Líquida - Os Renascidos.
1 Prólogo.
Notas iniciais
Evelyn correu para um beco segurando a mão de sua irmã. Melody tinha apenas três anos, mas era ela quem cuidava da pequenina. Elas entraram na viela escura, procurando esconderijo contra aquelas pessoas que pareciam se mover pelas sombras. Passaram por latas de lixo, entulho, gatos raquíticos e mendigos famintos, procurando um lugar para se abrigar.
A garota de 13 anos não sabia há quanto tempo estavam correndo, e achava estranho ainda não estar cansada. Talvez fosse a adrenalina que corria em suas veias pelo medo, ela não conhecia a resposta. Só sabia que já fazia algum tempo desde que saíra da loja de brinquedos e notou que estava sendo seguida. Não importava as manobras que ela fazia ou quão rápido ela corria, eles sempre estavam atrás dela, cobertos pela escuridão do entardecer.
Evelyn já estava ficando desesperada. Eles não podem pegar minha irmã, pensou ela. Não podem! De repente, depois de correr tanto e o beco sendo sua única esperança, uma parede barra toda sua chance de viver. Estava acabado. Aquilo era, na verdade, um lugar sem saída.
Ela deu alguns passos para trás puxando sua irmã, cogitando se voltar e correr para outro lugar seria sensato, quando sombras se alongaram sobre o muro de tijolos. Então, em um piscar de olhos, seus perseguidores estavam na sua frente. Ela percebeu que não eram todos homens. Eram dois homens e duas mulheres. Todos muito bonitos, vestidos de preto.
Uma das mulheres tinha sedosos cabelos negros que lhe emolduravam um rosto com pele cor de café, grandes olhos âmbar iluminavam-lhe a face. Seu corpo escultural estava com um longo vestido preto. Usava um chapéu com plumas, também preto. Ela quase se confundia com as sombras, pois se encontrava na ponta extrema do grupo, onde o muro se erguia deixando a escuridão.
A outra mulher, que estava entre os dois homens, tinha uma pele muito alva, o que fazia seu vestido preto tomara-que-caia esvoaçante se destacar muito. Seus olhos eram de um azul cristalino e brilhante e seu cabelo era tão loiro que chegava a ficar quase branco. Ela parecia exalar refrescância.
O homem ao lado dela, na outra ponta, também tinha a pele muito clara. Seus cabelos eram cor de areia bem curtos. Ele tinha olhos cinzentos, que podiam ser uma brisa de verão ou um furacão, uma tormenta. Estava vestido em um terno preto, com uma gravata borboleta também preta. A única coisa que o destacava do escuro era seu rosto e suas mão claras.
O último homem se postava entre as duas mulheres. Sua pele era parda, meio avermelhada. Tinha olhos castanhos, mas no fundo podia-se enxergar o fogo dentro deles. Seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo-de-cavalo pequeno. Sua aura era brincalhona, porém perigosa. Usava uma roupa preta como todos, um terno para ser mais exato. No entanto, em seu peito estava um gravata vermelha brilhante.
Melody se escondeu atrás da perna da irmã, com medo dos visitantes.
– Nós não estamos fazendo-lhe mal – disse o homem de olhos cinzentos.
– Nós estamos dando-lhe uma oportunidade – disse a mulher negra.
– Uma oportunidade que tu não podes recusar – disse o ruivo.
– E não tem escapatória, a não ser aceitá-la – disse a loira de olhos claros.
– O mal para o bem virá.
E a tua ajuda, vamos precisar.
Aceitar ou recusar,
Você não pode escolher.
E sua única escolha,
É não temer – disseram todos juntos, em uma espécie de cântico.
De repente, Evelyn sentiu uma dor se alastrar por todo o seu corpo, sem sair de lugar algum em especial. Ela sentiu como se estivesse no meio de um furacão e um incêndio ao mesmo tempo. Sentiu como se estivesse se afogando, ou sufocando, soterrada. Ela percebeu que caía. Sua visão começou a escurecer, mas foi tempo suficiente para ver Melody, com seus cabelos encaracolados cor de bronze e seu olhar assustado, se desvanecendo no ar, como uma névoa cinzenta.
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