Máscaras de Vidro

2 Capítulo 2: O Peso de uma Cama Fria


O silêncio que se seguiu àquela declaração rouca foi quase sufocante. Ayla continuava com as costas pressionadas contra a parede de concreto do hall, os olhos fixos no homem que exibia as feições de seu marido, mas que exalava a energia perigosa de um completo desconhecido.

Dominic sustentou o olhar dela por mais alguns segundos. Ele sentia o pulso acelerado de Ayla sob seus dedos e a fragilidade deliciosa de sua pele. Teve que se segurar para não puxá-la contra o peito ali mesmo. Passara anos vendo aquela mulher apenas por fotos borradas de relatórios e vislumbres distantes em jornais de fofoca, sempre parecendo uma boneca de porcelana triste ao lado do perfeito e miserável Alexander. Agora, ela era real. E estava ao seu alcance.

Soltando o pulso dela com uma lentidão calculada, ele ajeitou o colarinho do terno que apertava seu pescoço.

— O acidente me deixou confuso, Ayla — ele disse, forçando a voz a adotar um tom ligeiramente mais contido, imitando a cadência fria do irmão, embora o timbre continuasse perigosamente arrastado. — Os médicos disseram que pequenas confusões e lapsos de comportamento são normais. Não se assuste.

Ayla engoliu em seco, massageando o pulso onde o calor dos dedos dele ainda parecia queimar.

— Você mudou o tom de voz. E... você nunca me chamou assim.

— Um carro capotando a cem quilômetros por hora em um penhasco tende a mudar as prioridades de um homem — Dominic respondeu com um meio sorriso sombrio, passando por ela em direção às escadas de mármore. — Vou subir. Preciso de um banho para tirar o cheiro daquele hospital.

Ayla o observou subir os degraus. Havia uma leve rigidez na perna esquerda dele — provavelmente uma sequela real da colisão —, mas a forma como ele se movia tinha uma fluidez animal que Alexander nunca possuiu. O verdadeiro Alexander andava como se estivesse sempre marchando para uma reunião de negócios. Este homem andava como se fosse o dono de cada centímetro daquele chão.

Quando ela finalmente subiu para o quarto principal, trinta minutos depois, o som do chuveiro ecoava pelo closet integrado. O quarto deles era enorme, decorado em tons de cinza e preto, sem qualquer porta-retrato ou toque de calor humano. Uma perfeita gaiola de luxo.

Ayla sentou-se na beirada da enorme cama king size, o corpo tenso sob o vestido de seda branca. Casada há dois anos, as noites naquele quarto costumavam seguir um roteiro previsível e gélido. Alexander entrava, mal olhava para ela, cumpria o que considerava seus "deveres conjugais" de forma mecânica e egoísta, e se virava para o outro lado.

A porta do banheiro se abriu.

Uma lufada de vapor quente invadiu o quarto, trazendo consigo o cheiro forte de sabonete e... pele quente. Dominic saiu vestindo apenas uma calça de moletom cinza, que repousava perigosamente baixa em seus quadris. A toalha estava jogada sobre os ombros, e os cabelos pretos pingavam água sobre o peito largo.

Ayla prendeu a respiração. Seus olhos se arregalaram levemente.

Alexander cuidava do corpo com idas milimétricas à academia da empresa, mantendo uma silhueta magra e definida. O homem diante dela, no entanto, tinha ombros nitidamente mais largos, o peito cortado por músculos densos e calejados, e abdômen profundamente marcado. Era o corpo de alguém que sobrevivia à base de esforço bruto, não de dietas corporativas.

Mas o que realmente fez o estômago de Ayla revirou de puro pavor foi o que viu quando ele se virou de costas para pegar uma camiseta no closet.

Sob a luz fraca do abajur, cortando a pele bronzeada de suas costas, havia linhas finas e esbranquiçadas. Cicatrizes antigas. Marcas profundas que pareciam cortes de lâminas ou estilhaços de vidro antigos.

Alexander nunca tivera uma única marca nas costas. Sua pele sempre fora impecável.

— O que é isso? — a voz de Ayla falhou, saindo quase como um sopro enquanto ela se levantava da cama.

Dominic congelou no meio do closet, a camiseta preta esticada entre as mãos. Ele praguejou mentalmente. Tinha sido cuidadoso com o rosto e com a postura, mas esquecera que o corpo de um rato de subsolo deixa marcas que o dinheiro de um herdeiro não consegue apagar.

Lentamente, ele se virou para ela, os olhos cinzentos brilhando no escuro como os de um lobo encurralado.