MALANDRA

15 Capítulo 15 -


No outro dia, logo pela manhã, Ariel saiu bem de fininho, estava com o cu na mão, afinal ainda tinha medo dos meus pais. Mal sabia ele que, pelos motivos certos, meus pais iriam amar o que acontecera na noite anterior. Aproveitei a paz e o silêncio da manhã para pegar todos os dossiês do cofre do meu pai. Dessa vez, eu não deixaria passar nada, iria passar um pente fino em todos os arquivos, incluindo o de Marta. Se Mel tivesse DDA, estaria tudo lá, ou não… Afinal, nunca vi um dossiê tão falho na minha vida. Mas mais uma vez, falta de informações… Fiz um comparativo da ficha médica de Noah com o da garota para comparar. Bom, o dele especificava que o garoto tinha déficit de atenção e hiperatividade. E o dela, nada sobre o assunto, nenhuma vírgula.

Meus pais mal chegaram na cozinha para o café da manhã, e eu já joguei minha bomba de exigências sobre a mesa, uma delas era um relatório super completo com histórico médico de Mel, já que o que eu tinha não dizia muita coisa. Eu queria saber tudo, até os joelhos ralados da infância.

— Veja quem está toda focada logo pela manhã, gostei de ver – elogiou meu pai. Eles ainda estavam de roupão, nem tinham se dado o trabalho de trocar de roupa. Era um daqueles dias para fazer vários nadas. Talvez eles até passassem o dia na piscina ou algo assim.

— Meu carro novo não vai se pagar sozinho – retruquei desafiadora me abaixando e aproximando meu rosto da sua orelha.

— Carro? – ele fez de desentendido, mas iria fazer o que eu queria. Estava cansada de fazer o jogo garotinha do ensino médio, a partir desse momento eu ditava as regras. E, no fim das contas, todos faziam o que eu queria.

— Sim, carro! E se prepara o bolso para ser bem generoso! – falei um tanto incisiva e depois sussurrei no seu ouvido: – E uma bolsa de estudos completa para filha da Marta na minha escola, depois faculdade, mestrado, o que a menina quiser fazer, entendidos!? – eles sabiam que quando eu queria algo, eu conseguia, não seria diferente dessa fez.

— Algo me diz que a gente já teve essa conversa. Nada de carro para você, mocinha — meu pai falando dando o assunto por encerrado, mas eu estava focada de mais. MEU CARRO, NINGUÉM SAI!

— Isso foi antes de toda tortura que eu passei nos últimos meses. Eu não aguento mais! Não vejo a hora desse ano acabar e eu poder sair dessa merda de escola, de cidade, de tudo! —

— Se você quer um carro, depende só de você, me consegue o que eu quero e a gente conversa — ele jogou a batata quente de volta no meu colo.

— Então melhor ir preparando o seu bolso porque eu to inspirada! — disse piscando apenas um olho.

— Essa menina é impossível… — ouvi meu pai comentar com a minha mãe, mas nesse momento eu já estava bem longe do cômodo.

Mandei uma mensagem pedindo pro Noah chamando ele para bater um papinho, não achei que seria de bom tom conversar sobre o assunto por mensagem. Então, fui descansar um pouco, fiquei procurando modelos de carro, os mais caros, claro, queria fazer um bom estrago na conta bancária do meu pai. No fim, eu acho que queria mais fazer um estrago na conta bancária dele do que o próprio carro, que claramente não era nada na minha lista de prioridades. Depois, mergulhei de novo nos arquivos, nenhuma informação muito útil como eu previa. Exceto o histórico escolar de Mel, que não tinha reparado em como era péssimo e claramente tinha algumas notas adulteradas, não que eu não acreditasse no potencial de recuperação da menina, mas nenhuma fenix conseguiria se recuperar desse jeito.

A tarde estava chegando ao fim quando o Noah finalmente apareceu. Eu tinha mudado os planos, nada de ficar em casa, era hora de ir para o shopping. Conhecendo ele o pouco que conheço, era claro que ele estava com preguiça ou ressaca, então se ele ficasse parado por 5 minutos, iria dormir.

— Eaí, Clarinha, quer saber um pouco sobre déficit de atenção, né!? – ele perguntou assim que entrei no carro e sentei-me ao seu lado no banco de trás.

— Ariel! – exclamei com certa raivinha. Com toda certeza, foi ele que foi correndo fofocar com Noah, quem mais poderia ser?

— Você já deveria saber que meu irmãozinho não sabe guardar segredos. Mas não fica brava com o bichinho não, ele não fez por mal, e eu realmente não ligo de falar… Mas tem gente que não gosta! Bora lá, o que você quer saber? – Noah falou ajeitando seu corpo para ficar relativamente de frente para mim. Ele parecia realmente confortável falando sobre o assunto. Por um segundo, fiquei reparando em como ele conseguia ser fisicamente idêntico ao Ariel, mas não ter nada em comum de personalidade, até o jeito de falar era diferente.

— Na verdade, tudo! Eu não sei nada – falei dando os ombros e sentando mais perto do garoto.

— Não sei se você já percebeu, mas meus pais são tipo os seres mais humanitários do mundo. A gente briga, briga bastante, mas quem não, né!? Mesmo assim eles são incríveis. Claro que eles não entendem tudo sobre tudo, mas sempre apoiaram Ariel e eu a sermos nós mesmo. Desde que não tivéssemos nenhum comportamento destrutivo ou autodestrutivo — ele fez uma pausa para que eu pudesse acompanhá-lo. Adorava falar que só ele. Então, mexi afirmativamente a cabeça para que ele pudesse continuar (Ps: sempre achei os pais deles os melhores pais do mundo). — Tá, indo direto para parte que interessa. Mas só pra constar nos registros, eu podia ficar o dia inteiro falando as loucuras dos meus pais. Enfim, eles perceberam logo que eu era criança que eu era diferente do Ariel em muuuuitas coisas, mas por um tempo eles acharam que eu era só um capetinha desligado. Foi quando entramos na escolinha que eles perceberam que não era só isso e me levaram no médico. Booom, descobri que eu tinha DDA e hiperatividade. E comecei o tratamento muito cedo. Maaaaaas, eu sempre tive muito apoio em casa, então eu nunca me vi como burro ou incapaz de fazer as coisas. Minhas notas pra mim eram só números que não mediam meu conhecimento. Eu só tenho um jeitinho diferente de fazer algumas coisas. Tentei parar com o remédio, várias vezes, mas principalmente quando eu estava na escola era bem difícil. Hoje em dia eu fico bem sem os remédios, talvez eu sinta necessidade de voltar um dia, talvez não… mas por enquanto to tranquilo assim.

— Quer trocar de pais comigo não? Meu Deus, seus pais são muito fofos! Mas por que você parou de tomar os remédios? Pode parar de tomar os remédios? – eu estava ouvindo tudo com um bloquinho de anotação mental para não esquecer de nada que ele falou.

— Assim, né, há casos e casos… Eu não posso falar pelos outros. Quando eu estudava, era mais complicado largar os remédios, ainda mais em semana de prova e trabalho. Eu me desligava muito das coisas, não conseguia ficar parado. Sério, pra você ter noção, já perdi a chave de casa tantas vezes que não dá nem pra contar. Mas por agora eu conversei com meu médico que queria tentar parar de novo e está dando tudo certo… As vezes eu ainda esqueço as coisas e não sei onde, sim, acontece muito. Minha cabeça tá aqui agora e de repente tá em outro lugar, acontece também. Mas não de um jeito que tá me atrapalhando no dia a dia, sabe!? E eu to fazendo altos exercícios físicos. VAI MONSTRO! Me sinto um blogueirinho quando uso planner e alarme para organizar minhas atividades. Tenho uma alimentação melhor. Então, não é só largar os remédios… Para mim tá funcionando por enquanto… Por que você quer saber tanto sobre isso? Ou melhor, por quem? – ele perguntou depois da parte três do seu monólogo, até levantou o pescoço igual um suricato para me observar melhor. A gente já estava no Shopping a essa altura do campeonato. O motorista abriu a porta para a gente, e estávamos andando no estacionamento em direção a entrada.

— Mel… Sei lá, comecei desconfiar que ela não só meio lerdinha, sabe!?. Aí o Ariel falou para eu conversar com você e eu realmente estou desconfiando que ela também tem DDA. Não sei se ela sabe, não sei se ela se cuida, não sei nada. É tudo suposição – contei como se não fosse um grande negócio. Porque eu não queria que fosse. Por que eu me importaria com isso? Eu queria de verdade que ela se cuidasse. Mas não sei como falar, só fico observando tudo acontecer de camarote...

— Assim, você quer que ela se cuide ou você quer cuidar dela? – ele jogou a real como sempre fazia. Noah era impossível. Eu só empurrei ele para o lado e tentei mudar de assunto.

— Fica quietinho, vai! Vamos às compras, eu tenho vários cartões para estourar o limite!

Por incrível que pareça, eu não estava muito disposta a escolher coisas para mim. Acabei comprando só uma bolsa, dá para acreditar? Bom, mas exagerei em alguns presentinhos. O que dizer sobre Noah? Ele aproveitou minha boa vontade e renovou seu guarda roupa. Eram tantas sacolas e caixas que precisei de ajuda para levar tudo para dentro. Como a maioria das coisas não eram minhas, mandei deixarem tudo na sala de estar e fui para o meu quarto. Um bom banho era tudo que eu precisava para relaxar e pensar no próximo passo dessa missão impossível que era a minha vida.

Notas finais
I'm back bitchessssss! Desculpa o sumiço, foram meses doidos, entrega do TCC (que SIM, foi sobre viado, sapatão, trans e tudo junto na publicidade). Sai do emprego. Fiquei de férias. Viajei. E formei. Doideira, né!? Agora to me reorganizando, e para comemorar, capítulo novo sem muitas novidades hahahah. Logo logo estou de volta, bis