Mágica - Livro I
10 Histórias
Notas iniciais
— Então você é tipo um amante. Só que sem os benefícios, só a parte ruim. – era Tabata que falava dentro de um sonho.
Era assim que os irmãos conseguiam manter um contato mais próximo do que mensagens e ligações permitiam. Quando queriam falar, se avisavam por mensagem e posicionavam um dispositivo de cristal sob seus travesseiros. Quando dormiam, se encontravam em uma noite bonita que ficava em um subconsciente comum. Havia uma figueira e um banco no alto de uma colina, onde os dois se sentavam às vezes de frente e às vezes de costas para o luar. Tabata tinha a pele escura, seus cabelos estavam presos em uma trança longa que saía do alto da cabeça e se apoiava sobre o ombro direito. Ela aparecia em suas roupas de dormir, uma regata justa e shorts largos que faziam seu corpo parecer ainda mais magro.
— Chegamos à mesma conclusão. – Thomas reclamava cruzando as pernas sobre o banco.
— É claro! Vocês mantêm uma relação ás escondidas! E estão aí em um momento de descobrimento sexual juntos ainda por cima! – a irmã riu.
— Eu podia ser humilhado pelos meus próprios pensamentos, não precisava te chamar pra isso.
— Ai, Tom… – ela ria – Eu tô com inveja, você tem ao menos a chance de ter uma entrega completa.
— Eu não acho que tenho essa chance.
— Como não? Já está praticamente acontecendo.
Ele estalava a língua até em sonhos.
— Eu não quero.
— Mentira.
— Verdade!
— Por que você não quer?
— Por que eu deveria querer? Porque ela é a única opção viável? – ele bufa balançando a cabeça – Eu não gostaria que ela investisse em uma relação comigo só por esse motivo. É cruel! E não pretendo fazer o mesmo com ela.
— Quem tá falando de investir em relação aqui? – Tabata se colocava de frente para o irmão, posicionando uma perna de cada lado do banco – Você tá pensando em algum tipo de cumplicidade romântica, e eu entendo, seria a primeira vez de vocês… Mas de repente vocês não precisam disso, né?
— Olha o tipo de coisa que você planta na minha cabeça.
— Como se eu precisasse plantar esse tipo de coisa. Eu acho totalmente possível ela só chegar um dia e perguntar se você quer. Vocês são a única possibilidade, sim, mas ao menos são uma possibilidade! E são amigos. Dá pra não morrer sem saber como é. – ele não encarava a irmã, ficava ponderando as informações olhando para o céu sem estrelas – Me fale se estou errada.
— Não, não está. Precisava nem ser minha amiga. – a irmã começou a gargalhar – Se fosse uma completa desconhecida me fazendo uma proposta, poderia até capturar e levar pro cárcere depois…
— Ai, para, que pesado. – ela ainda estava rindo.
Ele balançava a cabeça negativamente ainda com o olhar perdido, repensando a situação.
— O foda é que ela não tem com quem falar sobre isso, igual eu tenho você.
— Ela vai descobrir o que precisa de outras formas. Como foi quando vocês fizeram o toque mental?
— Ah… foi bom logo de cara. Tipo um beijo muito bom, só que no meu cérebro. Eu queria saber se isso era normal e ela só me disse que era mais intenso pra mim do que pra ela.
— Céus…Que embaraçoso.
— E com o tempo passando ia ficando melhor, Tabata! – ele falava como se fosse terrível – A sorte é que ela rompeu a conexão rápido, porque eu não conseguia, e por coisa de um segundo ela não me ouviu pensando que eu não queria que ela parasse!
— Ai que inveja… Ela parece muito inconsciente das próprias habilidades, senão ia ter notado que não tava fazendo só telepatia.
— Eu também acho que é isso. A vovó falou que ela está represada. Outra coisa que foi sorte é que a gente não estava só explorando, como foi quando a gente percebeu que nossas auras reagiam. Se não fosse ter todo o objetivo de saber da mãe dela, estávamos com corpo, mente e aura interagindo livremente…
— Tem certeza que isso não é algo que você quer?
— Claro que não quero! Mas se acontecesse eu gostaria muito.
A irmã riu de novo, já ele ria de nervoso com a própria situação.
— Bom, você vai me contando, Tom.
— Você podia vir nos visitar quando estivéssemos montando o portal. Vamos precisar de ajuda.
— Isso ficou bem importante pra você, né?
— Bom, agora eu as conheço. É triste vê-las separadas.
— Sei… – ela não diria, mas se perguntava se Thomas não estava mesmo criando sentimentos pela nova amiga – Eu vou me esforçar, Tomtom. Mas tome cuidado, você é inteligente demais pra vacilar.
— Vou tomar cuidado sim.
*
Eu era pupilo de um grande arquiteto na época, o Zias. Ele tinha planejado um novo observatório para apreciações coletivas do céu, lembra um teatro de arena, eu mesmo havia esculpido vários detalhes, e nosso alunato receberia uma condecoração junto dele na inauguração do espaço. Era minha formatura, vamos dizer assim.
Não sei se você se lembra, mas em Eivar, toda vez que inauguramos uma estrutura desse porte, há uma celebração. Eu cheguei cedo, estava com as minhas melhores roupas, aquele devia ser o dia mais importante da minha vida até então, e eu sentia que seria mesmo. Era um equinócio, todos esperariam para assistir o sol se pôr entre duas colunas e aí tinham as festividades com apresentações, eu receberia minha insígnia de arquiteto e depois tinha um buffet enorme.
Eu estava sentado na primeira fila, assistimos ao pôr-do-sol, aconteceu exatamente onde havíamos previsto, todo mundo aplaudiu e começaram as apresentações. Havia gente tocando flauta, uma apresentação de dança… Aí anunciaram a apresentação de um grupo militar que estava se graduando. Isso me revoltava, fiquei imaginando o que aqueles brutamontes fariam naquele espaço! Provavelmente quebrariam alguma coisa só pra mostrar que eles são fortes e ágeis, grandes coisas.
Começou a apresentação, homens e mulheres enfileirados mostrando que conseguem se mover juntos. Nossa, eles tem armas! Eles têm presteza manipulando as armas, uau! Grande coisa. Nada me impressionava. Foi quando anunciaram que um destaque da academia faria uma apresentação solo. Eu já estava com sono, quando caminhou para o centro do palco uma mulher diferente. Ela estava com os cabelos soltos, usava uma versão diferente do uniforme e estava descalça. Começaram a tocar uma música e… ela dançava e lutava ao mesmo tempo! Tinha uns movimentos soltos, vivos que eu sentia que reconhecia, mas não entendia como. De repente, dava uma pirueta e um soco que lançava chamas. Não era um fogo normal, era fogo de fada, uma técnica avançadíssima para alguém tão jovem. Mas nem era isso que me impressionava, conforme ela se movia e desferia os golpes dela, as labaredas subindo, ela parecia o próprio fogo. Eu estava maravilhado!
Depois da apresentação dela, foi nossa condecoração. Recebi a insígnia, cantaram o hino – é um momento bem poderoso – e aí começaram a festa. Eu tinha dois melhores amigos, Theo e Dimitri, estávamos nos embriagando e curtindo a festa, dançando, quando Dimitri me puxou para uma mesinha onde alguns bailarinos e militares estavam fazendo uma roda de flama. Era um jeito de acelerar a paquera, a gente ficava em roda com uma mão sobre a mesa e, no seu turno, você tinha duas possibilidades:
A primeira e menos arriscada era tocar todas as mãos da mesa, uma a uma, começando pela pessoa a sua esquerda e seguindo em sentido anti-horário. A primeira pessoa que você sentisse afinidade, que as auras reagissem ao toque, seria seu par. Você saía da roda com aquela pessoa e ia dançar, tomar uma bebida, sei lá. Theo estava com a gente e foi o primeiro, começou tocando a mão de todo mundo até a aura dele reagir com a de um bailarino e eles saíram.
O jogo não tem bem um começo e fim, as pessoas vão entrando e saindo da roda o tempo todo. Então quando eles saíram, teve uma garota do meu alunato que entrou na roda, o nome dela era Íris. Nós sabíamos que nossas energias reagiam, a verdade é que nós já tínhamos nos relacionado e, embora a química existisse, era meio que só isso.
Então foi a vez de Dimitri, eu torcia pra ele tirar Íris, porque eu sabia que eles também reagiam, mas acabou que a primeira garota ao lado dele já foi a certa. Eles saíram, a roda foi se ajeitando, Íris já era a terceira ao meu lado. Foi quando eu a vi de novo, a destaque da academia militar colocando sua mão sobre a mesa, diametralmente oposta a minha, e esperando curiosa o que ia acontecer.
Era a vez de mais uma menina, ela tocou minha mão sobre a mesa, mas eu não senti nada diferente. Ela continuou por mais algumas pessoas e tirou outra menina para dançar. Íris continuava sendo a terceira ao meu lado.
Eu olhei para a roda, nem gostava tanto desse tipo de jogo, mas agora havia uma pessoa ali por quem eu já estava hipnotizado.
Quando chega seu turno jogando flama, a segunda possibilidade é tentar um toque de mão diretamente com quem você tem interesse na roda, qualquer pessoa da mesa, mas caso não tenha reação você precisa sair sozinho do jogo. Não é comum fazerem, porque é uma declaração de interesse muito aberta e, caso dê errado, fica óbvio que você tem interesse por alguém que não reage com você. Mas… Eu não queria sair dali com Íris. Eu queria pelo menos uma conversa com aquela militar e dançarina incrível.
Era minha vez, ergui minha mão ainda pensando no que faria e toquei diretamente a dela, do outro lado da mesa. Ela se surpreendeu, assim como todo mundo, e foram os dois segundos mais longos da minha vida até sentir que havia calor. Havíamos reagido. Eu quase desacreditei, e quando ela viu isso e sorriu pra mim, eu me senti tão carregado que dei um choque! Ela fez “ai!” tirando a mão e deu risada. Saímos da mesa e eu perguntei qual era o nome dela, ela disse:
— Ariane. Foi você quem fez os carregadores de mundos?
Eram pequenas estátuas no hall de entrada. Eu disse:
— Sim, fui eu.
E ela:
— Que ótimo, eu queria mesmo te conhecer.
Daí começamos a conversar.
Pai e filhas estavam na sala, os três descansando.
— Mas por que você me perguntou isso? – Cícero perguntou à filha mais velha.
— Ah, pra saber! – Cass deu de ombros.
— Tá tudo indo bem com o… André?
— Sim! Ele é fantástico. Não perguntei por causa dele não.
— Então por quê?
— Eu não vou ter as mesmas experiências que vocês, mas gostaria de saber como isso funcionaria. – ela era quase honesta – Por exemplo, a reação entre as auras. Como você sabe se reagiu ou não? É sempre um calor? Como você e a mamãe sabiam que iam funcionar?
Cícero se arrumou no sofá, sentia que se aproximava de uma dessas conversas importantes. Agda levantou os olhos, interessada na conversa de repente.
— Não, nem sempre é um calor. – o pai respondia se ajeitando no sofá – Pode ser um formigamento, uma vibração.
— E o choque?
— O choque acontece no começo, quando a aura ainda está aprendendo a conectar. Ou quando uma das auras está estressada ou excitada, no meu caso quando eu conheci sua mãe eu fiquei muito surpreso e… feliz.
— Mas não foi isso que disse que vocês reagiam e que eram assim compatíveis.
— Um choque é com certeza uma reação. Agora, o que você quer dizer com “compatíveis”?
— Quero dizer tipo… – ela ainda estava digerindo o fato de reagir com Tom – que vocês podem ser um casal mesmo, que podem dar certo.
— Ah, entendo. Não, por um choque não daria pra saber isso. Por reação alguma, aliás, só a convivência mesmo.
— E… – ainda havia algo explicado – Essa reação é uma reação das auras.
— Sim. A aura é ligada às sensações do seu corpo, então se você quer saber se a atração física entre duas pessoas pode funcionar, é um meio rápido.
— Essa é a única reação que tem?
— Reação é sim. Mas… Bom, tem outra coisa, que é o toque das mentes. É uma coisa que foi preocupação minha e da sua mãe quando você se mostrou telepata.
— Eu não lembro de vocês terem falado disso comigo.
— Você devia ter o que? Uns 5 ciclos? E de repente eu conseguia ouvir sua voz dentro da minha cabeça dizendo “estou com fome”.
— Mas por que isso é preocupante?
— Ah, sim… porque geralmente você precisa que as auras reajam por um tempo para o toque de mentes acontecer. É uma sincronização das duas pessoas quando elas estão… namorando. Não é como na telepatia, em que você tem acesso a informações verbais, ou a imagens, memórias… é uma experiência sensorial, um jeito de você saber o que a pessoa quer e o que ela te causa. Normalmente isso precisa de alguma intimidade, as auras precisam já estar bem integradas para acontecer. Mas quando se é telepata, é como se você tivesse um atalho, pode acabar acontecendo enquanto está se comunicando ou bisbilhotando. A gente planejava te explicar bem sobre isso quando você estivesse por volta dos 13 ciclos…
— Por que você não me disse antes?
— Sem outros bruxos por perto eu não senti necessidade… e é muito estranho pra mim te falar sobre isso.
— Claro… – ela fingia não estar irritada com sua ignorância – Pai, uma última pergunta: quando tem uma reação ou um toque de mentes… as duas pessoas sentem as mesmas coisas?
— Não. Geralmente é muito assimétrico. Até o ápice.
— O ápice?
— A reação das auras permite o toque das mentes. Isso também envolve as reações do corpo. Essas reações têm um ápice, que é quando os dois sentem as mesmas coisas, é a sincronia perfeita. E é isso que passa poderes a um filho, quando você está fazendo um. – ele esperava ter sido claro o suficiente para não ter que repetir.
— Então só somos bruxos porque sentimos isso.
— Isso mesmo.
*
Na quarta, a banda montava seus equipamentos no estúdio. Cass ainda não havia conseguido tempo sozinha para ir a casa de Tom, mas ele havia avisado sua avó que em breve ela apareceria. Enquanto André afinava sua guitarra e Cass se alongava, os dois e Lucas ouviam Laulau se lamuriar:
— Eu falei que as meninas lá não gostam de mim, ela praticamente ignorou, disse que eu que não dou uma chance!
— Como é esses retiros? – Cass perguntava.
— Ah, você acorda cedo, ajuda as freiras nas caridades, come, tem umas gincanas bem cristãs, come mais um pouco, daí tem oração, umas rodas de conversa, e aí você vai dormir. – Laulau não parecia se incomodar com a programação. – Assim, até é legal!
André e Cass se entreolharam, duvidando.
— E você só não quer ir então por causa dessas meninas. – Lucas brincava com o fio do microfone. – Foge, Laulau, eu e o André te buscamos.
— Como? Fica lá na puta que pariu, fora da cidade.
— Eu queria conseguir te ajudar. – Cass falou para a amiga.
— Tudo bem…
A conversa foi interrompida por Tom abrindo a porta do estúdio de supetão e olhando para todos ali dentro.
— JP pediu pra avisar que Diogo tá chegando no estúdio.
— O Diogo?! – Lucas arregalou os olhos.
— A gente viu ele na calçada, estão conversando lá, dando uma enrolada. – Tom entrou e fechou a porta atrás dele, olhando para Cass.
A bruxa olhou para André e para Lucas, um tanto tensa.
— Ele tá de braço engessado? – André perguntou.
— Sim, até o cotovelo.
— Bom, então ele não veio pra tocar. – André não estava calmo, mas não queria deixar Cass nervosa com a situação.
— Você não falou com ele? – Lucas começou a ficar inquieto.
— O que eu ia falar?
— Que nossa nova baterista tem mais experiência e não é chata pra caralho. – Lucas deu uma risada nervosa enquanto falava.
— Cass não confirmou que fica ainda. – André disse como se não fosse nada, olhando para ela seguida. – Ela disse que queria esperar para decidir depois do show.
— Eu falo alguma coisa, ou…? – Tom perguntou apontando para fora.
— Não. – Cass se pronunciou se sentando no banco da bateria. Aquele era o momento dela, se Diogo veio ser humilhado, ela ficaria feliz em ajudar. – Senta aí com a Laulau, vamos ver o que ele vai dizer.
Thomas fez o que ela disse. André sorriu para Cass, adorava ver o quanto ela era orgulhosa e confiante quando se tratava da bateria. Foi até ela dar um selinho.
— Se te incomodar, só me dá um toque que eu penso em algo. – ele acariciou o queixo dela falando baixinho.
— Eu tô bem. – ela sorriu para ele.
Deram mais um selinho e foi o tempo exato da porta abrir. A voz de Diogo entrou na sala cumprimentando Lucas animado.
— E aí, Luquinhas!
— Fala, cara! E esse braço aí hein? – para quem conhecia Lucas, era fácil dizer que ele estava desconfortável.
— Melhorando a cada dia.
Diogo era grande, o cabelo não estava arrepiado nesse dia, o que o fazia parecer menos ameaçador, dessa vez usava um boné. Cass o observava cumprimentar a todos, JP pegou o baixo. E foi rapidamente para o seu lugar se mantendo em silêncio. André e Diogo se cumprimentaram com um toque, segurando as mãos.
— Fala, mano. Você é previsível, hein? – Diogo se referia a Cass, ela percebia.
— Não é nenhum crime, né? Você sumiu!
— É, eu tava pensando. – Ao soltarem as mãos, Diogo olhou para Cass. Ela o encarava de volta, ele se aproximou e estendeu a mão para ela. – Como você tá?
— Bem e você? – a resposta era e soava um tanto automática, mas ela apertou a mão dele.
O contato direto a fez perceber que aquele era só um garoto que queria seus amigos de volta. Via claro como água. Não era sobre a bateria ou sobre se provar bom, ele queria fazer música com seus amigos e só.
— Estou bem. Me disseram que você é bem foda na bateria. – ele a respondeu.
Cass não gostava de ter descoberto as intenções dele tão fácil. Era ruim querer ser o seu pior contra quem estava tentando ser o seu melhor. JP olhou para ela com o canto dos olhos, como se estivesse tímido por ter falado dela com o amigo.
— Ah… bondade do JP. – ela sorriu sem graça.
— Que nada. Vocês já vão começar? Eu só vou comprar água lá fora.
— De boa! – Lucas fingia normalidade.
— Tranquilo, vai lá. – André afinava a guitarra já afinada.
Diogo saiu da sala, André fechou bem a porta atrás dele para garantir que o baterista não ouvisse.
— Que porra é essa? – o guitarrista perguntava para JP. – O que você falou com ele?
— Que ela era boa! – JP gesticulava – Ele não apareceu duas semanas, não falou com ninguém, eu achei estranho e fui atrás!
— Deixasse ele sumido! – Lucas despenteava os próprios cabelos.
— Mano, vocês tão sendo muito mesquinhos. – JP evitava o contato visual, mas era sincero – Eu adoro a Cass. – ele se virava para ela para balançar a cabeça e fazer que sim, era verdade que a adorava – Mas a gente não pode só cortar o Diogo, ele aprendeu bateria só porque a gente precisava de alguém, e nesse tempo ele tá passando por divórcio dos pais, mudança de casa, um monte de coisa… ele não tava sendo pau no cu completamente sem motivos.
— Mas tava sendo um pau no cu! – Lucas andava de um lado para o outro.
— Eu falei com ele sobre isso, ele quer melhorar. – JP encarou o amigo para dizer isso dessa vez.
André parecia em conflito, ele não podia dar razão para JP na frente de Cass e a baterista, por sua vez, observava os sentimentos conflitantes dentro do estúdio.
— Calma, gente. – ela também estava em conflito, mas não gostaria de estragar a amizade dos quatro – Eu entrei só pra tapar buraco mesmo, mas ele ainda nem está com o braço bom. Vocês não precisam se preocupar comigo, de verdade.
— Mas a gente gosta de você aqui. – André respondeu imediatamente.
Ela pensou em responder, mas Diogo abriu a porta. Ele trazia consigo uma garrafinha de água e um banquinho, que ele posicionou no canto da sala.
— Eu vou ficar aqui no canto. – ele se explicava enquanto pedia licença com um gesto de cabeça a Tom e Laulau.
— E esse braço? Tá melhorando? – Laulau quem perguntou.
— Eu voltei ao médico e ele estendeu o tempo do gesso. – Diogo explicou, um tanto decepcionado – Então eu não consigo tocar no show mesmo, mas… tudo bem! Eu vou para fazer barulho da platéia mesmo.
Os outros três músicos se olhavam em uma conversa mental.
— Tá tudo bem mesmo pra você? – André quis ter certeza.
— Ah, que escolha eu tenho?
— É, realmente… – Lucas concordou com a cabeça. – Bom, vamos começar?
*
Agda montava um quebra-cabeça na mesa do bar do estúdio com Laulau. Tom ajudava a separar as peças de canto. Lucas, JP e Diogo conversavam na mesa ao lado enquanto Cass e André estavam no estúdio, movendo pratos de bateria.
— É sério – Cass buscava acalmar o guitarrista – Eu não estou preocupada com isso.
— Mas você não gosta de tocar com a gente?
— Eu adoro, você vê o quanto eu fico empolgada tocando.
— Você é muito melhor que ele.
— Mas ele é amigo de vocês, JP tem razão em partes.
— Tá… Mas se você resolver que quer continuar tocando, a gente monta até uma segunda banda.
— Eu não teria grana pra pagar o estúdio. – ela ri falando.
— A gente ensaia na sua casa, você já deve incomodar os vizinhos regularmente mesmo.
Ela deu uma risada nervosa.
— Na minha casa?
— É uma possibilidade. – ele se aproximou dela, Cass já nem precisava de seus poderes para sentir as segundas intenções, mas dessa vez havia uma curiosidade além de um desejo – Não é?
Não, não era. Os cômodos se moviam, o quarto era a prova de som por estar na verdade em lugar nenhum, como seria se os garotos entrassem nele?
— Bom… tem o meu pai. – ela esperava que isso fosse algum tipo de impedimento.
— Ele me viu quando te buscou no Coliseu, não foi?
— Sim.
— E o que ele disse?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Você quer uma desculpa pra conhecer meu pai?
— Não, eu quero que a gente continue tocando junto. – ele a envolvia pela cintura – Mas seria um problema eu conhecer seu pai?
— Não acho que seria um problema, mas não faço ideia se ele quer ou não te conhecer.
— Os pais sempre querem.
Ele queria, ela sentiu. Haviam vários desejos ali misturados, um deles era o de evitar uma briga ou confusão por ele não ajudá-la no que ela quisesse, se isso fosse uma questão. Ele estava sempre se preocupando em evitar conflitos, ela já havia notado, deveria ser algum trauma do relacionamento anterior. Agora o desejo dele de conhecer seu pai, isso Cassandra não sabia dizer de onde vinha.
— Por que você quer conhecer ele?
André parecia tímido, coisa que ela ainda não havia visto uma vez sequer. Para confortá-lo, ela acariciava a nuca dele com a ponta dos dedos, o que havia virado costume nos últimos dias.
— Ah, porque eu quero te ver fora daqui, da escola… Seu pai não tem que me conhecer pra isso?
— Entendi… Você não acha muito rápido? Oficializar um namoro?
— Você já é minha namorada.
— Ah, sou?! Isso não é algo que a gente tem que dizer em voz alta?
— Você tem dito de outras formas. Eu também tenho, não tenho?
Em uma rápida avaliação era fácil dizer que sim. Ele fazia questão de estar com ela sempre que podia, de forma que às vezes até atrapalhava os planos dela. Ele desabafava sobre problemas costumeiros com os pais, tentava ser útil para aliviar os dias dos problemas que ela parecia ainda não dizer, mas esperava que em breve ela o contasse.
Cass não queria sorrir, não queria ficar vermelha, não queria demonstrar que estava eufórica, com o estômago embrulhado e o coração palpitando por ouvir isso tão claramente. O sorriso se manifestou, assim como corou e, imediatamente, ela escondeu seu rosto no ombro dele, que deu risada.
— Cass tem namorado, lero-lero-lero. – ele cantava rindo, a fazendo rir também.
Ela ergueu a cabeça para beijá-lo, tentando se recompor.
— Bobo.
— Sou mesmo. – ele sorriu e a esperou se recompor, tirando o cabelo dela da frente do rosto – Eu só quero que você saiba que… Eu faria isso pra gente poder se encontrar sem tanta encanação.
— Eu vou falar com ele.
*
No dia seguinte, André não pôde ficar até mais tarde para fazer companhia a Cass. A bruxa e Tom se encontraram sob a árvore e juntos eles começam a caminhar para o interior da escola.
— Não vamos para sua casa? – ela perguntou.
— Sim. Eu já tenho o lugar ideal para desaparecermos.
Ele a guiou até dentro da biblioteca, passando por uma área de estudos e se colocando entre as estantes.
— Aqui. – ele apontou o final de um corredor – As câmeras não pegam aquela esquina entre as estantes.
— Tem certeza?
— Absoluta. Mas não posso te contar como.
Ela deu um sorriso de canto, pensando que aquilo com certeza vinha de um segredo. Thomas olhava para trás, percebendo o caminho livre. Foram até o local indicado.
— Vai saber chegar? – Tom conferiu.
— Creio que sim. Provavelmente na sua biblioteca.
— Eu volto se você não chegar.
— Ok.
Ele desapareceu e, no segundo seguinte, Cass abriu os olhos ao lado da poltrona verde oliva da biblioteca. Contorcendo a luz antes de aparecer, Ariela se apresentou em sua frente com um sorriso doce. Ayla passou pela porta aberta em sua forma de ave e se fez humana ao lado da mãe logo em seguida.
— Boa tarde.
— Olá, querida. – Ayla sorriu. – Nos disseram que você tem muitas perguntas. Espero que esteja pronta.
Cass estava ansiosa, mas sorriu timidamente fazendo que sim com a cabeça. Estava pronta. Precisava estar. Estava orgulhosa em quebrar algumas regras e agora já era hora de fazer valer a pena.
— Peço que se acomode, porque a aula será vertiginosa. – Ayla aconselhou apontando a poltrona.
— Como faremos isso? – Cass perguntou se sentando.
— Nós vamos te mostrar. – Ariela falou diretamente com ela pela primeira vez. E não usava sua voz.
— A senhora é telepata? – Ela respondeu dentro de sua mente.
— Explicarei depois. Vamos começar.
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