Cass estava sozinha em seu quarto de novo. Tentava se concentrar no seu quarto, em suas coisas, em tudo a sua volta que desse uma pequena dica de como utilizar seus outros poderes, os que estouravam garrafas e copos. Se perdia em pensamentos, frustrada. Afinal de contas, Thomas continuava evoluindo sem ela, e sem problemas! Tocou o colar em seu pescoço por um segundo. Tinha certeza de que aquilo não era apenas um colar, inclusive conseguia sentir um punhado de boas intenções naquela peça.

Mesmo descobrindo seus poderes, continuaria inútil? Conseguia sentir de longe as assinaturas energéticas de Thomas, sua família, seu pai e sua irmã mesmo quando estavam em seus quartos. Mas nenhuma dessas pessoas precisava ser encontrada. E havia alguém que precisava? Talvez. Percebeu que seu pai se aproximava da porta e que seu quarto se conectava a casa, esperou que ele abrisse a porta do cômodo a procurando para dizer:

— O que aconteceu com o tio Lazlo?

Cícero levantou as sobrancelhas, percebendo que a garota sabia que ele estava se aproximando.

— Desde que horas você está aqui? Eu estava te esperando. – ele não deu uma resposta imediatamente.

— Desculpa, eu esqueci, faz um tempinho. – a garota se sentava na própria cama – Mas… o que aconteceu com-

— Eu não sei. – o pai se escorou na porta, dava um suspiro retomando memórias – Nós tivemos uma discussão quando ainda estávamos nos adaptando e ele resolveu se afastar. Eu o procurei para fazermos as pazes, mas nunca consegui o encontrar e como já nos mudamos várias vezes, ele também não deve ter conseguido nos encontrar mais.

— Entendi…

Cass se lembrava dele, talvez também de sua assinatura energética, mas parecia fraco. Parecia que precisava saber mais dele.

— Ele não era seu irmão, era? – a garota se esforçava para lembrar.

— Não! – Cícero achou engraçado.

— Mas mamãe também era filha única, então… como ele era meu tio?

— Ele e sua mãe serviram ao exército juntos, se conheceram ainda como recrutas. – a memória de Cícero o transportava para tempos que não eram mais simples, mas dos quais ele sentia falta – Eles eram muito amigos, ele era realmente da família. Mas esse contato com a sua mãe no contexto militar fazia ele achar que a compreendia em algum nível em que eu não conseguiria, e isso me irritava profundamente.

Cícero não conseguiu evitar, girou os olhos.

— Que desaforo. – Cass conseguia imaginar – E aí vocês estavam aqui, sentindo falta da única pessoa que mantinha vocês juntos, praticamente de luto…

— Tendo que aguentar um mala desses! Eu também tive minhas doses de drama na vida.

Cass riu. Ela e o pai estavam próximos, muito estava mudando nos últimos meses.

— Mas foi por causa disso que vocês discutiram? – ela perguntou.

— Não só por isso. Ele não era uma pessoa muito estável.

— Nós temos algo dele ainda com a gente?

— As baterias da casa eram dele.

— E algo mais pessoal?

— Por que você quer isso?

— Eu não sei ainda ao certo. Para lembrar, talvez?

Cícero conseguia imaginar o que Cass poderia fazer com isso. Ela sabia o que poderia fazer? Talvez não, se tivesse tanta consciência saberia que com sua telepatia poderia acessar qualquer lembrança que Cícero tem de Lazlo e usar essa mesma lembrança para identificar a energia do militar.

— Eu vou procurar algo. – ele respondeu a filha – Não tente nada maluco, está bem?

— O que eu poderia tentar de maluco?

— Eu não sei. Vá dormir, Cass, está tarde.

— Boa noite, pai. – a bruxa sorriu.

— Boa noite.

O pai a deixou sozinha, ela encarou a porta por um tempo, buscando entender a assinatura de Lazlo. Vibrante, confusa… rasa. Por agora era inútil.

*

A poucas semanas da festa junina, os amigos de escola se reuniam em frente ao Vital Bar. Era um bar estranho, dividia seus eventos entre shows de rock para jovens revoltados e melancólicos e sertanejo ou country para públicos mais velhos e cansados, mas igualmente melancólicos. A decoração do bar era uma mistura de elementos da vida no interior, como berrantes, e adesivos de motoclubes.

André estava com a guitarra nas costas, ajudava Diogo a tirar algumas partes da bateria do carro quando viu o Palio vermelho do pai de Cassandra parar do outro lado da rua. Deu um pequeno sorriso, mas percebeu que Thomas foi o primeiro a descer do veículo, dando a mão para ajudar Cassandra a sair depois. As coisas pareciam ter ficado oficiais bem rápido.

— Isso é tudo. – Diogo avisou vendo o amigo parado olhando para o carro do outro lado da rua. – A Helena vem?

A pergunta o tirou de pensamentos, um sucesso.

— Ah, eu não sei. – André respondeu.

— Mas você chamou ela, né?

— Eu avisei que a gente ia tocar.

— Velho… – o tom decepcionado de Diogo foi interrompido pelo pai do mesmo se despedindo e saindo com o carro, Diogo se despediu e começou a acompanhar André para dentro do bar, carregando o equipamento – Já faz mais de um mês, desencana.

— Eu tô de boa.

— Então se você não tá afim da Helena, só dá um fora nela.

— Por que? A gente só fica às vezes, ela sabe que a gente não tá namorando.

— Não sabe.

— Eu falei disso com ela.

— Então ela não entendeu o que você falou.

Pararam de falar quando avistaram Dudu, Laulau e Ana Clara em uma mesa. Eles levantavam as mãos e imitavam um gritinho agudo de fãs. Os dois membros da banda cumprimentaram os amigos, mas foram para o pequeno palco montado nos fundos do espaço, onde JP guardava as próprias coisas.

Tom e Cass entravam no bar procurando os amigos.

Mas se eu entendi certo as leituras do Coliseu, – Thomas pensava e Cass ouvia – até o dia da festa junina todo o campo vai estar mais sensível, talvez a gente até consiga mandar algo pra sua mãe, se ela entrar em contato.

— Tipo uma carta?

Laulau acenava para eles da mesa. Os dois seguiram na direção dela.

— Sim, uma carta é bem possível.

— Algo maior?

— Aí já não sei.

— Depois pensamos mais.

Cass sorria cumprimentando os amigos, juntavam mais uma mesa vazia para acomodar a todos. O bar estava longe de estar cheio, mas ainda era cedo, então esperavam que isso mudasse. Lucas foi o último a chegar, se distraiu conversando com Laulau antes de ir passar o som. Essa tarefa já estava quase no fim quando um grupo entrou no bar e fez Laulau erguer as sobrancelhas.

— Ali! A fada do Lucas! – a garota disse, fazendo quase toda a mesa virar para olhar – Um de cada vez, gente, por favor.

Cassandra presumiu que aquela era a garota com toda a banda dela, eles tinham um estilo despreocupado e “eu vi gnomos” como André descreveu. A garota a frente deles olhava sorrindo para o palco, ela era um tanto baixa, mas muito bonita. Olhos azuis, cabelos acobreados e ondulados, nariz arrebitado e um ar faérico que justificava o apelido.

— Ela é mesmo linda. – Cass comentou quando se virou para a mesa novamente.

— E é muito simpática também. – Laulau acrescentou.

— Você fica de conversinha com ela, por acaso? – Ana Clara olhava para a namorada levantando uma sobrancelha, seu tom era incisivo.

— Não, eu só encontro com elas às vezes no ensaio dos meninos. – Laulau se explicava.

Cass se sentiu desconfortável com a situação. Deveria ser uma piada? Não, ela via a Ana Clara muito bem, não era uma piada. Quando viu a garota da outra vez estava tão preocupada com André que sequer teve tempo de notar suas intenções.

Olhou de novo para a garota ruiva que agora se aproximava do palco para cumprimentar os músicos. Lucas devia ser algum tipo de sortudo, porque ela gostava mesmo dele. Não era algum tipo de amor maduro, mas era um interesse real, um afeto se formando aos poucos. E da parte dele era recíproco.

Em pouco tempo ela estava acomodada com os amigos em uma mesa, pedindo cerveja, e a banda se juntou ao grupo.

— Cara… – Cass falou olhando para Lucas, que se sentou ao lado dela. – Ela é muito bonita.

— Eu sei! – ele respondia arregalando os olhos – E agora ela ainda tá ruiva! Você acha que eu preciso entrar na academia?

— Você já é bonito, Luquinhas.

— Mas preciso ir para outro patamar.

— Vocês foram no cinema aquele dia? – Tom entrou na conversa.

— Fomos! Do jeito que você falou, oh mestre. – Lucas fazia uma reverência exagerada – Obrigado pelo conselho, mestre!

Os que acompanhavam a conversa riam.

— Então está fagocitado. – disse Cass.

— Ainda não tanto quanto eu gostaria! – o vocalista explicou – Eu tive que falar pra ela que eu não tinha a idade que ela achava que eu tinha.

— Então agora ela sabe?! – ela se surpreendia.

— Por que você teve que falar? – Tom continuou interessado.

— Ah, porque…

— Porque ele está apaixonado. – André foi direto ao ponto, sentado do outro lado da mesa.

— Own… – Cass sorria para o amigo, que ficava com vergonha.

— Ele até fez uma música sobre relacionamento que dá certo! – André ria.

— Eu não fiz sozinho! – Lucas se defendeu.

— Uma música de relacionamento que dá certo? – Cass olhou para André – E do que as fãs vão se alimentar?

— Espero que acreditem que é pra alguma delas. – André riu.

— Mas e agora vocês vão ficar como? – Tom perguntava a Lucas.

— Eu vou ficar evangélico, pelo visto. – Lucas franzia as sobrancelhas – Ela disse que a gente não vai aprofundar nossa relação até eu ter 18.

— Oi?! – até André estava surpreso – Você não me falou isso.

— Você não acredita mesmo nisso, né? – Tom achava a ideia impossível.

— Eu não sei! Quer dizer, ela até falou pra gente ficar livre para ver outras pessoas, mas a gente tá sempre junto, então acho que se eu fosse aprofundar alguma coisa seria com ela. – ele passava a falar mais baixo – Mas eu também não pretendo facilitar pra esse plano de “eu resolvi esperar”.

— Luquinhas, mas se ela não quiser… – Cass começou a falar.

— Óbvio, Cass. – Lucas a interrompeu – Mas eu acho que ela quer.

— Se vocês estão se envolvendo e conseguem ter tempo só pra vocês, uma hora vai rolar. – Tom dava de ombros, mas Cass prestava bastante atenção nessa frase. – Só esteja lá na hora que ela cansar de esperar.

— Farei isso, oh mestre! – Lucas voltava a se divertir com isso.

Os assuntos mudaram para música, comentaram sobre o lugar. Se passaram alguns minutos até que André avistasse uma garota bonita de cabelos escuros e cacheados entrando no bar. Ela estava sozinha e parecia perdida.

— Helena veio. – ele disse.

Lucas olhou para trás, reconhecendo a garota.

— Achei que ela não vinha. – ele disse.

— Tudo bem se ela sentar com a gente? – o guitarrista se levantou enquanto perguntava.

— Claro! – Cass respondeu de imediato.

— É, por que não ia poder? – Lucas deu de ombros.

Logo receberam Helena na mesa. Ela era divertida, engajava em discussões sobre filmes e séries, parecia se dar bem com Laulau para desagrado de Ana Clara. O bar continuava meio cheio ou meio vazio, a depender de quem olhava.

— Vai ser um show intimista. – JP considerava.

— É… vai. – André parecia pouco feliz – E o Rogério não veio.

— Que Rogério? – Helena perguntava.

— Um cara que indica bandas para o Coliseu. – André a respondeu.

— Cass – Lucas se virava para a amiga – você lembra como toca Escolhas e Consequências?

A bruxa se surpreendeu com a pergunta.

— Lembro. Quer dizer… Era a do “o meu passado, os seus segredos” – ela cantarolou.

— Isso.

— Lembro sim.

— Digão – Luquinhas olhou para o baterista – Você lembra como tocava a segunda guitarra dela?

— Lembro, lógico. – o garoto na ponta da mesa deu de ombros – Por quê?

— A gente pensou essa música para duas guitarras, mas nunca rolou porque não tinha baterista. – Lucas explicou olhando para Cass.

— Oi? Você quer que…? – a garota ria, um pouco nervosa.

— Eu tenho certeza que você lembra tudo. Você pegou as músicas mais rápido até que a gente! – Lucas parecia animado.

Cass teve medo por um segundo. Da última vez, alguém havia a reconhecido e os resultados não foram bons. Mas olhando ao redor, dessa vez conseguia ver todos que estavam por ali e não havia nenhum rosto conhecido. Ela sorriu.

Mais tarde, a Ruína subiu ao palco. O público era pequeno, mas Laulau e Dudu faziam um bom grupo de barulhentos que animavam o restante do bar. Os quatro músicos estavam à vontade, faziam piadas entre uma música e outra, dancinhas combinadas, faziam as músicas parecerem fáceis, e eram, mas davam um show que merecia mais olhares. Já passavam da segunda metade do repertório quando Lucas disse ao microfone:

— Eu quero chamar uma amiga nossa pro palco. Cass, faz favor aqui, meu anjo.

Cass subiu ao palco sorrindo, os amigos a aplaudiam e Lucas cantava fazendo uma voz aguda e melodiosa no microfone:

The new girl in town, who just came on the scene

E isso provocava uma risada para quem a conhecia e entendia a referência.

Diogo pegou a guitarra que Lucas usava em algumas músicas e se arrumou no palco. Cass acenou com a cabeça quando estava pronta e logo André começou a tocar o riff de guitarra que iniciava Escolhas e Consequências. Os demais instrumentos entravam depois de uma virada na bateria, coisa que Cass se assustou depois de fazer.

Havia algo diferente, algo que não a impedia de continuar tocando, mas a surpreendia. A cada vez que tocava o bumbo, Cass sentia como se lesse cada pessoa por onde a vibração passava. Uma batida e percebia: JP estava feliz em tocar com os amigos, mas preocupado com a próxima música. Outra batida e, quando o som chegava aos fundos do bar, notava que o grupo que conversava perto do balcão entediava o atendente. Suas batidas eram como um sonar de emoções, pensamentos e intenções. Ela lia e absorvia o ambiente, entendendo como a vibração reverberava em cada um, a depender do que sentiam. Sentiu até mesmo Tom, orgulhoso dela, curioso ao perceber que algo estava acontecendo.

Mas sentindo aquelas várias almas, havia uma bem próxima que parecia dividida. Enquanto a maior parte de André se divertia com amigos e tentava fazer um bom show, uma pequena e reprimida parte gostaria de se despedir. Ou pelo menos acreditava que merecia uma despedida honesta que fizesse parar esse luto longo e desajeitado que não parecia ter razão de ser.

A voz de Lucas cantava:

Os seus pecados e os meus segredos.

As vozes de André e JP respondiam:

— Nada que ainda une nós dois

Cass estremecia enquanto tocava. Uma despedida era tudo o que gostaria de ter tido. Saber que ela e André jamais teriam dado certo a longo prazo não a impedia de prezar por ele, ou de admitir que, além de normal, André conseguiu a fazer sentir viva quando nada mais parecia fazer.

A voz de Lucas continuava:

Nosso passado e nossos defeitos

— Nada pode mudar o que já foi. – as vozes de JP e André respondiam mais uma vez.

A jovem bruxa queria chorar. Baixava a cabeça enquanto continuava acertando pratos e a caixa, pensando que choraria por uma letra tão genérica ou por um solo de guitarra que havia melhorado muito desde a última vez que ouviu. Engoliu o choro e ergueu a cabeça olhando para André enquanto tocava, ele se concentrava no solo, sorria, mas seus olhos encontraram os de Cass assim que voltou a tocar o refrão. Ela sorriu para ele. Ele sorriu de volta, mas sentia um pequeno nó na garganta. Sentia que ela o via. E por que sentia isso? Ela desviou o olhar antes que qualquer um dos dois chorasse.

A música acabou, Cass desceu recebendo aplausos e com um sorriso melancólico nos lábios. Ouviu um:

— Tudo bem? – vindo de Thomas quando se aproximou dele.

— Sim. – respondeu deixando que ele o abraçasse pelas costas – Eu só tenho que fazer mais uma coisa hoje. Espero que você entenda.

— É algo perigoso?

— Não. Eu te explico melhor depois.

As quatro músicas finais passaram rápido, fazendo com que o público dançasse. Depois as outras bandas tocaram, a noite seguia com adolescentes cantando e dando risadas de piadas que só fazem sentido quando se tem 17 anos.

André estava saindo do corredor que levava aos banheiros quando viu a dona dos cabelos loiros e volumosos, os quais estava aprendendo a se manter indiferente, se aproximar. Desviou para a direita imaginando que ela gostaria de passar, mas ela parou a sua frente.

— Posso falar com você?

Ele já havia desejado que Cass a abordasse em um corredor escuro antes, se preocupava com o que deveria ser agora.

— Aqui? Tá tudo bem?

— Mais ou menos.

Cass parecia nervosa e agora isso o preocupava.

— Aconteceu alguma coisa lá fora?

— Não, eu… – ela riu, procurando palavras. O quanto cabia da verdade era o melhor, ela sabia. – Queria te agradecer e também te pedir desculpas. Te agradecer por mesmo sem me conhecer direito, confiar em mim pra me chamar tocar na banda por um tempo. Eu não sabia o quanto estava precisando disso!

— Eu que queria ter agradecido mais por você ter aceitado! – ele sorriu, mas estava confuso. Mais ainda quando percebeu que os olhos de Cass marejaram.

— E pedir desculpas porque eu sei que me afastei de repente. – André se surpreendeu com a frase. Achava que estava ficando louco, não esperava que ela confirmasse ou que sequer achasse relevante. – Eu não consigo te explicar o que aconteceu, mas queria que você soubesse que eu sei que a filha da puta fui eu.

— Não, Cass, você só me deu um fora.

— Não foi isso. Eu acho que você sabe que não foi isso.

Ali estavam os dois de verdade. Vulneráveis. André não conseguia entender a partir de suas memórias ou de lógica, mas seu coração sabia.

— Eu não sei o que aconteceu. – ele disse – E ninguém parece saber porque eu me senti tão… abandonado? Mas…

— A gente dividiu alguma coisa. – ela tentava pôr em palavras.

— E essa coisa acabou antes do que a gente gostaria.

— É.

Houve silêncio. Os olhos dela continuavam com lágrimas suspensas enquanto ele sentia um nó se desfazer na garganta, incomodando antes de trazer alívio.

— Eu não sei se faz diferença agora, mas… – ela continuou – Eu acredito muito em você. – ele não parecia entender – E você também deveria acreditar mais em você. – ela sorriu se lembrando de parte de uma conversa que havia sido apagada para ele – John Deacon era engenheiro elétrico antes de ser baixista do Queen. Se ele tivesse seguido como engenheiro, nós não teríamos a linha de baixo de Under Pressure. Então ainda bem que ele não ouviu seus pais.

Ele soltou uma risada seca bem quando seu peito ficou mais leve. Não sabia porque, mas de repente estava chorando. E Cass também estava.

— Posso te abraçar? – ele pediu.

— Ora, por favor! – ela riu o abraçando em seguida.

Se seguraram apertados por um minuto. Se soltaram limpando lágrimas.

— Se cuida, por favor.

— Você também.

*

Cass chegou tarde em casa. Entrou pela porta da frente e estranhou ao ver a luz do ateliê acesa nos fundos da casa. Foi até lá com curiosidade, encontrando o pai mexendo em caixas empoeiradas.

— Boa noite. – ela disse para que o pai notasse que ela estava ali.

— Ah, você chegou. – ele bateu no banco de madeira ao lado de onde estava sentado – Venha, vou te mostrar uma coisa.

A filha se sentou ao lado do pai. Sobre a mesa a sua frente, via o que apreciam ser cristais em desuso, símbolos mágicos quebrados, coisas que poderiam ou não ter utilidade um dia. O pai colocou a frente dela uma insígnia. Um brasão da força militar de Aeritos, caracterizada pelo lagarto esmeralda mostrando suas garras afiadas, e emoldurada por quatro asas em bronze. Uma pequena inscrição contornava a parte de baixo da figura central, dizendo "cada vez maior".

— Força aérea? – a garota perguntou, pegando o objeto com a ponta dos dedos.

— Espacial, na verdade.

— Era do tio Lazlo? Ele era tipo um astronauta?

— Sim.

“A especialização de quem não prezava muito pela própria vida.” Cícero pensou.

— Obrigada, pai.

— Não foi nada. E como foi o show? Foi bom?

— Foi! Foi… – Cass suspirou – Importante. Acho que consegui dar um fechamento para o que eu tive com o André e…

Cícero percebeu que a filha se perdia em pensamentos, encarava o tampo da mesa com um certo lamento, até levantar os olhos com um certo pesar.

— O que foi? – ele perguntou preocupado.

— Me espera aqui um segundo. – a filha desapareceu antes que ele respondesse, o deixando confuso, e reapareceu segundos depois com algo pequeno em mãos. – Primeiro, desculpa por não ter te mostrado isso antes. Mas você merece ver isso.

A filha lhe entregou uma folha já seca, mas que estava bem preservada. Ele já tinha a visto, só não entendia o que ela tinha de especial. Franziu os olhos passando o polegar sobre a superfície, sentindo um estranho relevo. Pegou papel e lápis sobre a bancada, colocando sobre a mesa e começando a tirar o decalque.

— Meus olhos não são os mesmos de antes. – ele riu.

A garota continuava quieta, apreensiva, o que o deixava ainda mais preocupado. Analisou as marcas que o grafite havia deixado e se surpreendeu não pelo texto, mas porque reconheceu a caligrafia.

— Cassandra… – o tom era sério – Desde quando você tem isso?

— Desde a primeira vez que fui ao Coliseu. Era realmente um lugar bom para portais.

— Você buscou ter certeza de que era dela?

— Sim. Tom conseguiu.

Eram tantos sentimentos dentro de Cícero que ele não sabia o que sentir primeiro. Pinçou o espaço entre as sobrancelhas

— Isso foi tudo por enquanto, nós temos estudado formas de falar com ela, e vamos fazer um teste. Mas preciso que você e Agda venham com a gente.

— Nós vamos ver sua mãe?

— “Ver” eu ainda não sei. Mas vamos tentar mandar uma carta.

— Uma carta?

Cass deu um breve sorriso, tocou o braço do pai com gentileza, queria compreender o que ele estava sentindo, mas sentia que o invadiria dessa forma. Cícero pensava. O que diria para Ariane? Se passaram quase nove ciclos desde a última vez que a viu.

— Sua irmã sabe?

— Em partes. Ela não parece se importar tanto.

— Ela só não se lembra.

Ariane estava viva. Internamente, Cícero comemorava. Ao mesmo tempo em que se revoltava pela falta que ela fazia e pelo que havia os afastado.

— Pai…

— Vá dormir.

— Por favor, não fique bravo.

— Não estou bravo. Só… por favor, vá dormir.

Ela compreendeu e desapareceu, fazendo o que o pai pediu. Cícero continuou no ateliê, sozinho, guardando objetos sem valor, até ter coragem de tocar de novo na folha seca sobre a mesa. De repente uma das coisas mais valiosas que tinha.

Notas finais
Demorei porque tive um bloqueio e não estava muito bem. Se você chegou até aqui, espero que goste e comente!