MALANDRA
2 Capítulo 2 - Uma nova amizade - sqn
Sempre que recomeçamos, recebemos 50 milhões de arquivos, neles estão tudo que precisamos saber sobre as pessoas que iremos conviver. Cada um de nós também recebe cards personalizados com nossas missões, ou seja, quem são nossos alvos e o que temos que fazer. Geralmente, eu só tinha que me tornar amiga de alguém ou trabalhar em algum lugar, mas dessa vez recebi três cartões, três nomes: Melissa, Ariel e Noah.
Você deve estar se perguntando que tipo de golpe a minha família da. Bom, nós trabalhamos com espionagem corporativa. Isso mesmo, informações privilegiadas sobre empresas. E o que meu pai faz com essas informações? Ele vende para quem tem algum tipo de interesse ou ligação com as ações dessas empresas. Enfim, coisas da bolsa de valores que eu não entendo muito bem. Tudo que eu sei é que precisamos descobrir coisas, coisas que só quem trabalha na empresa sabe.
É por isso que precisamos fazer parte da vida dessas pessoas. Estar na casa delas. Na empresa. Em todos os lugares... Seja como melhor amigo, amante, empregado, pois é assim que conseguimos as informações que precisamos sem que eles percebam que estão sendo manipulados e até mesmo, roubados. Quando conseguimos, nós nos mudamos. E tudo recomeça.
No domingo a noite, decidi especular um pouco mais sobre os meus alvos, uma pesquisa básica no banco de dados mais conhecido do mundo todo, o instagram. Abri meu celular, peguei a minha pasta de couro, e fui observar um por um, começando por Ariel.
@ariel_vachi
Hummm, irmão gêmeo de Noah, não gosta dos holofotes ou pelo menos foge um pouco deles. Ele gosta de esportes, principalmente skate, e toca piano. Apoia o irmão gay e causas LBTQIA+. Eles eram tipo homens caramão, se tirar a cabeça, o corpo serve. Cliquei na marcação de uma das fotos e parti para o próximo alvo.
@noahvacchi
Ao contrário do irmão, esse sim gosta dos holofotes. Instagram verificado, muitos seguidores, mas não tanto. Tinha alma de influencer. Era o tipo de gay meio hetero normativo. Por último, menos importante e mais sem graça, ela, a vizinha, Melissa.
@melferragni
Se tivesse um botão para desver, tenham a certeza que eu teria apertado. Não tenho o que dizer, pelo menos o feed dela tinha personalidade.
Depois disso, fui dormir, segunda não seria um dia fácio para mim.
Meu despertador tocou as 6 horas da manhã. Eu só queria dormir mais. Fazia muito tempo que meu celular não tocava tão cedo. Acho que até o aparelho estranhou. No ano anterior, essa era a hora que eu ia dormir. Mas as coisas haviam mudado, e não era para melhor. Como eu previ que estaria um zumbi pela manhã, acabei separando a minha roupa na noite anterior, nada de muito exagerado. Era só uma calça jeans estilo mom rasgada, um tênis vans, uma camisa xadrez e uma camisa de alguma banda que nunca ouvi. Olhei para o uniforme que haviam separado para mim e dei tchauzinho para esse terninho horroroso com a logo da escola. Assim que sai do banho. Então, sequei meu cabelo, passei chapinha e uma maquiagem bem leve. Afinal, sem rímel não dá pra viver, né!? Peguei minha mochila, que estava praticamente vazia, e desci correndo para a sala de jantar. O café estava posto a mesa e meu pai estava sentado na cabeceira da mesa lendo seu jornal no ipad.
— Está atrasada – ele me atacou sem tirar os olhos da tela.
— Eu acordei sozinha, que tal comemorar as pequenas vitórias!? E, para isso, uma festa babadeira para eu anunciar a minha chegada cairia super bem – não custava tentar, não é mesmo!? eu pedi me sentando ao lado dele. O velho gordinho e grisalho continuou pleno. Servi-me com duas torradas, requeijão, duas fatias peito de peru, queijo branco e um pouco de suco de laranja.
— Boa tentativa, afiada como sempre, mas por enquanto não... Quem sabe mais pra frente! Aviso matinal: essa semana eu vou te levar na escola, mas a partir de semana que vem, você vai na van da Melissa! — ele falou bloqueando o tablet. Pela primeira vez desde que entrei o cômodo, ele me olhou e estava bem sério. Meu pai tomou o último gole de café e se levantou. Pegou o blazer preto que descansava nas costas de sua cadeira e vestiu-o.
— Ou eu posso ir dirigindo eu mesma e levar a vizinha de carona... acho minha ideia mais show — tentei novamente e dessa vez o meu plano era muito melhor do que o do meu pai, convenhamos, eu arrasei. Eu tinha carteira de motorista e dirigia muito bem... Meu pai tinha dinheiro para me dar um carro. Isso sem falar que quando ele trocou meus documentos, ele fez questão de preservar todos, incluindo a minha CNH que continuei possuindo.
— Nada de carro para você ainda, mocinha! Não queremos chamar muita atenção aqui. E nenhum pai em sã consciência vai deixar a filha ir para escola com uma desconhecida com habilitação provisória — ele falou com uma voz de pai zeloso que queria dar uma super lição de moral na filha e ensinar valor das coisas. Poupe-me, por mais que a atuação dele estivesse boa, não colava para ninguém, éramos uma família de golpistas. Não tínhamos quase valores morais nenhum... Ele foi caminhando para o seu escritório e eu fiquei para trás comendo.
— "Não, porque você tem 18 anos, agora você tem privilégios de uma adulta, blábláblábláblá". Lorota! – debochei imitando de forma exagerada o jeito que meu pai fala. Eu mudei um pouco a frase dele, pois agora temos empregados em casa, sempre cuidamos da forma que falamos para que eles não descubram o que somos. Mas ele entendeu a minha chacota mesmo assim. E preferiu me ignorar.
— ME ENCONTRA NA PORTA DE CASA EM 5 MINUTOS — ele gritou do seu escritório como um alerta.
— EU SEI! — bravejei.
Antes dos 5 minutos se esgotarem, eu encontrei com meu pai na porta, ele já estava dentro do carro observando a hora no seu Rolex um tanto impaciente. Se não chegássemos à escola em 10 minutos, eu estaria atrasada. Assim que eu entrei no carro, ele partiu a toda velocidade, quebrando todos os limites de velocidade da cidade. O legal é que o conversível do carro estava aberto e quando eu cheguei na escola eu estava o próprio Simba. Obrigada, pai, por esse penteado frisado maravilhoso, era tudo que eu queria. Depois de tudo que eu havia lido sobre Mel nos últimos dias, acreditei que um bom jeito de me aproximar dela seria sendo uma garota desastre, assim como ela. Então, lá fui eu, bem plena, abusando da minha capacidade de pagar micão. Em vez de abrir a porta do carro como uma pessoa normal faria e descer como qualquer pessoa. Decidi bancar o galã de filme Hollywoodiano e pular a porta. Bom, eu nem precisei atuar muito, o resultado já sabemos, a gravidade não falha! Eu fui parar no chão com tudo, e graças a calça rasgada, meu joelho ficou todo arrebentado. Pelo menos, a vizinha estava parada na porta da escola conversando com um grupo de amigos que foi ótimo em dar gargalhadas de mim, nem tentaram disfarçar. Joguei meu cabelo pra trás, pelo menos isso era outra coisa que eu fazia bem. Então, caminhei graciosamente, como uma modelo manca, em direção a eles. Porque, meu amor, nada me abala nesse mundo.
— Oi, pessoal, tudo bem!? Como vocês acabaram de ver e rir, eu sou a anta que levou aquele tombão. Mas, assim, como eu sei que vocês são legais, vão esquecer tudo isso... E, a propósito, eu sou Clara! — todos eles caíram na gargalhada novamente, e eu levei na esportiva. Eu era incrível. Essa era a intenção. Zoar de mim mesma para que eles não fizessem isso e eu sempre fui boa em ser palhaça, mesmo com meu humor ácido.
— Relaxa, todo mundo aqui é bom em pagar micão... Sou Tiago – falou o menino com cara de Justin Bieber. Ele usava um óculos bem pequeno que o deixava com uma cara de nerd sem limites. Eu apertei a mão dele. E ele até corou por um segundo. Ele era o tímido santinho da turma, CERTEZA, que evitava transparecer esse lado dele. Eu era boa em ler pessoas, sinto o cheiro de tímidos de longe.
— Moisés, prazer – falou o careca dos garotos me dando um beijo um tanto bruto na bochecha que eu retribui. Huuuum, com certeza, esse era o bad boy.
— Gica – falou a garota de cabelos longos com cachos perfeitos feito com babyliss na ponta. A nojenta e puta do rolê era ela. Desculpa o palavreado, eu também já fui assim, então conheço esse tipinho melhor do que ninguém. Bom, o melhor que eu podia fazer era manter distância dela e dos boys dela para não arriscar meu plano, já que ela era amiga do meu alvo. Só faltava Mel se apresentar, mas ela estava travada, não foi como os outros, acho que foi por causa do dia que a gente se conheceu... eu devo ter traumatizado ela.
— E você... tem nome ou vou ter que chamar de vizinha? — cutuquei ela pra ver se ela acordava e me dizia alguma coisa ou só iria se fazer de sonsa. Talvez ela não tivesse ido com a minha cara igual eu não fui com a dela e nós éramos extremamente incompatíveis.
— É, Mel... Melissa — ela falou com a voz doce, mas tão doce, que chegava a dar diabetes. Sabe aquelas pessoas que parecem ser feliz 24 horas 365 dias por ano!? Era ela. Do tipo de pessoa que acorda 6 horas da manhã saltitando, abraça árvores e aplaude o pôr do sol. Eu havia feito meu dever de casa direitinho. Mel, a garota exemplar, tinha péssimas notas. Mas era uma ótima pessoa.
— Desculpa se te assustei aquele dia… tava morta por causa da viagem, afinal, Paris não fica aqui do lado — brinquei com um sorriso malandro no rosto e balançando levemente a cabeça de forma positiva.
— Ooow, viajada ela!!! — falou Moisés todo empolgado dando um cutucão em Tiago que ficou parado sem reação. Na verdade, ele foi levemente arremessado pro lado com a força do outro, mas logo voltou pro seu lugar de origem e ficou lá meio boquiaberto.
— Se não for pedir demais, Mel, teria como você ajudar uma vizinha desastrada e me levar até a enfermaria para ela fazer um curativo? Eu juro que vou te achar um jeito de te compensar depois — eu pedi mergulhando fundo nos olhos dela e lançando um sorriso simpático, esse pareceu verdadeiro, eu juro. Eu merecia até um globo de ouro pelo meu tom de voz. E pelo que eu já conhecia de mel, ela não iria dizer não para uma pessoa que precisava de ajuda. Bom, o primeiro contato já havia sido feito. Um motivo para puxar assunto, eu já tinha arrumado. Também já havia pagado um mico. E até pedi ajuda para a garota. Por mim, essa nossa amizade falsa estava fluindo bem… se não fosse pelo fato dela ficar parada e não me responder.
— Então, essa boca aí também fala ou é só enfeite? — cutuquei a menina já sem paciência.
— Pode ser, encontro vocês na sala de aula — ela disse dando as costas para os seus amigos. Quando subíamos a vasta escada para chegar na entrada, o sinal tocou fazendo uma multidão passar correndo pela gente. E com a velocidade que estavámos andando, graças a mim, ficamos para trás. Depois de alguns segundos, só restou nós duas para fora das salas. Ela foi me guiando pelos corredores, como eu estava um tanto debilitada, me agarrei ao seu braço.
— Você sempre estudou aqui??? — tentei puxar assunto com uma pergunta trouxa que tinha uma resposta segura. E claro, eu já sabia a resposta.
— Desde pequena — ela disse sem se alongar muito. Claramente dificultando o meu serviço. Essa garota não era fácil de quebrar a casca... eu só estava pensando que seria fácil.
— Sorte sua, deve conhecer todo mundo então... Bom, eu não sei o que é passar mais de um ano numa escola, sério... meus pais mudam muito. Eu perco até a noção do tempo, às vezes parece que eu já cursei o terceiro ano umas três vezes – falei em tom de brincadeira e ela riu. Eu disse que era ótima em zombar da minha situação de uma forma que ninguém acredita que estou falando a verdade...
— E seus amigos? — ela perguntou me olhando nos olhos de uma forma boa pela primeira vez... e, sei lá, mas eles pareciam carregados de dó. Por que ela sentiria isso? Logo eu, pleníssima do jeito que sou, não preciso de amigos. Na verdade, eles eram fáceis de deixar para trás porque eles eram todos falsos.
— Troco por outros — brinquei de novo e a fiz rir dissipando o olhar de pena. Entrei na enfermaria e sentei na cama. Ela ficou esperando do lado de fora encostada na parede. Ardeu um pouco, mas não foi nada demais. Pelo menos eu havia perdido alguns minutos de aula. E de certa forma, isso me fez feliz. Quando eu sai e me juntei a ela. Sua postura parecia melhor, mais firme, mais confiante, menos frouxa e apagada. Ela estava aliviada sei lá porque...
— Desculpa ter sido meio seca, eu não gosto muito de sangue, sabe... traumas de infância — ela se desculpou dando os ombros enquanto cortávamos a escola novamente em direção a nossa sala. Eu fui pega de surpresa e por isso fui obrigada a parar. Logo, ela parou e se virou para mim. Abriu os braços como quem não entendeu nada. E eu caí na risada, não tinha esse dado no meu arquivo e raramente ele não tinha algo.
— Como assim você tem medo de sangue? Sério, eu estava começando a acreditar que você não tinha ido com a minha cara — revelei após cessar o meu ataque de riso. Então, retornamos a nossa caminhada.
— Bom, história pra outra hora… mas tem algo sobre você que eu não entendo, e isso me intriga um pouco, não sei se é bom ou ruim — ela soltou como uma revelação. Booom! Bom ou ruim. Eu senti uma sensação diferente. Não sabia o que era. E isso me deu vontade de voar no pescoço de Mel ali mesmo e fazer ela explicar o que ela estava fazendo comigo. Como ela podia fazer isso comigo? Antes que ela pudesse entrar na sala eu bloqueei a porta encostando de um lado e estendendo o braço até a outra ponta. Com um sorriso sem vergonha no rosto eu perguntei:
— Bom, pelo que eu pude observar no seu grupinho de amigos, parece que nenhum deles é estranho. São bem normais e previsíveis na verdade. Então, eu acho que a vaga para ser sua amiga estranha está aberta. — eu investi de verdade. EU QUERIA SER AMIGA DE MELISSA, SERÁ? Não, isso estava fora de cogitação.
— Quem sabe... — ela falou dando os ombros, então tirou meu braço da sua frente e entrou na sala de aula. Deixando-me sem uma resposta concreta. Até que ela bem ousada. Mais do que eu imaginei... Mel era insuportavelmente irritante. E em pensar que tudo só estava começando. Bom, pela hora que chegamos só tinham duas carteiras disponíveis na sala. Eu acabei me sentando atrás da garota. Enquanto o professor explicava sei lá o que, eu me inclinei um pouco para frente na carteira e sussurrei pra ela ouvir:
— Ei, vizinha, acho que você vai ter que me dar uma chance pra descobrir se é um estranho bom ou ruim — foi então que o professor gorducho e baixinho impediu que ela me respondesse, repreendendo-me no momento mais inapropriado.
— Ei, novata, sem conversas paralelas na minha aula... eu quero todos prestando atenção em mim — ele disse colocando a mãozinha na cintura e batendo o pé impacientemente. Olhei para lousa e vi escrito Pré história e mais nada. Então comecei o meu show. Afinal, eu só fiz o terceiro ano umas 50 vezes... E não perco a chance de ter os holofotes sobre mim.
— Pré história... período antes da invenção da escrita. Mais ou menos 4.000 anos antes de Cristo. Dividido em três períodos. Paleolítico ou idade da Pedra lascada. Neolítico ou Idade da pedra polida. E por fim, idade dos metais. Eu posso falar um pouco sobre cada um deles ou a gente pode prosseguir falando da Mesopotâmia. Dos sumérios e acádios. Do primeiro Império Assírio. Do segundo império babilônico. Dos Hebreus. E afins... Posso falar sobre o que você quiser, professor, não é atenção que você queria? Agora você tem toda a minha — respondi plena, sem hesitar em uma só palavra. No tom certo de afronte para não ser tirá-lo por completo do sério. A Sala inteira se virou para mim e eu só soltei o meu corpo de volta na cadeira, cruzei os braços, sorri de boca fechada e ergui as sobrancelhas.
— Só fica quieta e presta atenção na aula, tá bom!? — ele respondeu todo desconsertado. E assim que ele tornou a ministrar seu conteúdo, eu tornei a me erguer e disse bem próxima a Mel: — Eu te falei que às vezes sinto que cursei o terceiro ano várias e várias vezes — e mesmo ela estando de costas, eu pude sentir que ela sorriu.
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