MEMÓRIAS
28 CAPÍTULO 27 - Antes do rio
— Ninguém me conta mais nada.
Jacob franziu a testa.
Edward levantou os olhos.
Emmett, que acabara de entrar na sala de Sarah depois de ser convocado, parou com a mão sobre a maçaneta.
— Essa frase precisa de contexto — disse.
Sarah estava em pé diante do quadro branco que normalmente utilizava para organizar casos complexos.
Tinha prendido os cabelos.
O paletó estava jogado sobre a cadeira.
A expressão não lembrava em absolutamente nada a mulher que, algumas horas antes, perdera a capacidade de redigir uma petição porque pensara nas mãos de Jacob.
Jacob percebeu.
E, apesar da gravidade do momento, quase sorriu.
Sarah viu.
— Nem pense.
Ele imediatamente ficou sério.
Emmett olhou de um para o outro.
— Eu perdi alguma coisa?
— Sim — Edward respondeu.
— O quê?
— A capacidade de ficar calado.
— Essa eu nunca tive.
— Nós sabemos — Sarah disse.
Então apontou a caneta para os três.
— Estou falando sério.
Emmett sentou.
— Certo.
Sarah escreveu no quadro:
MEMÓRIA
Abaixo:
FATO DOCUMENTADO
Depois:
RELATO DE TERCEIROS
E por último:
HIPÓTESE
Jacob compreendeu primeiro.
— Você quer separar tudo.
— Exatamente.
Sarah virou-se.
— Até agora misturamos as coisas.
Edward assentiu lentamente.
— Faz sentido.
— Eu comecei a recuperar algumas lembranças. Mas vocês também me contaram muitas histórias. Billy contou. Harry contou. Sue contou. Eu vi fotografias.
Ela bateu a ponta da caneta no quadro.
— Isso cria um problema.
Emmett franziu a testa.
— Qual?
— Contaminação.
Jacob observou Sarah.
Ela continuou:
— Se amanhã eu disser que me lembro de alguma coisa relacionada ao ataque, como vou saber se realmente me lembrei ou se meu cérebro preencheu uma lacuna usando alguma coisa que ouvi de vocês?
Ninguém respondeu.
— Portanto, acabou.
— O quê? — Emmett perguntou.
— Histórias.
Ela apontou para ele especificamente.
— Principalmente você.
Emmett colocou a mão no peito.
— Por que principalmente eu?
Edward respondeu:
— Porque você conta vinte por dia.
— Estou ajudando nossa irmã a recuperar a infância.
— Está destruindo a cadeia de custódia da memória dela — Sarah respondeu.
Emmett piscou.
— Isso parece grave.
— É grave.
— Então eu não posso mais contar que você tentou cortar o cabelo do Edward quando tinha cinco anos?
Sarah parou.
Olhou para Edward.
Edward fechou os olhos.
— Emmett.
Sarah começou a sorrir.
— Eu fiz isso?
— Não responde! — ela gritou imediatamente.
Emmett levantou as mãos.
— Certo!
Sarah apontou.
— Está vendo?
— Mas agora você vai ficar curiosa.
— Muito.
— Quer saber?
— Quero.
— Posso contar?
— Não.
— Tem certeza?
Sarah apertou os olhos.
— Eu odeio essa família.
Jacob riu.
— Não odeia.
Ela olhou para ele.
— Você está incluído.
— Eu sei.
Sarah voltou ao quadro.
— A partir de agora, qualquer coisa que eu lembrar será registrada antes de discutir com vocês.
Edward já acompanhava o raciocínio.
— Data, horário, circunstância do gatilho.
Sarah apontou para ele.
— Exatamente.
— Conteúdo espontâneo.
— Sim.
— Depois confrontamos com documentos.
Sarah sorriu.
— Sabia que ter um gêmeo inteligente teria alguma utilidade.
Emmett pareceu ofendido.
— E eu?
— Apoio emocional.
— Isso é humilhante.
— Você também alcança prateleiras altas.
— Melhorou.
Sarah apagou uma pequena parte do quadro.
Escreveu:
ACIDENTE — ESME CULLEN / SARAH BLACK
O humor desapareceu.
Jacob ficou imóvel.
Emmett parou de sorrir.
Edward olhou para o nome da mãe.
Sarah respirou fundo.
— Precisamos começar aqui.
Jacob não gostou.
Ela viu imediatamente.
— Sarah...
— Eu sei.
— Isso aconteceu quatro anos antes do ataque.
— Exatamente.
Sarah virou-se.
— Irina não perdeu o controle quando falei de Carlisle.
— Perdeu quando você falou da minha mãe — Jacob completou.
— Sim.
Edward cruzou os braços.
— E de Billy.
Sarah assentiu.
— Principalmente de Billy.
Emmett olhou para o quadro.
— Você acha que o acidente das duas...
— Não sei.
Sarah cortou imediatamente.
— E quero que todos nós sejamos disciplinados nisso. Não sabemos.
Olhou para Jacob.
— Ciúme não é prova de homicídio.
— Eu sei.
— Ressentimento também não.
— Sarah...
— Estou dizendo para mim também.
Jacob compreendeu.
Ela precisava daquilo.
Precisava manter os fatos longe da emoção.
Sarah escreveu:
FATO: Irina tinha sentimentos por Billy.
Parou.
Riscou.
— Não.
Apagou.
Escreveu novamente:
INDÍCIO: reação de Irina sugere sentimentos antigos por Billy.
Edward assentiu.
Sarah escreveu:
INDÍCIO: ressentimento contra Sarah Black.
Depois:
FATO: Sarah Black e Esme morreram juntas em acidente automobilístico.
A caneta parou.
Sarah olhou para Jacob.
— Quem investigou?
Ele respirou.
— Não sei.
— Billy sabe?
— Provavelmente.
— Então vamos perguntar.
Billy chegou quarenta minutos depois.
Entrou na sala e imediatamente percebeu que aquilo não era uma reunião familiar.
Viu o quadro.
Os nomes.
O rosto do filho.
Sarah em pé.
— O que aconteceu?
Jacob fechou a porta.
— Irina.
Billy ficou imóvel.
Sarah apontou para a cadeira.
— Senta, tio Billy.
Ele sentou.
— O que ela fez?
Sarah contou.
Dessa vez detalhadamente.
As acusações.
O relacionamento com Jacob.
A comparação com Sarah Black.
A palavra libertina.
A reação quando Sarah mencionara Billy.
A mão levantada.
Billy não interrompeu.
Mas sua expressão mudou gradualmente.
Quando Sarah terminou, ele permaneceu em silêncio.
Jacob foi o primeiro:
— Pai.
Billy olhou para ele.
— Irina era apaixonada por você?
Billy desviou os olhos.
Foi resposta suficiente.
Emmett soltou o ar.
Edward ficou muito quieto.
Sarah observou.
— Você sabia.
Billy demorou.
— Sabia.
Jacob levantou-se.
— E nunca contou?
— Por que eu contaria?
— Porque ela é tia deles!
Apontou para Edward e Emmett.
— Porque ela tem dez por cento da empresa! Porque esteve ao nosso redor durante todos esses anos!
Billy endureceu.
— E porque os sentimentos que uma mulher teve por mim quarenta anos atrás não pareciam relevantes para criar quatro crianças traumatizadas!
Silêncio.
Jacob parou.
Billy respirou.
— Desculpa.
Sarah quase sorriu pela ironia da palavra, mas não era momento.
— Desde quando você sabia?
Billy olhou para ela.
— Desde muito jovem.
— Ela falou?
— Algumas vezes.
— Diretamente?
— Uma vez.
Sarah pegou o bloco.
— Quando?
Billy percebeu.
— Você está me interrogando?
— Estou entrevistando uma testemunha.
Emmett murmurou:
— Assustador.
Edward cutucou-o.
Billy quase sorriu.
— Antes de eu me casar.
Sarah anotou.
— Antes de você ficar noivo?
— Não. Sarah e eu já estávamos noivos.
Jacob fechou os olhos.
— Ótimo.
Sarah continuou:
— O que Irina disse?
Billy ficou desconfortável.
— Sarah...
— Se não quiser responder, diga.
Ele olhou para o nome da esposa no quadro.
— Disse que eu estava cometendo um erro.
Sarah esperou.
— Que Sarah não era adequada para mim.
Jacob soltou uma risada amarga.
— Isso soa familiar.
Sarah ergueu a mão.
Ele parou.
— Mais alguma coisa?
Billy pensou.
— Disse que eu estava confundindo paixão com amor.
— E você?
Uma sombra de sorriso apareceu.
— Disse que conhecia Sarah desde que éramos praticamente crianças e que, se aquilo era confusão, eu pretendia continuar confuso pelo resto da vida.
Jacob baixou a cabeça.
Sarah viu a emoção.
— Como Irina reagiu?
O sorriso de Billy desapareceu.
— Mal.
— Defina.
— Chorou. Ficou com raiva. Disse coisas sobre Sarah.
— Que tipo de coisas?
Billy olhou para Sarah.
Hesitou.
— Parecidas com as que disse para você.
Sarah sentiu frio.
— Libertina?
— Não exatamente essa palavra.
Pausa.
— Mas insinuou que Sarah gostava de chamar atenção. Que manipulava homens. Que me controlava.
Jacob ficou pálido.
Sarah escreveu.
— Você contou para sua esposa?
— Contei.
— E Sarah Black?
Billy sorriu inesperadamente.
— Riu.
Jacob ergueu os olhos.
— Riu?
— Sua mãe não tinha paciência para drama.
O sorriso dele cresceu.
— Disse que, se eu quisesse fugir com Irina, deveria avisar antes porque ela ficaria com o carro.
Emmett riu.
Até Edward sorriu.
Jacob balançou a cabeça.
— Parece ela.
Sarah observou-o.
Talvez algum dia se lembrasse daquela voz.
Daquela mulher.
Mas não pediria histórias agora.
Não ainda.
— Depois disso Irina continuou?
Billy ficou sério.
— Sim.
— Como?
— Pequenas coisas. Comentários. Tentativas de criar problemas. Nada que eu considerasse perigoso.
Sarah anotou.
— E quando você se casou?
— Parou por algum tempo.
— Por algum tempo?
Billy hesitou.
Sarah percebeu.
— O que aconteceu depois?
— Jacob nasceu.
Jacob franziu a testa.
— Eu?
Billy olhou para o filho.
— Irina mudou.
— Como?
— Ficou mais fria.
Sarah sentiu algo se encaixar.
— Porque sua existência tornava definitivo.
Billy olhou para ela.
Sarah explicou:
— Casamento ainda pode terminar. Um filho torna a família concreta.
Billy ficou em silêncio.
— Talvez.
Sarah anotou como hipótese.
Não fato.
— Agora o acidente.
A sala esfriou.
Billy fechou os olhos por um instante.
— Sarah...
— Só o que você sabe.
Ele assentiu.
— Elas tinham ido juntas a um evento beneficente.
— Sarah Black e Esme?
— Sim.
— Onde?
Billy deu o nome de uma cidade.
Sarah anotou.
— Voltavam no mesmo carro?
— Sim.
— Quem dirigia?
— Esme.
Edward apertou a mandíbula.
— O que aconteceu?
Billy respirou.
— O carro perdeu o controle numa estrada molhada. Saiu da pista. Bateu.
Sarah esperou.
— Chovia?
— Tinha chovido.
— Na hora?
Billy pensou.
— Não lembro.
Sarah escreveu.
— Houve testemunhas?
— Um motorista encontrou o carro depois.
— Investigação policial?
— Sim.
— Laudo mecânico?
Billy parou.
Sarah percebeu.
— Tio Billy.
— Houve.
— Você leu?
— Na época.
— O que dizia?
Billy demorou.
— Falha nos freios.
Ninguém se moveu.
Sarah sentiu o próprio coração mudar.
Jacob levantou a cabeça.
— O quê?
Billy olhou para ele.
— Falha nos freios.
Silêncio absoluto.
Sarah pousou a caneta.
Não queria contaminar o momento com reação.
— Acidental?
— Foi o que concluíram.
— Qual foi a causa técnica?
Billy fechou os olhos.
— Eu não lembro.
Sarah levantou imediatamente a mão antes que alguém falasse.
— Tudo bem.
Olhou para Edward.
— Não pesquisamos aqui.
— Por quê?
— Porque quero o documento original.
Jacob já estava tenso.
— Sarah...
Ela olhou.
— Ainda não significa nada.
— Freios.
— Carros têm falhas mecânicas.
— Minha mãe e Esme morreram numa falha de freio.
— Sim.
Sarah aproximou-se.
— E isso é tudo que sabemos.
Jacob respirou.
Ela segurou sua mão.
— Não vamos fazer com esse acidente o que você fez durante quinze anos com o penhasco.
Ele ficou imóvel.
— Não vamos transformar uma coisa que aconteceu numa conclusão sobre culpa sem prova.
Jacob entendeu.
Assentiu.
— Certo.
Sarah apertou seus dedos.
— Certo.
Edward perguntou:
— Onde estão os documentos?
Billy pensou.
— Talvez na casa antiga.
— Talvez?
— Carlisle guardava cópias de praticamente tudo. Eu também tinha uma pasta.
Sarah imediatamente perguntou:
— Você mexeu nela depois do ataque?
— Não lembro.
— Irina teve acesso?
Billy ficou quieto.
— Billy?
— À casa?
— Aos documentos.
Ele pensou.
— Depois da morte de Carlisle, houve muita coisa. Advogados. Inventário. Conselho. Irina tentou participar de tudo.
Sarah trocou um olhar com Edward.
— Então não podemos presumir integridade dos arquivos familiares.
— Concordo — Edward respondeu.
Emmett perguntou:
— Polícia?
Sarah assentiu.
— Melhor.
Escreveu:
FONTES INDEPENDENTES
— Polícia. Seguradora. Oficina ou fabricante, dependendo da perícia. Registro do evento. Hospital. Bombeiros.
Jacob observou.
Sarah virou.
— E uma pessoa.
— Quem? — Emmett perguntou.
Sarah olhou para Billy.
— Charlie Swan.
Billy ficou imóvel.
Jacob também.
— Charlie?
— Ele apareceu no segundo episódio.
Edward entendeu.
— O ataque.
— Sim.
Sarah continuou:
— Charlie salvou vocês dois. Depois encontrou Jacob.
Olhou para Billy.
— Como Charlie entrou nessa história?
Billy demorou.
— Coincidência.
Sarah ficou imóvel.
— Você acredita nisso?
— Acreditei durante quinze anos.
— Não foi o que perguntei.
Billy olhou para ela.
Um pequeno sorriso triste apareceu.
— Você realmente é filha de Carlisle.
Sarah sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Mas manteve o foco.
— Você acredita?
Billy respirou.
— Hoje?
Pausa.
— Eu não sei.
Naquela tarde, Sarah ficou sozinha por alguns minutos.
Olhou para o quadro.
Dois acontecimentos.
Duas tragédias.
Quatro anos de distância.
No primeiro:
Esme Cullen e Sarah Black mortas.
No segundo:
Carlisle Cullen morto.
Sarah desaparecida.
Edward e Emmett sobreviventes.
Jacob sobrevivente.
Irina presente ao redor das consequências de ambos.
Nada provava ligação.
Sarah escreveu em letras grandes:
NÃO CONFUNDIR PADRÃO COM PROVA.
Ficou olhando.
Era uma advertência para todos.
Principalmente para si.
Então seu telefone tocou.
Jacob.
— Oi.
— Estou na porta.
Sarah olhou.
Ele estava literalmente do outro lado do vidro.
— Por que está me ligando?
— Porque você disse que ninguém entra sem bater.
Sarah começou a rir.
— Idiota.
Desligou.
Fez sinal.
Jacob entrou.
— Funcionou.
— Você é impossível.
Ele se aproximou do quadro.
Leu tudo.
Parou diante dos nomes.
ESME CULLEN.
SARAH BLACK.
Sarah percebeu.
— Ei.
Jacob não respondeu.
Ela se aproximou.
— Você não precisa ficar aqui.
— Preciso.
— Não.
— Sarah...
Ela segurou seu rosto.
— Você pode querer ficar. É diferente.
Jacob olhou para ela.
Aquilo o atingiu.
Sarah estava aprendendo a separar proteção de imposição.
Agora fazia o mesmo por ele.
— Eu quero ficar.
— Então fica.
Ele beijou sua testa.
À noite, Irina estava diante de Aro.
Ele não levantou a voz.
Isso era pior.
— Você fez o quê?
— Perdi a paciência.
— Isso eu percebi.
— Ela me provocou.
Aro soltou uma risada sem humor.
— Sarah tem vinte e três anos.
Irina cruzou os braços.
— E daí?
— Você tem idade suficiente para não ser provocada por uma mulher de vinte e três anos a confessar ressentimentos de quarenta anos atrás.
Irina virou o rosto.
— Eu não confessei nada.
— Ela sabe de Billy?
Silêncio.
Aro fechou os olhos.
— Irina.
— Sabe.
— E Sarah Black?
— Suspeita.
— Suspeita do quê?
Irina não respondeu.
Aro ficou imóvel.
— Do quê?
— Não sei.
— Não minta para mim.
Irina levantou os olhos.
— Ela perguntou quanto eu odiava Sarah.
Aro parou.
A atmosfera mudou.
— E você respondeu?
— Não.
— Como reagiu?
Irina permaneceu em silêncio.
Aro compreendeu.
— Mal.
— Ela estava me provocando.
— Pare de repetir isso!
A voz dele finalmente subiu.
Irina ficou imóvel.
Aro passou a mão pelo rosto.
— O que mais?
— Jacob e Edward entraram.
— Ótimo.
A ironia era amarga.
— Então agora todos sabem.
— Não sabem de nada.
Aro olhou para ela.
— Ainda.
A palavra ficou.
Irina caminhou até a janela.
— Sarah não lembra.
— Você continua se agarrando a isso.
— Porque é verdade.
— E se ela não precisar lembrar?
Irina virou.
A mesma conclusão que tivera no elevador.
Aro continuou:
— Ela é advogada. Tem dinheiro. Tem acesso aos documentos da família. Tem Edward. Emmett. Jacob. Billy.
Irina sentiu frio.
— E agora tem motivo para procurar.
Silêncio.
Aro aproximou-se.
— Você transformou curiosidade em investigação.
Irina fechou os olhos.
— O que fazemos?
Aro demorou a responder.
— Descobrimos onde ela vai procurar primeiro.
Na casa de Billy, muito depois, ele abriu sozinho um armário que não tocava havia anos.
Retirou caixas.
Pastas.
Fotografias.
Até encontrar uma pasta cinza.
As mãos começaram a tremer.
Na etiqueta, escrita por ele mesmo:
SARAH / ESME — ACIDENTE
Billy sentou no chão.
Ficou alguns segundos olhando.
Depois abriu.
Boletim.
Fotografias.
Documentos da seguradora.
Correspondências.
Laudo.
Billy puxou o relatório técnico.
Leu a primeira página.
Depois a segunda.
Na terceira, parou.
Franziu a testa.
Leu novamente.
Uma frase.
Depois outra.
— Não...
Aproximou o papel.
Quase vinte anos antes, em meio ao luto, ele lera aquele relatório como um homem que acabara de perder a esposa.
Agora lia como pai de um filho que talvez estivesse começando a descobrir que a história de sua família não era o que parecia.
Pegou o telefone.
Pensou em Jacob.
Parou.
Ligou para Sarah.
Ela atendeu no quarto toque.
— Tio Billy?
A voz dele saiu diferente.
— Você disse que queria o laudo original.
Sarah sentou imediatamente.
— Encontrou?
— Encontrei.
— O que diz?
Billy olhou para a página.
— Acho melhor você vir aqui.
Sarah levantou.
— Por quê?
Silêncio.
— Porque a falha dos freios não foi a única coisa que o perito encontrou.
Sarah ficou imóvel.
— O que mais?
Billy respirou.
E leu outra vez a frase que deveria ter entendido dezenove anos antes.
— Sinais de intervenção mecânica recente.
Sarah parou de respirar.
Billy continuou:
— Feita antes do acidente.
Silêncio.
— Tio Billy...
— Sarah.
A voz dele falhou.
— Talvez aquilo nunca tenha sido um acidente.
E, pela primeira vez, a investigação deixou de ser sobre aquilo que Irina sentia.
Passou a ser sobre aquilo que alguém havia feito.
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