Música, Palavras & Fotografia
2 Capítulo 2

( — Setembro)
Futura eu,
Eu achei que nunca mais escreveria para você, aquele dia eu estava apenas entediada e estressada com tudo o que acontecia e queria desabafar em algum lugar onde ninguém daria opinião, então desabafei em um caderno. Eu sei que eu coloco o título com "futura eu" como se algum dia, futuramente, eu fosse ler e rir do que eu fazia. Mas pensando melhor agora, eu acho que isso nunca vai acontecer, eu sou tão desorganizada que acho que vou perder esse caderno esse ano mesmo, e em um lugar bem idiota, tipo debaixo da cama ou no armário onde eu guardo ele. É bem minha cara. Sou uma pessoa que tenta guardar as coisas em uma gaveta para não perder e acaba perdendo dentro da gaveta. Sinceramente, não sei o que as pessoas esperam de mim.
Mas cá estou eu novamente. Não acho que escrever sobre meus problemas vai ajudar a resolvê-los, mas serve para quando você quer desabafar com alguém, e ao mesmo tempo não quer, porque não tá com cabeça para ficar ouvindo opiniões. Ou no meu caso, quando não tem ninguém para desabafar.
Não deu tempo de voltar à Seattle e à minha vida normal antes do início das aulas, então nessa semana eu tive que ir ao colégio Renton High, onde minha mãe matriculou eu e Logan.
O Renton High fica perto da nossa nova casa, então estou feliz por não ter que pegar o ônibus escolar. Nós fomos à pé ao colégio. Ele não era muito diferente de Saint's Oliver High, minha antiga escola. Era um prédio grande, de três andares e ocupava quase um quarteirão inteiro, e tinha um grande gramado na frente.
Eu sempre tive medo de ter que mudar de colégio, eu só fui novata uma vez na vida, e foi no jardim de infância. Eu não entendo como se conhece novas pessoas ou como se faz amizades em um ambiente novo.
Quando eu e Logan entramos, as pessoas olharam para nós, e algumas meninas, naturalmente, deram um sorrisinho à meu irmão, mas acho que ele não se sentiu confortável a retribuir. Então fomos a secretaria pegar horários de aula e chaves do armário. Havia mais um grupo de novatos no colégio, a secretária disse, disse também que seria legal fazermos amizades entre nós, então ela nos apresentou à Maya Hilland, que era uma dessas novatas.
Maya tinha minha idade e parecia ter saído de uma campanha de moda teen. Era magra, com cabelos longos louro-escuro e tinha olhos verdes, e usava uma blusa solta branca com um shorts, e era muito sorridente.
Ela foi simpática conosco e disse que estava aliviada em ver que não estaria sozinha, isso me deixou mais tranquila, porque agora tinha alguém que eu conhecia no colégio.
Eu percebi que enquanto conversávamos, um garoto com óculos modernos e uma câmera profissional tirava fotos de nós, alguns segundos depois, a diretora Foy o chamou e ele se aproximou. De perto dava para ver que por trás dos óculos, seus olhos eram cor de mel brilhantes.
– Esse é Evan Carson, ele é do jornal e vai apresentar o colégio para vocês — a diretora olhou para ele — Evan, tire uma foto!
Felizmente, Evan já havia tirado. Depois que começamos a andar pelo colégio, ele disse, com o que pareceu um leve sotaque britânico:
– Não se preocupem, tem 90% de chance de nunca publicarem essas fotos.
Evan nos mostrou os armários, o pátio principal, os corredores, as principais salas, a quadra e a entrada para o refeitório. Ele comentava bastante com seu sotaque, que ficava cada vez mais evidente, e com muita naturalidade, como se já nos conhecesse a tempos. No final, ele e Logan pareciam melhores amigos. Quanto a mim e Maya, Maya falava algumas palavras e eu apenas concordava, porque eu não sabia o que exatamente dizer.
Enquanto dava a volta pelo colégio percebia que adolescentes, independente de onde for, são parecidos. Usam as roupas no mesmo estilo, o corte de cabelo, e até o jeito de agir e falar. Isso é algo curioso que me fez pensar se eu também era assim, como o resto dos jovens do mundo.
Minha primeira aula era junto com Evan, a princípio eu não imaginei que ele estava na mesma série que eu. Não que ele tinha uma aparência de ser mais velho, mas pela cara de inteligente e por seus assuntos e comentários, não parecia apenas um garoto de 15 anos.
Minhas únicas aulas com Maya eram as de história, química e ciências. Nós combinamos de nos encontrar na porta do refeitório para não ficarmos sozinhas durante o almoço.
– Você veio de onde? — perguntou Evan enquanto íamos para a primeira sala.
– Seattle. Me mudei a pouco tempo.
Ele assentiu com a cabeça.
– E o que tá achando daqui?
– Ah, legal,
– Seja sincera, você veio de Seattle.
– Ahm, certo... Não é tão legal.
Evan e eu rimos rapidamente.
– Eu nasci em Londres, moro aqui há três anos. Acho que deu para perceber pelo sotaque. Eu não consigo perdê-lo.
Eu assenti e nós entramos na sala.
No final, acho que posso dizer que meu primeiro dia de aula correu bem. Fiquei feliz por ter conhecido aleatoriamente pessoas legais como Evan e Maya. No almoço, enquanto eu sentava com Maya em uma mesa esquecida no fundo do refeitório, vi que Logan já havia feito bastante amigos e interagia com a mesa dos populares.
Às vezes parecia que tudo era tão mais fácil para ele. Logan sempre conseguia o que queria sem fazer esforço. Eu acho que é porque ele é bonito.
Mesmo tendo um bom primeiro dia de aula, a minha vontade de que tudo voltasse a ser como era antes não havia passado. Há alguns minutos, eu estive no quarto da minha mãe, e perguntei à ela se tinha alguma chance de voltarmos, de um modo disfarçado, é claro.
Ela pareceu meio triste, e eu ligeiramente me senti mal.
– Às vezes nós temos que dar chance às mudanças, Mack. — disse ela
– Não é exatamente isso que quero dizer... Quero saber se nossa vida pode voltar a ser como antes, eu quero dizer... Você e o pai juntos novamente.
– Eu não sei, provavelmente não.
– Por que não me conta o motivo da separação?
– Porque você não entenderia, é complicado. Quando duas pessoas se unem. ou elas darão certos e serão felizes, ou elas acabarão rápido da mesma maneira que começou. — Ela respirou e mudou de assunto, antes que eu pudesse perguntar mais, e sim, eu perguntaria, mas então vi ela estava começando a se sentir mal, então fui no ritmo.
Minha mãe me perguntou se o meu primeiro dia de aula havia sido ruim.
– Eu não sei, mãe. É muito cedo para dizer se vou gostar da escola...
– Então por que está me perguntando se vamos voltar? Você mesmo disse que é cedo para dizer se vai gostar da escola. Você vai se acostumar.
Eu bufei. Era difícil saber porque eu fiquei irritada, mesmo que não quisesse.
– Essa é a questão! Eu não quero me acostumar, eu estou odiando tudo isso!
Então eu saí e fui para meu quarto.
Estava ouvindo música antes de começar a escrever, porque isso sempre me faz relaxar. Mas dessa vez estava tudo tão errado, que nem música me ajudou. Eu já não sei o que está acontecendo comigo.
Agora vejo que não deveria ter gritado daquele jeito com a minha mãe, eu não deveria ter tocado em um assunto que ela se sentia mal ao falar. Mas eu simplesmente não aguentava mais. De um jeito ou de outro, eu continuo sem entender o que está realmente acontecendo.
Agora eu vou dormir e pensar no que fazer quando você não tem mais controle nem sobre si mesma. Não espere que eu volte, não garanto que continuarei a escrever em você. Acho que estou precisando me concentrar mais na realidade.
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