M. H.

1 M.H. - Maxwell Harrison


Notas iniciais
E assim começa a minha mais nova história, a história de um assalariado comum que, ao descobrir de sua condição, se mete em uma nova realidade sobre vida, morte e verdade. Espero que gostem~!

M.H.

"Maxwell? Querido, você está me ouvindo?"

"Huh...?" E Maxwell Harrison, um assalariado de 48 anos de idade, pai de família com uma mulher e dois filhos, desperta de seus pequenos devaneios e pensamentos para se virar para sua mulher, Lucille Harrison, enquanto jantavam sozinhos. Ouvindo as palavras de sua mulher, o homem de meia-idade suspira pesado e abaixa a cabeça, um tanto envergonhado. Estava tão ocupado pensando no próprio trabalho na firma onde trabalha, acabou deixando seus pensamentos voarem um pouco. Agora, com toda sua atenção voltada para Lisa, ele tosse um pouco. "Desculpe-me, Lucy. Estava... Pensando no trabalho. O que você estava dizendo mesmo?"

"Francamente, Max. Nossos filhos têm a quem puxar." Lucille comentou de relance, fazendo Maxwell suspirar arrependido enquanto cutucava o prato de arroz e carne em sua frente. Um, dois segundos passaram, e a mulher de meia-idade suspirou, voltando sua atenção para o marido. "Mas era exatamente isso que eu queria falar com você: tem algo de errado acontecendo com os nossos filhos. O Alex está matando aula faz quase dois meses, e os professores do Jimmy me ligaram dizendo que as notas dele vêm caindo, e que ele se recusa a ir em algumas aulas. Estou ficando preocupada com eles."

"É sério? Mas isso é muito preocupante." O senhor disse em um tom baixo e pensativo, um tanto pesado também. Ora, podia entender que Alex, uma vez no colégio, estava entrando em uma fase difícil típica de uma adolescente, se trancando no quarto e ignorando toda tentativa de se aproximar de seus velhos pais, mas para James, que sempre foi um garoto reservado e estudioso, ouvir que suas notas e frequências estavam caindo já era motivo de preocupação. Maxwell pensou que os dois estavam entrando em uma fase rebelde. Suspirou, e então olhou para Lisa. "Mas eu acho... Que é apenas uma fase, Lucy. Vai passar, vai passar. Você vai ver..."

"Não é fazendo corpo mole e mantendo essa atitude que isso vai acontecer. É nisso que dá bancar o frouxo perto deles." Lucille retrucou, suspirando enquanto mordiscava a carne em seu garfo. Ela não percebera, mas aquelas palavras fizeram Maxwell se sentir ainda mais pesado, o olhar dele cair para o prato em sua frente. Ela não tinha más intenções, apenas queria o bem dos filhos, mas só agora percebeu que tinha os mimado demais, enquanto Maxwell queria manter a ideia de que era apenas uma fase. Mas Lucille estava ficando nervosa, então teria que tomar uma atitude.

"Eu vou... Falar com eles mais tarde. Vou tentar descobrir o que está incomodando eles. Talvez eu possa ajudar..." Ele disse em um tom manso e pensativo, que embora não tivesse dado muita confiança para sua mulher, um pequeno brilho voltou em seu olhar, fazendo Maxwell abrir um pequeno sorriso, sabendo que tinha tomado a decisão certa. Ajustou os grossos óculos na ponte de seu nariz, e voltou a comer. "Eu vou... Fazer o meu melhor."

"Eu sei que vai, querido." E eles então continuaram a comer o jantar.

...

Maxwell Harrison era seu típico assalariado de colarinho branco. Com seus poucos restantes cabelos grisalhos e algumas rugas no rosto que já chegava nos últimos dias de sua meia-idade, era pai de família com uma mulher e dois filhos, vivendo em uma casinha modesta em um bairro modesto. Não tinha muitos amigos, não tinha hobbies, gostava apenas de fazer o melhor que podia para prover sua família com seu trabalho em uma firma de negócios, e apesar de sua idade e constantes dores de cabeça oriundas da mesma, gostava de pensar que pelo menos estava fazendo a coisa certa. Amava sua esposa Lucille e os dois filhos que tiveram, Alex and James, e adoraria fazer qualquer coisa por eles. Era um homem simples, era uma pessoa simples...

Porém, hoje, debatia consigo mesmo se tivera feito algo errado. Alex agora matava aulas e se trancava no quarto, e mais e mais James se distanciava de seus pais e suas notas caiam; de uma forma ou de outra, a família estava entrando em uma fase difícil, e embora quisesse pensar que aquilo era apenas uma fase, uma pequena turbulência passageira típica da idade, Lucille crescia impaciente, esperando por uma atitude para lidar com essa situação. Por impulso, ele disse que teria uma, e assim fez. Agora, pensava em como se aproximar do problema em questão...

Resolveu começar por seu filho mais velho, Alex Harrison. Um estudante do colegial, Maxwell ouvia muito falar sobre a tal 'fase rebelde' e, pelo jeito, era o que tinha em sua própria casa agora, um filho que se recusava a ir para o colégio e preferia fazer qualquer bulhufas um adolescente fazia no quarto, sozinho. Bem, apesar de pensar que era apenas uma fase, Maxwell prometeu que faria algo a respeito. Tomando um grande suspiro, tomou seu rumo para o segundo andar de sua casa, e então para a segunda porta á direita do corredor, passando direto pela porta que levava para o quarto do caçula. A porta para o quarto de Alex. O senhor deu uma batida, e esperou uma resposta. Nada. Desta vez, bateu duas vezes, com mais força, e felizmente desta vez houve uma reação. Ouviu alguns barulhos do outro lado da porta, algumas palavras turvas, e então, uma pequena fresta se abriu, na qual um olho negro espiou para fora, apenas para franzir o único cenho.

"A-Ah! Alex." O senhor respondeu com um pequeno sorriso em contraste com o franzida que recebeu. O moço de curtos cabelos negros e olhos azuis disse nada, apenas deu uma fungada grosseira, fazendo seu velho pai tomar outro gole em seco. Mesmo assim, Maxwell falou: "Filho, sua mãe e eu estamos preocupados com você. Ela me disse que vem matando aula no seu quarto, e isso me deixa muito triste. Você... Não pensa no seu futuro, filho?"

"Como se você pensasse em fazer o mesmo. Até parece que você liga pra mais alguma coisa do que aquele seu trabalho piegas." O jovem respondeu com uma voz ácida pesada, fazendo Maxwell derreter todas as suas expressões para um rosto magoado. Apesar de todo o trabalho, Alex tinha uma ponta de razão em questionar o pai, que sempre estava ocupado demais com a firma para ter algum tempo para passar com a família. Tudo aquilo era para tentar sustentar a família e fazê-los felizes, mas aparentemente não estava fazendo aquilo direito. Vendo a falta de respostas do pai, Alex suspirou e fechou a porta bruscamente, fazendo seu velho pai tremer com o susto. "Me deixa em paz, velho. Cuida da a sua própria vida."

"A-Ah...! Está... Está bem." Em face daquela resposta, o velho senhor podia apenas suspirar, passando um bom minuto em frente à porta do filho, sem ação, nem reação. Apesar de tudo, ele deu mais uma batida só para chamá-lo novamente, e novamente um olhar odioso e acusatório lhe deu atenção pela fresta da porta. "M-Mas não se esqueça: se você estiver... Triste, ou zangado, ou quiser só conversar... O papai vai estar sempre ouvidos. Se quiser conversar sobre... Qualquer coisa, eu vou... Eu vou estar na sala de estar."

"Que seja..." E outro estrondo de uma porta fechando ecoou pelo corredor.

Maxwell suspirou, Alex tinha mesmo se tornado um jovem difícil desde que entrada no colégio. Pelo menos a mensagem estava dita, e ele sabia que pelo menos tinha chegado um pouco mais perto do coração do filho, lhe dando uma certa esperança. Agora, se dirigia para a porta mais próxima das escadas, o quarto do caçula da família. O garotinho do fundamental que apesar de tímido e reservado, adorava ler e estudar, tirando sempre as maiores notas de seu ano e com um futuro brilhante pela frente, mas que agora parecia querer se isolar na escola, e tal ação tendo influência em seu desempenho acadêmico. Talvez ele tenha encontrado algo que não gostasse na escola, talvez alguém tivesse machucado seus sentimentos. Por qualquer motivo, lá estava ele, em frente ao quarto do segundo filho, novamente batendo a porta com os nós de sua mão...

"Jimmy? Filho, você está acordado?" Maxwell perguntou através da porta, mas não teve resposta. Bateu algumas vezes mais, e novamente não teve resposta. Deu um suspiro derrotado, mas então com uma última batida, encheu os pulmões de ar e voltou a falar em um tom manso. "Jimmy, se algo estiver te incomodando na escola ou algo assim, você pode falar com o papai. Eu sei que eu não sei muito sobre o que pode estar acontecendo com você, mas se você me deixar te ajudar, prometo fazer o melhor para entender o que está acontecendo... Qualquer coisa... Eu vou estar... Na sala de estar..."

E apesar de todo seu esforço e palavras... Nada, nenhuma resposta de seu filho caçula também. Maxwell nunca se sentia tão derrotado. Seu olhar se jogou para baixo, e por algum motivo as luzes do corredor ardiam em sua pele e cocoruto, como se tivessem se tornado mais intensas com a onda de sentimentos em seu coração. No final, o velho senhor podia apenas se contentar pelo fato de que pelo menos passou alguns segundos dando atenção aos próprios filhos, e vagarosamente, á passos miúdos, se dirigiu á sala de estar para sentar no sofá, esperando que suas palavras tivessem chegado a Alex e James e que pelo menos um deles pudesse se manifestar para que pudessem ter uma conversa amigável e calorosa. Sim, um momento assim seria o suficiente para acalmar seu velho coração. Um momento que, infelizmente, nunca veio, deixando apenas um senhor tristonho e magoado, sentando no escuro de sua sala de estar enquanto a noite caía.

No final do dia, apesar das dores em suas costas, o senhor se colocou em pé e caminhou para seu quarto, onde sua esposa já dormia. Bom, pelo menos ela não teria que saber que sua "atitude" tinha sido um fracasso total. O mais silencioso que podia, Maxwell trocou seu terno e gravata por um pijama, desfez-se de seus óculos de grossas lentes e apagou a luz de sua luminária em cima de seu criado-mudo. Porém, quando estava prestes a pegar as cobertas para dormir, algo lhe chamou a atenção...

"E então? Falou com eles? Tomou uma atitude?" Veio a voz de sua mulher do outro lado da cama. Exasperado, Maxwell virou seu rosto para aquela direção, apenas para encarar as costas dela, sendo que ela não se teve ao trabalho de fazer o mesmo. Como um peixe de aquário, ele abriu a boca, e em seguida a fechou, dando apenas um suspiro derrotado.

"E-Eu... Tentei. Mas não consegui nada." Ele suspirou, enquanto Lucille podia apenas grunhir do seu lado da cama, puxando as cobertas para si.

"Como sempre um frouxo. Ah bem, sempre tem outra chance." Não sabia o porquê, mas aquelas palavras pesaram ainda mais na cabeça grisalha de Maxwell, cuja única resposta para aquilo foi um simples e inocente 'tudo bem'. Finalmente com a cabeça do travesseiro, ele apenas suspirou, pensando nos acontecimentos do dia, no que iria fazer amanhã; e como resolver o problema em sua frente. De tão distraído, teve sorte quando sua esposa o lembrou: "Ah, Maxwell. Não se esqueça de seus exames de rotina amanhã com o dr. Smith. Ele não quer que você se atrase desta vez."

"Ah! Verdade. Obrigado por me lembrar, querida." Ele deu uma risada forçada com esse pequeno deslize em sua memória. Pelo outro lado, para sua grande surpresa, ela deu uma risadinha, e voltou a dormir. Verdade, tinha completamente se esquecido de sua consulta amanhã, uma consulta de rotina, mais alguns exames para ver suas enxaquecas e dores nas costas. Mesmo com tais dores o atingido no dia a dia, ele ainda acreditava que era apenas a idade chegando, já não era mais o rapaz jovem e atlético que foi. Porém, pelo menos, sabia que era apenas um exame de rotina, e como acreditava que estava acontecendo com os dois filhos, iria passar. Iria passar. "Amanhã... É um novo dia. Amanhã, vou tentar o meu melhor..."

Ele disse, confiante. Porém, apesar de suas palavras, Maxwell não sonhou naquela noite...

...

...

...

"H-Huh? Câncer?"

"Sim, senhor Harrison. E em estado avançado também, sem tratamento algum. Sinto muito, mas lhe posso garantir apenas dois meses."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.