Médico Sujo
15 Epílogo
Notas iniciais
Três meses se passaram. Os dias na prisão estavam deixando Trafalgar completamente louco, graças a convivência com Eustass, que, por outro lado, parecia estar amando viver naquele lugar infernal.
Os dois tinham brigas constantes, já que o ruivo tinha decidido transformar Law em seu novo mascote e não o deixava em paz por um segundo qualquer. Era de noite e eles estavam na cela, Kid deitava na cama de cima e Law na de baixo, discutindo como sempre.
– Você ainda tá com raiva de mim, Law?
– Cala boca e me deixa dormir em paz pelo menos um dia.
O ruivo seguia o outro por todos os cantos, sempre o irritando ou lembrando-lhe da morte de Luffy. Frequentemente ele o forçava a fazer coisas que não gostava, e por este motivo Trafalgar tinha vários cortes, arranhões e marcas roxas espalhadas por seu corpo.
– Mas se eu te deixar em paz, você vai tentar fugir de mim. Isso eu não posso permitir.
– No passado eu vivia te dando fora e, pra se vingar, agora você me persegue. É só isso que você consegue fazer, né? Correr atrás de mim. Me obrigar a ficar com você, como uma criança mimada.
– E o que tem de errado nisso, hein? O mundo pertence às pessoas fortes, Law. Você fazia a mesma coisa com o policial antes dele morrer, agora receba a sua punição!
Sempre que Kid tocava nesse assunto da morte, Law ficava com uma raiva visível dele, junto com um olhar de ódio. Mesmo sem ver tal olhar, Eustass já sabia que Law ficava dessa maneira e apenas soltava um riso sarcástico.
– Então você ainda tem esse ciúme doente pelo Luffy mesmo depois de tudo? Você é ridículo, isso sim!
– Ciúmes? — Ele sai de sua cama e vai ao encontro de Law, que estava em baixo. — Eu não preciso disso! Eu posso fazer o que quiser contigo, Law.
– Faça o que quiser, me obrigue a ficar com você. Isso não vai mudar nada, Kid! Você é só um infeliz que vai morrer sozinho, aceita!
Eustass ficou com raiva e subiu em cima de Trafalgar, com as mãos em sua garganta, como se estivesse querendo matá-lo por falta de ar ali mesmo. Law tentava tirar aquele braço de cima dele, mas sem sucesso.
– VAI À MERDA, LAW! Se eu for morrer, eu prometo que te levo junto! Entendeu?
– Como se eu tivesse... medo de você, Kid...
– É? Ótimo, você me disse que eu posso fazer o que eu quiser, né? Então é isso que eu farei.
Ainda com as mãos quase estrangulando Law, Kid forçou um beijo nele, fazendo o moreno ficar com ainda mais ódio e tentando sair dali, chegando a arranhar seu braço, mas sem conseguir fazer qualquer tipo de dano.
– Não começa... maldito...
– Que foi, Law? Vai chorar de novo?
– Chorar..? Não seja ridículo, se eu for chorar por alguém como você certamente será por pena.
Com mais raiva ainda, Eustass virou-o de costas, imobilizando seu braço para que ele não escapasse. Ele deitou em cima do amigo e começou a sussurrar em seus ouvidos, com a voz mais sarcástica e odiosa que sabia fazer.
– Pode me odiar o quanto você quiser. Me odeie, Law, isso não vai mudar nada. Você já era. Por que não tenta pedir ajuda pro Luffy agora? Quando ele estava com problemas, você foi lá ajudá-lo, não é?
– Para com isso... Kid..
– Mas é a verdade, Law. É isso que você ganha por começar a confiar em um lixo, ele te abandona quando você deixa de ser necessário. Entende o que eu digo? É ruim, né? A sensação de te abandonarem.
Eustass foi tirando as calças laranjas de Trafalgar junto com as suas, com seu membro rígido já pronto para ser usado, sem nenhuma preparação antes.
– Para...
– Não tente negar suas origens. Você é tão nojento quanto eu, Law, quem sabe até mais! Esse seu romance proibido entre mocinho e bandido não existe na vida real. Aceita que dói menos.
– Me larga, Kid... sério...
– Quer que eu te largue pra quê? Você não vai poder fazer nada agora, mas daqui há uns quarenta anos, quando você for solto, qual vai ser a primeira coisa que você vai fazer, hein? Visitar o túmulo do Luffy? Chorar nele?
– Eu não pretendo fazer isso... até por que eu tenho certeza... o Luffy está vivo e você sabe muito bem disso!
– E como você pode ter tanta certeza disso? Desespero?
– Porque eu te conheço o suficiente pra saber quando você está mentindo. Se o Luffy estivesse morto de verdade, você não ficaria com tanto ciúme assim! O fato de você só falar nele o tempo todo já prova isso!
– Tsc, tem gente que não aprende mesmo.
Kid penetrou em Law de uma vez só, fazendo força em seus braços para que sua cabeça fosse esmagada contra a cama, de um jeito que ele não conseguisse falar mais nada. Os gritos eram abafados completamente pelo travesseiro.
– ISSO É PRA VOCÊ APRENDER A FICAR QUIETO, LAW! Já se passaram três meses, se o policial realmente tivesse vivo ele já teria entrado em contato! Bom, a não ser que ele realmente tenha esquecido de você, o que não seria uma surpresa, já que ele TE ODEIA. É legal amar alguém que te odeia, né? BEM FEITO.
~ X ~
A noite finalmente passou. Trafalgar não conseguia dormir direito naquele lugar sequer um dia, sempre permanecia bem atento caso Kid fosse fazer alguma coisa durante a noite. Seus pesadelos eram sempre os piores possíveis e geralmente envolviam a morte de Luffy.
Os dois estavam no refeitório, comendo a comida deplorável daquele lugar imundo, rodeado de animais irracionais que eram seus companheiros de prisão. Como sempre, acabaram brigando por algum motivo ridículo.
Todos daquele lugar já conheciam Law e Kid por suas brigas incontroláveis que sempre acabavam aos chutes, socos e pontapés. Mas sempre que iniciavam um duelo, gritos de incentivo eram ouvidos, só para aumentar o tumulto. Até que um policial veio separá-los de vez.
– SÃO SEMPRE VOCÊS DOIS OS RESPONSÁVEIS POR TUMULTUAR ISSO AQUI, JÁ CHEGA! Vocês vão trabalhar 6h a mais por cinco meses! Entenderam?
– HÃ? A CULPA É DELE! ELE COMEÇOU! — Os dois gritaram em conjunto. Law continuou a falar.
– Se querem parar a nossa briga, então me tirem de perto desse desgraçado!
– Se fizerem isso eu prometo que mato cada um de vocês, policiais nojentos!
– CALEM A BOCA, OS DOIS! VÃO JÁ VOLTAR PRA CELA, ANIMAIS IMUNDOS!
Eles foram levados de volta para o quarto em que eram obrigados a conviver juntos. Eustass não se importava, até achava graça da situação, principalmente vendo o rosto de raiva que Law carregava. Ele então, abraçou seu amigo por trás, voltando a ser irônico.
– Não liga pra isso, Law. Mais horas de trabalho significam mais horas de diversão para nós.
– Me larga, Kid, só me deixa em paz por meio segundo. É pedir muito isso?
– É sim, é impossível isso. Eu não consigo resistir a você...
Kid prosseguiu cheirando o pescoço de Law para sentir seu aroma, dando mordidas que chegavam a arrancar sua pele. O moreno apenas lançava um olhar de nojo e repúdio para o além, mas nem tentava mais sair dali.
– Quando você se tornou tão horrível assim...? Me obrigando a fazer essas coisas.
– Quando eu percebi que o Kira estava certo e que você tinha ficado todo sensível por causa de um garoto. Eu sinto saudades de você de antigamente, sabia?
– É, eu também sinto falta do Kid irritante de antigamente...
Antes que os dois pudessem começar a fazer alguma coisa contra a vontade de Law novamente, foram interrompidos por um policial, que parecia ser bastante rígido, falando com uma voz impaciente e alta.
– Qual dos dois nojentos é Trafalgar Law?
Ele viu na fala do policial uma oportunidade para finalmente poder se afastar de Kid e ficou feliz por alguns segundos, mesmo sabendo que coisa boa não viria.
– Eu! Vai me trocar de cela?
– Não, você tem visita particular. Eu vim te levar.
– Visita particular?
Trafalgar não entendeu muito bem o que aquilo significa, nem sabia da existência de uma pessoa que iria querer visitá-lo. Não tinha amigos. No máximo seria algum paciente antigo que veio lhe culpar de algo.
Mesmo assim, ele obedeceu ao policial. Qualquer coisa era melhor do que ficar junto com Eustass, que não pareceu gostar nadinha do lance da visita. Ele parecia já saber o que significava e não era boa coisa.
Chegando lá, foi jogado em uma sala pequena com uma mesa e duas cadeiras: uma de frente para outra. Ele estava apenas algemado e não tinham guardas na sala, só algumas câmeras que certamente monitorariam seus movimentos.
Law estava sozinho e não sabia bem o que aconteceria ali. Não era uma visita comum como os outros prisioneiros tinham, parecia ser, literalmente, uma visita particular. Como se fosse com alguém importante. Um advogado, talvez?
Já estava cansado de esperar sentado, quando a porta do local se abria lentamente. Aquela porta parecia emanar uma luz própria gigantesca e revelava uma pessoa que já era conhecida por ele, mas que não via faz tempo.
Ele começou a sentir uma dor em seu peito junto com uma vontade enorme de morrer ali mesmo, finalmente em paz, a medida que a tal pessoa ia se revelando. Law sentia também um gosto estranho em sua boca, como se fosse querer falar alguma coisa que estava guardando a tempos.
A porta se abriu totalmente e revelou a tal pessoa, vestida com uma roupa a qual ele não estava acostumado, com uma postura totalmente diferente da que conhecia, mas com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso forte e verdadeiro.
– Olá, Trafalgar. Quanto tempo!
Law estava pálido, não conseguia dizer nada. Suava frio. Ele simplesmente não acreditava na visão que tinha naquele momento, era um sentimento de nostalgia junto com dúvida. Como aquela pessoa estaria em pé em frente a ele? Nem em seus sonhos mais loucos ele imaginaria isso.
Ele levantou-se da cadeira, com um susto, indo em direção a tal pessoa, aproveitando que só tinham os dois na sala. Ele pois os braços algemados em torno do pescoço daquele ser humano, dando-lhe o abraço mais apertado que conseguia, sem nem mesmo saber direito o que fazia, com os olhos cheios de lágrimas e a voz fina e suave.
– Você está vivo mesmo... Luffy...
– Hum? É claro que eu tô. Do que você tá falando?
Ao ver, nas fitas de gravação, que o preso parecia estar fazendo alguma coisa indevida com o outro, vários policiais chegaram na sala, gritando.
– EI, TIRA AS SUAS MÃOS IMUNDAS DE CIMA DELE!
Mas Trafalgar não se importou com os gritos, estava emocionado demais ao ver a figura daquele homem a sua frente. Aos poucos, seu abraço foi se transformando em um beijo. Um beijo bem profundo cheio de sentimentos, que fez com que os policiais ficassem com mais raiva ainda.
– NÓS JÁ NÃO MANDAMOS SE AFASTAR?!
Finalmente, ele foi obrigado a afastar seus lábios, mas isso não impediu de continuar a olhar para o garoto espantado, como se estivesse vendo um fantasma.
E de fato, estava mesmo. Luffy não entendia muito bem o que se passava ali, mas Law começou a falar como se estivesse alucinado, dando gritinhos histéricos e tentando se debater aleatoriamente.
– Eu não ligo, podem me levar de volta, me prender, aumentar minha pena, me torturar... EU NÃO LIGO MAIS PRA NADA! Agora que eu sei... que você está vivo... a única coisa que eu quero é MATAR AQUELE DESGRAÇADO!
Já estavam se preparando para levar Law de volta, quando Luffy deteve seus companheiros de profissão e mandou se acalmarem e saírem da sala.
– Tudo bem, ele não vai me machucar nem fazer nada de errado. É que ele é meio piradinho, mas não é perigoso.
– Não podemos fazer isso! Um ato tão obsceno quanto esse... ele vai levar a pior punição possível!
– Eu realmente preciso conversar com ele, isso é prioridade pra mim. Mas depois disso podem levá-lo.
– Tem certeza? Estaremos vigiando para caso ele faça algo assim de novo, e dessa vez não daremos segunda chance.
Eles puseram novamente Law sentado na cadeira, algemado, e Luffy ficou de frente para ele, em outra. Ele parecia estar mais calmo, apesar de ainda estar um pouco chocado por aquilo tudo. Os policiais se retiraram e Luffy começou a falar.
– Primeiro que papo é esse de "morto"? É claro que eu tô vivo, idiota.
– No fundo eu já sabia, mas ainda é um choque! O Kid me disse que você tinha morrido no hospital.
– Bom, graças a vocês eu fiquei meses no hospital! Aquele tal do Kira tinha quebrado todos os meus ossos, mas não pense que eu vou morrer tão fácil assim, Torao. Aliás, você não recebeu meus cartões?
– Cartões?
– Sim, eu te mandei uns três pra você saber que eu tava vivo. Você achou que eu não iria voltar a falar com você?
– Aquele ruivo desgraçado... ele deve ter escondido os cartões que você mandou. QUE RAIVA, SÉRIO.
– C-Calma... depois você resolve isso, eu vim aqui pra conversar com você.
– Conversar?
– É, nós dois temos assuntos pendentes. Tem muita coisa que eu quero saber de você, então eu vou te fazer duas propostas.
– Que tipo de propostas? — Ele olhou meio sério, esperando vir algo ruim.
– Primeiro: eu quero que você me responda sinceramente a tudo que eu te perguntar. Eu vou te dar imunidade total, então nada do que você falar aqui vai alterar a sua pena. Entendeu?
– Pra quê você quer isso? E eu não confio em você o suficiente para ficar dizendo essas coisas, Luffy. Quem garante que a minha pena não vai aumentar?
Luffy pegou seus distintivos e pois à mesa, simbolizando que estava em total acordo com a imunidade. Isso significava que, mesmo que Trafalgar confessasse qualquer tipo de crime, por pior que seja, ele não iria ter seus dias na prisão aumentados. Um bom acordo.
– Eu não tô mentindo, não é do meu interesse te deixar mais tempo preso. E só pra você saber, o Zoro tinha me perguntado o que aconteceu de verdade no porão e eu botei a culpa no Eustass, só pra te livrar de uma pena maior.
– Hã? Que mentira ridícula! Até parece que você mentiria pra me deixar menos anos preso. Não era você quem me odiava e queria me ver preso por tudo na vida?
– Eu quero te ver preso sim e não me orgulho de ter mentido, mas isso teria criado muita confusão e não é do meu interesse aumentar seus anos nesse lugar! Eu te odeio e por mim você morreria na prisão, mas isso me leva a minha segunda proposta.
– E qual é a segunda? Espero que seja menos absurda que a primeira.
– Eu só vou te dizer se você aceitar a primeira. E então? Você não tem nada a perder com isso, é tão difícil ser sincero? Dói?
– Tá... mas com uma condição: se você vai me fazer perguntas, eu quero te fazer algumas também.
– Que seja, mas se você mentir pra mim eu realmente te prendo por mais tempo. Entendeu?
– Tá, tá, eu vou te dar o que você quer. É justo você saber da verdade, pode começar.
– O primeiro e mais importante: você nunca me enganou com esse lance de culpar o Eustass por seus crimes. Quantas pessoas você matou de verdade e quais são os seus motivos?
– Nossa, você é bem direto, hein. E você acreditou sim! Tanto é que ficou muito mais fácil transar contigo depois daquilo, nem precisei te forçar a nada.
Luffy ficou um pouco corado depois dessa fala tão direta e sua voz começou a falhar um pouco.
– C-Claro que não, p-para de falar essas coisas, seu maníaco sexual doente! Só responde a pergunta.
– Tá bom, foram 164 pessoas no total sem contar o meu pai e o Kid ficou com trinta e cinco. Os motivos eu não sei direito, foi por puro tédio e por dinheiro. E é claro, porque é inútil estender uma vida que já está condenada.
– Tá, esses foram os piores motivos que eu já ouvi. Você é completamente doente, isso sim!
– Eu não te pedi pra concordar com os motivos, e agora é a minha vez de perguntar. Por que você não fugiu àquela hora?
– S-Sei lá... eu não sei direito, o meu corpo não me deixou sair. Mas valeu a pena, foi naquela hora que eu consegui entrar no seu quarto.
– Viu só? Nós dois temos motivos estúpidos para fazermos coisas estúpidas. E eu já sabia que você tinha entrado, aquele papo de ficar com fome foi ridículo.
– Ei, a parte da fome foi verdadeira! Eu realmente comi a sua geladeira por que você não acordava pra me alimentar, seu sonâmbulo! Mas isso não importa, é meio inútil ainda perguntar isso, mas foi você quem matou a minha irmã? Você não se arrepende de nada disso, né?
– Sim, foi. E não, não me arrependo de nada. Sua irmã tinha câncer, Luffy, ela não tinha mais do que algumas horas de vida. Ela morreria mesmo eu não fazendo nada.
– Eu não quero ouvir às suas desculpas, seu doente! Agora é a sua vez de perguntar.
– Se você já sabia de toda verdade, então por que me beijou naquela hora com o Kira?
Luffy, mais uma vez, ficou visivelmente vermelho com aquela pergunta repentina. Nem ele sabia bem o que dizer depois daquilo, e nem pensou que ele faria esse tipo de pergunta.
– P-Pra que você fica me perguntando uma coisa dessas? Você é mesmo um maníaco sexual!
– Ei, eu não me lembro da gente ter estabelecido um tema para as perguntas. O combinado era eu te pergunto e você me pergunta, né?
– S-Sim, mas... eu não sei responder a isso. Eu acho que eu fiquei feliz de você.. ter me salvado..
– Mentiroso, diz logo a verdade. Vai estragar o combinado?
– Eu tô te falando! Eu não sei, talvez porque você ficava tentando se justificar por te me salvo, aí eu fiquei com raiva e fiz aquilo, pra você me contar a verdade...
– Você me beijou então só pra eu dizer que te amo? Sério? Sem nenhum outro motivo pra isso?
– E-Ei, agora é a minha vez de perguntar. Por que você deixou uma mensagem pro Kid se suicidar? Ele não era seu amigo?
– Ah, você viu aquilo? Quando eu tive certeza de que os policiais já sabiam que você estava sendo de refém, eu escrevi aquele livro caso você conseguisse pegá-lo. Com o Kid morto vocês iriam culpá-lo por tudo e me dar uma pena mais leve. E sim, ele era meu amigo, mas também era descartável.
– E depois que ele viu a mensagem ele te passou a perna. Agora vocês estão presos juntos, isso deve explicar por que você tá cheio de marcas pelo rosto e corpo. BEM FEITO!
– "Bem feito"?
– SIM, BEM FEITO! Você tratou a única pessoa que gostava de você como lixo. Você usou ele até o último segundo só para não se ferrar, e mesmo assim ele te respeitava. Você é o pior tipo de pessoa! O tipo que trai seus amigos na primeira oportunidade!
– Ah, vai me dar sermão agora? Que seja então, agora ele decidiu se vingar de mim e não me deixa em paz por nada. Feliz?
– Sim, muito feliz. O nome disso é karma, todas as coisas ruins que você fez comigo se viraram contra você. Mas eu não imaginava que aquele Eustass seria capaz de fazer essas coisas, ele parecia tão indefeso.
– Se você quer saber, a minha teoria é que o espírito do Kira invadiu o corpo dele.
– Qual era a desse Kira, afinal? Ele é pior do que vocês dois juntos!
– Ele veio de uma família de assassinos de aluguel. O pai sempre o ensinou que sentimentos eram inúteis e só serviam para atrapalhar, então ele treinava várias horas por dia. Ele foi pros EUA pra aperfeiçoar as técnicas, inclusive começou a matar o federais pra se provar superior. Quando ele fez dezoito, ele voltou pra Inglaterra e matou os dois pais para se livrar totalmente de seus sentimentos, aí nós três voltamos a nos falar.
– Credo, que horror. Pra mim vocês três não passam de psicopatas.
– Luffy, não é essa a questão. Quando pessoas ruins comandam o mundo, somente pessoas ruins nascem. É por isso que o mundo está cheio de lixos, mas pelo menos nós assumimos que somos pessoas ruins.
– Você só diz isso por que está acostumado com o que tem de pior no mundo, Torao! Alguma vez na vida você foi feliz de verdade, ou teve motivos para isso? O que te dá vontade de viver?
– Não, a minha vida foi vazia a partir do momento em que minha mãe foi morta. Depois disso eu só vivi por vingança e para retomar o trabalho do meu pai, em busca de algum objetivo que nem mesmo eu conhecia. E eu acabei achando.
– E qual era esse seu objetivo?
– Você. Você era o meu objetivo final. Desde o dia em que eu descobri quem você era de verdade, eu tentei ao máximo fazer uma competição com você, pra ver quem era o mais inteligente. E se não fosse pelo intrometido do Kira eu teria concluído ele!
– E o que você planejava fazer se o Kira não tivesse me sequestrado?
– Ei, agora é a minha vez de perguntar, nem vem. Por que você me chama de Torao?
– Você não gosta que eu te chame assim?
– Não.
– Então vou continuar chamando. Agora, o que você planejava fazer comigo?
– Matar você, o Kira e o Kid era meu objetivo final. Principalmente o Kira, mas eu não consegui te matar quanto tive a chance, simplesmente não dava mais depois de tudo. Do mesmo jeito que o meu pai não conseguiu me matar, eu não fui capaz de fazer isso com você.
– Claro que não! Se você tivesse me matado ali, você ia morrer rapidinho. Tinham várias pessoas prontas pra atirar em você.
– Não foi por isso, idiota, eu não te matei porque eu te amo. E eu me odeio por isso.
Luffy voltou a encará-lo meio sem entender o que significava aquilo de verdade, mas tentou permanecer o mais sério que conseguia, embora sua mente esteja totalmente vidrada naquela declaração.
– Tá... sua vez de perguntar.
– Em todas as suas perguntas eu te respondo da melhor forma possível, e as minhas você responde de qualquer maneira. Agora fala sério! Você ainda tem raiva de mim por ter matado a sua irmã? Porque mesmo gostando de você, eu não me arrependo de tê-la matado.
– É que você só faz perguntas idiotas, mas sim. Eu tenho ódio de você e nunca te perdoarei, mas...
– Mas?
– Mas se eu for passar o resto da minha vida querendo vingança, eu vou acabar ficando igual a você. Eu não vou te perdoar nunca, mas também não pretendo deixar a minha raiva falar mais alto e nem ficar o resto da minha vida chorando por causa disso. A Anne não iria querer isso.
– Então você não vai guardar rancor de mim? Isso é bom...
– Não vou, mas não ache que eu vá acabar gostando de você. Isso é impossível. Aliás, por que você foi logo se apaixonar por mim? Seu sadismo é tão grande assim?
– Não é sadismo, Luffy, o que me fez gostar de você foi o fato de você ser incrivelmente oposto a mim. Do mesmo jeito que eu, você acabou buscando vingança pela sua irmã, mas você fez isso da maneira certa. Acho que você acabou lembrando a criança que eu fui um dia. Ah, e também foi pelo seu corpo, você fica irresistível sempre que eu te toco. Isso ajudou muito.
– Pervertido... tá, sua vez de perguntar.
– É sério que você se deu o nome do seu cachorro, Peter? Isso foi tipo, muito incomum.
– C-Como você sabe do meu cachorro? E não fui eu quem escolhi esse nome, foi só uma coincidência! Aliás, que pergunta ridícula!
– Pode parecer ridículo, mas isso ficava direto na minha cabeça. Tá, sua vez.
– O que você pretende fazer quando sair daqui?
– Ahn.. sei lá, comemorar a distância entre mim e o Kid. Eu realmente não tenho nada planejado. Mas fala aí, você vai vir me visitar com frequência?
– Eu venho sim, como eu disse, tenho planos pra você. Uma segunda proposta.
– E qual proposta seria essa, Luffy?
– É a minha vez de perguntar, Torao. Quando você sair daqui você ainda pretende continuar com os assassinatos?
– Eu já disse, meu objetivo era de encontrar uma pessoa como você pra fugir do tédio. Agora que eu te achei, não planejo continuar com nada daquilo. Agora, responda a minha pergunta.
– Eu só vou te contar sobre a segunda proposta daqui há dois anos, mas eu prometo que você vai gostar dela. Por enquanto, eu ainda preciso avaliar algumas coisas em você. Eu quero que você entre em um psicólogo aqui da prisão, entendeu?
– Hã? Quem precisa de psicólogo é aquele ruivo idiota!
– Os dois precisam. Mas me promete que vai entrar em um?
– Tá, tá... se eu entrar em um, pelo menos eu consigo um tempo longe do Kid.
– Eu não gosto do Eustass, mas eu não fico com pena do que ele tem feito com você. Isso é pra você aprender a não tratar seus amigos como lixo!
– Que seja. Acabou com as perguntas?
– Acabei.
– Ótimo, por que eu não vou mais conseguir me segurar.
Trafalgar tirou suas próprias algemas, com um truque que ele havia aprendido na prisão, e foi andando em direção a Luffy, que se levantou assustado.
– O que você pensa.. que vai fazer? Tem câmeras aqui!
– Tô nem aí.
Ele então, sabendo que os policiais não demorariam muito, empurrou Luffy contra a mesa, jogando todo o peso de seu corpo até o corpo dele, de um modo que ele não conseguisse sair dali. Luffy até tentou empurrar Law com uma das mãos, mas acabou desistindo.
– Eu odeio você.. Torao..
– E eu te amo, Luffy.
Eles se beijaram, mas dessa vez Luffy concedeu, mostrando um leve sorriso em seus lábios, como se estivesse desistido de todo seu orgulho e raiva naquele curto momento.
Trafalgar pôs uma das mãos na calça do garoto, enquanto segurava a mão dele com a outra, e começou a masturbá-lo enquanto sussurrava em seus ouvidos.
– Logo, logo, eles vão entrar aqui. Você promete que vem me visitar?
– Eu já disse que venho... maldito...
Finalmente, os policiais entraram, já gritando e indo em direção aos dois rapazes, mas eles não pareciam se importar.
– EI, NÓS AVISAMOS! VOCÊ VAI TER PROBLEMAS POR ISSO, TRAFALGAR!
– Você foi rápido, Luffy.
– Cala boca...
– Eu amo você.
E assim, Law foi levado para sua cela e recebeu uma grande punição por ter feito coisas indevidas com um superior. Ao chegar no local onde morava, se deparou logo com Kid que pareceu estar suando frio, como se soubesse que Law daria um de seus ataques.
– Yo, Law... você demorou. Quem era?
Como se já era de se esperar, ele ficou com mais raiva ainda do ruivo assim que soube que estava mentindo esse tempo todo sobre a morte de Luffy.
Antes de responder a qualquer pergunta, Trafalgar foi até onde Kid estava e segurou sua camisa com bastante raiva e impaciência, dando-lhe o soco mais forte que estava guardando por três meses, seguido de um enorme grito.
– OS CARTÕES! EU SÓ QUERO OS CARTÕES!
– C-Calma, de que cartões você tá falando?
– Os cartões que o Luffy me mandou nesses três meses. É só isso que eu quero!
– T-Tá... eu te dou.
Ele percebeu que não teria sentido mais esconder tudo e mostrou-lhe os três cartões. Trafalgar sentou-se e começou a ler, com as mãos tremendo e quase rasgando-as de tanta ansiedade, fazendo força para não chorar.
"Torao, por sua causa eu acabei dormindo por três dias. T-R-Ê-S D-I-A-S! Sabe quantas refeições eu perdi? Quinze! E você vai ficar com toda a conta do hospital, já que a culpa foi sua. Todos os meus ossos estão quebrados e eu vou ter que ficar aqui um tempo, mas depois quero falar com você, viu? Temos assuntos inacabados. Ah, e obrigado por vir me salvar."
"Já se passou um mês e meio desde que eu acordei e eu já estou começando a poder fazer as coisas sozinho. Eu soube também que o Eustass está morando com você, provavelmente sua vida não está muito fácil. Bem feito, Torao. Quem mandou não tratar bem os seus amigos? Mas eu não tenho raiva de você, se é isso que queres saber."
"Quando eu sair daqui eu vou aí te visitar, não pense que pode se livrar de mim tão facilmente, principalmente depois de dizer aquelas coisas estranhas. E também obrigado, graças a você eu consegui uma boa promoção. E sobre o Kira, o corpo dele foi cremado e jogado no lixo, que é o lugar dele."
– Eu odeio você, Kid. Odeio de verdade.
– Disso eu sei faz tempo, Law. Mas saiba que escondi essas coisas pro seu próprio bem! Você tem ficado muito mole graças a esse garoto.
– Só me deixa em paz, tipo, pra sempre. Eu não quero olhar pra essa tua cara nunca mais.
E assim, o tempo foi passando. Tralfagar e Luffy trocavam cartões praticamente toda hora e Eustass não conseguiu impedir os dois de se comunicarem, apesar de ainda ficar em cima do amigo praticamente o tempo todo.
Luffy ia visitá-lo em média uma vez por mês, as vezes chegando a não vê-lo por dois meses. Ele queria checar o estado de espírito do prisioneiro, para ter certeza que sua segunda proposta podia realmente dar certo. Law tinha se adaptado ao psicólogo.
Quanto mais o tempo passava, mais Law ia esquecendo todo o seu ódio sem sentido, graças a Luffy, que sempre parecia estar disposto a ouvi-lo. Ambos pareciam ficar mais calmos quando estavam juntos, como se nada existisse além deles.
E assim, dois anos passaram. Os rapazes voltaram a se encontrar na mesma sala da primeira vez, sozinhos. Luffy parecia estar bem confiante em finalmente falar-lhe sobre a tal proposta do passado, visto que Law estava claramente mais aberto a ter relações sociais, como se o seu nível de sociopatia tivesse diminuído drasticamente de alguma forma.
– Então, finalmente estamos aqui. — Law começou a falar. — Vai finalmente me contar sobre essa proposta irrecusável?
– Primeiro eu quero que você saiba que o seu psicólogo me disse pessoalmente que você estaria apto a conseguir viver em sociedade, mas não foi fácil convencer os outros a me deixarem fazer isso.
– Fala de uma vez, tá me deixando curioso há anos! Vai me dar liberdade por acaso?
– Claro que não, por que eu faria isso? Foi tão difícil te botar aí... aliás, você fica bem de laranja.
– Então fala logo, Luffy. O que queres de mim?
– Você é inteligente demais pra ficar preso num cubículo pra sempre, chega a ser desperdício. Eles me falaram que mesmo sempre arrumando confusão com o Eustass e pegando horas extras de trabalho, você sempre dava um jeito de estudar e ler livros, né?
– Obrigado pelos elogios, mas eu quero saber logo da proposta. Você quer que eu trabalhe como seu assistente por acaso?
– Mais ou menos isso, eu quero que você seja meu consultor.
Law ficou um pouco confuso com tais palavras, arqueando levemente a sobrancelha. Ele não sabia direito o que isso significava, mas não parecia muito satisfeito com aquela tal proposta, chegando até a ficar com um pouco de raiva.
– Consultor...?
– Ao invés de passar outros 37 anos nesse lugar, morrendo aos poucos, eu quero que você trabalhe pra mim. Desse jeito todas as suas dívidas comigo serão debitadas.
– Ei, ei, ei... você quer que eu me torne policial? Tá brincando, né? Isso já é demais! Se você pensa que eu fiquei bonzinho graças a você, tá muito enganado, Luffy.
– Eu não disse isso, eu sei muito bem qual é o seu tipo, Torao! Primeiro deixa eu te explicar o que significa ser consultor, não tire conclusões precipitadas.
– Tá...
– Eu vou te dar liberdade monitorada, e em troca você vai ajudar o governo do seu país, sem remuneração, investigando criminosos como você. E é claro, eu vou ficar de olho em você o tempo todo.
– Em outras palavras, você quer que eu seja o seu cachorrinho particular?
– Sim, você vai fazer tudo o que eu mandar, por mais que não goste.
– E se eu desobedecer uma ordem sua vou preso de novo?
– Se você me desobedecer por qualquer motivo, você volta pra prisão, mas dessa vez é definitivo. Você vai pegar perpétua.
– Tá... então você vai me tirar daqui se eu me tornar um cão do governo? Qual é o sentido disso, Luffy? Botar um criminoso pra investigar crimes. Eu posso te trair a qualquer segundo, sabia?
– Você vai me trair?
– Bom, não, mas...
– Então temos um acordo! E se você fizer alguma coisa contra mim, é só eu te jogar na prisão de novo e tudo volta ao normal. Além disso, só sendo um criminoso pra entender o cérebro de outros criminosos, certo?
– Vem cá, desde quando você tem tanta confiança em mim?
– Eu não confio em você, Torao, mas esses dois anos me provaram que você tem habilidades suficientes pra fazer tudo o que eu quero. E eu realmente acho que você não é tão mal quanto parece.
– Mas pera, esse lance aí de liberdade monitorada. Isso significa que nós dois vamos morar juntos?
– Claro que não, eu não sou doido de ir morar com você de novo. Eu vou colocar um rastreador em você, desse jeito eu posso monitorar onde você está e todos os lugares que você vá pelo meu celular. E esse rastreador só vai te dar uma área de 4 quilômetros, se você passar desse raio ele vai apitar e você vai ser preso de novo.
– QUATRO QUILÔMETROS? Tá louco, isso é pouco demais! Eu tenho mais espaço do que isso morando aqui!
– É por isso que é uma liberdade monitorada, e não uma liberdade condicional. Você vai continuar preso por trinta e sete anos, a diferença é que vai poder sair na rua como uma pessoa normal.
– Então você quer que eu me torne um cão do governo, seja monitorado por você, faça tudo o que você mande por trinta anos e ainda com riscos de pegar perpétua? Não me parece um bom acordo.
– Ah, é um acordo bom pra mim, não pra você. E você só tá pensando no lado ruim, com esse acordo você vai poder voltar a viver fora daqui. Isso também significa que não vai precisar mais ver o Eustass.
– E além de não ver o Kid nunca mais eu ainda não vou precisar esperar um mês pra te ver? É, pensando por esse lado não é uma ideia tão ruim.
– Então você aceita?
– Depende, por que você me quer tanto assim do seu lado? Seu ódio por mim já acabou depois desses dois anos?
– Não é bem assim, Torao, eu nunca vou te perdoar por nada que você fez no passado. Isso também não seria justo com as pessoas que você causou mal, mas...
– Mas...?
– Mas até psicopatas como você merecem uma segunda chance. Além disso, seria injusto manter uma pessoa tão inteligente como você presa nesse lugar, junto com pessoas sem perspectiva de vida. E se eu te mante-se aqui, quando você saísse poderia sair muito pior do que era antes. Estando junto comigo eu vou poder ter a chance de te transformar em alguém melhor. Entende o que eu quero dizer?
– Acho que eu tendi... você acha mesmo que alguém como eu possa ser uma boa pessoa?
– Não sei, isso é uma coisa que você vai ter que descobrir com o tempo. Mas você não vai conseguir descobrir isso estando em um lugar como esse. O que me diz? Aceita minha proposta?
– Antes eu quero saber: tem algum motivo pessoal envolvido nisso tudo?
– Como assim motivo pessoal?
– Tem pessoas mais inteligentes do que eu por aí, fora que eu nem entendo esses lances jurídicos. Quem cuidava dessa parte era o Kid. Pra você ter escolhido, justo um médico pra ser seu consultor, eu devo imaginar que tenha um motivo a mais.
– Você tá achando que eu te escolhi por que eu, supostamente, gosto de você do mesmo jeito que você gosta de mim?
– Não sei... você, supostamente, gosta de mim do mesmo jeito que eu gosto de você?
– B-Bom, eu parei de te odiar de uns tempos pra cá...
– "Não odiar" não significa amar, Luffy. E nessas visitas você parecia sempre cada vez mais aberto.
Law começa a sorrir maliciosamente, deixando Luffy com uma vergonha visível. Parecia até chantagem, mas ambos sabiam que não poderiam mais mentir para si mesmos.
– Eu gosto de você, Torao, e eu vou gostar mais ainda se você aceitar ficar comigo. E então, qual é a sua resposta?
– Se eu aceito ficar com você, bem longe do Kid? É óbvio que eu aceito, Luffy! Mesmo que isso signifique jogar meu orgulho fora.
– Yosh! Eu sabia que você iria aceitar, então já preparei tudo. Você vai passar a morar num hotel perto da minha casa, pra eu poder vigiar você bem de perto. Entendeu?
– Por que eu não posso morar na sua casa? Isso vai tornar as coisas mais fáceis, né? E podemos trabalhar mais tempo juntos.
– Nem pensar, eu sei muito bem o que você vai fazer.
– Vai, deixa! Eu sou rico, posso te dar um bom dinheiro de aluguel. E ainda deixo você me trancar no porão se quiser.
– Então, sobre isso, todo o seu dinheiro voltou pros legítimos donos, e o resto dele também ficou na mão do governo. Atualmente você não tem nada.
– Hã? E-Ei, a maior parte dele eu ganhei trabalhando por anos!
– Não ligo, pro Governo você não passa de um assassino e o seu dinheiro é sujo. Aceita, você perdeu tudo, Torao.
– E como eu vou viver tanto tempo sem dinheiro? Vocês não vão me dar nada, né?
– Calma, a gente vai pagar o seu hotel. O resto você se vira. Vai, agora me mostra a sua perna!
– Minha perna..?
Ele não entendeu muito bem aquele pedido repentino, mas obedeceu e pois a perna sobre a mesa. Luffy pegou uma espécie de tornozeleira e prendeu nele. Ela mostrava uma luz verde.
– É isso que vai te rastrear daqui pra frente. Se a luz ficar vermelha é por que você passou do seu raio de 4KM e vários policiais vão atrás de você, entendeu? Vai acontecer a mesma coisa se você tirá-la, o que é impossível, já que ela não sai.
E estava decidido. Trafalgar D. Water Law passaria a vida servindo aos comandos de Monkey D. Luffy, ao seu lado. Futuramente, eles formariam a melhor dupla de investigação da agência de polícia britânica, Scotland Yard, e seriam reconhecidos por todo o governo mundial.
Antes que os dois saíssem da prisão definitivamente e começassem uma nova vida juntos, Trafalgar vestiu suas roupas comuns, sem as algemas, e foi visitar pela última vez, seu parceiro de infância, Eustass Kid.
Chegando em frente a cela que os dois compartilharam por mais de dois anos, Eustass se assustou ao ver o amigo trajando aquelas roupas, sem estar com os braços presos, ao lado de Luffy.
Ele apoiou-se nas grades e começou a gritar, enquanto Law respondeu com simples palavras e um sorriso sádico em retribuição a tudo o que haviam passado juntos.
– Law..! O QUE SIGNIFICA ISSO?
– Eu te disse, não é? Não tem mais espaço para nós dois em um mesmo time, Kid. Me desculpe, mas você realmente vai morrer sozinho.
– DO QUE VOCÊ TÁ FALANDO? E QUE ROUPAS SÃO ESSAS?!
– Pode gritar à vontade, pode me odiar, pode se arrepender, pode fazer tudo o que quiser. Nós nunca mais vamos nos ver novamente.
– Então você realmente se vendeu àquele merdinha? O QUE DEU NA SUA CABEÇA, LAW? VOCÊ FICOU COMPLETAMENTE LOUCO, ISSO SIM!
– Louco? É, TALVEZ EU TENHA FICADO! — Trafalgar sorriu mais ainda e começou a segurar nas grades, olhando bem direto nos olhos raivosos de Eustass. — EU DEVO TER FICADO LOUCO PRA PERMANECER AO SEU LADO POR TANTO TEMPO, KID!
– VOCÊ É UM INÚTIL, LAW! UM INÚTIL FRACO E VENDIDO!
– PODE ME CHAMAR DO QUE QUISER, A VERDADE NÃO VAI MUDAR! Só existe uma realidade aqui: Você perdeu sua vida no momento em que decidiu me seguir. Sem mim você não é absolutamente NADA!
– Nada..? VAI À MERDA! EU NÃO PRECISO MAIS SEGUIR ALGUÉM COMO VOCÊ!
– É claro que não, porque você simplesmente NÃO PODE. Aceita, Kid, nós dois já fomos parceiros uma vez, mas você estragou tudo. A culpa disso tudo foi sua! Foi sua, por ser tão descuidado!
– Então nesse tempo todo... eu só fui uma marionete pra você? Uma pessoa descartável, não é? Você é um MALDITO DESGRAÇADO! SEM MIM VOCÊ NÃO SERIA NADA!
– É, realmente eu não seria nada sem você. — Ele se acalma e se afasta das grades. — Mas nós dois poderíamos ter tido um destino diferente se você não tivesse se tornado o que se tornou nesses dois anos.
– Esses dois anos só serviram pra provar que você não é capaz de fazer nada sem mim, Law. Você vai ser um completo inútil para o resto da vida!
– A verdade, Kid, é que você foi uma pessoa importante pra mim. No fundo eu realmente gostava de você, até você ficar louco de ódio.
– Mentiroso! Você só diz isso pra eu não ir aí e dar um jeito de te matar. Acha que eu ainda vou acreditar nesse seu papo? Grades não podem me impedir de fazer o que eu quiser com você!
– Acreditar ou não acreditar, isso é uma escolha sua. Eu nunca te obriguei a ficar comigo, nunca te obriguei a fazer nada que você não quisesse. Diferente de você nesses anos, que me obrigou a fazer coisas só pra tentar aumentar esse teu ego ciumento.
– Depois da morte do Kira eu pude ter certeza, Law, não valia a pena seguir uma pessoa como você. Eu não me arrependo de nada do que eu fiz na minha vida e nem me arrependo desses dois anos. Foi divertido enquanto durou.
– Foi, foi realmente divertido, mas agora acabou. Você e eu nunca mais nos veremos. O que nós fizemos juntos no passado foi completamente apagado e acobertado.
– Então dessa vez é uma despedida de verdade?
– É, eu vou passar o resto dos meus dias com o Luffy, e não com você. E mesmo depois de tudo que você me fez passar, eu não consigo sentir raiva de você nesse momento. Eu sinto pena.
– Eu não quero a sua pena, Law!
– Não me importa o que você queira, nossa vida juntos acaba aqui, Kid. Obrigado por ter levado a culpa por mim, mesmo nos últimos momentos você ainda me protegeu. Igual quando éramos crianças, não é?
– É... eu acho que sim.
– Você consegue esquecer seu ódio por mim por alguns segundos? Eu não quero ter de me despedir de você com nenhum desses sentimentos inúteis.
Eustass se acalmou mais um pouco e desistiu de tentar lutar contra aquele novo destino que se formara ali. Ele também largou as grades e os dois ficaram se encarando por um tempo, sem mais nenhum tipo de rancor.
– Tá... eu vou tentar.
Naquele momento, ele havia finalmente aceitado seu destino. Não tinha mais nada o que ele pudesse fazer, já que Trafalgar estava prestes a deixar aquele lugar definitivamente. Não tinha sentido nenhum brigar, só aceitar a realidade cruel.
– Ótimo. Eu vou sentir saudades de você, sabia? Pelo jeito, depois de tanto tempo juntos, eu acabei me apegando a você de alguma forma.
– Eu digo o mesmo, foi realmente bom enquanto durou.
– Quando nós passamos a morar juntos quando criança e a nossa amizade começou de vez, eu senti que nossas almas estariam se ligando. Talvez seja por isso que eu consiga entender a dor que você está sentindo nesse momento. É difícil, não é? Dizer adeus a quem você ama.
– Desculpa... por ter te feito sofrer nesses dois últimos anos...
– Isso não é nada, Kid. Você fez muito mais por mim. Nós brigávamos muito, mas também tínhamos nossos momentos juntos, né? Eu gostava quando você sorria pra mim mesmo eu sendo um idiota egoísta.
– Law, nossa história juntos pode ter terminado externamente, mas eu sempre vou me lembrar de você. Isso tudo não precisa sumir dentro da gente, certo?
– Certo... foi um prazer ter você como meu parceiro, Kid.
– Foi um prazer te seguir por tanto tempo, Law. Tenta não vacilar mais daqui pra frente com o Luffy, viu?
– Pode ter certeza de que não vou. Adeus, velho amigo.
– Adeus...
Para formar um adeus definitivo, antes que pudesse ir embora de uma vez por todas, Law segurou as mãos de Luffy, como um símbolo de que finalmente estavam juntos, e se virou, andando em direção a saída.
Eustass viu naquele símbolo que não tinha mais como recuperar o que já havia perdido. Ele desistiu de tentar perseguir Trafalgar e de forçar-lhe a ficar junto consigo. Já não tinha mais nenhuma esperanças de ter sua paixão adolescente de volta.
No final, demorou, mas ele acabou aceitando que aquela era a vida que seu amigo escolheu. Não tinha mais nada o que fazer quanto aquela decisão, e que talvez, seria realmente melhor deixá-lo livre. Afinal, o que ele mais queria era a felicidade do seu amigo.
Desde que se conheceram, Kid tinha prometido a si mesmo que seguiria Law até seu último suspiro, não importando as atitudes egoístas que ele sempre tinha. E foi isso que ele fez.
Alguns meses depois, Eustass foi achado em sua cela de prisão, morto, enforcado. Ele havia cedido finalmente à morte que Law lançou contra ele. Esse era seu destino, no final de tudo, morrer por seu amigo.
Em sua carta de despedida, ele apenas deixou algumas simples palavras, sem conter qualquer tipo de nome ou identificação.
"Ao garoto debaixo da macieira que conheci, todo reservado e perdido em pensamentos ruins e vingativos, sem nenhuma esperança de crescer e se tornar aquilo que é hoje. Você foi capaz de vencer o que lhe foi imposto quando criança e se tornou um adulto consciente e que sabe o que quer. Você venceu seu destino. Foi uma honra tê-lo seguido até aqui e foi uma honra morrer por ti. Obrigado por tudo."

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