No dia seguinte, Trafalgar Law acordou no quarto de hóspedes, sozinho. Law se lembrava perfeitamente que havia dormido junto com Luffy na noite anterior, então por que havia acordado sem ninguém ao seu lado?

Parando para pensar, foi bem arriscado ele ter deixado Luffy tão livre daquela maneira. A essa altura, o policial poderia muito bem ter fugido e estar em qualquer canto do mundo, já que o médico tinha um sono realmente muito pesado.

– Luffy...? Eu lembro que eu acabei dormindo aqui, mas... cadê ele? Será que fugiu?

Law ainda estava bem sonolento, coçando a cabeça para acordar. Ele estava começando a pensar na probabilidade do outro ter finalmente conseguido fugir, até que começou a escutar um barulho vindo de sua cozinha, seguido de um grito.

– Ai..!

Ao ouvir aquele grito, sem pensar duas vezes, ele foi correndo para a cozinha. Chegando lá, deparou-se com uma cena completamente diferente de tudo que estava acostumado, ficando assustado.

– MAS QUE PORR...?!

– T-Torao..! D-D-Desculpa, eu... fiquei com um pouco de fome...

Luffy estava jogado no chão, de frente para a geladeira, comendo tudo o que havia lá até não sobrar mais nem um único alimento! Trafalgar não acreditava no que via, ao invés dele tentar fugir, ele simplesmente preferiu atacar a cozinha.

– Você comeu tudo sozinho? Eu tinha acabado de fazer compras!

– É que você não acordava de jeito nenhum, então eu fiquei com fome! — Ele terminava de falar enquanto botava um pedaço de carne na boca.

– I-Isso não é uma desculpa válida, Luffy! E eu pensei que você tinha fugido daqui de novo!

– Ei, eu não comi tudo, tá? Eu deixei os vegetais! E por que eu fugiria de um lugar que eu posso comer de graça?

– Tá brincando, né? Você realmente gosta de ficar aqui? Seu masoquista!

– Cala boca, eu não sou isso!

– É sim!

– Não sou!

– É sim, um masoquista doente!

– Não sou, e doente é você!

Trafalgar ficou irritado de ter sua geladeira assaltada enquanto dormia e ficou discutindo com Luffy até ir tentando se acalmar. Quando finalmente os dois estavam mais relaxados, sentaram-se à mesa e começaram a conversar como pessoas civilizadas.

– E então, quem te deu permissão pra ficar andando pela minha casa?

– O que você queria que eu fizesse?! Você não acordava de jeito nenhum e eu fiquei com fome!

– Fome? Você chama ISSO de fome? Você simplesmente devorou a minha geladeira!

– Eu acordo cedo, sabia disso? Eu até tentei te acordar, mas você simplesmente me bateu e voltou a dormir. Seu monstro violento!

– Hã? Eu não fiz nada disso! Bom, pelo menos não que eu me lembre.

– Você fez sim! Você tem um sono terrivelmente pesado!

– Tá, tá, deixa isso pra lá. Você mexeu nas minhas coisas enquanto eu dormia?

– Não mexi em nada. Só aproveitei para tomar um banho, já que alguém não me deixava fazer isso sozinho.

– Se eu descobrir que você tocou em alguma coisa que não deveria, eu te mato! Entendeu?

– Eu não fiz nada demais, relaxa. E além disso eu já tenho tudo o que eu preciso, Torao.

– Já tem, é? Bom saber disso.

O médico ficou encarando o garoto com um sorriso malicioso no rosto, como se ele estivesse escondendo alguma carta na manga. Luffy parecia ficar bem irritado sempre que o outro sorria desse jeito.

– Por que você fica me encarando assim?

– Assim como? Eu só gosto de te olhar, Luffy. Isso é crime?

– Não é crime, mas é estranho!

– Estranho por qual motivo exatamente? Nós dois já fizemos coisas muito piores juntos.

Luffy ficou mais irritado ainda ao ouvir aquelas palavras, principalmente depois de se lembrar do que os dois haviam feito na noite anterior. Trafalgar, por outro lado, permanecia calmo como de costume.

– É estranho justamente por isso, Torao! Por que você fica fazendo essas coisas comigo? Eu sou só um brinquedo pra você?!

– Sim, você é o meu brinquedo. Além disso eu gosto de te tocar, então vou continuar fazendo.

– VOCÊ É A PIOR PESSOA DO MUNDO, TRAFALGAR! Definitivamente eu vou te colocar atrás das grades algum dia!

– Tá, tá... eu já entendi que você quer me prender, não precisa ficar falando essas coisas chatas toda hora.

– Coisas chatas? Leve isso mais a sério! Eu posso muito bem acabar com a sua vida rapidinho, sabia?

– Não, não pode não.

Trafalgar levantou-se e foi em direção ao garoto já de saco cheio de tanto ouvir o outro persistir na história de capturá-lo, prendê-lo, etc. Ele só queria uma pausa de toda aquela confusão chata e entediante.

Assim que eles foram se aproximando, Law começou a passar suas grandes mãos, fortes e pesadas, pelo cabelo macio de Luffy, levantando sua cabeça bem lentamente até conseguir ficar frente-a-frente com o menor e finalmente dar-lhe um beijo.

– P-PARA COM ISSO!

Luffy reagiu instantaneamente, levantando da cadeira e dando um tapa bem forte no rosto do médico, se afastando de seus lábios.

– Ai... isso doeu.

– Pra quê ficar fazendo essas coisas toda hora? Eu já cansei de você, Trafalgar!

– Cansou, é? Haha! Não foi o que pareceu ontem, Luffy.

O mais novo ficou vermelho de vergonha depois de tais palavras, mas antes que pudesse resmungar alguma coisa, Trafalgar o segurou pela cintura e arrancou-lhe outro beijo.

Luffy tentou se afastar, mas o outro era muito mais forte que ele. Sem ter muito para onde fugir, ele foi cedendo aos beijos do médico mais uma vez, até que se separaram em busca de ar.

– Eu te odeio.. Torao...

– Que bom, eu gosto mais quando você tenta resistir, Luffy.

Eles se beijaram novamente até serem interrompidos pelo celular do médico, que começou a tocar. Era a secretária dele ligando.

– Argh... o que foi? Eu tô meio ocupado aqui.

"Dr. Trafalgar? Onde o senhor está? Sua paciente já chegou!"

– Paciente...?

"Sim, pra cirurgia das 15h. Já são 14h! O Sr. ficou preso no trânsito?"

– JÁ É TÃO TARDE ASSIM?! E-Eu já tô chegando, espera cinco minutos!

Ele havia esquecido-se completamente de seus compromissos graças ao hóspede em sua casa. Luffy ficou observando o médico completamente apressado e acabou tirando sarro daquela situação.

– Não acredito que você esqueceu de uma cirurgia... você é o pior de todos.

– Cala boca, Luffy! A culpa é toda sua, por que não me avisou o horário?!

– Eu te disse que já tava tarde, você que decidiu ficar fazendo coisas estranhas.

– Já mandei calar a boca! Eu vou te prender no porão de novo e à noite eu vou te ensinar a falar direito comigo!

Law pegou o garoto pelos braços e o arrastou até o andar debaixo, já bem irritado. Luffy ficou reclamando que seu braço estava doendo, mas o médico não estava nem aí e continuou a arrastá-lo.

– Você precisa mesmo ser tão violento assim?

– Fica quietinho aí enquanto eu vou me arrumar!

– Você precisa mesmo ir pra lá?

– Como assim? É claro que eu preciso, idiota. É o meu trabalho.

– Eu não quero que você vá, Torao...

Luffy já estava amarrado na cadeira novamente, mas parecia triste. Ele sentia uma dor enorme batendo em seu peito, como se pressentisse que alguma coisa ruim iria acontecer quando o médico saísse de casa, mas não ele sabia direito o que era.

– Eu até gostaria de ficar contigo, mas eu preciso ir.

Trafalgar dá um beijo de despedida no garoto e se prepara para sair.

– Torao.. você não vai matá-la, né?

– É por isso que você parece tão preocupado, Luffy?

– Sim... eu tenho a impressão de que alguma coisa ruim vai acontecer se você sair por aquela porta.

– Você acha?

– ... Só promete pra mim que ela vai ficar bem. Só isso.

– Argh. — Ele suspira. — Eu prometo que ela vai ficar bem. Feliz agora?

– Um pouco. Eu não sei se posso confiar em você, Torao.

– Pode confiar em mim, Luffy. Eu não vou machucá-la, ok?

Trafalgar P.O.V

Por que ele tá agindo assim tão estranho de repente? Eu pensei ter dito a ele que não matava meus pacientes e que era Kid quem fazia o trabalho sujo. Será que ele percebeu a mentira? E além disso, que papo é esse de "impressão ruim"?

O Luffy parecia com uma carinha tão triste... bom, não é estranho ele agir assim depois de ficar preso em um porão por tanto tempo, mas... ver ele com esse rosto, de alguma maneira, me deixa triste também.

Eu realmente planejava acabar com a vida desta paciente hoje. Ela tem uma doença terminal, seria mais fácil acabar com isso de uma vez, né? Prolongar a vida de um condenado é incrivelmente inútil.

Bom, mas não vai fazer muita diferença ela ficar viva ou não. Eu prometi a ele, né? Deixa isso pra lá, uma pessoa a mais ou a menos não faz a menor diferença na minha vida.

Talvez o Kid tenha razão afinal. De alguma maneira ficar com o Luffy me faz perder a vontade de continuar com essa história de "médico malvado"... será que eu tô ficando muito mole? Ou essa aura incrivelmente positiva que ele carrega faz isso comigo? Argh, são tantas perguntas...

Antes de finalmente sair do quarto e ir trabalhar de uma vez, dei outro beijo nele. O estranho é que, por mais que eu já tivesse feito isso tantas vezes, esse último beijo teve um gosto diferente. Que sensação é essa? É como se... alguma coisa fosse acontecer.

Será que foi isso que ele quis dizer antes? A tal "sensação ruim"?

– Torao, o que aconteceu? Você parece meio pálido.

– Ahn? Aah.. nada não, Luffy..

Eu acabei me distraindo e nem percebi. Que saco, é melhor sair daqui logo antes que eu faça alguma besteira! Esse pirralho maldito realmente tem algum poder estranho que me faz ter vontade de desistir de tudo e fugir com ele pra algum lugar distante, onde ninguém possa nos encontrar.

Que ideia ridícula, sinceramente... fugir com um policial? De onde eu tiro essas coisas?!

Finalmente fui saindo devagar daquele lugar infernal. Eu não posso deixar os meus sentimentos falarem mais alto que a minha razão, que saco!

E justo quando eu fui começar a subir as escadas, uma dor enorme bateu no meu peito. Eu fiquei totalmente paralisado, sem conseguir me mexer e já estava de costas para ele. Não dava para vê-lo, mas eu sentia... sentia que alguma coisa de ruim realmente ia acontecer se eu fosse embora.

– ... Torao? Tá tudo bem mesmo?

Sem perceber as minhas ações, eu fui me virando e comecei a olhá-lo. Eu sentia meus olhos ficando dilatados junto com a dor que novamente surrava meu peito, como se fosse esmagar meu coração.

Fui perdendo o controle dos meus sentidos. Minha visão estava embaçada, um gosto estranho percorria minha boca e meu corpo começava a tremer internamente.

– Luffy... eu...

Meus lábios tremiam e minha voz falhava. Eu não conseguia pronunciar as palavras muito alto, e nem tinha noção do que estava prestes a dizer, só sei que era alguma coisa importante.

– Você...?

– Eu... am...

– Hum? Desculpa, não dá pra te ouvir muito bem, Torao.

– E-Eu te vejo de noite! Até lá se comporte, viu? Não faça nenhuma bagunça!

Q-Que porra foi essa? Eu comecei a agir como se fosse a mãe dele de repente! E que merda eu quase falei agora?! Eu fiquei realmente louco?! Aaaaargh, que raiva!

– Como se eu pudesse fazer alguma coisa amarrado desse jeito. Você ficou muito estranho do nada, sabia? Nem parece contigo.

– Desculpa, eu só preciso tomar um ar. Só isso.

Não acredito que eu pedi desculpa pra ele! Caramba, que merda tá acontecendo comigo? Que raiva! O que foi tudo isso agora? Essa sensação ruim? Esse sentimento de proteção? Seja lá o que for, isso é meio nojento!

Trafalgar P.O.V off

Após finalmente conseguir sair do porão, Law foi até seu quarto e se vestiu. Já estava quase na hora da cirurgia e ele permanecia em casa, se arrumando o mais rápido que conseguia e pegando seu carro.

Ele decidiu não matar a paciente conforme havia prometido a Luffy. Não é como se ele levasse promessas tão à sério, principalmente promessas daquele tipo, mas dessa vez ele realmente tinha perdido toda vontade de cometer crimes.

Enquanto isso, Luffy permanecia confuso com tudo que havia ouvido de Law mais cedo, principalmente pelo pedido de desculpas repentino. Ele realmente queria entender tudo aquilo, inclusive ficou pensando nas tais últimas palavras.

– Ele ia dizer alguma coisa importante... alguma coisa com "am"... "amanhã"?

Não demorou muito tempo que Trafalgar tinha ido embora. Luffy permanecia em pensamentos distintos, até ouvir passos bem pesados. Outra pessoa havia chegado no local.

– Então é você, o tal do novo namoradinho do Law?

~ X ~

Ao mesmo tempo que Law realizava a tal cirurgia, do outro lado da cidade, Eustass trabalhava em seu escritório, assinando papéis como de costume.

Kid P.O.V

Etto... já são quase 16h então provavelmente o Kira já tá lá na casa do Law pronto para pegar o Luffy. Eu realmente espero que tudo ocorra bem, mas... quando o Law perceber que o Luffy foi sequestrado será que ele vai me culpar?

Se bem que com tantas câmeras no porão ele vai ter certeza de que quem o sequestrou foi o Kira e não eu. Bom, ele pode suspeitar que eu tive participação nesse plano, mas eu vou fingir que não sei de nada.

Ah, sim! E eu tenho que resolver o papo da Grundy, já tava quase esquecendo. Será que a Lynda percebeu que a velha tá morta? Se ela percebeu, com certeza vai suspeitar de mim.

A Lynda é uma excelente médica, mas também ela é muito desconfiada! Ela deve assistir muitos filmes policiais. Isso explica o fato dela ficar suspeitando do Law, embora eu não ache que a presença dela vá me atrapalhar.

De resto, eu vou fazer a autópsia da Grundy junto com o Kira e apagar todas as provas de que uma injeção letal foi usada contra ela. Isso já vai limpar a minha barra.

Kid P.O.V off

Eustass estava perdido em pensamentos, quando ele ouve duas pessoas, literalmente, arrombando a porta do escritório com bastante raiva, fazendo com que todos os olhares do local se dirigissem a eles.

Mas não eram duas pessoas comuns. Pelo menos não com aquelas roupas. Eustass não sabia quem eles eram, mas aqueles uniformes eram facilmente reconhecíveis! Com toda certeza do mundo, aquelas duas pessoas que foram andando em direção a Kid eram...

– Eustass Kid?

Ele ficou bem assustado. O fato daquelas pessoas saberem seu nome e parecerem tão chateadas significava que boa coisa não poderia estar por vir! Seus lábios tremiam, mas ele respirou fundo e tentou fingir não que não se importava.

– S-Sim?

– Nós somos agentes da Polícia Britânica. Sugiro que você nos acompanhe sem reagir.

– P-Por quê?! O que tá acontecendo aqui?!

– Eustass Kid, você está preso.

Notas finais
Os forninhos dos quatro cantos do mar caíram! Help, Giovanna, pois tá chegando ao fim!