Mágica - Livro I
11 Suspiros
Notas iniciais
Eivar é dividida em dois continentes e sete Estados. É um mundo com poucas zonas habitáveis para bruxos, muito menor que a Terra, mas com conflitos igualmente complexos. Houve um tempo em que acreditaram que Os Sete Estados viviam em harmonia em uma aliança entre culturas e povos, mas a estabilidade e segurança de alguns Estados custavam a escassez e o sofrimento de outros.
Cassandra teve visões, eram as memórias de Ariela e Ayla.
Na primeira, viu Ariela se aproximar de uma grande escadaria, mas soldados interditavam o local. Ela se aproximou de um deles e perguntou o que estava acontecendo, já que ela não havia sido comunicada de nada. O soldado a respondeu:
— Houve um novo decreto hoje, estamos interrompendo a atuação de todos os oráculos.
— E como ficam as demais atividades exercidas no templo? – a senhora indagou mais uma vez – Algumas crianças estavam aguardando para descobrirem seus talentos hoje.
— Ainda não sabemos, senhora. Sugiro voltar para casa e esperar novas instruções.
Cass reconheceu o uniforme do soldado que falou com Ariela. Ele não se parecia com o uniforme que sua mãe usava, eram de outro país. Demorou um tempo até reconhecer o brasão de Midalis.
Aquela memória se dissolvia e logo outra se apresentava, era de Ayla, ela caminhava por um prédio que ela logo reconheceu ser uma escola. Se aproximava da sala que uma placa indicava ser a diretoria, algumas mudanças estavam em andamento, trocavam quadros na parede, ela bateu na porta entreaberta e um homem a deixou entrar depois que o último ajudante terminou de arrumar itens sobre uma prateleira. A figura à mesa do diretor tinha um sorriso frio.
— Pois não, professora Ayla?
— Eu acabei de receber os novos livros didáticos e algumas coisas estão me preocupando. – Ela carregava o livro em mãos.
— O que seria?
— Algumas imprecisões que fiz questão de anotar caso queira ver, mas a maior delas tem sido no capítulo sobre os Acordos de Fogo entre Aeritos e Cinder. – Aeritos, esse era o nome do país de onde Cassandra vinha. Ayla se sentava à frente do novo diretor, abrindo o livro. – Os novos textos sugerem que Cinder dificultou os acordos e aceitou após extensa negociação movida por Aeritos, mas a relação desses países foi meu principal material de estudo, Cinder foi o primeiro a buscar negociação.
— Ayla, não me entenda mal, mas há um motivo para buscarmos a atualização dos livros. Esse texto tem sido utilizado em Morave e Thalassar nos últimos anos.
— E em Aeritos também, eu presumo.
— Sim, por que não usariam?
— O livro não deveria citar quais evidências foram encontradas para tamanha alteração no entendimento da história do nosso mundo? Os Acordos de Fogo são a base de nossa história contemporânea, e-
— Ayla, mais uma vez, não me leve a mal, mas já há muitos anos que você se graduou, não? Talvez uma atualização seja interessante.
Ayla ficou em silêncio, ofendida. Cass sentia ódio nessa memória.
A terceira memória era apenas a de dois cartazes, o primeiro dizia em letras garrafais:
“É pelo nosso futuro e sua privacidade”
E depois em letras menores:
“Não permita a atividade irregular de oráculos. Denuncie e ajude a barrar a ameaça sedicioista.”
Já o segundo cartaz tinha outro público:
“Oráculo, regularize-se. O Concílio é a mão correta.”
A imagem no centro do cartaz era a ilustração de um olho entre duas mãos.
A quarta memória era de Ayla, ela estava na sala de estar de uma casa, muito parecida com a casa que Cass conhecia. A porta se abria e fechava de repente, com uma adolescente desesperada passando por ela. Aquela deveria ser Tabata.
— Mãe, ative o uníssono, rápido!
— O que houve?
— Aeritos sequestrou um navio de Cinder, estão avisando agora mesmo.
Ayla se apressava para alcançar um dispositivo de cristal perto da lareira. Enquanto isso, Tabata chama pelo pai no corredor. Ele veio junto de Thomas, curioso. Era engraçado ver uma versão mais nova de Thomas, pequeno, de olhos curiosos, com a idade que Cassandra tinha quando estava fugindo de Eivar.
Uma voz ressoava a partir do cristal que Ayla havia ativado. A família se acomodava nos sofás, ao redor da fonte da voz, ouvindo atenciosamente:
— De acordo com representantes aeritas do Concílio, tratou-se de uma manobra emergencial para garantir os suprimentos necessários para a atividade dos hospitais e escolas de Aeritos, já que Cinder quebrou acordos comerciais que mantêm Os Sete Estados em harmonia. Os representantes de Cinder disseram que entendem o sequestro do navio como roubo de materiais essenciais à vida e pede que o Concílio analise o caso como um ato de guerra, o que seria uma quebra muito maior do acordo.
A próxima lembrança era quase igual a última, conseguia perceber que se passava em outro dia pela mudança das roupas, de posições no sofá, porque Ariela dessa vez também estava ali e porque Tom estava um pouco mais alto. A voz que saía do uníssono dizia:
— Cinder e Zalira estão deixando o Concílio. As negociações foram infrutíferas e, com isso, ambas declaram guerra aos outros cinco estados.
— Deixando? Eles foram expulsos! – Ayla comentou.
— Por que expulsos? – Tom perguntava.
— Aeritos e Morave não cederam nada para atender as necessidades dos outros países e ainda roubaram o carvão azul que eles estavam tentando renegociar. A presença de Cinder e Zalira já era praticamente decorativa.
— E agora parece que eles que declararam guerra, quando as políticas de Aeritos têm praticamente matado Cinder de fome. – Yago complementou.
O uníssono continuava:
— … e com isso, o Concílio prevê uma racionalização do uso de carvão azul até que o conflito se encerre.
— Para os hospitais e escolas vão racionalizar, mas para fazer guerra eles vão arranjar. – Tabata girava os olhos.
O olhar do pequeno Thomas era curioso e carregava medo ao reconhecer os semblantes preocupados de todos à sua volta.
Após mais uma mudança de roupas, mais crescimento de Thomas e outra troca de lugar no sofá, o uníssono se fazia ouvir mais uma vez:
— Aeritos passa por um conflito interno com ataques sedicioistas, o país acusa Zalira de espionagem. Os representantes de Midalis no Concílio propuseram hoje pela manhã uma nova lista de crimes de guerra e a formação de um novo tribunal superior internacional.
— Inútil. – Yago suspirou ao dizer.
A última lembrança era de Ayla, ela parecia angustiada ao chegar em casa. Caminhou até o quarto e se surpreendeu com Yago deitado sobre a cama, usando as roupas do trabalho, olhando para cima.
— Saiu mais cedo? – ela perguntou e ele fez que sim com a cabeça, sem dizer nada, com os olhos vidrados no teto. – O que aconteceu?
— Midalis vai entrar na guerra.
— O que?
— Pediram novos projetos de tecnologias que possam proteger soldados das armas de Cinder no meu departamento hoje, estão se preparando. Pior, se estão recorrendo ao instituto é porque os grupos especializados em armas devem estar sobrecarregados há bastante tempo! Pensei em me demitir.
Ayla respirava pela boca, angustiada, levava a mão à cabeça.
— Será que podemos?
— O que houve? – a voz embargada ganhou a atenção do esposo.
— Me dispensaram hoje. Eu e a todos que não querem tratar Cinder e Zalira como países terroristas.
Ayla começou a chorar, Yago se levantou buscando dar um abraço na esposa. O toque da aura dos dois a confortava, e esse conforto permitia que ela chorasse ainda mais nos braços dele e ele temesse o futuro com esperança de encontrar uma saída.
Abrindo os olhos novamente, Cass encontrou três pares de olhos curiosos. Ariela, Ayla e Tom a observavam com atenção e certo cuidado.
— Quanto tempo se passou? – Ela perguntou ainda atordoada com tudo o que viu.
— Ainda temos alguns minutos até sua irmã sair da escola. – Tom a respondeu com a voz mansa.
— Imagino que você tenha perguntas, Cass. – Ayla estava preocupada com o entendimento da garota.
— Algumas, mas… eu preciso pensar até para formular elas direito. – A adolescente respondeu, olhando para Ariela em seguida. – Como você…?
— Minha mãe cria energia fazendo registros. – Ayla respondia pela mãe. – Mas tem um talento raro, o de acessar e até usar poderes de outros bruxos. Quando soubemos que você viria, sabíamos que a telepatia era a melhor forma de te mostrar o que vivemos.
— Entendo… – Cass estava impressionada. – E a senhora consegue me dizer quais outros talentos eu tenho?
— Você está com uma grande represa. – A resposta de Ariela não era surpresa, ela olhou para o neto e fez um gesto apontando um livro.
— É preciso desfazer o que prendeu seus potenciais ou ela não conseguirá identificar seus poderes. – Ayla explicava enquanto Thomas flutuava buscando o livro e o trazendo para a avó.
Ariela abriu o livro e entregou para Cass. Havia instruções em sua língua natal, eram simples:
“1. Fazer sua prática de poder antes de se deitar ao fim do dia;
2. Já na cama, repetir seu nome completo até dormir;
3. Enquanto recita o próprio nome, trazer a intenção para o despertar de sua potencialidade.
Repetir por quantos dias for necessário.”
Cassandra era péssima com intenções. Tudo que sabia sobre si e seus poderes eram descobertas naturais, passivas, mas ela fez que sim com a cabeça até repensar um detalhe.
— O nome completo?
— Sim. O seu é muito grande? – Ayla respondia.
— Um pouco.
— Olha só, a nobreza entre nós… – Tom a provocava.
— Também nem tão grande assim. Mas tudo bem, eu vou fazer.
Ariela acenava positivamente com a cabeça, guardando o livro.
— Vocês precisam ir. – Ayla falava para ela e Tom.
— Antes… desculpe, eu só queria dizer que sinto muito. – Cassandra se levantava ainda de cabeça baixa. – Ainda estou digerindo as informações. Entendo que estão me mostrando só o que era necessário para me explicarem o que aconteceu, e não tudo o que sofreram. – para Cass era algo lógico, mudar de mundo era um ato desesperado, não de quem assistiu uma guerra de longe – E isso deve ser algo difícil de se remexer, então… obrigada.
— Não se preocupe, jovenzinha. – Ayla sorria para ela – Se tiver qualquer dúvida, mande por Thomas, te escreverei em resposta.
— Eu agradeço muito.
Cass pegou sua mochila, que havia ficado no chão, e olhou para Thomas. Ele a esperava perto da porta, o que a fez perceber que ele a aguardava para falar algo antes de voltarem a escola. O seguiu para fora da biblioteca.
— Temos ainda alguns minutos. – ele buscou a tranquilizar, mesmo que ela não estivesse com medo de perder a hora.
— Você quer falar de alguma coisa?
— Não aqui.
Descendo as escadas, eles passaram por Yago na sala de jantar, lendo anotações.
— Terminamos de usar a biblioteca, pai. – Tom o avisou.
— Ah, obrigado. Como vai, Cassandra? – ele respondeu e cumprimentou a garota.
— Estou bem, e o senhor?
— Estou bem. Fique à vontade!
Os adolescentes seguem para o quintal nos fundos, buscando a sombra da parreira para se abrigarem do sol.
— O que foi? – Cassandra perguntou de novo.
— Eu só queria saber se você quer falar alguma coisa, eu não sei o que te mostraram.
— Ah, foi… a formação da guerra, basicamente. Eu vi você pequeno ouvindo um uníssono.
— Foi?
— Você era uma criança fofa. – ele levantou uma sobrancelha – Pena que cresceu e virou esse chato.
Ele deu um sorriso decepcionado.
— E eu achando que você poderia precisar de algum consolo.
— Para me consolar que você me chamou aqui? – ela achava a iniciativa atenciosa, não esperava algo assim.
— Você não sabia que tinha uma guerra em Eivar até agora!
Ouvir era estranho. Há uma guerra em Eivar e claro que isso incomodava, mas ouvir da boca de Thomas era ainda diferente de ver tudo como se fosse um filme em sua mente. Ela respirou fundo olhando para o chão, pensando no que sabia agora.
— É claro que eu não estou feliz com tudo… – explicava com a voz fraca. O toque de Tom poderia a acalmar agora, mas ele não faria mais isso. – Eu estou tentando não me preocupar porque não tenho o que fazer! E eu queria ter…
Ele fez que sim com a cabeça, estalando a língua, desgostoso.
— Sei como se sente.
— Sabe?
— Sim.
— E… – Cassandra fazia uma careta, uma insegurança a fazia coçar a nuca e agitar-se batendo o pé.
— Que foi?
— Muda alguma coisa pra você se eu for de Aeritos? – a voz dela era vacilante, soava como uma confissão.
Tom ergueu as sobrancelhas entendendo o que ela queria dizer. De alguma forma, achava adorável que ela se preocupasse com a amizade deles diante deste detalhe, embora esta preocupação também lhe fosse bastante tola.
— Muda que eu não vou contar isso pra ninguém e isso me deixará mais forte. Mais nada além disso. – Ele riu.
— Mesmo? – ela conseguiu sentir a energia dele se agitando por um segundo, fortalecendo levemente.
— Não foi você que planejou e executou um plano de bombardeios, fome e desespero, Cass. – ele via a aura dela se movendo, era cada vez mais fácil com a amizade se fortalecendo. Os raios dourados ficavam fortes em meio a uma névoa laranja, assim era o formato de sua ansiedade. Ela abriu a boca para falar enquanto sua mente processava incertezas, mas ele falou antes, complementando: – Eu sei que a maior parte dos aeritas não queria uma guerra, se seus pais fugiram disso é porque com certeza não queriam.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Você tem razão. – ela o respondeu a coisa que ele mais gostava de ouvir, o que o fez dar um sorrisinho de canto.
Aos poucos as auras dos dois se margeiam mais uma vez, acalmando-se no silêncio.
— Bom, vamos? – ele perguntou.
— Você vai junto?
— Só para caso alguém te veja aparecendo na biblioteca.
— E se verem, você vai fazer o que?
— Eu tenho meus truques.
— E será que esses truques são decentes? – ela o provocou.
Ele riu.
— Espero que eu não tenha que te mostrar.
Se olharam fazendo que sim com a cabeça e desapareceram. Segundos depois, Tom reapareceu no quintal com mãos no bolsos, um suspiro escapando dos lábios e um passo lento para dentro de casa.
*
No sábado, Cass estava no ônibus sozinha. Pegou a mesma linha que a levava para o colégio, mas desceu dois pontos depois de passar sua habitual parada. Dessa vez falou a verdade para o pai: André a convidou para ver o filme na casa dele e ela gostaria de ir. A reação dele fora engraçada, apenas um:
— Tá, mas vai com calma.
Acompanhado de um rosto que se contorcia em preocupação ao perceber que sua primogênita crescia.
Descendo do ônibus, nem precisou esperar. André a aguardava lá com um guarda-chuva, o final de semana seria coberto de uma garoa fina.
— O clima perfeito para pipoca, chocolate quente e um cafuné. – ele disse enquanto pensava em outras coisas que poderia fazer no tempo de um filme.
Caminharam abraçados e trocando sorrisinhos, dividindo o espaço sob o guarda-chuva. O pai de André estava dentro da garagem, ouvia música sertaneja, bebia uma cerveja e encarava o motor do carro enquanto repensava todas as escolhas de sua vida.
— Pai, essa é a Cass. Cass, esse é o meu pai, Luís. – André se encaminhou para as apresentações, sendo breve. O adulto não parecia saber que o filho traria alguém.
— Prazer! – Cassandra sorria ao cumprimentar o sogro.
— Ah, a garota da bateria. Ela que que faz o pa-pa-pa-pa! – Ele gesticulava com as mãos imitando uma bateria e fazia que sim com a cabeça.
— É sim. — André riu.
O pai deu um sorrisinho para o filho de quem já havia entendido todas as intenções daqueles dois jovens.
— Seja bem-vinda, Cass!
— Ah, obrigada!
— Ele fala muito bem de você.
— É mesmo? – ela olhou para André com um sorrisinho no rosto.
— A gente vai estar no meu quarto vendo um filme. – O adolescente explicou já puxando a namorada pela mão para dentro de casa, querendo evitar qualquer outro momento em que sentisse as bochechas esquentarem.
Logo se acomodaram no quarto, a nova TV tela fina na sala de estar rendeu a André uma TV de tubo no quarto onde ele conectava o vídeo-game. Cass deixou sua bolsa por lá e foram para a cozinha estourar pipoca.
— E com o seu pai, você falou? – André estava curioso, mexia a pipoqueira sem parar.
Em um ambiente tão vazio de adolescentes, Cass o lia não como um livro, mas como grandes placas de trânsito. André queria tanto ser levado a sério, que alguém acreditasse nele e nos sonhos dele.
— Sim. – ela fez que sim com a cabeça – Ele pediu um tempo porque o trabalho está bem puxado, mas eu disse que era importante pra mim, ele vai dar um jeito. – Ela sorriu contando para ele.
Ele sorriu, satisfeito. Olhou para a porta de entrada, conseguiam ouvir Luís mexendo no carro lá fora.
— Resolvi fazer uma coisa. – ele falava baixo.
— O que?
— Vou prestar música sem eles saberem.
Ela arregalou os olhos e deu uma risada surpresa.
— Sério?
— Vou me inscrever, se eu passar, legal, se eu não passar… faço outra coisa.
— E qual vai ser a segunda opção?
— A universidade também tem um curso de produção cultural, pode ser essa. – ele desligava o fogo percebendo que o milho parava de estourar – Se é pra deixar eles loucos, vou fazer bem feito.
— Acho que o importante é você não ficar se lamentando depois por não ter ao menos tentado.
— Sim, é o que você sempre fala, e eu acho que faz sentido. – ele sorriu e se aproximou de Cass, dando um beijo na namorada – Minha sábia.
— Eu fico orgulhosa de você tentar.
Ele mantinha o mesmo sorriso no rosto e virava a pipoca sobre uma bacia, mas Cass percebia os ânimos satisfeitos em ouvir que ela estava orgulhosa dele. O ego do garoto mal cabia nele mesmo, ela tentava não sorrir demais o observando.
— Você me ajuda muito. – ele continuava – Tem vários cursos nessa universidade, aliás, você podia dar uma olhada pra… sei lá, ver se tem algo que te interessa.
— Onde fica?
— Aqui no estado mesmo.
— Hm…
— Sem pressão! Só uma sugestão.
— Eu vou olhar os cursos, pode deixar. – Casa olhava ao redor – E sua mãe?
— De plantão, deve chegar logo mais. Temos que aproveitar agora, porque ela não vai nos deixar tão à vontade.
O olhar sugestivo de André dava um breve frio na espinha de Cass. Ela gostava dos olhos escuros dele.
Minutos depois estavam no quarto dele, o filme era um horror thrash pastelão feito para ser ignorado por adolescentes que precisam de um tempo a sós e com gritos perfeitos para abafar sons que os pais destes adolescentes não gostariam de ouvir.
Os dois se acomodaram sentados na cama, com as costas na parede. Assistiam o início do filme, comiam pipoca, se aconchegaram embaixo do edredom marrom e azul do quarto de André para se protegerem do frio confortavelmente. Cass estava acomodada, sua cabeça apoiada no ombro de André, a bacia com pipoca já estava quase vazia e fora deixada de lado. O filme tinha acabado de passar pela primeira morte. Por baixo do edredom, a mão de André acariciava a perna de Cass, um pouco acima do joelho da garota. Ela acariciava o antebraço dele, confortável.
Cass não esperava que a porta estaria fechada, que nenhum adulto estaria por perto o suficiente para impedir algo, que estaria com um frio na barriga constante esperando saber o que fariam, como fariam, se é que fariam. Um erro de continuidade do filme fez André contar uma piada. Eles riram disso e se observaram, chegando mais perto, suaves até que, para acabar com a ansiedade, Cass o puxou pela nuca.
André não perdeu tempo, seus lábios alcançaram os de Cass ao mesmo tempo que ele a alcançou pela cintura, a trazendo para mais perto. Esperava um momento sozinho com ela desde que começaram a se relacionar e agora ela estava ali, o corpo quente contra o seu, a língua contra a sua, no quarto onde ele havia a imaginado tantas vezes. Era até bom demais para ser verdade. Os dois se colocavam frente a frente, ele mantinha uma das mãos nas costas de Cass enquanto a outra deslizava pelas coxas da garota, imaginando como seria sentir sua pele em vez daquela maldita calça jeans. Ele a apertava, precisava beijá-la, mas queria ainda sentir mais de seu cheiro.
Ela se surpreendeu com os beijos dele deixando seus lábios e avançando para seu queixo e então seu pescoço. Sua respiração profunda e lenta contrastava com o ritmo acelerado do filme o qual ela nem prestava mais atenção. Se rendeu deixando a cabeça inclinar para trás, sentindo ele se curvar sobre ela, mantendo seus corpos colados e os beijos molhados em seu pescoço. Ela não sabia o que fazer com as mãos, uma ela mantinha na nuca dele, acariciando os cabelos curtos, e outra erguia de leve a barra da camiseta dele, sentindo a pele das costas do namorado. André parecia ter gostado da ideia, porque fazia o mesmo com ela, passando a mão sobre a barriga da garota, sobre as costelas, um arrepio corria o corpo de Cass quando ela sentiu ele tocar a faixa de seu sutiã que ficava logo abaixo de seus seios.
Ela resolveu que era a vez dela, se projetou um pouco para frente, ganhando espaço, e beijou os lábios dele novamente. Ele a recebia com uma mão quase em seu seio e a outra sobre sua nádega direita, a apertando. Era bom, ela soltava um gemido leve, e ele resolveu arriscar passando sua mão estendida por baixo do sutiã. Cass se arrepiou, endireitou o tronco soltando os lábios dele, mas não o repreendeu. Naquele momento, se olharam nos olhos. Ambos com a boca entreaberta, ansiosos por mais. Ele prendeu o mamilo dela entre a ponta do polegar e a base do indicador, pressionando levemente, a fazendo respirar fundo. Um suspiro que para ele parecia poético.
— Você é linda. – ele falava baixo, mas alto o suficiente para ela ouvir, mantendo seus olhos nos dela. – Mais que isso, é maravilhosa. – ele massageava o seio mantendo o mamilo apertado, a ouvindo suspirar mais uma vez.
Ela sentia as intenções dele claramente. Eram apenas duas: ter prazer e dar prazer. A mente dela vagava lugares, pedindo uma conexão.
— Eu quero você. – ela disse.
Ele avançou. Tirou as mãos de onde estavam para a puxar para seu colo. Ela se surpreendeu com a facilidade com a qual ele fez isso. Eles se beijavam de novo, a mão direita dele voltando para o posto dentro do sutiã. Para ela, os arrepios pelo corpo eram ótimos, mas também eram a agonia de uma aura bruxa implorando a reação de outra. A mente agitada de Cass a impedia de saber o que fazer. Onde estava a outra mente que ela deveria tocar? Não havia uma mente bruxa ali, mas ela era telepata. Era invasivo, mas ele jamais saberia. Além disso, era uma forma de saber o que ele gostaria que fosse feito. Encontrou a mente dele rapidamente, a mente humana era fácil. Via e ouvia uma mistura de imaginação e desejo. Na mente de André, ele se perguntava se Cass deixaria que ele chupasse seus seios, se ela rebolaria em seu colo para que a fricção de suas roupas os dessem prazer. Cass chegou a considerar limites, mas queria ver o que ele faria se facilitasse os desejos dele.
André estranhou quando Cass soltou seus lábios de repente, mas agradeceu aos céus quando a percebeu tirando a própria blusa. Ele logo fez o mesmo, jogando a camiseta para fora da cama, e a puxou pela nuca beijando seu pescoço e colo. Em um segundo pensou consigo “puta que pariu, ela é linda”, enquanto uma pequena dúvida se manifestava, pensando se ela havia gostado do que estava vendo dele. Ela se encurvou para beijar o pescoço dele, arranhou de leve suas costas enquanto os beijos dele se aproximavam de seu seio. Percebia que ele se arrepiava.
— Você é muito gostoso.
Eram as palavras perfeitas para o deixar à vontade, ele a beijava ainda mais intenso, chupava a pele dela com uma das mãos puxando o sutiã dela para baixo. Ela o percebia contornando seus seios com os lábios, os alcançando um centímetro de cada vez, ela o ouvia comemorar silenciosamente cada avanço que ela não o impedia de fazer. A língua finalmente alcançou o mamilo, o sugando para dentro da boca, ela se surpreendeu ao perceber que, em resposta ao arrepio que sentia, se movia como o imaginado por André. Ondulava seu tronco, esfregando seu corpo no dele, sentindo o volume firme sob sua calça e ouvindo a mente dele confirmar que era isso mesmo que ele queria.
Ela nunca havia sentido nada como aquilo, o desejo se materializando, o corpo pedindo mais, mas ao mesmo tempo sentia frio. As pontas dos dedos calejados do guitarrista deslizavam por suas costas e envolviam sua cintura, a segurando com firmeza, guiando movimentos que ela sabia que ele faria. Sentia falta de algo que não conseguia nomear, mas pelo menos naquele momento o que mais sentia era prazer. Ele sugou o peito dela mais forte, motivo de um gemido baixo que ela não conseguiu conter. “Eu adorei esse gemido”, ele pensava e sugava, a fazendo gemer de novo “será que ela me deixaria” ele forçava o corpo para cima, se esfregando mais forte “ouvir os gemidos de quando eu chupo sua boceta?” Cass foi pega de surpresa no meio de outro gemido baixo, agora causado pela fricção de seus corpos. Ela olhou para baixo e sentiu um frio na barriga quando percebeu os olhos de André sobre ela, tão determinados, desejando avançar todas as bases.
O olhar era tentador, mas a situação era desconfortável. Enquanto ela sabia tudo o que ele queria, ele não tinha nenhuma resposta do que ela estava disposta a fazer. A ignorância nesse caso talvez tivesse sido melhor, porque agora ela estava com receios e desacelerava, mesmo que ele não tivesse feito algo errado, e sua aura continuava procurando algo a se conectar. “O que houve?” ele pensava. Cass pensou que teria que inventar algo caso ele perguntasse, mas o acaso a salvou. O som de um freio de mão sendo puxado agressivamente era audível do lado de fora, um carro havia acabado de estacionar em frente da casa. “Minha mãe.”, pensou André terminando de soltar o mamilo da boca.
— Minha mãe chegou.
Os dois rapidamente se arrumaram sobre a cama, vestiram as roupas tiradas, ele abriu a porta do quarto e voltou para baixo do edredom ao lado dela. Ela deixou de ouvir os pensamentos dele.
— Meu cabelo. – Cass olhou para André pedindo para que ele verificasse, ele arrumou algumas mechas com as pontas dos dedos.
— Está ótimo.
— Mesmo?
— Mesmo.
Fingiam assistir o filme, um tanto abraçadinhos como estavam antes de começarem a se beijar, segurando risadinhas. Uma mulher com uniforme de enfermeira parou na porta do quarto, observando os dois. André fingiu surpresa, se esticando para pegar o controle do vídeo-game e pausar o filme.
— Ah, oi, mãe! – ele falava com um tom casual – Essa é a Cass. Amor, essa é minha mãe, Marina.
— Olá, Cassandra, como vai? – a mulher observava os dois atentamente.
— Oi! – a adolescente sorriu para a sogra – Estou bem e a senhora?
— Estou ótima! O que estão fazendo?
— Vendo um filme.
— Aham. – Ela não acreditou nenhum pouco. – Qual?
— Vampiros Não Sobrevivem a Motosserras. – o casal respondeu ao mesmo tempo.
— Ah… – ela olhava a cena pausada na TV, depois para os dois novamente – Cassandra fica para o jantar?
— Bem… Eu não quero atrapalhar. – a garota respondeu.
— Fica. Fica sim. – André a pediu.
— Não atrapalharia, eu vou pedir pizza. – Marina tinha um jeito durona, mas parecia legal a certa medida.
— Eu tenho que avisar meu pai, mas pode ser. – Cassandra respondeu balançando a cabeça.
— Então está bem. Eu vou tomar um banho e cuidar de umas coisas. – ela ia se virando, pronta para sair – Esta porta fica aberta, está bem, senhor André?
— Sim, senhora!
Ela deixou a frente do quarto, André deixou o filme continuar, se acomodando ao lado de Cass novamente. Ele tinha um sorrisinho bobo no rosto quando percebeu os olhos de Cass sobre ele, com um sorriso parecido, mas uma cara de dúvida.
— O que foi? – ele perguntou.
— Você me chamou de “amor”.
Ele percebeu que era verdade e corou levemente.
— Algum problema? – ele verificava.
— Não.
— Então está bem.
Ela sorriu dando um beijo nele e se acomodando sobre seu ombro de novo.
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