou.
Edward soltou o ar.
— Você estraga todas as conclusões boas.
— É literalmente meu trabalho.
Sarah apontou para a cópia.
— Além disso, eu nem sei se essa procuração é integral, se foi revogada, se havia instrumento anterior, se os poderes foram extrapolados ou se uma cópia dela efetivamente entrou em algum procedimento oficial.
Edward assentiu.
— Então?
— Então autenticamos a origem primeiro.
Ela pegou uma folha em branco.
Escreveu:
DOCUMENTO PARTICULAR — NÃO TRATAR COMO PEÇA OFICIAL ATÉ CONFERÊNCIA.
Edward observou.
— Você está ficando paranoica.
— Estou tentando não fazer besteira.
A porta abriu.
— OPA.
Sarah fechou os olhos.
Emmett.
— Você conhece um objeto chamado maçaneta?
— Conheço. Acabei de usar.
— Antes disso existe uma coisa chamada bater.
— Muito burocrático.
Ele olhou para Edward.
Depois para Sarah.
— Vocês estavam fazendo cara de gêmeos inteligentes.
Edward respondeu:
— Saia.
— Definitivamente estavam.
Sarah riu.
Emmett aproximou-se e viu os documentos.
O humor diminuiu.
— Alguma coisa?
— Talvez.
— Irina?
Sarah respondeu imediatamente:
— Não vamos começar a chamar cada papel estranho de Irina.
Emmett apontou para a procuração.
— Mas esse literalmente diz Irina.
Sarah olhou.
— Nesse caso, argumento aceito.
Edward riu.
Emmett pareceu satisfeito.
— Obrigado.
Sarah recolheu a folha.
— Mas isso prova apenas que ela contratou um advogado para determinados atos relacionados às consequências do acidente. Não prova sabotagem. Não prova interferência ilícita. Não prova homicídio.
— Você é muito menos divertida trabalhando.
— É por isso que me pagam.
Jacob encontrou os três alguns minutos depois.
Parou na porta.
Emmett estava com um braço sobre os ombros de Sarah.
Edward, ao lado dela.
Jacob cruzou os braços.
Emmett sorriu.
— Quer entrar no abraço familiar?
— Estou bem.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Ciúme?
— Não.
— Está — Emmett afirmou.
Jacob respondeu sem pensar:
— De vocês abraçando minha namorada?
Silêncio.
Sarah virou lentamente.
Edward levantou os olhos.
Emmett abriu a boca.
Jacob percebeu.
Tarde demais.
— Sua o quê? — Sarah perguntou.
— Sarah...
Emmett colocou a mão no peito.
— Eu gostaria de registrar formalmente...
— Cala a boca — os quatro disseram juntos.
Emmett sorriu.
— Família.
Sarah caminhou até Jacob.
— Repete.
— Não lembro.
— Jacob.
— Problemas de memória.
— Posso criar um protocolo para você também.
Edward já recolhia seus documentos.
— Eu vou embora.
Emmett segurou seu braço.
— Você não vai perder isso.
Jacob respirou.
— Certo.
Olhou para Sarah.
— Você quer ser minha namorada?
Emmett levou a mão à boca.
— Meu Deus.
Jacob virou.
— Quer fazer melhor?
— Muito.
— Não.
Sarah começou a rir.
— Você administra uma multinacional.
— Sim.
— Negocia contratos de centenas de milhões.
— Sim.
— E essa foi sua abordagem?
— Minha experiência nessa área é consideravelmente menor.
A sinceridade acabou com a provocação.
Sarah sorriu.
Edward agarrou Emmett.
— Vamos.
— Mas...
— Agora.
Antes de desaparecer, Emmett colocou a cabeça de volta.
— Se precisarem de testemunha, eu tenho experiência como celebrante!
Sarah pegou a almofada.
A porta fechou.
Sozinhos, Jacob aproximou-se.
— Eu falei sem pensar.
— Percebi.
— Mas não quero presumir.
Sarah ficou quieta.
— Nem porque fomos crianças juntos. Nem porque você voltou. Nem porque nos beijamos.
Ele segurou sua mão.
— Nem porque dormimos juntos.
Sarah levantou os olhos.
— Eu quero saber o que você quer agora.
Ela não precisou pensar.
— Você.
Jacob sorriu.
A mesma resposta do primeiro beijo.
— Continua sendo uma ótima resposta.
— Então não complique.
— Namorada?
Sarah fingiu analisar.
— Termo juridicamente impreciso.
— Sarah.
— Ausência de cláusulas de vigência.
— Sarah.
— Nenhum mecanismo de solução de controvérsias.
Jacob segurou sua cintura.
— Sarah.
Ela riu.
— Sim.
Ele parou.
— Sim?
— Sim, Jacob.
O sorriso dele foi inteiro.
— Minha namorada.
— Não fica repetindo.
— Por quê?
— Está com cara de idiota.
— Culpa sua.
Sarah beijou-o.
Pequeno.
Carinhoso.
Depois afastou.
— Agora podemos voltar ao possível crime ocorrido dezenove anos atrás?
Jacob piscou.
— Você precisa trabalhar suas transições.
— Sou versátil.
A parte verdadeiramente difícil começou depois.
Sarah decidiu que não pediria a Edward que “conseguisse o inquérito”.
Aquilo não era uma pasta empresarial.
Se existira investigação policial, havia uma tramitação própria, eventual arquivamento, registros oficiais e regras de acesso.
Primeiro precisavam descobrir exatamente o que acontecera juridicamente.
Ela telefonou para um criminalista que conhecia de sua vida profissional.
Não alguém ligado aos Cullen.
Nem aos Black.
Nem à Cullen & Black.
Explicou apenas o necessário.
Duas vítimas fatais.
Acidente ocorrido dezenove anos antes.
Possibilidade de existência de elementos técnicos ignorados ou insuficientemente apurados.
Procedimento antigo possivelmente arquivado.
Documentos particulares recentemente localizados.
O advogado foi direto:
— Antes de qualquer coisa, descubra o número do procedimento e o fundamento do encerramento.
Sarah anotou.
— Se foi arquivado por falta de elementos, uma notícia concreta de prova nova pode justificar pedido de retomada das investigações.
— E se não houve inquérito?
— Então precisamos saber o que houve. Boletim? Investigação preliminar? Procedimento administrativo? Não trabalhe com suposição.
Sarah quase sorriu.
Gostou dele.
— E os documentos que encontrei?
— Preserve os originais. Digitalize. Registre onde estavam, quem encontrou e quem manuseou. Não porque isso magicamente crie cadeia de custódia penal retroativa, mas porque você não quer gerar uma discussão desnecessária sobre alteração posterior.
— Concordo.
— E não confronte suspeitos.
Sarah pensou em Irina.
— Isso já ficou um pouco complicado.
Silêncio.
— O que você fez?
— Longa história.
— Não faça de novo.
— Entendido.
Quando desligou, Jacob estava encostado à porta.
— Levou bronca?
— Orientação profissional.
— Pareceu bronca.
— Sai.
No fim da manhã, o criminalista conseguiu identificar a tramitação antiga por meio dos dados que Sarah fornecera.
Não entregou os autos.
Explicou primeiro.
Houvera investigação.
Depois, arquivamento por insuficiência de elementos para atribuir responsabilidade criminal.
Sarah ouviu em silêncio.
Aquilo importava.
Muito.
Porque significava que não existira uma conclusão judicial de que ninguém cometera crime.
Existira insuficiência de prova naquele momento.
— Então a pasta do Billy não reabre nada automaticamente — Sarah disse.
— Claro que não.
— Precisamos levar elementos novos ao Ministério Público ou à polícia judiciária competente.
— Exatamente.
— E eles decidem as providências formais.
— Sim.
Sarah anotou.
Era melhor.
Muito melhor.
Porque ela não queria ser investigadora, perita, promotora e advogada ao mesmo tempo.
Queria encontrar algo suficientemente concreto para fazer o Estado olhar de novo.
A primeira coisa realmente útil surgiu naquela tarde.
Não de um documento policial.
Da seguradora.
Como filha de uma das vítimas e mediante requerimento formal acompanhado da documentação pertinente, Sarah conseguiu iniciar a busca pelo dossiê histórico do sinistro.
Não recebeu tudo imediatamente.
Recebeu uma confirmação.
O arquivo ainda existia.
Parcialmente digitalizado.
Parte em guarda física.
E havia referência a um relatório técnico externo.
Sarah ficou imóvel ao telefone.
— Externo?
— Sim, senhora.
— Produzido por quem?
— Preciso consultar o arquivo físico para confirmar.
— Faça isso.
— O prazo de resposta é de até dez dias úteis.
Sarah fechou os olhos.
Claro.
Burocracia.
— Existe possibilidade de preservação imediata do material?
— Posso registrar a solicitação.
— Registre, por favor.
Desligou.
Jacob estava diante dela.
— Dez dias?
— Até dez.
— Eu posso ligar para...
Sarah levantou um dedo.
— Não.
— Eu nem terminei.
— Você ia usar o peso da empresa.
— Talvez.
— Não.
— Sarah.
— Se existir alguma coisa relevante, eu quero um caminho documental limpo. Nada de presidente da Cullen & Black pressionando funcionário de seguradora.
Jacob suspirou.
— Ser seu namorado é muito limitador.
Sarah sorriu.
— Você acabou de aceitar o cargo. Ainda está em período de experiência.
— Existe período de experiência?
— Agora existe.
Dois dias depois, o criminalista conseguiu vista parcial do procedimento arquivado e cópia das peças às quais havia acesso naquele momento.
Não era um pacote perfeito.
Não havia uma conveniente sequência de quatrocentas páginas esperando Sarah.
Havia lacunas.
Digitalizações ruins.
Documentos antigos.
Peças que precisariam ser localizadas no arquivo físico.
E isso, para Sarah, era muito mais interessante.
Sentou com o advogado.
Não com Jacob.
Não com Edward.
Não com Emmett.
Primeiro, profissionalmente.
O criminalista abriu a relação de peças.
— O laudo pericial está aqui.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— É igual à cópia do Billy?
— Vamos conferir.
Colocaram lado a lado.
Mesmo número.
Mesma data.
Mesmo perito.
Mesmas páginas.
Sarah respirou.
Primeira confirmação importante.
A cópia de Billy correspondia ao laudo oficial.
— E a menção à intervenção mecânica?
— Está no original.
Sarah leu novamente.
Não dizia:
sabotagem.
Não dizia:
crime.
Dizia que havia marcas recentes de intervenção e recomendava apuração complementar sobre manutenção e acesso ao veículo.
Sarah apontou.
— Houve essa apuração?
— É isso que ainda precisamos verificar.
Ele continuou.
— O arquivamento ocorreu meses depois.
— Meses?
— Sim.
Sarah franziu a testa.
Isso já corrigia outra conclusão precipitada.
Não houvera alguém simplesmente “encerrando tudo quatro dias depois”.
Houvera investigação durante algum tempo.
— Então o documento do escritório Volturi...
— Pode ser uma manifestação paralela relacionada à seguradora ou responsabilidade civil. Não sabemos se influenciou o inquérito.
Sarah assentiu.
— Não misturar procedimentos.
— Exatamente.
Ela gostou ainda mais daquele advogado.
Encontraram, porém, outra coisa.
Uma referência em despacho policial.
“Aguardar esclarecimentos complementares acerca da manutenção realizada no veículo e identificação de pessoas com acesso habitual à garagem da residência.”
Sarah aproximou o documento.
— Isso foi cumprido?
— Há resposta da oficina.
Leram.
A oficina confirmava revisão onze dias antes.
Negava ter realizado intervenção no ponto específico posteriormente identificado pela perícia.
Sarah ficou imóvel.
— Isso é relevante.
— É.
— Mas ainda não significa sabotagem.
— Não.
Sarah respirou.
Era frustrante.
E tranquilizador.
Porque aquela era a linguagem correta.
— Pessoas com acesso à garagem?
O advogado procurou.
— Há algumas oitivas.
Billy.
Carlisle.
Funcionários.
Sarah sentiu um aperto ao ver o nome do pai.
Carlisle Cullen.
Depoimento prestado dezenove anos antes.
A voz que ela não podia ouvir.
Mas palavras que ele realmente dissera.
Sarah não abriu imediatamente.
— Depois.
O advogado entendeu.
Continuou.
Um funcionário mencionara ter visto um veículo de visitante na residência na noite anterior.
Sem identificação segura.
Nenhuma anotação misteriosa de “V”.
Nenhum nome convenientemente omitido.
A testemunha simplesmente não soubera dizer quem era.
Sarah soltou o ar.
— Isso é muito menos cinematográfico.
O advogado sorriu.
— Normalmente é.
— E muito mais irritante.
— Também.
Havia, porém, um dado objetivo sobre Irina.
Ela fora ouvida.
Sarah leu o termo.
Irina admitira relacionamento difícil com Sarah Black.
Negara ameaças.
Dissera ter telefonado para a residência na noite anterior.
Isso constava do próprio depoimento dela.
Sarah parou.
— Então ela nunca negou a ligação.
— Não.
Mais uma correção importante.
Sarah continuou.
Irina afirmava que queria resolver uma discussão anterior.
Dissera não ter ido à residência.
Aro confirmara que ela passara a maior parte da noite em casa.
Maior parte.
Sarah parou.
— Não é álibi fechado.
— Não.
— Também não prova que saiu.
— Exatamente.
Sarah continuou.
Nada sobre conhecimento técnico de veículos.
Nada sobre uma pergunta perfeita que entregasse uma contradição.
Vida real era menos generosa.
Mas havia algo.
Uma declaração de Billy.
Ele confirmava que Irina e Sarah Black tinham desentendimentos antigos relacionados a ele.
E afirmava não acreditar que Irina fosse capaz de machucá-la.
Sarah leu duas vezes.
Pensou em Jacob.
Depois guardou.
Não permitiria que ele interpretasse aquilo como Billy “protegendo” Irina.
Billy respondera com o que acreditava naquele momento.
Só isso.
— E o perito? — Sarah perguntou.
O advogado levantou os olhos.
— O que tem?
— Está vivo.
— Como sabe?
— Localizamos.
Ele fechou a pasta.
— Não vá conversar com ele sozinha.
Sarah franziu a testa.
— Por quê?
— Porque se você pretende apresentar a memória atual dele como elemento novo para uma possível retomada oficial, eu prefiro minimizar alegações de indução.
Sarah ficou quieta.
— Você acha melhor não entrevistá-lo?
— Acho melhor saber primeiro se ele tem documentos próprios.
Sarah compreendeu.
— E, se tiver uma informação realmente nova...
— Formalizamos uma notícia ao Ministério Público ou à autoridade policial e pedimos que ele seja ouvido oficialmente.
— Em vez de eu colher uma declaração particular e depois tentar transformar isso em prova.
— Exatamente.
Sarah sorriu.
— Eu estava começando a gostar da ideia de interrogá-lo.
— Você é advogada empresarial.
— Detalhe.
— Um detalhe importante.
Sarah telefonou para o perito naquele mesmo dia.
A conversa durou menos de três minutos.
Identificou-se.
Disse ser filha de Esme Cullen.
Houve silêncio do outro lado.
— Eu gostaria de saber apenas uma coisa — Sarah explicou. — O senhor ainda possui algum arquivo pessoal relacionado à perícia daquele acidente?
O homem demorou.
— Talvez.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Não perguntou o que havia.
— Eu prefiro não discutir o conteúdo por telefone.
— Melhor.
Sarah ficou surpresa.
— Melhor?
— Doutora, eu fui perito por trinta e quatro anos.
Pausa.
— Sei como isso funciona.
Sarah sorriu.
— Então estamos de acordo.
— Vou procurar.
— Não altere, não anote e não descarte nada, por favor.
— Entendido.
— E, se encontrar, antes de me entregar qualquer coisa, podemos providenciar a forma adequada de preservação e apresentação.
O homem ficou em silêncio.
— A senhora realmente é filha de Esme?
Sarah sentiu.
— Sou.
— Sinto muito.
Dezenove anos atrasado.
E ainda doeu.
— Obrigada.
Desligou.
Dois dias depois, o telefone tocou.
Era o perito.
Sarah atendeu imediatamente.
— Doutor?
— Encontrei.
Ela levantou da cadeira.
Jacob, do outro lado da sala, percebeu.
— O quê?
Sarah levantou a mão para ele esperar.
— Encontrou o quê?
— Meu caderno de trabalho daquele ano.
Sarah parou de respirar.
— O original?
— Sim.
— Tem anotações sobre o acidente?
Silêncio.
— Tem.
Sarah fechou os olhos.
— Não leia para mim.
Jacob franziu a testa.
O perito também pareceu surpreso.
— Não?
— Não por telefone.
Sarah já pegava o bloco.
— Vou conversar com meu colega criminalista. Se o conteúdo for potencialmente relevante para a investigação arquivada, quero que seja apresentado de forma formal, com preservação do original.
— Certo.
— O senhor concorda?
— Concordo.
Sarah desligou.
Jacob se aproximou.
— Agora você pode me contar?
Ela olhou para ele.
— O perito guardou o caderno de trabalho.
Jacob ficou imóvel.
— E tem anotações.
— Tem.
— Sobre minha mãe?
— Sobre a perícia.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Quando vamos ver?
— Nós não vamos primeiro.
— Sarah.
— Se isso puder ser prova nova, não quero transformar a descoberta numa reunião de família.
Ele respirou.
Irritado.
Mas entendeu.
— Ministério Público?
— Primeiro nosso criminalista verifica a melhor forma de apresentar a notícia e preservar o original. Depois a autoridade competente decide se há fundamento para retomar formalmente as diligências.
Jacob assentiu lentamente.
— Certo.
Sarah segurou sua mão.
— Eu sei que é difícil.
— Muito.
— Para mim também.
Ele olhou.
Ela raramente dizia.
Sarah continuou:
— Esme era minha mãe.
A voz falhou um pouco.
— Eu sei que Harry e Sue são meus pais. Isso não mudou. Mas aquela mulher morreu quando eu tinha quatro anos.
Jacob apertou sua mão.
— E eu nem tive a oportunidade de sentir falta dela conscientemente durante quinze anos.
Os olhos encheram.
— Agora eu estou descobrindo que talvez alguém tenha tirado ela de mim.
Jacob a puxou para os braços.
Sarah foi.
Sem resistência.
— Então eu quero correr — ela murmurou contra o peito dele. — Quero abrir tudo. Perguntar tudo. Colocar Irina contra uma parede e exigir respostas.
Jacob beijou seus cabelos.
— Mas não vai.
— Não.
— Por quê?
Sarah respirou.
— Porque eu quero a verdade mais do que quero uma resposta rápida.
Ele apertou-a.
— Essa foi muito advogada.
— Eu sei.
— E muito Sarah.
Ela sorriu.
— Melhor.
A notícia de possível prova nova foi formalizada três dias depois.
Sem acusar Irina de homicídio.
Sem afirmar que Aro encobrira crime.
Sem transformar suspeita em fato.
A petição descrevia objetivamente:
o laudo oficial já existente;
a referência à intervenção mecânica recente;
a negativa da oficina quanto à realização daquele serviço específico;
a localização do antigo perito;
e a existência recém-descoberta de um caderno profissional contemporâneo à perícia, até então não identificado nos autos consultados.
Sarah insistiu que o documento fosse simples.
— Não quero adjetivo.
O criminalista sorriu.
— Advogada corporativa mandando criminalista retirar adjetivo.
— Adjetivo é onde começa a besteira.
— Vou usar isso.
O requerimento pedia preservação e avaliação do material, oitiva formal do antigo perito e análise sobre eventual retomada das investigações diante da notícia de elemento novo.
Sarah leu quatro vezes.
Só então autorizou o protocolo.
Quando terminou, ficou olhando para o comprovante.
Jacob estava ao lado.
— Agora?
— Agora não somos nós que investigamos.
— Difícil.
— Muito.
— E se demorarem?
Sarah soltou o ar.
— Provavelmente vão.
— Odeio essa resposta.
— Eu também.
Ele segurou sua mão.
Sarah olhou para os dedos unidos.
— Mas agora existe registro.
— Oficial.
— Sim.
E aquilo importava.
Porque, durante dezenove anos, a morte de Esme Cullen e Sarah Black tinha permanecido no passado de duas famílias.
Agora havia uma pergunta formal novamente aberta diante de quem tinha poder para investigá-la:
a falha que matou as duas mulheres fora realmente acidental?
Sarah ainda não sabia a resposta.
Não sabia se Irina estivera naquela garagem.
Não sabia quem tocara nos freios.
Não sabia se Aro tinha participado de alguma coisa.
Não sabia sequer se o caderno do perito traria uma descoberta decisiva ou apenas repetiria o que já constava no laudo.
Mas, pela primeira vez, aquilo não dependia de uma lembrança recuperada, de uma discussão familiar ou de uma suspeita.
Havia um elemento novo identificável.
Uma fonte.
Um original.
E um caminho jurídico para examiná-lo.
Sarah olhou para Jacob.
— Agora esperamos.
Ele fez uma careta.
— Eu preferia quando você dizia “vamos investigar”.
Sarah sorriu.
— Eu também.
— Podemos pelo menos investigar alguma coisa permitida?
— Podemos revisar os documentos societários do inventário de Carlisle.
Jacob imediatamente se arrependeu.
— Esperar parece ótimo.
Sarah começou a rir.
E, pela primeira vez desde que Billy encontrara a pasta, conseguiu respirar sem sentir que precisava solucionar dezenove anos de silêncio em uma única noite.
A verdade ainda estava longe.
Mas agora estavam procurando por ela do jeito certo.
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