Máscara
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A noite já havia caído quando Kougyoku finalmente teve coragem de sair de seus aposentos para ir falar com seu irmão mais velho.
Desde que chegara de Sindria, ainda não tivera a oportunidade de pedir para Kouen deixar de lado aquela ideia de lutar contra Sinbad. Sindria não era inimiga e ela havia se divertido tanto com todos no tempo em que ficou naquele lugar... não queria que o sofrimento da guerra chegasse até eles.
A garota já havia tentado falar com seu irmão mais velho assim que chegou da longa viagem, mas acabou por encontrá-lo preso em uma conversa com Hakuryuu e Hakuei... que por fim acabou envolvendo-a também. Depois daquilo, Kougyoku perdera sua coragem de dizer o que pretendia naquele dia.
Mas assim que teve tempo, depois da morte de seu pai e nomeação de Gyokuen como nova Imperatriz de Kou — Kougyoku ainda não sabia muito bem o que pensar sobre isso —, ela decidiu que deveria ir logo ver seu irmão e conversar a respeito do que pretendia, afinal, logo ele estaria saindo rumo a algum outro país, visto que nunca parava no palácio.
Sendo assim, a garota acabou esperando até a noite cair, sabendo que Kouen se encontraria na biblioteca como lhe era de costume. Ele não gostava de ser interrompido, Kougyoku bem sabia, mas aquele era um assunto que ela queria tratar com ele. Precisavam conversar, ela precisava convencê-lo.
Foi com esse pensamento que adentrou o local, vendo ao longe algumas luzes de velas acesas. Seu irmão estava logo ali. Andou a passos temerosos, com medo da reação dele com o que ela estava para lhe falar.
— Aqui está seu café — Kougyoku parou estática no meio do caminho ao ouvir a voz feminina e um tanto familiar, se escondendo logo depois atrás de uma estante repleta de livros.
“O que? Essa mulher de novo aqui?!” Pensou, um tanto revoltada com a situação. Era a segunda vez que via Hakuei com Kouen, tudo bem que da primeira vez eles estavam acompanhados de Hakuryuu, mas pelo visto, agora estavam completamente sozinhos.
E por que ela estava falando daquela forma tão intima com seu onii-sama? Que falta de respeito que...
— Ah, obrigado — a voz de Kouen ecoou entre as estantes de livros, interrompendo os pensamentos revoltados de Kougyoku. A garota se virou, empurrando alguns livros com cuidado e olhando por entre eles a cena que se desenrolava logo à frente.
Seu irmão estava sentado em uma cadeira, com diversos pergaminhos abertos sobre a mesa. Provavelmente estava estudando sobre as estratégias de invasão de territórios do Império, ele fazia muito isso. Às vezes passava até mesmo a madrugada inteira trancado naquele lugar e sempre odiava ser interrompido — “só me atrapalhe por algo de muita urgência”, era o que ele dizia —. No entanto, lá estava Hakuei, sorrindo amigavelmente em pé bem a frente do homem. E ele não parecia nada zangado.
Kouen bebericou um pouco do café que a morena havia lhe trago, para logo depois espreguiçar-se, parecendo cansado. Não era nenhuma novidade, há quanto tempo ele devia estar ali?
— Você precisa descansar um pouco — Hakuei disse, com o tom de voz preocupado. — Não faz nada bem para a sua saúde ficar até tarde da noite trancado aqui.
— Sim, eu sei — Kouen se espreguiçou, levantando-se logo em seguida com alguns livros em suas mãos.
Hakuei observava em silêncio enquanto ele guardava os livros em seus devidos lugares. Depois de terminado, o homem se virou para ela e só então eles perceberam o quanto estavam próximos.
— Eu não tive tempo para lhe perguntar isto antes, mas... essa cicatriz em seu rosto, — Kouen arriscou tocar de leve com a ponta dos dedos o canto da face da garota que havia um pequeno machucado já cicatrizado. — O que aconteceu?
— Apenas um contratempo com o clã Kouga, mas não se preocupe — Hakuei sorriu. Ela sabia que se dissesse que a culpa na realidade fosse dos seus subordinados do Império Kou, Kouen certamente faria alguma coisa a respeito.
Ele pareceu pensar na resposta dela por alguns segundos, para logo depois esboçar um curto sorriso para a mulher e se afastar, pegando mais livros que estavam espalhados sobre a mesa e guardando-os, agora com a ajuda de Hakuei.
Kougyoku ainda estava olhando a cena, com os punhos cerrados e a beira de um ataque de nervos com aquela aproximação repentina dos dois. Quem aquela mulher achava que era para ficar assim com seu onii-sama? E por que raios ele estava tão preocupado com ela? Aliás, por que os dois estavam tão perto um do outro?
A~ah, pensar naquilo tudo só irritava cada vez mais a garota. Ela não entendia e teve que morder os lábios bem firmes para não sair gritando para Hakuei se afastar de seu irmão.
E ele... francamente, o que deu nele? Além da preocupação notável em sua voz para com a mulher, Kouen estava até mais relaxado e exibindo um pequeno sorriso! Ele sempre foi sério perante as pessoas, até mesmo perante seus irmãos, então por que se comportava daquela forma tão natural e tranquila perto de Ren Hakuei?
Foi então que uma ideia finalmente passou pela mente de Kougyoku. Uma ideia tão assustadora e estranha que a raiva que sentia de Hakuei e da situação toda foi esquecida por alguns instantes.
Ela olhou de novo para o casal, tomando cuidado para não ser descoberta.
E lá estava eles, Hakuei rindo e conversando, enquanto Kouen, agora sentado novamente, parecia mais é admirar aquela face da bela mulher a sua frente.
Kougyoku suspirou, ainda assustada com o pensamento que estava em sua mente.
Será que seu irmão estava apaixonado?
Ela balançou a cabeça. Não queria pensar naquilo, pelo menos não no momento.
Mas honestamente, toda a sua coragem de conversar com Kouen havia se esvaído depois daquilo tudo. Além do mais, ela sentia que ele realmente não queria ser incomodado daquela vez. Kougyoku se sentia de fora, como se fosse apenas atrapalhar a conversa de seu irmão com... aquela mulher.
Suspirando novamente, ela se virou de costas para os dois e foi cautelosamente saindo do local. Conversaria outro dia com Kouen, de preferência quando ele estivesse bem longe de Hakuei.
§
Na manhã seguinte bem cedo Kougyoku já estava de pé, determinada a solucionar aquela dúvida que tanto martelava em sua mente.
E para falar a verdade, ela também estava uma pilha de nervos naquela manhã, deixando Ka Koubun bastante confuso, afinal sua princesa sempre fora mais calma e principalmente tão tímida.
Mas o motivo para aquilo tudo tinha nome e sobrenome: Ren Hakuei.
A~ah, Kougyoku não gostava nada dela! Tudo bem que nem havia dado chances da mulher se aproximar dela e nem ao menos a conhecia direito, mas já sabia muito bem que ela era uma aproveitadora e... ladra de irmãos! Ai, ai... Por que ela não poderia ser como o irmão mais novo, Hakuryuu? Tudo bem que ele também era um pouco estranho, mas pelo menos não conversava com mais ninguém. E mantinha uma distância considerável de todos os outros príncipes do Império Kou. Especialmente de Kouen.
Mas infelizmente a garota não viu nem sinal tanto de Hakuei, quanto de Kouen, durante todo o dia. Bem, a morena apareceu para o almoço, mas Kougyoku não conseguiu ver seu irmão até o fim daquela tarde, enquanto rondava por todo o palácio a sua procura.
E então qual foi a sua surpresa ao chegar ao jardim e vê-los novamente juntos? Kougyoku bufou de forma raivosa. Era a segunda vez! A segunda vez que via aquela mulher grudada com seu irmão. Terceira, se contasse a vez em que Hakuryuu estava no meio.
Mas agora ela estava disposta a não deixar aquilo daquele jeito.
E com passos firmes e apressados, foi em direção de Kouen. Este, por sinal, exibia um pequeno sorriso de lado com alguma coisa que Hakuei havia lhe dito.
— Estou interrompendo? — Hakuei olhou um pouco surpresa para a garota que atrapalhou a conversa deles.
Kougyoku estava diferente, parecia quase como se estivesse... irritada. O que não era o seu normal, visto que a menina geralmente era a mais tímida dos irmãos.
— Algum problema, Kougyoku? — Kouen devolveu com outra pergunta, mantendo agora uma postura um pouco mais séria do que antes.
Postura essa que fez quebrar um pouco a coragem que a garota havia reunido para chegar até lá.
— B-bem, é que... — ela desviou os olhos dos dois, mirando algum ponto fixo no chão à frente. Mas apesar disso não iria desistir de tirá-lo dali, perto daquela mulher. — Eu preciso falar com você... a sós! — completou rapidamente depois de olhar de esguelha para Hakuei.
Um leve franzir de cenho na face de Ren Kouen foi o único sinal de que ele estava confuso.
Mas apesar de confuso, também estava curioso, portanto logo tratou de guiar sua irmã até a biblioteca, alegando que lá poderiam conversar com calma.
— Então, o que quer? — Kouen perguntou assim que acendeu algumas velas ao entrarem no local. A luz do pôr do sol ainda iluminava de maneira fraca por entre as janelas, mas a noite logo cairia.
O homem cruzou os braços, olhando para irmã a sua frente que se encolheu ligeiramente.
— Onii-sama... — Kougyoku começou, sem saber bem ao certo como fazer aquele tipo de pergunta. — Você gosta da Hakuei-chan? — falou finalmente, imediatamente cobrindo o rosto com as mangas do vestido. É claro que ela estava constrangida ao dizer aquilo, mas também queria tirar aquela história a limpo, afinal não lhe agradava em nada pensar em seu irmão apaixonado por aquela mulher.
Kouen pareceu um pouco surpreso com a pergunta repentina. Esperava que Kougyoku fosse tratar sobre algo relacionado a Sindria — ele não era estúpido, viu como a garota reagia toda vez que mencionavam Sinbad ou Sindria —, mas aquele tipo de assunto não passara por sua mente... embora soubesse que ela o observara com Hakuei na noite anterior ali mesmo na biblioteca.
E então o que Kougyoku menos esperava aconteceu: Kouen começou a rir.
E ela não sabia se ficava mais confusa ou aliviada ao ver que seu irmão não estava furioso por ela o questionar sobre algo tão pessoal.
— Onii-sama... — balbuciou sem saber ao certo o que dizer ao vê-lo rir daquela maneira. Algo que Kouen fazia raramente.
Ele parou de rir, colocando uma mão sobre a cabeça da garota.
— Você tem algo contra a princesa Hakuei? — ele devolveu com outra pergunta, o que deixou Kougyoku mais confusa ainda.
— N-não, é claro que não! — o que iria responder, afinal? Se dissesse que não gostava de Hakuei, Kouen não ficaria muito contente. E ela com certeza não queria contrariá-lo.
No entanto o homem pareceu não acreditar muito em suas palavras, mas decidiu não questioná-la a respeito disso, apenas afagou o topo da cabeça da irmã e disse um “não se preocupe com isso”, o que não era exatamente uma resposta para a pergunta dela, mas Kougyoku achou melhor se contentar com aquilo por enquanto.
Além do mais, não tinha motivos para ele esconder seu relacionamento com Hakuei, isto se existisse um. Não é?
Ah, mas ouvir aquilo da boca de Kouen sem dúvida tranquilizou a pequena Kougyoku, que sorriu agradecendo o irmão por ter a ouvido e se dirigindo para fora da biblioteca com um sorriso nos lábios e o corpo até mais leve.
Hakuei não iria roubar seu onii-sama dela.
§
Ao ver a irmã finalmente sair da biblioteca, Kouen encostou seu corpo contra a mesa, fechando os olhos.
— Sei que está aí — finalmente disse, sentindo aquela presença desde que iniciara sua conversa com Kougyoku.
— Bem, parece que deixei sua irmã com ciúmes — uma voz feminina então preencheu o ambiente.
Kouen se virou, vendo a dona daquela voz sair detrás de uma enorme estante repleta de livros.
— Kougyoku só precisa aprender a se preocupar com assuntos mais importantes do que meus sentimentos pessoais.
Hakuei sorriu para ele.
— Bem, então talvez deva tomar mais cuidado para não demonstrar tanto esses seus sentimentos perto de outras pessoas, Kouen-dono.
— Vale o mesmo para você — Kouen respondeu, se aproximando dela e segurando sua cintura, firmando seus corpos. A distância entre eles agora era mínima. — Afinal, Kougyoku desconfiou de nós dois.
— Não acho que ela vá se preocupar muito daqui para frente com isso mais — Hakuei encerrou o assunto, mas antes que pudesse fazer algo, Kouen tomou a iniciativa, acabando com a distância que existia entre seus lábios, selando-os em um beijo calmo e terno.
Um beijo. O primeiro de muitos daquela noite. Mas não o primeiro da relação do casal, esta que já existia em segredo fazia certo tempo.
Eles não viam necessidade de contar para ninguém no momento. Aliás, revelar aquele tipo de relação quando as coisas no Império Kou estavam complicadas, não seria nada bom, especialmente no que se dizia a respeito do irmão de Hakuei, Hakuryuu.
O momento chegaria. Mas até lá, eles poderiam muito bem trocar vários beijos e declarações, escondidos na luz das velas e do luar, naquela enorme biblioteca do palácio.
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