Mórbida Liberdade, Lânguida Prisão
1 Capítulo único
Era um dia de frio comum para aquela época do ano em São Paulo. Não só por ser quatro de Julho e os termômetros marcarem 8°C e os meteorologistas afirmarem que a sensação térmica era de 5°C. Definitivamente, não só por isso. O frio em São Paulo estava carregado de fortes ventanias, não físicas, porque o frio da cidade vinha de dentro das pessoas. Vinha de dentro de cada indivíduo da metrópole esterilizada de humanismo.
As ruas estavam lotadas. Transbordavam pessoas que deixavam seus respectivos trabalhos mais congeladas do que quando começaram o dia. Obrigadas a trabalharem com desprazer pelo consumismo e só pelo vício maldito do consumismo.
A concentração de pessoas andavam juntas e respiravam juntas amontoadas com agasalhos dos mais diversos tipos, tamanhos e cores e não conseguiam incitar a menor faísca de calorosidade.
Não longe daqueles zumbis estava um grande prédio de dez andares tão inanimado quanto as pessoas ao seu redor. Sua arquitetura refinada era admirável, quase tanto quanto os apartamentos que compunham a construção. Em um dos dezoito apartamentos morava a família Lopez. Naquele momento o lugar desprovia de qualquer sinal de vida.
O Senhor Lopez, que a essa hora deveria estar em casa, provavelmente estaria em um hotel com a amante. Uma universitária que frequentava suas aulas de finanças internacionais. Era uma garota vazia que de caloroso tinha apenas seus gemidos de um falso orgasmo, que servia apenas para iludir o homem.
A Senhora Lopez estava em uma cafeteria estilo parisiense, na esquina da rua de seu apartamento. Sentada em um canto solitário segurava uma xícara de café e com a outra mão apoiava um livro de Jane Austen, em que tentava exaustivamente em vão decifrar os mistérios do amor que nunca sentiu. Logo logo com sua vista cansada fecharia o livro, deixaria metade do café na mesa e sairia da cafeteria indo em direção ao prédio. Chorando e soluçando compulsivamente ela entraria no apartamento e se dirigiria ao seu quarto e sentada de frente com sua penteadeira francesa ornamentada com rosas, se perguntaria a mesma coisa que se perguntava durante esses longos e sofridos dezoito anos: “ O que foi que fiz para merecer tanta infelicidade?” e choraria lamúrias por infinitos agonizantes e desesperadores minutos.
Por conta da ausência física do Senhor Lopez e psicológica da Senhora Lopez, tardariam a perceber a ausência da filha. Talvez isso não fosse algo que importasse ao casal infeliz, porque estavam tão ocupados em preencher o vazio que sentiam que não sentiriam falta da própria filha. Ou ainda, porque pra eles ela era a culpada por toda a situação em que se encontravam. Se não fosse ela eles não teriam sido forçados a ficarem juntos há dezoito anos atrás. Não teriam que formar uma família tão cedo.
Eles não enxergavam a irresponsabilidade da juventude em que se entregaram há tanto tempo.
Na época o jovem Senhor Lopez esbelto e provido de uma beleza austera, não imaginava que lecionaria para o mesmo curso de Relações Internacionais que cursava na universidade. Menos ainda a bela jovem Senhora Lopez que sonhara tanto em conhecer a Inglaterra e estudar literatura inglesa, não se imaginava submissa e mãe tão cedo. O casal acusava a filha por sua infelicidade.
Mal sabiam eles que a culpa corroeria suas almas pelo resto medíocre de vida que lhes restavam. Que o remorso seria tão intenso que acabaria com o ínfimo sentimento de prazer que ainda podiam sentir. Eles definhariam amargurados.
Todos esses sentimentos e maldições eclodiram quando as lágrimas da Senhora Lopez se esgotaram e por causa do café vespertino foi forçada a usar o banheiro. Ela caminhou pelo exânime corredor e passou na frente do quarto da filha. Ao abrir a porta do banheiro soltou um grito agudo e pelo espanto instantâneo levou as mãos ao rosto, pois o que via era horrendo. Suas pernas bambearam e se encontraram com o chão. A perplexidade, o horror e o desespero não permitiram que ela sentisse o líquido quente que escorria entre suas pernas.
Sua filha estirada na banheira com seus braços na borda exibiam profundos cortes nos pulsos. O sangue enegrecido disposto em um fio desenhado na lateral da banheira se encontrava com o mar de sangue jorrado no chão. Em meio a fixa enxurrada escarlate encontrava-se uma lâmina de barbear que denunciava sua co-autoria no suicídio.
O que impressionava na cena não era a quantidade de sangue, nem os cortes profundos ou o corpo sem o fio que o segurava a vida. Era o lânguido sorriso que pairava no rosto da jovem desfalecida. Um sorriso que emanava libertação. Era essa a morbidez na cena.
A jovem conseguira presentear-se com a libertação do gélido sentimento do mundo, que ignorava o que sentia, que não queria saber o que sentia. Significava aquele sorriso o exaltar, o gozar da liberdade adquirida a força.
Um ranger de porta avisa que o Senhor Lopez acaba de chegar. Um relâmpago seguido de um trovejar advertia o inicio de um temporal. A tempestade não duraria apenas uma noite, nem uma semana ou um mês, ela duraria uma eternidade. Porque ela estava implantada no coração daquele casal e no de todos os indivíduos da entorpecida metrópole.
Fale com o autor