M. Gray
1 M. Gray
Notas iniciais

Encontrava-me novamente naquela galeria antiga. O piso de mármore fazia contraste com o teto rebaixado e um ar luxuoso emanava de todo o espaço. Como uma típica francesa amante da história, eu poderia identificar facilmente que aquele local era o inicio do que viria a se tornar o Louvre.
Em outros momentos eu ficaria radiante de me encontrar em uma arquitetura tão bonita e cercada por cultura erudita, porém eu não estava ali de fato. Eu havia sido novamente transportada para o mundo dos sonhos, aonde eu vinha parar nessa mesma galeria, ao lado de quadros famosos e de extrema importância, mas por que eu viera novamente para esse local? Por que eu estava em um tempo diferente? Por que a minha mente insiste em me mandar para algo tão louco e sem fundamento?
Sou tirada de todos os meus devaneios quando olho para o lado e encontro um espelho de cristal. Naquele objeto completamente plano eu conseguia ver a minha imagem sendo refletida, porém eu estava um pouco diferente do habitual. Eu me encontrava com um vestido bege e longo, uma espécie de xale cumprido estava sobre os meus ombros e o meu cabelo se encontrava em um penteado para cima, deixando pequenos cachos castanhos escaparem do coque alto.
-Como uma dama do século XIX. –Eu penso alto e analiso o detalhe em preto que o vestido tinha em sua saia. Sorrio com o meu traje e percebo que eu havia ficado magnifica com aquela roupa, por incrível que pareça o vestido combinava com os meus olhos azuis e a minha pele tinha conseguido ficar ainda mais pálida.
Dou um giro de trezentos e sessenta graus com a cabeça para cima e consigo observar o detalhe do teto, que antes havia sido passado despercebido. Sem sombra de dúvidas a minha Paris abrigava as arquiteturas mais bonitas, não tinha como não sorrir ao olhar para os detalhes em ouro do antigo palácio de Louis XIV.
Vou andando pelo local vazio e o eco de meus saltos soava de forma ritmada, a magia dos sonhos era tão maravilhosa que aquele som vulgar poderia ser confundido com uma melodia leve de um piano. O ambiente era majestoso e as pinturas faziam com que eu me fascinasse ainda mais com o local, infelizmente aquela arquitetura havia passado por tantas reformas que a parte de dentro estava mais parecendo uma empresa que vende tecnologia.
Escuto um som de passos ecoarem pelo ambiente e sou tirada completamente de meus pensamentos. O barulho não vinha de meus saltos, o que faz com que um arrepio passe pelo meu corpo, quem será que estava naquele local? Escuto novamente o mesmo som, só que desta vez eu me permiti prestar mais atenção. Dois passos firmes e um som metálico que seguiam a mesma sequência.
-Quem está aí? –Pergunto em voz alta e começo a andar em direção ao som. –Por favor, responda.
Não havia obtido resposta de forma alguma e um misto de curiosidade passava pelo meu corpo. Quem será que estava produzindo aquela zoada e por que não havia me respondido?
Continuo a andar de forma automática e só paro quando me deparo com duas portas impedindo o meu caminho. Ela era em um estilo barroco e eu conseguia observar as duas maçanetas douradas darem um contraste esplêndido com a madeira, sua altura era de aproximadamente seis metros e a largura de cada uma delas era de dois e meio, dando ao todo uma base de cinco metros.
Solto um longo suspiro ao terminar de observar um pequeno detalhe e vou levando as minhas mãos para as maçanetas no intuito de abri-las, porém um som de um celular impede-me de continuar o que eu iria fazer. Desde quando no século XIX existia celular?
Meus olhos vão pesando e assim que eu os pisco me deparo com o meu quarto e o celular tocando. Eu havia acordado.
-Não entendo o porquê de você está tão perturbada com esse sonho. –A minha mãe comenta andando pela loja da Chanel e eu reviro os meus olhos. –Como você mesma comentou que só foi um sonho.
-Só que esse foi diferente. –Retruco olhando para o rosto afilado da mulher de cinquenta anos. –Eu podia contar e os detalhes eram imensos, ainda me lembro de tudo, como se eu estivesse vivendo novamente aquela mesma cena.
-Você anda muito estressada ultimamente. –Minha mãe comenta com um sorriso e eu pondero com a cabeça. –Acredito que seja o ócio das férias. Por que você não viajou com a sua amiga?
-Eu não me vejo em uma casa de praia ao lado de várias pessoas tagarelando. –Comento com um suspiro e pego a sacola que a vendedora havia acabado de nos entregar. –Sem contar que eu tinha que fazer um trabalho para a faculdade.
-Isabele, você precisa arrumar um namorado. –Minha mãe fala com um sorriso e eu reviro os olhos. –Eu me orgulho muito de você, porém acho que precisas de mais lazer.
-Não vamos entrar novamente nesse assunto, mame.—Peço em uma suplica e ela assente em um ato automático.
Minha mente estava dando voltas desde quando eu havia acordado, questionamentos banais sobre o meu sonho habitavam em minha mente e uma imensa vontade de dormir havia se espalhado por todo o meu corpo. Será que eu iria conseguir voltar ao mesmo ponto em que eu havia parado noite passada? Será que todas as minhas duvidas seriam esclarecidas com mais um sonho? Independente de qualquer uma dessas perguntas eu queria que a noite chegasse o mais rápido possível.
Estava novamente no museu e a porta majestosa se encontrava mais uma vez em minha frente. Solto um pequeno sorriso com a constatação de que eu iria matar a minha curiosidade e minhas mãos vão para as maçanetas girando-as e abrindo aquela porta que eu tanto fiquei pensando durante o dia.
O local por trás daquele obstáculo era maravilhoso. Todo o salão era repleto de bustos de antigos imperadores e um ar nobre contagiava a quem entrasse ali, sem sombra de dúvidas era um ambiente mágico para pessoas que queriam se expirar em antigos líderes.
Escuto novamente aquele som, só que desta vez o meu ouvido só capturava o barulho dos passos, fazendo com que eu constate que o que quer que originasse o som metálico havia sido retirado do contato com o mármore. Sinto um arrepio percorrer o meu corpo novamente e vou me virando devagar, permitindo-me analisar a imagem de quem estava fazendo aquela série de sons que haviam me perturbado durante um dia inteiro.
Assim que olho para o outro lado encontro um homem alto andando de um lado para outro e girando uma bengala típica do século retrasado. Vou andando até onde ele estava e percebo que o mesmo havia parado abruptamente o que estava fazendo.
-Com licença? –Eu pergunto cautelosa e o homem vai virando o corpo devagar, fazendo com que eu tenha a visão da pessoa mais bonita que eu havia visto na vida.
Ele era jovem e alto, tinha os cabelos em um louro escuro e seu rosto era perfeitamente desenhado, parecendo até que ele havia acabado de sair de uma pintura. O homem à minha frente tinha uma postura de lorde e estava vestido como tal, seu terno preto impecável dava contraste com os olhos azuis puxados para o violeta e um sorriso escapa dos meus lábios sem que eu perceba.
-Então era de você quem vinha os passos que eu escutei ontem? –Ele pergunta de forma rápida e eu arqueio uma sobrancelha. -Digo, nós passamos o dia não foi?
-Creio que eu não esteja entendendo aonde o senhor quer chegar. –Eu falo devagar e ele apoia a bengala no chão, segurando na parte de ouro que tinha uma pequena escultura da cabeça de um leão.
-Desculpe a minha indelicadeza. –Ele diz abrindo um sorriso e podendo ser visto os seus dentes perfeitamente brancos. –Eu sou o Henry Gray.
-Isebele Lamartine. –Respondo com um sorriso e ele pega a minha mão direita levando-a aos lábios. Sorrio ao ver aquele comprimento tão antigo ser realizado e ele fita os meus olhos de forma profunda. –O senhor está aqui há quanto tempo?
-Por favor, não me chame de senhor. –Ele diz de forma divertida e eu assinto levemente. –Só tenho vinte e um anos.
-Desculpe-me. –Falo tentando conter um sorriso e percebo que ele estava me observando. –Como eu deveria chama-lo então?
-De Henry. –Ele diz com um sorriso. –Sei que o nome é antigo, mas eu venho de uma família tradicional da Inglaterra.
-Então você não está em minha mente? –Eu pergunto arqueando a sobrancelha e ele demonstra ter ficado confuso. –Quer dizer, eu venho sonhando com esse local há um tempo e você apareceu nele.
-Não. –Ele diz de forma rápida. –Você deve ser se enganado. Eu quem venho tendo sonhos estranhos e você quem apareceu em minha mente.
-Creio que você esteja errado, M. Gray. –Falo com um sorriso em implicância e ele me fita arqueando a sobrancelha esquerda. –Você quem é fruto de minha imaginação.
-Querida, Isabele, a senhorita irá me desculpar, mas creio que esteja errada. –Ele fala com um sorriso convencido no rosto e eu reviro os olhos com aquela pequena discussão.
-Vamos fingir que nós dois tenhamos sonhado e estamos agora no mesmo local. –Eu falo encontrando uma saída para o pequeno desentendimento e ele dá de ombros demonstrando não estar convicto daquilo. –Por que um britânico anda sonhando com o Louvre?
-Eu não sou britânico. –Ele corrige de forma rápida e eu arqueio uma sobrancelha. –O meu pai quem nasceu na Inglaterra, porém eu sou francês e minha mãe também.
-Você está em qual século? –Faço outra pergunta e ele revira os olhos demonstrando que algo que eu havia falado tinha o irritado.
-Pode ir parando com as pergunta. –Ele fala levantando a mão que não estava segurando a bengala e eu arregalo os meus olhos. –Estou me sentindo em um objeto de estudo.
-Só estou curiosa. –Falo suspirando e ele assente de leve. –Não é todo dia que você pode conversar em um sonho com uma pessoa que você nunca viu na vida.
-Que tal nós andarmos pelo museu e irmos conversando pelo caminho? –Ele sugere e eu assinto com um sorriso. –Melhor que ficar fazendo um interrogatório.
-Sim. –Assinto com rapidez e ele solta um sorriso me estendendo o braço direito para eu segurar. –Obrigada.
Vamos andando pelo museu e eu consigo sentir-me novamente como se eu estivesse no século XIX. O Henry falava um pouco sobre a sua família e eu escutava com atenção aquilo que ele estava me dizendo, tudo estava fluindo perfeitamente e eu estava desejando não acordar naquele momento.
O meu acompanhante havia me revelado muito de sua família e eu estava começando a achar que de certo modo ele não era fruto de minha imaginação. Por que minha mente criaria uma pessoa que eu nunca tinha ouvido falar e com uma aparência que eu nunca havia visto? Todos sabem que só se é possível sonhar com rostos conhecidos, porém eu estava sonhando com alguém que eu nunca tinha visto.
Independente de tudo eu iria aproveitar o momento, os meus sonhos estavam me permitindo sonhar com o meu tempo favorito e brincar de ser lady por uns minutos. Sentia-me como se eu realmente estivesse dentro de um livro de Oscar Wilde ou até mesmo em um quadro de Debret, então o que eu deveria fazer era aproveitar o momento e fazer de tudo para não acordar.
Estava andando de um lado para outra na livraria e minha paciência estava quase se esgotando. Eu tinha sonhado durante quatro dias seguidos com o Louvre e o Henry, porém há exatas duas semanas os sonhos tinham cessado e eu não tinha mais noticias do rapaz encantador que tanto se parecia comigo.
A sensação de querer algo e não consegui era péssima, principalmente quando vinha atrelada a falta de conhecimento. Havia procurado em todas as livrarias algum livro sobre sonhos, porém todos os que eu encontrava eram superficiais e não explicava o que eu queria, por esse motivo eu estava em minha ultima busca por um livro que me explicasse algo.
Continuo a antar pelo local e as imagens do rosto do Henry voltavam em minha mente, eu nunca tinha visto alguém tão bonito como ele, algo no rapaz era encantador e fazia com que eu quisesse olhar direto para aquele rosto bem desenhado.
Olho para as estantes em plena concentração e assim que dou mais quatro passos sinto o meu corpo colidir com outro de forma que essa pessoa tenha tido que me segurar para eu não cair. Sinto as mãos se afrouxarem ao redor de meu braço e assim que estou para pedir desculpas pela minha distração deparo-me com aquele rosto que eu tanto havia sonhado.
Abro a minha boca diversas vezes tentando me concentrar para ter certeza que não era novamente mais um sonho. Sorrio ao analisar o rapaz que estava em minha frente e percebo que ele não tinha perdido o encanto, mesmo com as roupas casuais.
O Henry se encontrava com uma calça jeans preta e uma camisa de botão branca, acompanhado por uma jaqueta de couro, que dava um ar casual àquele homem com postura de lorde antigo. Os olhos violetas estavam mais brilhantes que nos sonhos e eu poderia constatar que pelo o brilho que ele refletia o rapaz também estava emocionado em me ver.
-Você! –Falamos ao mesmo tempo e um sorriso escapa de nossos lábios.
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