#MASTSCOMESOFTREES
1 01.
Notas iniciais
Nico sonhou com Leo Valdez.
Aquilo não podia ser bom.
No terceiro dia que ele, Reyna e Hedge estavam viajando nas sombras Nico não se encontrava exausto, ele estava morrendo. A força de Reyna o ajudava um pouco, mas não era como se ela pudesse o libertar de tudo de negativo nele. Afinal, Nico tinha uma bagagem feia.
Ele queria dormir a vida toda. O sono era tão bom. Okay, Hipnos não gostava dele, mas quando Nico desmaiava de exaustão os sonhos ruins não o incomodavam. E quando Nico conseguia dormir, era só dessa forma. Ele acordava mais cansado do que antes, mas passava. Havia se acostumado a dormir de mais, mesmo sendo noturno. Seus horários eram todos errados.
Se Nico começasse a fazer uma lista de coisas erradas sobre si, cansaria, mas não terminaria.
Como aquele sonho. Ele não deveria estar sonhando. Mas ali estava, parado dentro do que parecia uma garagem. Não, olhando melhor, era uma oficina de mecânica bastante pequena. Estava amontoada de coisas, com um espaço quase mínimo para se andar e o ar era abafado.
Com certeza não era o lugar para uma criança. Ainda mais a hiperativa que Nico viu correndo.
— Madre! Madre! Olhe o que eu fiz!
Um garoto de pele escura e cabelo cacheado todo bagunçado e sujo estava pulando e correndo, sem se importar com a falta de espaço. Ele tinha uma janelinha no lugar dos dentes de leite, com dóceis e brilhantes olhos castanhos e uma energia radiante que só crianças tinham.
Exatamente como Nico naquela idade. E isso doeu.
— Niño, o que aprontou dessa vez?
Nico sentiu mais dor ao ver a mulher com quem o menino falava. Ela estava atrás de um balcão com aqueles óculos grandes protetores e alguma ferramenta bem perigosa na opinião de Nico em mãos. Era parecida com o menino, tendo a mesma pele, mesmos olhos, cabelo da mesma cor. Mas o seu estava preso numa trança, provavelmente para não atrapalhar seu trabalho, e era bastante crespo.
Ela era a mãe dele sem sombra de dúvida. O tipo de mãe que, pelo seu tom de voz e atitude, era igual a Maria.
— Juro que não se move.— o menino gargalhou como se fosse a melhor piada que já fez. Ele subiu no balcão e recebeu um olhar repreensivo da mãe. — Aqui. Tá vendo isso? São nuvens. E isso aqui? É um navio! O maior navio já visto! No ar!
Ele falava praticamente sem respirar de tão animado, em espanhol. Nico entendia metade e o resto ele advinhava pelos seus gestos. Só percebeu naquele instante como italiano e espanhol eram parecidos. E nem se precisa dizer como era estranho ele e o garoto serem basicamente iguais: Nico também falava em italiano com a mãe. E mostrava desenhos para ela. E sentava nos lugares errados e Maria o empurrava dizendo que sua bunda não era especial.
Por um instante poderia se enganar dizendo que era uma visão sua da infância, não um sonho do seu subconsciente, mas ai Nico lembrava de quem realmente via ali e a ideia deixava de ser válida.
— Que criativo, niño! — ela riu com gosto. — Você tirou isso da sua mente?
— Eu tive um sonho. E quando eu acordei eu decidi que ia fazer esse navio!
— Vai fazer um navio voador? — a mãe dele realmente parecia surpresa e interessada. Todas as crianças mereciam alguém assim. — Eu vou ser mãe do primeiro inventor mágico do mundo?
— Sim! Vou botar o nome dele de Esperanza!
Ela gargalhou como o filho, largando tudo e atravessando o balcão para abraçá-lo e o pegar no colo. Ela o rodou e o encheu de beijos, enquanto o garoto soltava gritinhos infantis.
— Leo Valdez, você é o melhor filho que eu ia pedir. — ela murmurou como se fosse um segredo muito importante. — Nunca se esqueça disso, niño. Quando as coisas ficarem difíceis, é só pensar como a esperança é a última que morre.
Doía, mas Nico queria ver mais. Pela primeira vez em sua vida sentiu algo mais forte que a inveja e o ressentimento por que alguém que era feliz. E ele não soube apontar o motivo. Bom, apenas por um tempo, por que quando a oficina começou a pegar fogo e o garotinho gritava do lado de fora pela mãe que havia ficado presa, Nico entendeu tudo.
Por que ele conhecia o garotinho. Por que o garotinho o queria feliz como ele havia sido. Por que a dor do garotinho era tão enorme quanto a sua, e Nico havia sentido. Nico sabia, desde o começo do sonho, o que estava acontecendo.
Mesmo que ele e Leo nunca tivessem conversado sobre Esperanza Valdez.
xx
Nico acordou lutando contra a pressão da gravidade, sentindo-se como se fosse agarrado por um buraco negro que queria o engolir. Conseguia ouvir a voz de Reyna tentando ajudá-lo, sempre tão firme, mas naquele momento enlaçada com incerteza.
Claro que não era fácil para ninguém que não o conhecia ver sendo consumido pela escuridão. Provavelmente quem havia reagido melhor fora… Leo. Leo. Tudo estava voltando para ele.
Nico grunhiu, irritado com o seu próprio descontrole. Não era assim que ele ia entregar a Athena Partenos. Era assim que ele separava seu grupo, se é que podia chamar de grupo, e decepcionava quem contava consigo.
Quando a escuridão se dispersou, após bastante esforço do filho de Hades, Nico estava tão exausto quanto antes, ao desmaiar. Ele rolou e se forçou a se sentar, bebendo a poção de — podia sentir as piadas de Leo de longe — unicórnio e melhorando gradualmente.
Reyna o olhava de forma dura todo o tempo, mas Nico sabia que esse era seu jeito de se preocupar e tentar recompor sua postura ao mesmo tempo. Ele a entendia bem melhor agora, por que eles também eram parecidos. E como ela havia dito, sentira sua dor e angústia. Por mais envergonhado que Nico estivesse, pelo menos sabia que ela não ia contar, e ela também estava agindo como se não soubesse de nada. O que sempre ajuda a iludir alguém, não é mesmo? Nico gostava das ilusões, em certos casos.
Ah, mas ela sabia. De muita coisa. Era um laço, e apesar da garota não ser desagradável, ainda preocupava Nico.
— Eu acho que precisamos conversar. — ela finalmente disse. — Sobre várias coisas.
— Não, não precisamos. — Nico suspirou. — Escuta, Reyna… Isso acontece o tempo todo. Eu passei pelo Tártaro. Pesadelos são algo que eu provavelmente não vou superar. Confie em mim quando eu digo que posso me virar, ok?
— Mas não é disso que eu quero falar. — ela o cortou. — Você recebeu uma mensagem de íris.
Nico estava sentado, mas ele conseguiu cair.
— O que?! De quem? Como? Isso não faz sentido!
Reyna o olhou estranho. Depois ela sorriu.
— É uma mensagem de íris não um monstro renascido do Tártaro. Apesar que tem isso também.
Nico se forçou a voltar a respirar. Reyna o contou da mensagem de Íris de Leo. Enquanto ele dormia, Leo os contatou e ele e Reyna conversaram um pouco. Leo tentou disfarçar dizendo que só queria contar a situação do navio, mas Reyna havia notado na hora que ele queria falar com Nico e por isso ele desligou correndo.
Nico ficava mais nervoso a cada segundo, achava que ia ter um ataque. Ele não podia tirar o beijo com Leo da mente. Droga! Havia pego aquela missão para se afastar, para poder respirar e arrumar as coisas. Mas quanto mais tempo passava, mais ele se via ligado à Leo e o problema não era só o quanto aquilo era assustador, também o quanto era sério.
Nico não conseguia levar um relacionamento e a guerra nas costas. Sabia que era egoísmo, frescura, mas… Ele não se sentia bem. Leo respeitava isso. Ou pelo menos era o que Nico achava. Com ele mandando mensagens de íris dessa forma, só três dias depois que a viagem começou, Nico não podia evitar sentir-se sufocado por todos os lados.
Reyna deve ter notado seu desconforto, por que ela mudou de assunto. Começou a falar sobre seus sonhos e sobre o que Leo havia dito sobre o navio. Nico fingiu prestar atenção. Por que ele quis prestar atenção e não sentir como se estivesse se afogando em escuridão de novo, já que ainda era dia e ele não estava no escuro.
Nico precisava ser forte, por mais que isso o destruísse.
Por mais que ele sentisse falta de Leo. Por mais que enlouquecesse pensando nele, e por mais que Reyna e Hedge sabiam. Sabiam e não haviam feito nada. Mas Nico sentia-se invadido, esquivo até o último fio de cabelo.
Ele só queria que a guerra acabasse.
xx
Quando Hades comentou sobre mortes na capela, para a surpresa de Nico, não foi em Percy que ele pensou na hora. Preocupou-se primeiramente com Hazel, depois com Leo, Piper, Jason e os outros tripulantes do Argo II.
— Hazel está bem?
— Por agora.
— E os outros? — Nico tentou não soar muito desesperado. — Você sabe quem vai morrer?
— Você sabe que eu não posso te dizer.— Hades o olhou de forma dura, como se esperasse no mínimo isso do seu herdeiro. — Algumas mortes não podem ser evitadas. Não devem ser evitadas. Você entende isso mais do que ninguém, não é?
— S-sim. — Nico engoliu suas opiniões por que era isso que seu pai queria de si. Era sempre assim. Provavelmente com Hazel, Hades era outra figura, mesmo dizendo que se preferia em sua versão grega.
Nico não podia ser totalmente ingrato. Ele realmente gostava do pai, por mais infundado que isso parecesse. Hades o trazia segurança, sua presença era água fria, podia ser tranquilizante quando se sabia usar.
Mas era exatamente por esses sentimentos que se via cobrando e necessitando, não recebendo nada no final. Hades era a única coisa que tinha de verdade. Ele e Hazel eram irmãos a pouquíssimo tempo. E… Bem, não sabia se “tinha amigos”. Gostaria de se iludir e pensar assim. Mas não era do seu feitio.
Claro, Piper estava disposta. Ela o ouvia quase como se o que ele dissesse fosse importante. Rachel estava sempre com ele e Grover puxava assunto de qualquer maneira. Jason dizia que iria entendê-lo, ajudá-lo, mas Nico não confiava nele ainda.
E… Por final, Leo. Céus, Leo. Nico não queria pensar muito sobre ele ainda. Sabia que tinha que mandar uma mensagem de íris para ele, mas segundo seu pai não teria tempo para muita coisa.
Percebeu que não estava ranzinza como ficaria antes se o seu pai aparecesse fazendo piadas irônicas e dizendo que queria que ele fosse feliz, mesmo não contribuindo para isso. Não soube dizer exatamente o por que. Ainda tinha o mesmo nível de tristeza e decepção de sempre.
Era a missão? Com certeza não. Eram seus “amigos”? Ele os tinha antes e isso nunca o tranquilizou de verdade. Nico não teria paz de espírito por que as pessoas trariam isso para si. Ele tinha que arranjar sozinho, mas a prática era bem mais difícil que a teoria.
Bem, ele só tinha que se focar na guerra agora. Tinha que achar um meio de acabar aquela viagem. Talvez… Nico quis se bater quando seus pensamentos fugiram do seu controle. Ele estava pensando em talvez salvar todos. Em um futuro onde talvez ninguém precisasse morrer, mas Nico sabia bem que não era assim. Ele era um Filho de Hades. Tinha que aceitar e lidar com isso.
Não havia talvez entre a vida ou a morte. A resposta sempre seria exata.
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