Mãe? Eu?!

2 A Morada Para Animais Fantásticos


Notas iniciais
Hey õ/ Antes do capítulo só quero dizer que embora essa coisa de animais fantásticos não seja minha praia, eu tive a ideia da Morada há uns dois meses e não podia deixar de inclui-la. Na minha cabeça ela é linda, espero que a descrição dela tenha ficado fidedigna ♥

Ela e Lys não se falaram o domingo inteiro. Lysander mandou uma coruja para Henry na noite anterior, o noivo de Roxanne, e Lys foi com ele e Benjamin fazer umas compras.

Henry contou a “novidade” para Roxanne, que contou para Molly, que apareceram durante a tarde na porta de uma Dominique abismada pela intromissão na vida alheia.

Victorie já estava no apartamento discutindo alternativas com a irmã.

— O que vocês queriam que eu fizesse? – esganiçou Dominique aturdida. – Ele estava confuso, com medo e sozinho. O prédio desabou, maldição!

Molly, Roxanne e Victorie tinham opiniões divergentes.

Molly, que tinha se tornado mãe recentemente, não gostou de Dominique ter “roubado” Benjamin do meio da rua.

— Você podia ter alertado o Ministério da Magia. – opinou.

— Eu estava bêbada. – resmungou Dominique. – E estava um caos, dava um medo dos infernos ficar lá.

Já Roxanne achou que tinha sido o destino. Bem quando Lysander e Dominique estavam debatendo sobre ter filhos, Benjamin tinha cruzado com ela. Eles eram predestinados ou algo parecido.

— Pare de tomar chás alucinógenos. – rebateu Dominique, irritada.

Victorie foi a mais sã de todas. Mais velha e mais experiente, ela deu de ombros e explicou que Dominique não tinha muita escolha.

— Ele acabou de passar por uma situação traumática. Ele passou a confiar em você. Você não pode simplesmente abandoná-lo.

Dominique queria muito abandoná-lo, principalmente de volta na noite anterior, andando sozinho na rua, se tivesse a chance.

Mas é claro que não faria isso. Ela tomou mais um gole do hidromel, o estômago reclamando pelo segundo dia consecutivo a receber álcool, porém Dominique realmente precisava beber.

[...]

Ela não conseguiu dormir direito. Por mais que tivessem o sofá e Lys tivesse comprado uma pequena cama de armar, Benjamin tinha pesadelos horríveis. Ele dormiu entre eles, de mãos dadas com Dominique.

Dominique não estava acostumada a esse tanto de gente em sua cama. Nem num corpo tão pequeno perto do seu, respirando alto, gemendo esporadicamente pelos pesadelos e agarrando suas mãos.

Tanto ela quanto Benjamin levantaram antes do sol. Ele por um pesadelo envolvendo muito fogo e ela pela estranheza em sua própria cama.

— Bom dia. – Benjamin disse com os olhos remelentos, sentado na beirada da cama, enquanto os primeiros raios de sol invadiam a janela gigantesca que tinham na sala.

Dominique estava saindo do banheiro. Ela nunca se trocava no banheiro, mas era extremamente desconfortável trocar de roupa na frente de uma criança.

Depois ela não soube o que fazer. Ela podia fazer o café, mas Lysander era muito mais rápido e muito melhor nisso que ela. Ele fazia alguns feitiços não-verbais e a cozinha inteira começava a trabalhar. Decidiu esquentar o café com um feitiço mais comum e encheu uma caneca.

— Bom dia. – resmungou de volta para Benjamin.

— Vocês são mágicos? – perguntou ele, sentando no chão aos pés dela, que estava na poltrona.

Dominique o fitou. Ele tinha olhos simpáticos, mas o rosto ainda carregava uma melancolia visível.

— Somos bruxos. – respondeu ela, tentando parecer gentil. – Provavelmente você também.

— Eu? – Benjamin perguntou visivelmente surpreendido. – Não consigo esquentar o café com isso ai... – ele apontou para a varinha dela, pousada no braço da poltrona. – Nem acender as velas.

— Porque você é criança. Você tem que entrar na escola antes. – ela explicou, tomando o café com gosto.

— Eu ia para escola. – Benjamin teimou.

— Uma escola para aprender mágica.

— Nunca ouvi falar.

— Não me diga. – Dominique desdenhou dele. – Você vivia no mundo de trouxas. Gente que não pratica magia.

Benjamin baixou os olhos.

— Meus pais eram trouxas?

Dominique ficou sem graça e incomodada com a situação.

— Sim.

— E o que vai acontecer comigo?

Dominique não fazia nem ideia do que ia acontecer com ela, quanto mais com Benjamin.

Foi salva de responder pelo desperto Lysander, que botou a cozinha toda para trabalhar e foi até eles. Ele tinha dormido vestido com calças e camiseta, coisa que nunca fazia. Deu um leve beijo na boca de Dominique.

— Bom dia Ben. – ele desejou, antes de se dirigir à cozinha. – O que você quer comer?

— Bacon com cereal. – Benjamin respondeu sério, achando que ia levar uma bronca.

Lysander riu.

— Está bem.

[...]

— Você pode levá-lo com você? – perguntou Lys, já trocado e se preparando para sair.

— Como assim? – gemeu Dominique. – Você não vem trabalhar comigo?

— Tenho que falar com a Rosa no Ministério. Ela pode nos ajudar.

Benjamin (ou Ben como Dominique percebeu que ele gostava de ser chamado) estava devorando grandes pedaços de bacon no balcão. Ela não achou que aquilo podia ser saudável, mas ficou quieta.

— Nos ajudar com o que? – perguntou Dominique, tentando desembaraçar os cabelos com um pente de prata, parada à frente da lareira com Lys.

Lys, que era só um pouco mais alto que ela, a beijou na testa.

— Eu não sei como nós vamos resolver a situação entre a gente. Mas você sabe que não somos o mais importante a considerar agora, certo? – perguntou Lys, seus olhos castanhos mirando-a como se pudessem ler seus pensamentos.

Dominique sabia. Sabia que a questão não era sobre Lys e ela, mas sobre um garoto que perdeu os pais um dia atrás e tinha feito magia, extremamente assustado e desamparado.

— Eu sei. – ela concordou.

— Cuide bem dele. Eu vou tentar almoçar com vocês.

Dominique suspirou, o beijou e o observou sumir pela Rede de Flu para o Ministério da Magia.

— Meu Deus! – exclamou Ben quando viu a luz verde se acender e Lysander sumir entre as chamas. Seu corpo estremeceu de horror. As chamas se refletiram nos olhos dele, assombrado de medo.

— Ele está bem. – Dominique tentou acalmá-lo. – Isso é um jeito de bruxos irem parar em outros lugares. Aquele clarão verde não é fogo, é magia.

Ben ainda a fitava com desconfiança.

— Se troque. Nós vamos sair. – comunicou Dominique.

— Eu tenho aula. – respondeu Ben, descendo da banqueta e pousando o prato sujo na pia.

— Acho que eles podem deixar crianças bruxas fora das aulas de trouxas.

Ben, tirando a calça do pijama e trocando por um jeans que Henry e Lys lhe compraram, fez uma careta.

— Como você sabe que sou bruxo?

— Você desaparat... Sumiu de sua casa e apareceu na rua. Isso é mágica.

Ben torceu o nariz de novo, trocando de camiseta.

— Como um super-herói? – teimou Ben.

— Como um bruxo.

[...]

A Morada Dos Animais Fantásticos era o projeto mais maravilhoso que Dominique teve o orgulho de concluir na vida.

O lugar situava-se nos arredores de Ottery St. Catchpole, perto da casa dos seus sogros, Luna e Rolf, e de seus avós, Arthur e Molly.

A construção tinha o formato de um castelo, mas ninguém, além dos funcionários, tinha permissão para entrar. Na inauguração, Lysander e Dominique deram passagem para revistas e jornais publicarem matérias sobre a Morada. Mas depois disso, ninguém entrava lá, para manter a calma nos animais que estavam nos habitats. A Morada recebia animais feridos e os alojava lá até que se recuperassem.

Dominique sempre chegava pela lareira que dava na recepção. Era uma sala comprida com um balcão dobrável em que a recepcionista ficava. Ao lado da recepção tinha uma sala administrativa. Depois de um portal alto de uns três metros atrás da recepção, abria-se o enorme pátio. Era o lugar preferido de Dominique.

O pátio era um espaço amplo e quadrado, com uma cerejeira no meio, alta, com grandes galhos que cresciam para os lados e para cima e flores rosa que se abriam na primavera. Perto da cerejeira havia alguns bancos de dois lugares, fazendo o centro do pátio lembrar uma praça.

Ao redor do pátio estavam os primeiros habitats da Morada. Eram cercados enormes, com portas desiludidas. Todas as entradas dos habitats se confundiam com o próprio ecossistema de lá de dentro, sendo muito difícil para quem não trabalhava na Morada identificar a porta de entrada do habitat.

Depois da praça e dos primeiros habitats, lá na parte de trás da Morada ficava o grande lago, em que as criaturas marinhas podiam ser tratadas. Também havia o que os funcionários chamavam de “Congelado”. O Congelado era um habitat tremendamente frio e o único em que fatores como a vegetação, o clima, o solo e outras características dos habitats eram pouco mudados, dependendo do morador em questão.

Já ao lado do pátio, depois de uma ponte, ficava o pequeno hotel. Alguns habitats lá eram disponibilizados não para animais feridos, mas para animais que os seus criadores estavam de férias ou precisavam de alguns dias longe das criaturas. Ao subir uma longa escada circular depois do hotel, dava pra chegar ao corujal, que estava sempre lotado de moradores.

Eles também mantinham uma sala de arquivo e um grande salão de mantimentos e artefatos para lidarem com os animais mágicos.

Dominique entrou pela porta da frente àquela vez. Decidiu aparatar porque Ben não parecia à vontade nas chamas verdes e ela teve medo que ele se perdesse na Rede de Flu.

— Cruz credo. – falou a recepcionista quando viu Dominique entrar. – Você nunca usa a porta da frente, que é que tem de errado com você?

Dominique, já acostumada ao azedume da recepcionista, puxou Ben pela mão. Havia um senhor apoiado no balcão e um grande aquário quadrado com um Kappa dentro. O animal, do tamanho de Ben, parecido com um macaco cheio de escamas, tinha cabelos escorridos que lhe tapavam os olhos em formato de pires na cabeça. O Kappa parecia extremamente abatido.

— Ela parou de comer os pepinos. – choramingou o homem.

— Não se preocupe. – a recepcionista respondeu automaticamente. – O senhor pode preencher esse pergaminho com sintomas, nome do animal e outras informações? Volto já.

O homem pegou o pergaminho, cabisbaixo, molhou uma pena no tinteiro do balcão, sentou numa das cadeiras de uma fileira de espera e começou a preenchê-lo.

Ben ficou batendo no vidro do aquário, fascinado.

— Pare! – Dominique deu bronca. – Você pode piorar o estado dele.

Ben baixou os olhos.

A recepcionista olhou de uma para outro, curiosa.

— Holly, esse é o Benjamin. – apresentou Dominique. – Ben, a Holly dá entrada em todos os animais que passam por aqui.

— Oi Benji. – Holly abaixou para ficar na mesma altura que Ben. – Seu animal está por aqui?

— N-n-não. – respondeu Ben, olhando para Dominique. – Eu...

— Longa história Holly. – Dominique suspirou.

— A despedida de solteira foi ótima hein. – Holly gargalhou. – Você não voltou grávida, mas com um pirralho crescido.

Dominique revirou os olhos. Holly começou a despejar todos os problemas administrativos em cima dela, como de costume em todas as manhãs:

— Temos que transfigurar o lago, o Kappa é uma criatura provinda do Japão. Podemos pedir ao fornecedor para adiantar a entrega dos frutos, frutas, legumes e verduras já que vamos precisar de pepinos frescos, posso preparar a solicitação pra você assinar... Uma coruja-diabo vai precisar de mais uma semana segundo o Cuidador que fez inspeção da tarde ontem. Ele deu alta ao hipogrifo no habitat Cinza, mas precisamos de uma força-tarefa para devolver...

— Cala a boca por favor. – gemeu Dominique sendo vigiada de perto por Ben. – Dê tudo de administrativo ao Lys quando ele chegar, não estou com cabeça pra isso. A transfiguração do lago também, você está me sacaneado, sabe que não sou eu quem faz isso. Posso fazer a inspeção da manhã nos primeiros habitats? Preciso espairecer.

Holly ficou surpresa. Dominique pouco se envolvia com os animais. Geralmente, ela lidava com as questões técnicas e burocráticas da Morada.

— Você está bêbada?

— Cala a boca Holly.

[...]

Dominique entrou no habitat arrastando Ben consigo. A porta era como a entrada de uma mina: uma grande abertura quadrada numa montanha rochosa.

— O que estamos fazendo aqui? – perguntou Ben baixinho, se aterrorizando.

— Trabalhando. – respondeu Dominique, alheia, segurando um castiçal com uma vela na mão e outra com um rolo de pergaminho. – Segura isso aqui. – ela entregou o castiçal ao pequeno Ben.

Eles entraram pelo longo corredor escurecido, iluminado apenas por velas presas na parede em intervalos.

Ben fazia esforço para não fazer barulho, olhando ao redor desconfiado.

— Onde é que eles estão? – resmungou Dominique.

O chão era de terra e o ar era extremamente seco e claustrofóbico. Ben deu um espirro. O chão também tinha vários buracos largos cavocados na terra por algum animal de porte médio. Ben tentava não enfiar seus pés neles, andando torto. Dominique parecia mais acostumada.

Então o primeiro pelúcio apareceu, tirando a cabeça dum buraco à frente deles.

— Achei você! – Dominique sorriu.

Era um animal muito peludo e negro com focinho longo. Suas patas da frente eram achatadas como pás. Os olhos eram grandes, brilhantes e curiosos, e ele balançava a cauda animadamente.

— Que cachorro estranho! – Ben sorriu.

— É um pelúcio. – corrigiu Dominique. – Eles gostam de coisas brilhantes.

Ben, que estava com o castiçal na mão, foi “atacado” por outros dois pelúcios de uma vez, caindo para o chão. Eles abocanharam o castiçal com força e ficaram brigando bobamente por ele.

Ben começou a gargalhar. Dominique tinha esquecido totalmente de não levar coisas brilhantes. Por isso ela não era uma Cuidadora.

— Eles já estão vendo, ótimo. Quais os números nas coleiras dos que te atacaram, Ben?

Ben chegou perto dos pelúcios que brigavam pelo castiçal devagarzinho.

— Dois e cinco.

— Obrigada. – respondeu Dominique, anotando algo no pergaminho.

Nesse momento, mais dois pelúcios se juntaram a eles, no entanto, como o primeiro, não pareciam interessados no castiçal.

— Que pena. – resmungou Dominique. – Ainda não conseguem ver.

— O que aconteceu com eles? – perguntou Ben, fazendo carinho em dois deles simultaneamente, claramente satisfeito.

— Alguns bruxos ruins gostam de vendê-los como animais de estimação, mas eles fazem uma bagunça na casa procurando coisas brilhantes. Então os bruxos queimam os olhos deles com feitiços para que eles não enxerguem mais e os vendem. – Dominique respondeu, analisando os olhos de um dos pelúcios ainda machucado. – Esses cinco foram resgatados pelo Ministério.

— Eles foram queimados? – perguntou Ben horrorizado.

— Sim. – respondeu Dominique, sem se dar conta do que estava dizendo.

Ben ficou em silencio. Ele parou de fazer algazarra com os bichos. Dominique elevou o olhar do pergaminho e viu seus olhos cheios de lágrimas.

— Me desculpe Benji. – Dominique o abraçou num impulso. – Eu realmente sinto muito.

Notas finais
Yey! O que estão achando do Benji? E da Morada? Comentem pra eu não desanimar o/