Mia


Levou um tempo para o meu pé se recuperar, mas com o repouso que eu fiz, agora estou novinha em folha, ou seja, adeus saias e bem-vindo de volta jeans, seus lindos! Sensei me ajudou bastante, na verdade, ele parecia um pouco diferente do normal, sempre perguntava se eu estava sentindo dor e, na hora das explicações, parecia bem mais calmo e paciente. Acho que tinha cansado de ser um tirano... Se bem que a paciência dele é muito curta! Ou é só comigo?
Enfim... Mesmo que ele seja assim, me lembro (não tão claramente) que ele cuidou de mim na floresta, depois que machuquei o pé. Eu não sabia como agradecer, então dei um monte de bolacha Passa-Tempo para ele, que riu disso até demais. Feriu um pouco os meus sentimentos... Mas ele aceitou, então estava valendo.
Camila e David se certificaram se eu estava boa mesmo para jogar boliche hoje. Já estava cansada de dizer que estava bem. Fazia muito tempo que não saíamos juntos e eu nunca tinha jogado boliche, estava realmente empolgada!
— Mia, se acontecer alguma coisa, se sentir qualquer dor, me ligue.
— Pode deixar Sra. Felman. Eu tomo conta dela. – assegurou David.
Ele ainda continua chamando titia assim...
— A GENTE toma conta dela. – disse Camila.
— Eu não sou criança... – disse meio murcha.
Eles começaram a rir. Então fomos andando até a estação, comigo argumentando que Camila era da minha idade e David era só um ano mais velho, então eles não precisavam “tomar conta” de mim. MAS eles só ficavam bagunçando meu cabelo e apertando minha bochecha, enquanto continuavam a rir.
Nada legal...
Chegamos ao shopping e fomos direto ao andar do boliche. Perguntamos como funcionava, mas sairia muito caro só nós três. Deveríamos ter chamado mais gente.
Comecei a perceber uma movimentação entre as meninas do lugar, apontando empolgadas para a entrada. Um grupo de garotos tinha acabado de chegar e já estava causando alvoroço. Mas eles não me eram estranhos... Até que dentre um negro alto, acompanhado de uma mulata muito bonita, um ruivo de olho azul e um moreno também alto, reconheci um em particular.
— Sensei!
Fui até ele, que estava surpreso. Cumprimentei os amigos dele, que pareciam ser bem gentis. Expliquei tudo para ele (e para os amigos), pedindo que jogassem com a gente. Eles estavam em quatro, seria perfeito já que o máximo eram oito pessoas. Todos concordaram rapidamente, pois sairia bem mais em conta.
Sensei perguntou se eu podia mesmo estar ali jogando por conta da minha perna, mas pela milionésima vez disse que estava bem.
O grupo foi dividido em duplas e Camila disse que eu, David e ela formaríamos um trio, já que o grupo estava em numero ímpar. Dois garotos não concordaram, Jack e James se não me engano, dizendo que era injusto, com três pessoas fazendo pontos, a somatória obviamente seria maior.
Sinto que eles são competitivos...
Então Camila disse que eu era “café com leite”. Não tinha entendido o que isso queria dizer.
— Vamos lá, bolinha, faça sua mágica...me ajuda! – sussurrei.
Posicionei-me, como vi os outros fazendo até chegar minha vez, e joguei.
Não derrubei nenhum. NENHUM!
Desmoronei no chão.
— Ah, entendi a do café com leite. — não sei quem disse, mas sinto que foi um comentário cruel.
Camila me puxou pelos braços e me arrastou, livrando a área pra que pudesse jogar.
Ainda estava para baixo quando ela se virou para mim.
— Aprenda com a profissional.
Prestei bem atenção nela. Ela sempre foi boa em jogos assim.
Posição: perfeita. Concentração: perfeita. Força: perfeita. --> Jogada perfeita--> Straike!
Uaaaau! Estava encantada, até aplaudi (ainda no chão), de sua imagem parecia brilhar. Tão confiante!
— Camila, quando crescer quero ser igual a você. – disse me animando de novo.
Ela riu.


Érick


É minha vez, mas... realmente estou incomodado com essa garota me encarando. Ela observava a posição de todo mundo para ver se aprendia a posição correta. Mas diferente de todos, eu odiava ser observado, isso me deixa nervoso ao ponto de me fazer jogar errado.
— Mia, vem aqui. – disse a ela.
Ela pareceu surpresa, e veio meio apreensiva.
— Vou te ensinar a jogar. – disse já colocando a bola em sua mão — Está vendo as setas no chão?
— Aham!
— Mire a do centro. – ela se curvou um pouco — Agora com força, mas nem tanto, você joga a bola...
Straike!
— Co-consegui? Consegui!
Na verdade, eu que joguei a bola...
Ela sorria largo. Aquela expressão... O que ela era, uma criança?


Mia


Como esperado do Sensei. Sabia de tudo e sabia ensinar tudo. Até uma garota sem coordenação como eu.
Então com ele não era só matéria chata que se aprendia, mas a se divertir também!
Sorri para ele, expressando minha gratidão. De repente, ele afagou meu cabelo de leve e mostrou seu sorriso sincero.
Meu coração deu um pulo.
Estranho, essa sensação... é a mesma de quando o vi jogando basquete naquela vez.


Érick


Parei de tocá-la imediatamente quando me dei conta dos outros ali.
Isso...Minha mão...O que eu fiz agora foi... involuntário.
Guardei a mão no bolso da calça para que ela não fizesse mais essas coisas estranhas, que poderiam serem mal interpretadas. Ela agiu como uma criança, então a tratei como tal. Só isso.
Como agora, verificando se todos tinham visto o straike que “ela” tinha feito.
Criança...
Meus amigos deveriam achar ela bem estranha. A amiga, a tal Camila, parecia se divertir com a empolgação dela. Sério, tiro o chapéu para ela pela paciência. Mas o que chamou minha atenção foi o garoto loiro que parecia bem sério e meio incomodado, deveria acha-la barulhenta. Como era mesmo o nome dele?
— Viu isso, David?
Ele pareceu “voltar a realidade” e sorriu gentilmente para Mia, confirmando que tinha visto. E quando foi afagar seu cabelo, parou. Então apertou sua bochecha. — Mandou bem! – disse sorrindo.
As bochechas dela ficaram rosadas, não sei se pelo apertão ou por ele tê-lo feito. Que seja... Independente disso, por que agora quem está incomodado sou eu?


Mia


— Mia, não é? – disse um garoto sentando ao meu lado – Prazer, Paul.
Ele sorria gentilmente me cumprimentando.
— Ei, você não é a garota que se perdeu junto com o Érick?
— Aham.
— Mas não te vi na viagem... Que clube você é?
— Clube de Música.
— Sério? Então estavam do lado da gente?
— Isso.
— Mas mesmo assim você me é familiar...
— Você conhece o David? – e apontei para ele.
Paul confirmou. — Ele é famoso com as garotas, ele faz dueto com... uma... – olhou para mim – Você?
Dei risada e confirmei.
— Ah, sabia que tinha te visto antes. – ele riu – E vem cá, você e o Érick... Se conhecem só do acampamento mesmo, ou...
— Não, ele é meu sensei.
Pareceu confuso. — Pera, sensei não é professor em Japonês? Ah, você é a nova aluna dele! — ele me examinou — E... O que você acha dele?
Pensei um pouco. Ele parecia realmente curioso.
— Bom...No começo o achava bem estranho, pensava que era algum tipo de tirano pervertido, mas, mesmo que esteja sério a maior parte do tempo, ele é uma boa pessoa.
Paul pareceu surpreso com a resposta. Então olhou para o amigo enquanto se posicionava para jogar.
— Ele é mesmo.
Ele o olhava com admiração.
— Você gosta muito dele né?
Olhou-me surpreso de novo e depois riu sem graça. — Ele é como um irmão para mim.
— Mais velho?
Ele riu. — É, com certeza, mais velho. – e começou a imitar o jeito dele falar quando está dando um sermão.
Ri muito disso, era igualzinho.