Máscaras na Nuvem
4 Causa Mortis
Notas iniciais
Dia nublado. São dias assim que tornam a vida de quem tem seu coração partido mais difícil. O frio traz a necessidade de se aquecer e, quem mais indicado para isso do que seu amor? Ou amores? A dor que essa ausência causa é pesada, mesmo que com a passagem do tempo a ferida se feche, ela ainda está ali. Esperar é o que resta.
Na plataforma de pesquisa do Lambda Tecnologias, uma nave que flutua na atmosfera baixa da terra, coletando dados diversos, e funcionando como uma grande central de pesquisa e desenvolvimento, corpos são detectados caídos. Um, dois, quatro, nove. São poucas vidas perdidas em meio às quatro mil que ali trabalham, dada a proporção colossal da Plataforma de Pesquisa VII.
A rotina tomou conta de seus dias desde que se aposentou. Não era mais um agente autônomo, já tinha certa idade. Estava cansado, com feridas não fechadas, estava sozinho e sem estabilidade emocional e mental. Seus dias se resumiam a caminhar pela cidade, assistir alguns jogos, fugir da música popular e, se forçar a recuperar suas origens de outro canto do planeta, há muito tempo abandonada por sua família, antes mesmo de nascer.
A primeira explosão varreu um hangar de pequenos transportes eletromagnéticos. A contagem de mortos já tinha duas dezenas. E o som de tiros ricocheteando em algo metálico são ecos por dentro dos corredores que ligavam ao hangar, agora em ruínas em chamas. Do solo, em Liberdade, um pequeno ponto acinzentado desponta no céu. Ninguém imagina o que é. O som irrepresentável precede a queda de mais um segurança. Braço para um lado, o corpo decapitado para o outro. Não há sinal da cabeça e os demais seguranças, mesmo trajando seus duos, hesitam em avançar pela curva.
Sua família veio para esse lado do mundo por volta do começo do novo milênio. Era uma época diferente da que temos hoje. O futuro parecia brilhante, mesmo que alguns acontecimentos parecessem tentar alertar sobre a merda que estava por vir.
A figura de preto, num traje tático, feito para combate e infiltração, aparecia e sumia a medida que as luzes, em curto, piscavam e apagavam. Só a luz, alaranjada, do seu visor era permanente entre os flashes, fosse assistido pelo sistema de câmera, fosse presenciado pelos, agora poucos, guardas que ainda estavam de pé na área.
A merda feia que deu fez a família Miyazaki sofrer. Todos sofrerem demais durante a crise dos anos 30. E Kazuki às vezes lembra-se de seu pai falando sobre como seria melhor se ainda vivessem no Japão. Não faria diferença alguma, foi uma foda para todos que não tivessem grandes recursos, como eles não tinham.
Depois dos corredores, as salas das máquinas. A da terceira turbina, do lado esquerdo, sendo mais preciso. A figura já era amplamente vista. E conhecida. O famoso e, ao mesmo tempo, aterrorizante: Samurai de Ferro. O traje tático era escuro como ferro fundido, o capacete, da mesma corte, oferecia apenas um único risco, a iluminação alaranjada do visor. Nas costas, um par de asas magnéticas, um aparato bem incomum, mas que era uma das marcas registradas da entidade do imaginário, que se tornava real. A outra marca, era a espada de origem japonesa, feita de uma liga de metal ultra resistente, usado pelas naves espaciais, era capaz de cortar metal e nunca perdia seu fio. Na outra mão, uma arma, que descartava no chão.
Se deus e o diabo já não eram mais tão populares na realidade humana em 2068, a visão desse cara era responsável por conversões instantâneas. Pedindo por medo do inferno ou por se almejarem o paraíso.
A fome, a falta de recursos básicos, serviços e assistência afastou a família das suas origens e da rica cultura. Por isso, Kazuki tentava reviver esses aspectos a todo custo. Ele precisava manter seu foco em algo para não deixar a dor que habitava seu coração crescer e leva-lo a fazer alguma besteira.
Samurai de Ferro, munido de uma arma potente em uma das mãos, derruba os esquadrões que tentam impedi-lo. Sua mão está tocando o painel de leitura do motor, hackeando-o a partir dali. O traje despeja um vírus poderoso, que burla as tentativas de travar a invasão do sistema. Mesmo que a torre de controle veja tudo acontecendo, não consegue impedir rápido do suficiente.
Infelizmente, tem certas coisas que não se pode controlar. E, o uma vez aposentado, Miyazaki Kazuki, voltou à ativa, buscando respostas. Não se importando com o sangue que derramar.
A contagem de mortos chegava a quase uma centena. Alta tecnologia aliada a habilidade, e uma mentalidade treinada, tornava o invasor um oponente invencível. Consegui o que queria. A base de dados que deseja foi totalmente copiada e, por molequice, apagada do banco de dados.
Kazuki era vingativo e uma cara muito babaca quando queria.
Saltou por outro hangar. A queda livre de milhares de metros de altura injetava adrenalina em seu corpo, fazendo-o nem sequer pensar no risco que corria, da queda que poderia sofrer, ou da caçada que havia instaurado sob sua cabeça. Não ligava, afinal de contas, o Samurai de Ferro era nada além de um fantasma, sem nome real, ou qualquer dado.
Em voo controlado, com o piloto automático ligado, analisava os dados, buscando nomes, datas, informações. Acabou de invadir, destruir, roubar e matar, um dois maiores bancos de dado de empresas que estavam alocados no país. Se não houvesse respostas lá, onde estariam?
Bem, ele não poderia pensar nisso por muito mais tempo. O radar detectou algo se aproximando. Mas já era tarde demais, estava acima dele. Não houve tempo para reação, algo o atingiu. Ele apagou.
Acordou atordoado, em um lugar escuro, fracamente iluminado por luzes laranja a distância. Sentia um pouco de frio, seu corpo estava machucado, talvez por uma possível queda. Não se lembrava de nada.
Levantou-se do chão o quanto foi possível. Estava sem roupas, completamente nu e, não estava sozinho.
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