Mãe? Eu?!

3 No Chalé das Conchas


— Estou exausto. – declarou Lys.

Eles caminharam até o centro comercial de Ottery St. Catchpole, a cerca de vinte minutos da Morada. Na Morada, ou as pessoas levavam o próprio almoço ou iam comer em outro lugar. Aos arredores da Morada, Ottery St. Catchpole não tinha opção nenhuma, nem restaurantes, lanchonetes ou barracas para comer. Lys e Dominique escolheram aquele lugar para construir a Morada exatamente por isso. Para que a calmaria ajudasse os animais a se recuperarem mais rápido.

Já na pequena cidade com comércio e uma feira de quinquilharias havia certas opções para o almoço. Também havia um cais com várias embarcações paradas no porto ou no mar com a tripulação pescando. Havia uma praia de água cristalina abaixo do cais, que era acessível por uma larga escada de degraus coloridos.

Lys, Dominique e Ben decidiram almoçar peixe frito empanado, acompanhado de batata frita e vinagre. Ben, no entanto, não parecia com fome. Sentados na parte externa de um pequeno restaurante, sentindo a brisa marítima e ouvindo o som das aves, das ondas do mar se quebrando na praia, das pessoas andando pela feira ou almoçando, Dominique estava sonolenta.

Lys observou Ben, que estava com a cabeça baixa e o corpo jogado.

— O que aconteceu?

— Os pelúcios. – explicou Dominique.- Eu contei porque não conseguiam enxergar. – disse em tom de desculpa.

Lys deu uma bronca nela com os olhos.

— Ben, você está bem? – perguntou Lys.

— Queria ir pra casa. – ele confidenciou.

— Queria poder te levar também. – Lys o consolou. – Mas eu tenho uma boa notícia pra você. Falei com uma amiga nossa hoje e você é realmente um bruxo. Você tem uma vaga na escola de Hogwarts.

— Eu vou morar lá? – perguntou Ben, se atrevendo a pegar uma batata frita.

— Quando fizer onze anos vai receber uma carta de uma coruja e vai ir para a escola. – explicou Lys.

— E até eu fazer onze anos? – perguntou Ben.

— Isso... Nós ainda vamos descobrir juntos, está bem?

Benjamin concordou, pegando as batatas timidamente, mastigando devagar.

— O que mais a Rosa falou? – perguntou Dominique.

Rosa trabalhava no Ministério, na Cúpula dos Guardiões, que era um departamento para melhor relacionamento político entre bruxos e seres mágicos racionais. Mas ela era também muito bem relacionada no Ministério da Magia.

— Ela vai falar com alguns conhecidos. – Lys deu de ombros, deixando claro que não queria tratar do assunto perto de Ben.

— Está bem. Coma, Lys. Você tem um lago para transformar em habitat japonês ainda hoje.

Lys suspirou.

— O Kappa parecia um macaquinho de cabelos lisos. – Ben soltou um pouco mais animado.

[...]

À noite, quando os três entraram, estranhamente, pela porta da frente do apartamento e pediram ao Ben que fosse tomar banho, Lys jogou um abaffiato nas paredes do banheiro.

— Nós podemos conseguir a guarda temporária dele. – soltou para Dominique, que estava deitada na cama com os olhos colados no teto de cansaço

Ela se levantou, exasperada.

— Como você espera que eu cuide de uma criança em luto, Lys? Eu o fiz chorar hoje à tarde. Eu não sirvo pra... Não sirvo pra ser suporte de ninguém.

Lys apoiou as mãos nas costas da poltrona, olhando diretamente para Dominique, sem alterar o tom de voz.

— Você fez uma escolha. Você o trouxe para cá. Você não pode largá-lo agora. Ele não é um projeto, Dominique. Ele é um ser humano.

— Exatamente por isso.— respondeu Dominique querendo gritar. – Se fosse um projeto eu poderia largá-lo no futuro, caso não quisesse mais. Eu não posso me responsabilizar por uma vida.

— Você fez sua escolha ao trazê-lo para cá. – repreendeu Lysander.

— Você quem entendeu assim porque já queria um filho. Eu só quis protegê-lo daquela situação.

Lysander não acreditou na besteira que Dominique estava falando.

— Você sabe que não tem a ver com meu desejo de ter um filho. Eu não sou egoísta a esse ponto. Ele é agora um garoto órfão. Você o tirou de uma situação terrível. – semicerrou os olhos para ela.

Dominique relaxou os ombros.

— Está bem. Eu estou apenas assustada, ok?

— Ele está muito mais. E é pequeno e não tem mais ninguém, além da mulher que o tirou da rua quando ele saiu magicamente do meio do fogo.

Dominique foi até Lysander e o abraçou. Ele tinha o dom de desembaralhar todas as dúvidas de sua cabeça como se fosse sua Pena Autocorretiva particular.

— Eu não sei se consigo Lys. Não posso te dar essa esperança e depois decepcioná-lo. Decepcionar os dois. Estou avisando que não.

— Por enquanto será temporário. – prometeu Lysander.

— E depois? – perguntou Dominique, já sabendo de antemão que o desejo no coração de Lys era ser pai de Benji.

Ela olhou para seus olhos feridos e castanhos escuros, em que conseguia ler todos os desejos e toda a esperança que ele não quis expressar em voz alta.

— Não posso prometer que não quero tentar. Não posso te dizer que eu não espero que você perceba o quanto podemos amá-lo. Eu espero que você perceba.

As cartas estavam na mesa. Dominique tinha dúvidas, Lys tinha uma certeza. Mas, como Lysander já tinha deixado claro, o importante no momento era o bem-estar de Benji.

— Pode falar pra Rosa que queremos a guarda. Temporária. E perguntar quais são as próximas opções que Benji tem para um futuro sem nós.

— Pode deixar. – Lysander afagou os cabelos dela, enquanto Dominique respirava baixinho em seu peito.

[...]

— Você vai ficar conosco por um tempo. – falou Lysander para Ben, de cabelos molhados, sentado na cama e lendo O Pasquim com prazer.

— Você está falando sério? – os grandes olhos dele se abriram em alívio.

— Eu geralmente só debocho da Dominique. – riu Lysander.

Ben deu um sorriso tímido. Dominique estava bebendo um copo de soda com xarope de cereja. Decidiu adiar o álcool àquela semana.

Ela se sentou na beirada da cama também, com um coque mal feito nos cabelos loiros.

— O que acontece com os bruxos quando morrem? – perguntou Ben de repente.

Dominique olhou desesperada para Lys por cima da cabeça do garoto, para não ter que responder.

— Eles prosseguem. – respondeu Lys.

— Que isso significa? – rebateu Ben.

— Que vão para além do que conhecemos. Outro mundo.

— Como o céu?

— Talvez.

Ben ficou pensativo por um instante.

— E o que acontece quando os trouxas morrem?

— A mesma coisa. – Dominique respondeu, surpreendendo a si mesma e ao Lys.

— Então não é como dormir pra sempre sem sonhar? – tornou a perguntar Ben, a revista já esquecida no colo.

— Não.

— Como é que você sabe? – teimou ele.

— Em Hogwarts eu conheci alguns fantasmas. Pessoas mortas que não prosseguiram. Com certeza há outro mundo. – Dominique desatou a falar.

— Fantasmas?

— Sim. Mas só bruxos podem virar fantasmas.

Ben baixou o olhar para a revista. Lys ficou observando-o de um lado da cama, Dominique de outro.

— Morrer queimado dói? – perguntou por fim, num fio de voz.

— Seus pais não morreram com o fogo. Morreram respirando monóxido de carbono da fumaça. Isso os fez dormir antes de... – Dominique parou de falar.

Ben olhou para Lys, como para ter certeza de que Dominique estava falando a verdade. Lys assentiu com a cabeça.

Benjamin pareceu extremamente aliviado.

[...]

— Como você sabia a história do monóxido de carbono? – perguntou Lys, aninhando Dominique em seu peito, os dois grudados no sofá da sala.

Benjamin estava dormindo na cama deles, impossibilitando-os de se tocar ou conversar adequadamente.

— Troquei cartas com a Alice. – Dominique deu de ombros.

— Eu sei que você não quer ser mãe, Dominique. Mas isso não te faz uma pessoa menos indicada para cuidar de alguém. Você é fantástica.

Dominique foi a pessoa que sempre achou Lys fantástico, não o contrário. Pelo menos não com essa palavra específica.

[...]

Durante a semana Dominique evitou qualquer assunto ligado a fogo, queimaduras e fumaça. Ela, Lys e Ben aparatavam até a Morada depois do café, onde ficavam até cinco da tarde e voltavam para casa.

Holly virou fã do garoto Ben. Ela cuidava dele com freqüência enquanto Lys e Dominique trabalhavam.

— Como assim você não sabe se quer ficar com ele pra sempre? Se você o largar por ai peço demissão!— esganiçou ela quando Dominique desabafou.

No sábado de manhã, Dominique se preparava para ir até o Chalé das Conchas.

— Você não quer ir conosco? Henry vai estar lá. – argumentou Dominique.

— Tenho que ir até a Morada. Atrasei muito com as visitas ao Ministério. – ele explicou, beijando-lhe a testa. – Vocês dois se divirtam. Sem fogo, Dominique, por favor. – advertiu ele pela enésima vez.

Dominique fez careta.

[...]

Fizeram piquenique na praia. Victorie pouco ia à praia (que era seu quintal) antigamente, quando se casou com Ted, mas quando recebia visitas, ela adorava. Principalmente agora que estava numa fase bem mais animada de seu casamento.

Ela foi a primeira neta da senhora Weasley. Quando começou a namorar Ted, no quinto ano, se tornaram um casal completamente apaixonado. Casaram-se cedo por achar que a paixão duraria para sempre.

Quando Victorie percebeu que o casamento estava virando um tédio e Ted tinha mudado de namorado apaixonado para marido acomodado, ela o largou e deixou apenas um bilhete. Àquela época, Dominique tinha se formado em Hogwarts e estava viajando sozinha pelo mundo. As duas se encontraram, viajaram e aproveitaram a vida. Quando Victorie voltou, a muito custo fez as pazes com Ted e decidiu encontrar uma profissão que lhe fosse mais agradável.

Ela ainda não tinha achado, mas viajava com Ted pelo menos uma vez por mês, nem que fosse por um final de semana.

Victorie era uma mulher loira de cabeços quase esbranquiçados, mais alta que Dominique, os olhos azuis muito claros, a pele rosada e os lábios redondos. Estava vestindo um chapéu de palha para se proteger do sol. Dominique se esqueceu completamente disso, portanto, viraria um pimentão.

— Ele é fácil de conviver. – comentou Victorie, sentada na toalha xadrez, arrumando potes de geléia e chocolate em pasta para passarem em torradas e pãezinhos.

Ben estava empinando pipa com Henry na brisa da praia. Dominique não sabia o que era isso, mas Henry parecia familiarizado, por ter nascido aborto. Ele sim, Dominique percebeu, nasceu com tudo para ter uma família de vários filhos junto com Roxanne.

— Dominique. – chamou a voz de Victorie, tirando-a de seus devaneios.

Ela olhou para suas três companhias. Roxanne encravava um guarda-sol na areia, tomando conta da pequena Pandora. Pandora era a filha de poucos meses de Molly, que estava de plantão no hospital. Molly e Roxanne eram medibruxas, mas Molly sempre parecia mais atarefada que Rox. Ted também estava trabalhando (era auror).

— Eu quero uma porção deles. – Rox comentou, fazendo o carrinho mágico de Pandora se ninar sozinho. Era um carrinho sem rodas que levitava ao lado de Rox, com uma proteção invisível do sol, envolvendo-o como uma bolha invisível.

Rox se joelhou e pegou um cupcake (Henry era ótimo na cozinha) (mais um motivo para ele ser pai de alguém, não Dominique).

— Não vejo o motivo claro de você não querer a guarda para sempre, maninha. – Victorie provocou.

Dominique, sentindo a pele torrar, fuzilou Victorie com o olhar:

— Não foi uma decisão. Eu nunca pensei “nossa, vou me casar e ter filhos” como a Roxanne.

— Você nunca planejou nada a não ser sua viagem depois de Hogwarts. – alegou Victorie. – Você viveu sua vida improvisando.

— E isso é uma coisa ruim? – resmungou Dominique. – Onde está o creme para eu passar no corpo? Estou me sentindo no inferno.

Roxanne entregou a pasta esbranquiçada para ela num tubo.

— Não é uma coisa ruim. É simplesmente como você é. Isso não quer dizer que você não serve pra ser mãe. – Victorie continuou argumentando.

— Acho que a maternidade é uma decisão, não uma improvisação na vida. – ralhou Dominique. – BENJAMIN! – chamou o garoto lá na frente, que estava com um riso estampado no rosto ao lado de Henry, ambos empinando a pipa.

Henry pegou a linha da pipa enquanto Ben foi verificar o motivo do grito de Dominique.

— Passa isso no corpo. – Dominique estendeu o tubo para ele. – Protege do sol.

— Protetor solar?

— Quê?

— É como chamamos a coisa melequenta que protege do sol.

Dominique fez cara de tédio.

— Não entendo dialeto de trouxa. Passa a pasta e pode ir empinar seu pedaço de papel.

— É uma pipa.

— Tá, tá.

[...]

— Vocês se divertiram? – perguntou Lys, recebendo-a na cozinha. Benji estava queimado e cheio de energia. A pipa, felizmente, tinha sobrevivido ao dia intenso. Era vermelha e foi deixada na porta quando eles entraram. Ben correu porta adentro, fazendo uma sujeira enorme de areia ao passar pelo chão.

Dominique praguejou.

Lys percebeu que ela estava prestes a dar uns gritos quando girou a varinha e fez a vassoura começar a varrer o cômodo, nos pontos em que Ben sujava. Ele já estava no banho.

Dominique largou uma sacola no chão (também suja de areia), colocou a mochila no balcão e suspirou alto.

— Roxanne e Henry. – falou para Lys, que estava entretido na cozinha, fazendo algo que cheirava deliciosamente a curry.

— O quê? – perguntou Lys, virando-se para ela.

— Eles querem um monte de bebês. Bebês loiros, morenos, negros, japoneses. Crianças pequenas, médias, grandes. É o sonho de vida deles.

Lys entendeu rápido demais. Apoiou os braços no balcão.

— Roxanne falou alguma coisa?

— Eu pensei. Ele e Henry se dão muito bem. Roxanne fica mais com a Pandora do que a Molly.

Lys remexeu o corpo, visivelmente perturbado.

— Henry se dá bem com todas as crianças.

— O que foi Lys? – perguntou Dominique. – Eu achei que você soubesse, no seu coração, que era temporário. Eles são pessoas maravilhosas.

A cozinha parou de trabalhar, como se toda força de Lys tivesse sido arrancada dele. Ele deu a volta pelo balcão, chegando até Dominique. Seus olhos estavam tão magoados que Dominique só o lembrava de tê-lo visto assim quando descobriu que Lorcan tinha sido mordido por um lobisomem.

Ele olhou diretamente nos olhos dela:

— Eu quero ser pai dele. – entoou, como se não fosse mudar de ideia. – Quero encontrar uma forma de amá-lo corretamente. Com você.

Dominique sentiu raiva. E confusão. E uma tristeza tão repentina que pareceu sair do corpo, ver uma cena que não era da vida dela, que não fazia parte dela e de Lys, uma sombra estranha os afastar de uma maneira rápida e dolorosa.

— Talvez você deva ser o pai e eu não possa ser a mãe. – respondeu, ouvindo o chuveiro de Ben se desligar.

Lys ficou olhando para ela, o olhar ressentido. Deu passos vacilantes em sua direção. Beijou-a na testa, como Dominique tanto gostava. Depois voltou sua atenção ao curry.

— Lys... – Dominique tentou.

— Não tem toalha! – gritou Benji lá do banheiro.

Lys deu um pequeno sorriso entristecido. Dominique saiu praguejando para entregar-lhe uma toalha seca.

Notas finais
Oi! Obrigada pro pessoal que tá comentando! Quem está lendo e não comentou, por favor, diga o que está achando, porque tenho muitas ideias pra essa fic e não quero desanimar. Mande um "alô" se for possível, ao menos :) —//- Agora, recentemente vi uma fanfic provavelmente "inspirada" no meu plot central. E tenho quase certeza que o/a autor[a] (não quero expor ninguém) é fantasma aqui. Eu quero dizer pra você que eu sei que não se trata de "plágio", mas você basicamente roubou meu plot principal. Já passei por isso. Pra mim, é tão ruim quanto ser plagiada. Mas quero dizer que não vou fazer nada de mais. Nem te expor, nem te xingar, nem te achar a pior pessoa do mundo. Só espero que, como escritora, você evolua sua criatividade e seus enredos para não precisar mais copiar os dos outros. Ainda mais de uma colega que, como você, escreve sem receber nada em troca (apenas os lindos comentários do pessoal). De resto, leia mais, pesquise mais, adquira mais conhecimento. Esse é um bom conselho pra não pegar ideia de uma fanfic de plot bobo que está sendo postada. Obrigada pela atenção e espero que goste da Mãe? Eu?! apesar de eu saber que você não vai comentar que lê.