MALANDRA
1 Capítulo 1 - De volta a puberdade
Uma das poucas certezas que eu tenho é que a minha família não presta. Não valemos nem um centavo, ou melhor dizendo, valemos milhões e milhões de doláres — conquistados através de vários golpes.
Apesar de não sermos foragidos, pelo menos ainda não, nunca ficamos mais de um ano no mesmo lugar. Estamos sempre nos mudando. Não vou mentir, eu sou como eles, eu gosto dessa vida boa. Gosto dos novos ares. Gosto de entrar em ação. Gosto do dinheiro. É como viver 50 vidas em apenas uma!
Como é que eu posso começar explicar o meu pai? Ele parece um ursinho de pelúcia, fofinho e inofensivo, mas por baixo dessa pele ele é o bandidão em pessoa, se sente o "Professor" de La Casa de Papel. É ele que comanda o esquema todo. Minha mãe e eu somos seus zangões. Juntos, completamos a máfia.
Depois de um longo ano, sempre tiramos férias antes de partir para outra, dessa vez a gente foi para Paris — eu poderia viver lá o resto da minha vida, sério! Acontece que a realidade não é bem assim, então lá estavámos nós, pousando na nossa nova terrinha.
A gente viajou em um voo comercial, nem preciso dizer que foi primeira classe, né!?... Mas também não ficaria surpresa se a minha mãe fizesse meu pai alugar um jatinho só pra essa viagem. Ela é a típica perua nojenta que ascendeu da classe C, e que agora que pode, quer tudo o que tenho direito, por isso, acaba passando do limite várias vezes.
Bom, quando eu nasci a temporada de golpes já tinha sido aberta, então não sei bem como tudo começou e como era a vida dos meus pais antes disso, exceto por todo terror que eles colocaram em mim.
Assim que desembarcamos, um homem nos aguardava no aeroporto, era bem alto e magricelo. Não me apeguei aos outros detalhes, afinal não me importava, depois de horas no avião, tudo o que eu queria era chegar em casa.
Cumprimentei-o com um sorriso cansado e um aceno de cabeça. Ele retribuiu. Então, deixei minha mala para trás e fui para o carro. Estava com um total de zero paciência para qualquer que fosse o assunto que eles estavam conversando.
Depois de alguns minutos, o homem de preto entregou a chave do carro e três paras de couro para o meu pai. Ajudou-o a colocar nossas bagagens no porta malas. E finalmente meus pais entraram no carro para partimos. Carro novo, esse era o primeiro sinal de vida nova, meu pai amava Mercedes. Eu estava em paz, esse cheirinho de novo me fazia bem. Mal sabia eu que meu pesadelo iria começar em alguns segundos. Tirei o fone de ouvido para conectar o meu celular no bluetooth do som. Contorci-me durante alguns segundos entre os bancos da frente até que consegui. Enfim, assumi meu posto de DJ.
Quando voltei ao meu lugar, pude ver pelo retrovisor que meu pai encarou com seus olhos mansos e sedutores. Então, balancei a cabeça negativamente, pois eu sabia que lá vinha merda. Conhecia minha família muito bem para interpretar todos os sinais, e esse não era um dos bons.
— Não, não, não, não! Não sei o que é, mas a resposta é não! — tentei cortar o mal pela raiz.
— Vou precisar dos seus documentos! — ele disse com uma voz calma.
— Não, eles estão ótimos aqui, nunca se sentiram melhor! — falei agarrando a minha bolsa e abraçando-a com certa força em um gesto de proteção.
— Você vai ter eles de volta no final do ano — ele informou como se eu fosse desistir por isso. Eu sou louca, mas não sou tanto, eu lembro daquele comercial que passava na televisão que uma pessoa sem certidão de nascimento não era cidadã. EU LEMBRO!
— No final do ano? Que loucura é essa? Você nunca pegou meus documentos! Não vai ser dessa vez! Sorry, não vai rolar! — falei um tanto exaltada. Don't touch in my documentos! (Não toca nos meus documentos).
— Você vai ter novos documentos! Só por esse ano! — ele explicou pegando uma das pastas que tinha deixado no colo da minha mãe e entregando-a para mim. Eu abri com certa dificuldade, e lá estava: novo RG, novo passaporte, novo CPF, nova carteira de motorista. Tudo novo! Eu não entendi direito. Mesmo nome. Mesma foto. Mesmo tudo. Não fazia sentido, até que passei o olho na minha data de nascimento, tudo certo, exceto por um pequeno detalhe: o ano que eu nasci!
— Não! Você está brincando comigo! Tudo isso pra eu ter 18 anos outra vez? Sério? Pra que essa bobagem? Que diferença isso faz? — um peso gigante saiu dos meus ombros. Meu pai não estava tentando me vender para o mercado negro ou iria me fazer de prisioneira. Eu só seria alguns anos mais novas. Alguns muitos anos mais nova. Tipo TRÊS ANOS!
— Porque você vai voltar a estudar. Suas aulas começam na segunda feira... — ele falou com um sorriso falso no rosto.
— O QUE? PARA ESSE CARRO QUE EU VOU DESCER! — eu falei P E R P L E X A. Não aguentava mais estudar. Sério. Tudo menos escola! Nunca ninguém foi há tantas escolas quanto eu. Eu não aguentava mais @Deus. Ele prometeu no ano passado que seria a última vez. Ele prometeu...
— Clara, sem show! Eu preciso que você volte às aulas! Se eu pudesse escolher, você nunca mais pisaria em uma escola novamente. Acontece que estudar com a filha do nosso alvo é o melhor jeito de você se aproximar e passar mais tempo com ela — meu pai era extremamente meticuloso. Seu tom de voz paciente e incisivo. Se ele fosse mulher, ele seria do tipo que nunca desce do salto. Minhas birras não têm efeito sobre ele. Bom, foi isso que aconteceu, ele continuou pleno. Continuou lá, pimposo como um lorde britânico. Seu excesso de confiança era o que fazia as pessoas caírem nos seus jogos. Não tinha como não ceder às suas vontades.
— Eu preferiria trabalhar, sei lá, limpando bosta de cavalo do que voltar a estudar... Pelo menos me diz que é faculdade. ME DIZ QUE É FACULDADE. É FACULDADE, POR FAVOR — implorei rindo / gritando de nervoso. Eu estava toda me tremendo esperando a resposta do meu pai, nunca torci tanto para ir para faculdade na minha vida quanto nesse momento. Com todos esses anos de experiência em golpes, nem precisava de faculdade, mas qualquer coisa era melhor do que o pesadelo do ensino médio. Eu só vi meu pai balançando a cabeça suavemente na horizontal pra negar o meu pedido, e, no seu menor movimento, eu não resisti e voltei para minhas reclamações — SÉRIO!? Ensino médio de novo? 22 anos e indo para o ensino médio. Minha vida é um pesadelo! — Esse era o meu momento de ser dramática. Ninguém poderia tirar o meu brilho. Eu nasci pra isso. Custou um pouco, mas eu recuperei a postura. Porque drama e discussão não funcionam com meu pai, estava feito. Agora era: aceita que dói menos.
— Pensa positivo, Clara, eu poderia ter mudado a sua data de nascimento para você ter, sei lá, 17 anos, mas eu sabia que seria demais para você. Então, pronto, sua liberdade está preservada, você vai poder continuar fazendo tudo o que quer... Só vai ter que estudar — ele tentou ser uma fada sensata e me convencer de que estava fazendo um bem imenso para mim, mas eu não iria cair nesse joguinho.
— Pelo menos isso, né, era o mínimo... — falei dando os ombros e virando minha cara para a janela. Preferia fitar as ruas da cidade do que o rosto dos meus pais pelo espelho do retrovisor.
— Todos nós temos que fazer sacrifícios pelo bem do plano, querida, você sabe disso. Pensa nisso na próxima vez que for usar o seu cartão sem limite — minha mãe quebrou o seu voto de silêncio só pra me irritar mais ainda. Mas eu decidi focar na pequena felicidade que eu senti por ela ter falado "querida" e não"darling". Essa seria a gota d'água para eu abrir a porta do carro e saltar dele bem ali com ele em movimento.
— Claro, mãe, deve estar sendo muito difícil pra você mudar de uma casa 25 cômodos para uma de 20. Admiro a guerreira que você é! — fui ácida e até bati uma palma porque o sacrifício dela realmente... olha, que sacrifício!
— Não é só isso, tá!? Eu também vou ter que trocar minhas aulas de pilates e crossfit por spinning — ela falou colocando a mão nas seus peitos siliconados. Tudo que eu fiz foi revirar os olhos. Fiquei com medo de responder e dar a oportunidade para ela reclamar de todos os seus problemas fúteis de perua. Não estava a fim de ouvir sobre como ela tinha se adaptado ao último cabeleireiro e como foi difícil dar adeus para ele. Cursar o terceiro ano do ensino médio pela terceira vez em quatro anos já era castigo suficiente. Isso só acontece comigo mesmo. Tudo o que me restava era torcer para que essa menina não fosse insuportável...
— Eu quero carta branca para eu fazer o que eu quiser quando eu quiser sem ter que pedir, avisar, nada! Não quero vocês no meu pé! Eeee, mais um bônus, eu quero que vocês parem de fiscalizar os gastos dos meus cartões, obrigada! Se eu quiser comprar um pônei para colocar no jardim, eu vou comprar um pônei para colocar no jardim, e vocês vão ter que viver de boa com a porra do meu pônei no jardim! Com isso, eu juro solenemente que não vou fazer nada que comprometa o plano — joguei minhas condições.
— Justo — meu pai nem pensou muito para concordar, afinal, eu estava sendo bem razoável. Ele podia ser bandidão, mas tinha um bom senso se justiça.
Depois disso, não demorou muito para que chegássemos na nossa nova casa. Graças ao bom Deus, não íamos ter trabalho nenhum com a mudança. Foi tudo perfeitamente organizado durante nossas férias. Eu só teria que desfazer minha mala. Não que eu precisasse, tínhamos empregados para fazer tudo, afinal minha mãe não iria arriscar quebrar as suas unhas negras de tigresa nem pra levantar um copo. Mas eu queria rever todas as minhas comprinhas.
Bom, o carro mal tinha estacionado, e minha mãe logo saltou e correu para dentro. Aposto que ela queria ver se estava tudo do jeito dela, uma casa de novelas. Desci do carro meio atrapalhada graças ao salto alto. Eu sei que não é legal viajar de salto, mas eu quis! Peguei a minha mala e fui andando lentamente pelo grande jardim. Quando eu estava prestes a entrar, percebi que um carro parou na porta da casa do lado. Uma menina toda mal arrumada desceu. Ela tinha cabelos castanhos e cacheados na altura do ombro. Não era baixinha e nem alta. Olhos grandes, azuis e arregalados que pareciam ter saído de um mangá. Ela tinha um corpo normal, um pouco magro demais, e talvez até fosse definido, se não fosse o moletom largo e velho que o escondia, eu saberia dizer.
— É ela, não é!? — perguntei bem baixinho ao homem que se aproximava de mim. Ele tinha ficado pra trás, pois estava com duas malas e ainda fechou o carro. Parado atrás de mim, meu pai fitou a casa do lado e só concordou discretamente com a cabeça.
— Meu Deus, eu nem vou comentar, olha só para ela! Se eu vendesse maconha te garanto que seria mais amiga dela do que como colega de classe, mas você não pensa! Eu não acredito que você fez isso comigo, não acredito! — falei indignada com a boca travada como se eu tivesse feito 50 aplicações de botox e meu rosto estivesse congelado. Meu pai me deixou falando sozinha, e eu fiquei parada na calçada esperando ela terminar de falar com sei lá quem que ainda estava dentro do veículo a sua frente. Quando ela finalmente terminou e foi entrar em casa, olhou na minha direção por um segundo, acredito que foi porque ela sentiu que eu estava sendo observada. Eu apenas acenei loucamente feito uma retardada... Ela acenou de volta sem entender e correu para dentro de casa. É, eu não fui com a cara dela...
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