MEMÓRIAS

29 CAPÍTULO 28 - Não foi um acidente



Sarah não desligou imediatamente.

Ficou com o telefone junto ao ouvido, sentada na beirada da cama, enquanto as palavras de Billy continuavam reverberando.

Sinais de intervenção mecânica recente.

Feita antes do acidente.

Não significava sabotagem.

Ainda não.

Não significava homicídio.

Não significava Irina.

Sarah repetiu mentalmente as três frases como se estivesse instruindo outra pessoa.

Porque era exatamente naquele momento que precisava ser advogada.

Não sobrinha de Esme.

Não afilhada emocional de Sarah Black.

Não irmã de Edward e Emmett.

Não mulher de Jacob.

Advogada.

— Tio Billy.

— Estou aqui.

— Não mexa em mais nada.

Silêncio.

— Sarah...

— Na pasta.

— Certo.

— Não tire nenhum documento da ordem em que encontrou. Não escreva neles. Não coloque post-it. Não grampeie nada. Não entregue para ninguém.

Billy soltou uma respiração estranha.

— Você acha que...

— Eu ainda não acho nada.

Sarah levantou.

Já procurava os sapatos.

— Vou para aí.

— Jacob está com você?

Ela parou.

Não.

Jacob tinha ido para casa havia pouco mais de uma hora.

— Não.

— Talvez seja melhor...

Billy não terminou.

Sarah compreendeu.

Aquilo dizia respeito à mãe dele.

— Eu ligo.

— Sarah.

— Sim?

A voz de Billy falhou.

— Eu li esse laudo dezenove anos atrás.

Ela fechou os olhos.

— Eu sei.

— Como eu não vi?

Sarah parou de procurar os sapatos.

— Você tinha acabado de perder sua esposa.

— Mas estava escrito.

— Você estava enterrando Sarah Black.

Billy ficou em silêncio.

Sarah baixou a voz.

— Não faça isso com você agora.

— Fazer o quê?

— Procurar culpa antes de procurar fatos.

Pausa.

— Já tivemos bastante disso nesta família.

Billy entendeu.

— Venha.

— Estou indo.

Sarah desligou.

Olhou para o telefone.

Jacob.

E, pela primeira vez desde a descoberta de sua identidade, hesitou antes de contar alguma coisa a ele.

Não porque quisesse esconder.

Porque sabia que, depois daquela ligação, alguma coisa dentro dele poderia mudar para sempre.


Jacob atendeu no segundo toque.

— Já sentiu saudade?

A voz sorridente fez Sarah fechar os olhos.

Poucas horas antes, aquela voz estivera em seu ouvido por motivos completamente diferentes.

Ela não conseguiu responder no mesmo tom.

Jacob percebeu imediatamente.

— Sarah?

— Onde você está?

— Em casa.

— Preciso que venha comigo à casa do Billy.

Silêncio.

— O que aconteceu?

Sarah sentou novamente.

— Ele encontrou a pasta do acidente.

Jacob não respondeu.

— Da minha mãe?

— E da Esme.

— O laudo?

— Sim.

Outro silêncio.

— O que diz?

Sarah respirou.

Não suavizaria.

Também não dramatizaria.

— O perito registrou sinais de intervenção mecânica recente no sistema de freios antes do acidente.

Nada.

— Jacob?

Ela ouviu a respiração dele.

— Estou aqui.

— Isso ainda não nos permite concluir quem fez, por que fez ou sequer exatamente qual foi a natureza dessa intervenção sem ler o documento completo.

— Mas alguém mexeu no carro.

— O laudo aparentemente diz isso.

— Sarah.

A voz mudou.

— Alguém mexeu no carro da minha mãe.

Sarah fechou os olhos.

— Eu sei.

— E ela morreu.

— Jacob...

— Estou indo buscar você.

— Posso ir sozinha.

— Eu sei.

A resposta veio imediatamente.

Sarah ficou quieta.

Jacob completou:

— Mas eu quero ir com você.

Ela sorriu, apesar de tudo.

Ele aprendera.

— Então vem.


Vinte minutos depois, Jacob estava diante da porta dela.

Sarah abriu.

Ele não falou.

Ela também não.

Por alguns segundos, apenas se olharam.

Então Sarah pegou a bolsa.

Jacob estendeu a mão.

Ela olhou.

Mãos.

Naquela manhã, pensara nelas e sentira calor.

Agora viu os dedos dele e sentiu outra coisa.

A lembrança de uma mão infantil tentando desesperadamente segurá-la.

Sarah colocou a sua na dele.

Jacob apertou.

— Vamos.


Billy estava esperando na sala.

A pasta cinza permanecia sobre a mesa exatamente como a encontrara.

Edward e Emmett já estavam ali.

Sarah parou.

— Você contou?

Billy assentiu.

Emmett não tinha nenhum traço do humor habitual.

Edward estava pálido.

Jacob soltou a mão de Sarah apenas para abraçar o pai.

Billy o segurou.

Nenhum falou.

Sarah observou.

Depois olhou para Edward e Emmett.

A mãe deles também estava naquele carro.

Atravessou a sala e abraçou os dois.

Emmett foi o primeiro a falar:

— Lê.

Sarah afastou-se.

— Emmett...

— Por favor.

A voz dele falhou.

— Eu não consigo.

Sarah olhou para Edward.

Ele assentiu.

— Lê você.

Então Sarah sentou.

Colocou luvas finas que trouxera.

Emmett quase teria feito uma piada em qualquer outro dia.

Naquele, ninguém achou estranho.

Sarah abriu a pasta.


O primeiro documento era o boletim de ocorrência.

Data.

Horário aproximado.

Local.

Condições da pista.

Veículo.

Duas vítimas fatais.

Esme Cullen.

Sarah Black.

Sarah precisou parar.

Os nomes eram diferentes quando estavam em fotografias.

Ali eram vítimas.

Continuou.

Fotografias do veículo.

Danos frontais e laterais.

Marcas na pista.

Relatório dos bombeiros.

Atendimento.

Declaração do motorista que encontrara o carro.

Sarah separou mentalmente.

Depois veio a perícia.

Leu uma vez em silêncio.

Depois outra.

Jacob estava em pé atrás dela.

Sarah sentia a presença dele.

Na terceira leitura, pegou um bloco.

— Certo.

A voz profissional voltou.

— O relatório identifica falha no sistema de frenagem.

Billy assentiu.

— Foi isso que eu lembrava.

— Mas não para aí.

Sarah percorreu a linha com o dedo.

— O perito encontrou marcas recentes de ferramenta em componentes do sistema.

Edward se inclinou.

— Recentes quanto?

— O documento não estabelece uma janela exata.

Sarah continuou:

— Mas registra ausência de oxidação nas marcas e diferença entre elas e o desgaste geral das peças.

Jacob fechou os olhos.

— Alguém mexeu.

Sarah levantou o rosto.

— Alguém realizou intervenção mecânica.

— Sarah.

— Eu sei que parece preciosismo.

— Parece.

Ela sustentou o olhar.

— Mas precisamos ser precisos.

Jacob respirou.

— Certo.

Sarah voltou ao papel.

— Há mais.

Todos ficaram imóveis.

— Um componente apresentava fixação incompatível com o padrão esperado após manutenção regular.

Edward perguntou:

— Solto?

— Parcialmente.

Sarah continuou lendo.

— O perito não conseguiu determinar se houve erro de manutenção, intervenção deliberada ou manipulação posterior.

Emmett finalmente falou:

— Manipulação posterior ao quê?

— À última manutenção conhecida.

Sarah procurou.

— Aqui.

Virou a página.

— O veículo tinha passado por revisão onze dias antes.

Jacob encarou Billy.

— Onde?

Billy ficou pálido.

— Não lembro.

Sarah procurou nos documentos.

Havia uma ordem de serviço.

— Oficina autorizada.

Edward pegou o nome.

— Ainda existe?

— Vamos descobrir.

Sarah continuou.

Então parou.

— Espera.

Jacob viu.

— O quê?

Sarah aproximou o documento.

— Há uma recomendação.

— Qual?

Ela leu.

O perito sugeria investigação complementar sobre a manutenção recente e identificação de pessoas que tiveram acesso ao veículo entre a revisão e o acidente.

Silêncio.

Edward foi o primeiro:

— E fizeram?

Sarah começou a procurar.

Folheou.

Correspondências.

Seguradora.

Polícia.

Mais páginas.

Nada.

— Não está aqui.

Billy levantou.

— Pode estar em outra pasta.

— Talvez.

Sarah continuou procurando.

Nada.

Jacob ficou inquieto.

— Então ninguém investigou?

Sarah levantou imediatamente.

— Não sabemos.

— Não está aí.

— Isso não significa que não exista.

— Sarah...

Ela segurou o braço dele.

— Não vamos preencher lacunas.

Jacob passou a mão pelo cabelo.

— Eu odeio quando você faz sentido.

— Bom.

Emmett murmurou:

— Isso também parece casamento.

Ninguém riu.

Ele abaixou a cabeça.

— Desculpa.

Sarah olhou.

— Não.

Emmett ergueu os olhos.

Ela sorriu levemente.

— Precisávamos disso.

Um pequeno sorriso apareceu nele.

E sumiu.


Edward encontrou a primeira inconsistência.

— Sarah.

Ela se aproximou.

Ele segurava uma correspondência da seguradora.

— Olha a data.

Sarah viu.

Quatro dias depois do laudo.

— Certo.

— Agora olha isso.

Outro documento.

Um pedido de encerramento administrativo relacionado à apuração complementar.

Sarah franziu a testa.

— Quem pediu?

Edward apontou.

Não era assinatura de Billy.

Nem de Carlisle.

Era de um advogado.

Sarah leu o nome.

Não conhecia.

— Billy?

Ele se aproximou.

— Já viu esse nome?

Billy ficou olhando.

— Talvez.

— Talvez não serve.

— Eu sei.

Ele tentou lembrar.

— Havia muitos advogados na época. Empresa, seguradora, família...

Sarah virou a folha.

No rodapé havia o escritório.

A expressão de Edward mudou.

— Volturi & Associados.

Jacob levantou a cabeça.

Sarah ficou imóvel.

Emmett aproximou-se.

— Aro?

Sarah leu novamente.

O escritório tinha o sobrenome.

Isso não provava participação pessoal.

— Não concluam.

Jacob riu sem humor.

— Está ficando difícil.

— Eu sei.

Sarah fotografou mentalmente a página.

— Precisamos descobrir quem era esse advogado, qual relação tinha com o escritório e com quem ele se comunicava.

Edward apontou para outra linha.

— “Representando interesses da família.”

Sarah olhou para Billy.

— Você contratou esse escritório?

— Não.

— Carlisle?

— Não que eu saiba.

— Sarah Black?

Billy quase riu pela impossibilidade.

— Minha esposa odiava Aro.

Silêncio.

Sarah parou.

— O quê?

Billy percebeu.

— Eu nunca contei?

Jacob respondeu:

— Não.

Sarah se aproximou.

— Por quê?

Billy olhou para o filho.

— Porque Sarah sabia que Irina tinha sentimentos por mim.

Sarah ficou imóvel.

— E Aro sabia?

Billy pensou.

— Imagino que sim.

Outra peça.

Não prova.

Peça.

Sarah escreveu:

VOLTURI & ASSOCIADOS — participação após acidente.

Embaixo:

QUEM AUTORIZOU?


Passaram quase duas horas lendo.

Quando terminaram, Sarah tinha quatro páginas de anotações.

Nada permitia acusar Irina.

Mas a versão simples de “acidente causado por falha nos freios” já não sobrevivia intacta.

Houvera intervenção recente.

Houvera recomendação de investigação.

Um advogado ligado ao escritório Volturi aparecera logo depois.

E a apuração complementar parecia ter sido interrompida.

Sarah fechou a pasta.

— Amanhã solicitamos cópia integral do procedimento policial.

Edward assentiu.

— Eu cuido.

— Não.

Ele olhou.

— Por quê?

— Fonte externa.

— Posso pedir como filho da vítima.

— Justamente.

Sarah pensou.

— Quero saber primeiro se o arquivo está completo sem alertar ninguém de que estamos investigando.

Jacob entendeu.

— Advogado independente.

— Sim.

— Fora da empresa.

— E fora de qualquer escritório que tenha relação histórica com os Cullen, Black ou Volturi.

Billy assentiu.

— Concordo.

Sarah olhou para a pasta.

— Depois seguradora. Oficina. Registro societário do escritório Volturi naquela época. Quem trabalhava lá. Quem assinou isso. Procuração. Se existiu.

Emmett observou a irmã.

— Você está assustadora de novo.

Sarah levantou os olhos.

— Bom.

— Muito.

— Melhor ainda.


Foi quando Jacob perguntou:

— Quem estava com a gente naquele dia?

Sarah parou.

— Qual?

— No dia em que nossas mães morreram.

Billy olhou para ele.

— Vocês estavam comigo e com Carlisle.

— O dia inteiro?

Billy tentou lembrar.

— Não.

Sarah sentiu a atenção mudar.

— Não force.

Jacob fechou os olhos.

— Eu lembro de minha mãe saindo.

Todos ficaram quietos.

Sarah imediatamente pegou o bloco.

— Não conte mais nada ainda.

Jacob abriu os olhos.

— O quê?

— Escreve.

Empurrou papel e caneta.

— Sem ninguém falar.

Jacob olhou.

Sarah insistiu:

— Tudo que vier. Mesmo que pareça idiota. Não tente organizar.

Ele sentou.

Começou.

Durante cinco minutos ninguém falou.

Depois entregou.

Sarah não leu.

Dobrou.

— Por quê? — Emmett perguntou.

— Porque quero que ele faça de novo amanhã sem reler.

Edward compreendeu.

— Comparação.

— Exato.

Sarah olhou para Emmett.

— Você também.

— Eu tinha seis anos.

— Jacob também.

— Edward?

— Quatro. Mesmo assim.

Emmett pegou uma folha.

Edward também.

Sarah sentou.

Jacob olhou.

— E você?

Ela ficou imóvel.

— Eu tinha quatro.

— Mesmo assim — ele repetiu as palavras dela.

Sarah sorriu.

Pegou papel.

Fechou os olhos.

Não tentou lembrar.

Esperou.

Nada.

Então uma imagem.

Pequena.

Uma cozinha.

Duas mulheres.

Risos.

Uma delas abaixando-se.

Mãos prendendo alguma coisa ao redor de seu pescoço.

Sarah abriu os olhos.

Levou a mão automaticamente ao pingente escondido.

Jacob percebeu.

— Sarah?

Ela levantou a mão.

Não fale.

Escreveu.

Cozinha.

Esme?

Sarah Black?

Risos.

Colar.

Depois outra coisa.

Uma voz feminina.

Agora você tem uma lua.

Sarah sentiu os olhos encherem.

Escreveu.

Não falou.

Continuou esperando.

Uma segunda voz.

Mais suave.

Combina com ela.

Sarah apertou a caneta.

Então nada.

Abriu os olhos.

Jacob estava olhando.

— Veio alguma coisa?

Sarah assentiu.

— Mas ainda não vou contar.

Ele sorriu.

— Certo.

E respeitou.


Mais tarde, Edward e Emmett foram embora.

Billy permaneceu sozinho na sala por alguns minutos.

Sarah encontrou Jacob no jardim.

Ele estava de costas.

Ela se aproximou sem falar.

Parou ao lado.

Jacob olhou para o céu.

— Eu passei quinze anos achando que falhei com você.

Sarah esperou.

— Agora descubro que talvez alguém tenha feito aquilo com minha mãe.

A voz falhou.

Sarah segurou sua mão.

— Talvez.

— Você consegue ser irritante até em momentos dramáticos.

Ela sorriu.

— Treinamento jurídico.

Jacob soltou uma pequena risada.

Depois ficou sério.

— Se foi Irina...

Sarah virou para ele.

— Não termina.

— Sarah.

— Se foi Irina, nós provamos.

— E se não conseguirmos?

Ela demorou.

— Então não inventamos.

Jacob fechou os olhos.

— Como você consegue?

— Conseguir o quê?

— Ficar assim.

— Assim como?

— Racional.

Sarah olhou para as mãos unidas.

— Eu não estou racional por dentro.

Jacob abriu os olhos.

Ela continuou:

— Por dentro eu quero entrar no carro agora, ir até a casa dela e perguntar se ela matou duas mulheres porque uma delas ficou com o homem que ela queria.

Jacob a encarou.

— E por que não faz?

Sarah levantou as mãos unidas.

— Porque isso aqui me ensinou alguma coisa.

Ele olhou.

— O quê?

— Que a verdade pode sobreviver quinze anos.

Pausa.

— Dezenove também.

Jacob sentiu o peito apertar.

Sarah aproximou-se.

— Não precisamos arrancar uma confissão dela amanhã.

— Eu queria.

— Eu sei.

— Muito.

— Eu sei.

Ele encostou a testa na dela.

Sarah fechou os olhos.

— Vamos encontrar.

— O quê?

— A verdade.

Jacob respirou.

— Você promete?

Sarah abriu os olhos.

A palavra.

Promessa.

Durante anos, promessa significara queda.

Culpa.

Uma mão escapando.

Sarah sorriu.

— Não.

Jacob ficou surpreso.

Ela tocou seu rosto.

— Não vou prometer algo que não depende só de mim.

Ele começou a sorrir.

— Advogada.

— Sempre.

— Então o que você pode me prometer?

Sarah pensou.

— Que eu não vou parar de procurar.

Jacob beijou sua testa.

— Serve.


Do outro lado da cidade, Aro desligou o telefone.

Irina estava diante dele.

— O que foi? — perguntou.

Ele não respondeu imediatamente.

— Aro.

Ele olhou.

— Billy abriu os arquivos antigos.

O rosto de Irina perdeu a cor.

— Como você sabe?

— Não importa.

— Qual arquivo?

Aro permaneceu em silêncio.

Irina entendeu.

— Não.

— Sim.

Ela levantou.

— O laudo?

— Provavelmente.

Irina começou a andar.

— Aquilo foi encerrado.

— Há dezenove anos.

— Foi encerrado.

Aro levantou.

— Pare de dizer isso como se repetir transformasse papel em cinzas.

Irina ficou imóvel.

— O que havia naquela pasta?

Aro observou-a.

— Você sabe.

— Eu quero saber o que Billy guardou.

— E eu quero saber quanto Sarah já descobriu.

Silêncio.

Irina levou a mão à testa.

— Ela vai ligar as coisas.

— Talvez.

— O escritório aparece.

— Sim.

Irina virou-se.

— Então precisamos tirar os documentos.

Aro riu.

Sem humor.

— E confirmar exatamente o que ela suspeita?

Irina ficou quieta.

— Não toque em nada.

— Aro...

— Nada.

Ele aproximou-se.

— Se algum documento desaparecer agora, Sarah vai saber que acertou.

Irina respirou rápido.

— Então fazemos o quê?

— Esperamos.

— Eu não vou ficar parada.

— Foi exatamente por não conseguir ficar parada que você contou a ela sobre Billy!

Irina recuou.

Aro baixou a voz.

— Sarah está esperando você cometer outro erro.

Silêncio.

— Não dê isso a ela.

Irina olhou para a janela.

Mas sua mente estava dezenove anos atrás.

Uma estrada.

Um carro.

Duas mulheres.

E uma decisão que deveria ter permanecido enterrada.


Na manhã seguinte, Sarah chegou cedo.

Muito cedo.

Seu escritório ainda estava escuro.

Acendeu apenas a luminária da mesa.

Abriu o notebook.

Criou uma pasta nova.

Não colocou “Irina”.

Não colocou “Aro”.

Não colocou “homicídio”.

Escreveu:

INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA — FAMÍLIA CULLEN/BLACK

Dentro, criou quatro divisões.

1. Fatos comprovados.

2. Documentos pendentes.

3. Memórias espontâneas.

4. Hipóteses não confirmadas.

Na quarta pasta escreveu:

Possível sabotagem — acidente Esme Cullen/Sarah Black.

Possível interferência posterior na investigação.

Possível vínculo Volturi.

Motivação ainda desconhecida.

Parou.

Pensou em Irina.

Em Billy.

Na discussão.

Acrescentou:

Ressentimento de Irina em relação a Sarah Black — possível elemento motivacional. NÃO TRATAR COMO PROVA.

Sarah salvou.

Então abriu seu registro de memória da noite anterior.

Leu apenas o próprio texto.

Cozinha.

Duas mulheres.

Risos.

Colar.

“Agora você tem uma lua.”

Sarah tocou o pingente.

Fechou os olhos.

Dessa vez outra imagem veio.

Muito rápida.

Sarah Black ajoelhada diante dela.

Esme atrás.

A lua entre dedos femininos.

E uma voz.

Não conseguiu saber de qual das duas.

Mas a frase veio inteira.

— Quando sentir medo, lembra que sempre tem alguém olhando por você.

Sarah abriu os olhos.

Uma lágrima caiu.

Ela imediatamente escreveu.

Data.

Horário.

Circunstância.

Palavras exatas que acreditava ter ouvido.

Depois acrescentou:

Grau de confiança: médio. Não confrontado com terceiros.

Uma batida na porta.

Sarah fechou o arquivo.

— Entra.

Jacob apareceu com dois cafés.

Ela olhou.

— Suborno?

— Prevenção.

— De quê?

— Você sem café.

Ele colocou um diante dela.

Sarah pegou.

Jacob percebeu seus olhos úmidos.

— Memória?

Ela assentiu.

Ele não perguntou qual.

Sarah percebeu.

Sorriu.

— Está aprendendo.

— Tenho boa capacidade de aprendizagem.

Ela riu.

— Ladrão de frases.

Jacob se inclinou e beijou sua testa.

Depois olhou para o computador.

— O que fazemos hoje?

Sarah respirou.

Olhou para a pasta cinza que Billy entregara naquela manhã.

Depois para Jacob.

— Descobrimos quem mandou encerrar a investigação.

Jacob assentiu.

Sarah segurou o café.

— E depois?

— Depois?

Ela olhou para a fotografia de Esme e Sarah Black que colocara discretamente ao lado do monitor.

— Descobrimos por quê.

Porque agora havia uma diferença fundamental.

Dezenove anos atrás, duas mulheres tinham morrido numa estrada e a verdade fora enterrada junto com elas.

Desta vez, porém, alguém estava olhando para os documentos.

Alguém estava fazendo perguntas.

E Sarah não precisava se lembrar de tudo.

Precisava apenas saber onde procurar.