Mãos ensanguentadas
2 Parte 1 - A maldição
Ela tinha acabado de chegar do aniversário da Marina e estava exausta. Tinha dançado muito e achava que nunca mais fosse andar direito. Subiu as escadas devagar, sentindo cada passo. Parou. Algo, alguém estava parado na porta do seu quarto.
Ela os vê, sempre viu, mas nunca tinha visto um assim... No início parecia um anjo, era o mais perto de um humano que já tinha visto. Tinha cabelos anelados, negros como a madrugada, braços com várias cicatrizes, pele acinzentada, rosto triste, olhos brilhantes e ao encará-lo teve a impressão de que jamais seria feliz outra vez.
Esse não tinha chifres nem rabo, mas nas mãos possuía garras e um buraco no peito, onde era possível se ver através dele. Era um demônio.
Encarou-o por um tempo.
– Electus... — ele disse quase em um sussurro.
– Não falo latim. — respondeu
– Eleita...
**
A última manhã de aula daquele ano tinha iniciado com o sol mais quente de todos os tempos. Alice acordou ansiosa. Não era pra saber, era pra ser uma surpresa, mas Marina havia lhe contado. Olhou para a foto delas ao lado de Caíque e sorriu. As férias que batiam na porta prometia ser a melhor de todos os tempos.
Penteou os longos cabelos castanhos que chegavam na cintura, prendeu a franja para trás com um grampo, colocou o uniforme e chamou a mãe que desceu as escadas em cima de um salto fino — Alice nunca entendeu como a mãe gostava tanto daqueles sapatos — o cabelo castanho escuro preso em um rabo de galo e uma calça preta com uma blusa branca simples.
O sorriso da mãe brilhava como em toda manhã. Ela pegou a bolsa em cima da mesa e se dirigiu ao carro, Alice seguiu-a.
Ao chegar na escola foi direto para sala e no caminho encontrou Marina do mesmo jeito de sempre: o cabelo ruivo partido ao meio, liso, chegando ao ombro com uma franja tampando toda a testa. Tinha exagerado menos na maquiagem aquela manhã e o abraço que deu na amiga a deixou sem ar.
– Grande dia!
– Shh... Não era para eu saber. — sorriu.
– Era meu papel te contar, mas o.k...
Terminaram o caminho sem falar nada e quando chegou na sua sala todos a encaravam. Um baú, pequeno, de madeira estava em cima da sua mesa. Um papel envelhecido estava enrolado e amarrado, por cima. Desenrolou-o e encontrou uma única pergunta:
– Só minha?
Sorriu e antes de abrir para ver o que tinha dentro percebeu que havia alguém atrás dela. Se virou e viu um menino, um pouco mais alto que ela, magro, com os cabelos loiros e olhos castanhos: Caíque. Ela o abraçou.
– Sua.
**
– Você não tem o direito de fazer isso comigo!
– Claro que tenho, Electus...
– Pare de me chamar assim!
– É assim que deveria ser chamada...
– Não quero.
– Não há escolha...
– Qual o motivo disso agora?
– Você não pode.
– Não posso o que? Me apaixonar?
Silêncio.
**
Então era verdade, a maldição era verdade e ela não tinha como consertar. Descobriu tudo da pior forma possível. Queria fugir, mas como? Para onde?
A cena da mãe caindo se repetia de segundo em segundo em suacabeça. O susto ao receber um toque, como se a vida a deixasse em um sopro, em seguida o baque, seco.
Onde a mão tocou ficou uma marca da mão ,vermelha, e em seguida começou a sangrar. Sangrava muito, não parava independente do que se fazia, não adiantava tampar, pressionar.
Alice sentia o sangue envolver seus joelhos no chão. E quando as lágrimas chegaram gritou:
– SOLITUDINE!
**
Foi tirada dos seus devaneios por um barulho de porta se abrindo. Correu pela sala, empurrou um espelho e entrou pelo buraco que se abria na parede. Antes de descer as escadas olhou de volta, através do espelho. Um menino tinha acendido a luz e parecia maravilhado com o que via.
Ele era alto, tinha a pele morena, cabelo preto, curto, um pouco arrepiado, olhos verdes e usava óculos quadrados. Bufou.
– Francamente... — falava sozinho — como alguém tem coragem de dizer que um lugar desses é assombrado?!
Ficou de costas para o espelho e olhou para cima encarando um pequeno, mas lindo, lustre.
– Francamente... — ela havia saído do seu esconderijo e o viu virar assustado — você me parece muito novo para morrer.
– Não mais do que você para viver em um lugar assombrado. Suponho que seja a "culpada" de ter dado a fama a casa?
– Talvez.
Ele encarou-a. Os olhos cinzentos dela eram penetrantes, parecia que liam a alma de quem chegasse perto. Os cabelos estavam chegando no joelho, parecia sem corte. Usava um vestido preto, simples, com um tecido leve e com uma faixa na cintura. Andava descalça.
– Se fosse esperto não viria aqui – ela disse por fim.
– Não acredito em assombração.
– Mas está olhando para uma agora.
– Você? Você é só uma menina normal, deve ter 16 anos..
– 17.
– Am?
– Nada. — andou para o lado e se sentou em uma poltrona — Não costumo receber visitas de estranhos.
– Olha... tirar o sangue da porta ajudaria, sabia?
– Acho que colocar o seu ficaria mais interessante — sorriu.
– Acha que me passa medo? Sou mais forte do que você, não é como se você fosse me dar um tapa e eu cair morto.
– Na verdade é menos que isso.
– Aah, chega. Vou embora.
– Se voltar, não vai sair... Sabe como é, preciso manter a lenda. E não ouse contar que me viu.
– Por quê?
– Porque todos acham que morri. — ela se levantou, passou na frente dele e subiu as escadas que ficava do lado da porta.
Ele esperou um tempo, achou que ela fosse voltar, mas não voltou. "Doida" pensou antes de sair e fechar a porta. Não ficou impressionado ao voltar e encontrar a rua vazia, era óbvio que achavam que ele não sairia de lá. Tolos.
Fechou o casaco preto que vestia, colocou as mãos nos bolsos da calça, olhou para o chão e foi andando para casa.
**
Ela subiu as escadas e abriu a primeira porta no corredor a esquerda: seu quarto. Uma cama de solteiro no centro, embaixo da janela. Fotos com várias pessoas espalhadas pelas paredes, uma poltrona no canto, com uma mesinha e em cima dela uma caixinha preta de corações prateados.
Ela o viu saindo pelo quintal, sem olhar para trás. Torcia para que ele virasse e voltasse para conversar... Sentia-se tão sozinha. Deu as costas para janela e viu alguém na sua poltrona.
– Solitudine...
– Electus...
– O que quer?
– Você sabe.
– Veio me "aconselhar" — a palavra soou como se fosse capaz de bater em alguém — sobre a visita daquele menino?
– Não. Vim apenas lembrar-lhe do perigo que cerca quem você chega perto.
– Como se eu não me lembrasse disso todos os dias.
– Você fala como se fosse algo ruim.
– "COMO SE FOSSE?" COMO? — estava gritando — Você é um demônio, um ser sujo que só serve para estragar a vida dos outros. Não é porque a SUA maldição foi ficar sozinho que tem que descontar EM MIM! — ela viu os olhos dele brilharem.
– Você ainda não entende... Parece uma menina mimada. Fiz um favor a você e ainda irá me agradecer. Espere ela entrar em contado.
– É o que você sempre diz "espere ela, espere ela". — sentou-se de costas para ele, na beirada da cama — Quando ela vem, afinal?
Não obteve resposta, ele tinha ido embora. Bufou.
– Já perdeu a graça sumir desse jeito — revirou os olhos, deitou e dormiu.
**
Ele queria que os sonhos deles parassem de ser perturbadores. Nunca dormiu bem e agora chegou a um ponto onde não dormia. Os pesadelos tinham aumentado depois que se mudou para aquela cidade. Levantou-se. Não ia ficar ali com os olhos vidrados no teto, já que não dormia decidiu andar e de repente se viu na porta da casa de pedra branca.
Como suspeitou a porta não estava trancada, se ninguém ia lá, realmente, não tinha necessidade. Olhou o relógio no pulso: 3 horas da manhã. A menina iria ficar furiosa.
Olhou a sala e não viu ninguém, então subiu as escadas. Uma porta de cada lado do corredor, escolheu a da direita e abriu. Era uma sala quase vazia no que se referia a móveis, tinha apenas um tapete beje e uma cadeira de madeira que parecia ser bem antiga.
Já nas paredes não se encontrava espaço vago. Era inteiramente preenchida por recortes de vários jornais, alguns de dois anos atrás, outros mais recentes. Fotos dela, Alice, escrito em cima "Desaparecida". Fotos do rosto de um homem jovem, identificado por "Pablo Allbers".
Ia ler a manchete que acompanhava a foto, mas foi interrompido:
– Sério? As três horas da manhã?
– Desculpa, sei que a casa não é minha, mas não consegui dormir.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Não sei, quando vi já estava aqui.
– Então já pode ir...
– Qual seu nome?
– O que?
– Seu nome... Se vamos ser amigos preciso saber seu nome. — ela assustou.
– Amigos? O que te faz pensar que seremos amigos?
– Bom... pelo visto ninguém tem coragem de vir aqui, então sou a única pessoa que tem pra conversar e eu sou novo na cidade, não conheço muita gente, só o Caíque e o Max.
– Caíque? Você conhece o Caíque?
– Seu nome primeiro.
Ela enrubesceu.
– Alice.
– Prazer, Thiago. — Ele sorriu e estendeu a mão, ela recuou. — Eu só queria lhe cumprimentar — falou e colocou a mão de volta ao lado do corpo.
– Você não entende... — ao dizer aquilo ouviu a voz de Solinitude em sua mente, arrepiou.
– Então explica.
– História longa.
– Tenho a noite toda.
– Já passou pela sua cabeça que talvez eu não tenha?
Ele sorriu.
– Você é tão só quanto eu.
– É o que pensa...
– Vai explicar ou não?
– Vai me deixar em paz depois disso?
– Não prometo nada, mas posso tentar.
Ela ia começar a história quando uma pessoa cinzenta apareceu atrás dele:
– Não faça isso.
– Me impeça! — falou olhando para trás de Thiago.
Ele deu uma volta, confuso.
– Tá falando com quem?
– Com o culpado por todas essas notícias na parede.
O demônio sorriu, não fazia isso com frequência, era solidão, era triste, então o sorriso parecia sempre algo grotesco.
– Vai prejudicá-lo, Electus...
– Ele se prejudicou quando veio aqui pela primeira vez e decidiu voltar.
– Mas ainda há como deixá-lo de fora disso.
– Pra que? Ele vai morrer de qualquer forma, não é?
– Chega! — Thiago olhava-a incrédulo — Primeiro você fala que é uma assombração, depois começa a falar sozinha e ainda diz que vou morrer, como se eu não estivesse aqui para escutá-la. Estou achando que fizeram foi te prender aqui, você é louca.
– E é exatamente por isso que não tento explicar nada a ninguém — seu olhar ficou rígido. — Saia.
– O que?
– Isso mesmo que você ouviu, saia.
– Mas... — bufou — Como queira "assombração". — Usou todo o veneno que podia ao pronunciar aquela palavra.
Ela ouviu a porta bater e cedeu, caiu sentada com os cabelos no rosto.
– Satisfeito? — perguntou ao demônio.
– Não. Você sabe tanto quanto eu que ele irá voltar.
– O que faço então?
– Tranque a porta.
– Mas... Henry.
– Ele irá bater. — e dizendo isso sumiu, novamente.
**
A porta trancada transmitia a maior sensação de ser prisioneira que já teve. Fazia três dias que ela não se abria, três dias sem ninguém. E se o irmão tivesse tentando entrar? E se não tivesse batido? Ele sempre vinha na quinta durante a noite, mas dessa vez não apareceu. Pensou em destrancar a porta, mas antes de levantar Solenitude apareceu na frente dela.
– As vezes acho que você lê meus pensamentos...
– Poderia, se quisesse.
– Vai me dizer que nunca leu? Durante dois anos aqui comigo, você nunca leu?
– Nunca. — pareceu sincero.
– Mas é o que deveria fazer, não é?
– Sim.
– É por isso que parece se apagar cada dia mais?
– Do que está falando?
– Bom, você é o demônio da solidão... Ler pensamentos é o que deveria fazer para se manter "vivo", sua energia vem disso, não vem?
– Vem.
– E ao mesmo tempo que te mantém, te castiga. — os olhos deles brilharam novamente. — O que você fez?
– Mais uma vez essa pergunta?
– Depois de tanto tempo praticamente só com você, achei que poderia responder.
– Não posso. — ele falou olhando para o lado.
– Na verdade não quer.
– Não, não quero.
– Mas me deve isso.
– Não te devo nada! — levantou o tom de voz fazendo-a se encolher na poltrona.
– Deve sim e muito. Me deve uma vida, me deve amigos e mais do que tudo, me deve explicações.
– Sempre o mesmo argumento.
– É o mais forte que tenho e é a primeira vez que o uso e você não desaparece.
– Realmente...
– Decidiu ter um pouco de compaixão?
– Sabe que mesmo querendo não poderia ter.
– Na verdade pode, eu sei que esse sentimento te corrói, mas não consegue demonstrar.
Ele a olhou, meio de lado.
– Não entendo como consegue saber tantas coisas e ao mesmo tempo não saber nada.
– Sei porque convivo, querendo ou não, com você. Vejo seus olhos brilharem, vejo a tentativa de sorrir, mas no final seus olhos sempre apagam, sua boca entorta e a sua maldição o cala.
– E você ainda acha que a sua maldição é ruim.
– E tenho toda razão, é ruim. Nunca disse que era pior do que a sua.
Ele saiu de frente da porta, caminhou sobre o tapete branco da sala, sentou nele de frente para Alice e olhou para o buraco no peito. Naquele momento, mais do que qualquer dia, a expressão de tristeza no rosto dele aumentou e ela achou que fosse chorar ao encará-lo daquele jeito.
– Faz muito tempo.... — Começou — Sua família nem pensava em existir.
Ela corrigiu a postura na cadeira e se preparou para ouvir a resposta para o que tanto perguntava. Colocou o queixo nas mãos e sentiu seu coração acelerar.
– Eu era um anjo. Não nasci demônio, surgi no paraíso... Não suspire, não é tão bom quanto parece. Na verdade, talvez seja, mas para os humanos que o alcançam. Para os anjos é difícil, não chega a ser ruim, afinal, é o paraíso, mas como deve saber somos guardiões e isso sim é difícil. Lhe dar com vocês não é fácil, ainda mais quando não somos vistos e não podemos influenciar diretamente. Tentar guiar quem não quer ser guiado é praticamente impossível.
“Bom... Estou assim, aqui, agora, porque desrespeitei a principal regra do céu e intervir mais do que diretamente na vida de um ser humano. O nome dela era Alice, sim, o mesmo que o seu e só não digo que é ela porque os olhos dela eram azuis como o mar, a personalidade era mais agitada. Ela, mais do que ninguém, precisava acreditar em nós, anjos e em Deus. Mas ela não acreditava em tudo.
Eu recebi a missão de protegê-la, digamos que ela era muito importante, mas era extremamente nervosa e impulsiva. Nunca tinha visto uma pessoa tão complicada, ainda mais naquela época. Estou falando do ano de 1484. Idade Média. Exatamente no ano em que a Igreja reconheceu a ”existência” de bruxas que atuavam contra o cristianismo e promoveu uma caça a elas."
– Porque ela tinha que acreditar?
– Alguns segredos do Céu não são revelados, nem mesmo, a um anjo. Pelo menos não a mim. Não duvido que outros soubessem, o problema é que fiz besteira antes mesmo de descobrir. — Respirou fundo e continuou a história.
" Em uma noite ela se meteu em grandes problemas. Alice vinha de uma família muito simples. Assim como você perdeu a mãe e o pai se afastou. Ela ficou com duas irmãs mais novas e não tinha muito o que fazer pra mantê-las vivas.
Ela sempre roubava comida, mas alguém parecia ter dedurado-a porque simplesmente sabiam quando e como ela iria tentar roubar alguma coisa. Dois homens a pegou em flagra, seguram-na pelos cabelos e a levaram para longe de todos.
Bateram nela como jamais vi baterem em alguém, parecia que queriam todos os ossos dela quebrados. Foi quando intervi. Humanos não aguentam ver um anjo na forma que ele é, nossa luz, minha antiga luz — corrigiu-se — os queimavam.
Ela estava desacordada, então, tecnicamente, não tinha com o que me importar, revelei-me e os dois se foram. Peguei a menina frágil nos braços e a levei para perto de casa, mas onde ninguém conseguisse nos ver. Assumi a forma de um humano pra poder curá-la, ficar por perto quando ela acordasse e assim foi.
Mas por algum motivo ela sabia tudo que tinha acontecido, sabia que eu era um anjo e não um humano qualquer que a tinha salvado e isso só complicou. Ela começou a fazer perguntas, a me chamar toda hora e saiu dizendo que podia ver anjos, falar com eles e de fato podia.
A Igreja, claro, a acusou de ser bruxa. "Não é possível ver anjos" eles diziam. Assim ela foi para a fogueira e eu caí".
Um silêncio percorreu todo o ambiente, a garganta dela parecia ter secado, não conseguia pronunciar uma palavra. Ele tirou os olhos do chão e olhou.
– Satisfeita?
– Não exatamente...
– O que mais quer saber?
– Você caiu e virou um demônio, mas qual o motivo de ter virado o demônio da solidão?
– Por ter ficado amigo de uma humana por 3 meses. Seres divinos e humanos não são aceitos, não foram feitos pra conviver dessa forma. Acho que se fosse possível eu caia duas vezes, mas em vez disso caí uma e recebi um novo nome: "Solinitude", Solidão e com o nome veio a maldição. Meu corpo se transformou, sentimentos bons passaram a me sufocar e nenhum demônio se aproximou de mim.
–“Seres divinos e humanos não são aceitos”, mas pelo visto não há restrição quanto a demônios.
– Não tem motivo pra ter. Os humanos não são capazes de nos ver e não temos interesse na vida deles para aparecer.
– Mas eu vejo...
– Você é um caso a parte. E mesmo vendo, com quantos já conversou?
– Só um.
– Exatamente.
– Mas não podem te prejudicar por isso? – ele riu com a pergunta.
– Me prejudicar? Eu já caí, já recebi uma maldição, como isso poderia piorar?
– Te matando? – ele bufou.
– Voltamos à parte em que penso que você não sabe nada.
– O que falei de mais?
– Me matar? Isso seria uma espécie de prêmio e não de castigo. Minha maldição sairia, voltaria como alma de humano e tentaria chegar ao céu.
– Matar um demônio faz ele virar humano?
– Claro que não.
– Mas você...
– Só em alguns casos. Quem nasce demônio sempre será um. Mas demônio não faz parte de quem realmente sou, faz parte de como estou agora, antes fui um Anjo.
– E qual era seu nome antes disso tudo?
– Balthioul — respondeu devagar — Significa "aquele que pode impedir a angústia". Ironia não, visto que o que mais me domina agora é a angústia?!
– Isso é crueldade...
– Talvez.
– Talvez?
– Desrespeitei a maior de todas as leis, Alice. Então aceitei o que aconteceu. Assim como espero que aceite o que fiz com você...
Antes que pudesse gritar "Nunca" alguém bateu na porta e ele desapareceu.
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