Lágrimas de Saudade
1 Capítulo Único - Lágrimas de Saudade
Notas iniciais
Lembro-me como se fosse ontem... O dia em que uma das pessoas mais importantes da minha vida se fora. Nem deu tempo de uma despedida, pois foi tão rápido quanto à velocidade da luz.
Nove de Julho de 2014, 6:20 da manhã
Meus pais acordaram cedo. Minha mamãe fora tomar banho, pois estava ansiosa para seu primeiro dia num curso, numa cidade vizinha à nossa. Meu papai, ao contrário, ficara deitado na cama, apenas enrolando. Antes mesmo que ela saísse do banheiro, o telefone toca e meu pai atendeu, depois de levantar da cama e caminhar até a sala:
— Alô? – Perguntou.
— Edson, me ajuda! Não paro de vomitar sangue. Pode falar para a Ca me levar ao médico? – Uma voz meio rouca soou do outro lado da linha.
— A Ca está no banho. Vou passar para ela! – Disse, levando o telefone até a porta do banheiro, batendo e entregando o telefone fixo para a loira.
— Pode falar, mãe! – Exclamou, ainda enrolada na toalha.
— Estou vomitando sangue. Muito sangue. Pode me levar ao médico? – Ela perguntou, meio fraca, e com a garganta seca.
— Agora não posso. É meu primeiro dia no curso. Mas fica pronta que vou ligar para o César passar aí! – Disse meio preocupada, mas ainda assim, achava que sua mãe estava exagerando.
E assim, o telefone ficou mudo e minha mãe foi para o local do curso. Sentou-se para ter a aula. Enquanto isso, em casa, já eram 8:20 da manhã, acordei meio ruim. Muita cólica durante a noite e não conseguia dormir direito. Foi aí então que meu pai recebeu um telefone no seu celular, só que dessa vez, era meu tio.
— Edson, eu cheguei aqui na casa da mãe, mas ela está toda roxa. Acho que ela morreu. – Disse, quase chorando.
Meu pai desligou e, como sempre, me fez trocar de roupa e me levou para a casa da minha outra vó, a mãe dele. Cheguei e passei metade da manhã com a minha tia Luciana, pois ela havia ganhado bebê e eu queria ajudá-la a cuidar do pequenino. Horas se passaram e meu pai fora buscar minha mãe no local do curso, chamou-a e lhe disse que sua mãe havia morrido. Minha tia, que era irmã dela, foi até a casa da minha vovó e chamou uma ambulância. Logo que os médicos chegaram, meus pais chegaram e, como minha mãe queria vê-la, caminharam pelo corredor de fora da casa e foram até a janela. Lá, me disseram que ela estava caída na cama, com os braços abertos e com a calça vestida pela metade, nos joelhos. Ela estava roxa. Muito roxa. Os médicos a examinaram ali mesmo. Disseram que ela tivera um infarto do miocárdio. Levaram para o exame de corpo de delito e meus pais foram para casa da minha vó. Lá, cheguei e perguntei da minha vó Roseli, achava que ela estava no hospital e que estivesse bem. De repente, meus pais se entreolharam e minha mãe e minha tia, que é psicóloga, me levaram para o quarto.
— Elisa, você tem que prometer que será forte. – Minha mãe disse.
— Forte? Por quê? O que aconteceu? – Perguntei meio confusa, achando que estava sonhando.
— A vovó não resistiu, estava muito mal e faleceu. – Disse mamãe com lágrimas nos olhos. Após ela revelar isso, meu mundo caiu. Não poderia ser verdade. Eu não sabia o que fazer, rapidamente, meus olhos marejavam e escorria muitas lágrimas pelas minhas bochechas.
— Não mamãe! Me diz que não é verdade. Me diz, me diz! –Exclamei, desabando no chão. Meu mundo caiu! Sabe quando você parece estar sonhando? Pois é. Para mim, aquilo era só um fútil pesadelo, mas não conseguia acordar. Minha mãe, começou a chorar. Minha tia aconselhou-me com aquelas conhecidas palavras: “Pense: Sua vovó está num lugar muito melhor agora.” E também: “ Logo, logo isso passa!”
Mas não foi o que aconteceu. À noite, aconteceu o velório. Minha mãe fora dormir lá. Junto com minha tia, a sua irmã. Dormi na casa da Luciana, que no dia seguinte, me acordara cedo, pois meu pai me levaria para o velório. Minha mãe já estava acordada quando cheguei. Eram 9:30 da manhã, somente a abracei e fui ver o corpo da minha vó, já sem vida. Olhei e me veio um negócio na cabeça: ela estava tão calma e serena, que parecia mais um anjo dormindo em um sono profundo. Meu primo, que antes morava com a minha avó, chegou. Ele chorou e me abraçou. Ficamos lá fora, sentados debaixo de uma árvore relembrando todos os momentos que passamos juntos com ela. Nossos almoços em família, aniversários e, principalmente, seus planos para o futuro. Seu sonho? Ver meu primo e eu casados e com uma linda família, era o que ela dizia. Com tudo isso em mente, me veio lembranças boas e horríveis, algumas que nem cheguei a comentar. Bom, a cerimônia passou. Todos os nossos familiares compareceram e logo chegou a hora da despedida. Fecharam o caixão e andamos até o cemitério mais próximo. Logo começou a chover. O céu estava totalmente escuro e nublado. Nem um sinal do sol, que á todo momento nos alegrava. Com nossos guarda-chuvas, a enterramos e demos um último adeus á quem mais amávamos e quem, independente do que acontecia, sempre nos reunia.
Passaram-se os meses, e nossas vidas mudaram por completo. Meu tio César, filho dela, separou-se da mulher. Minha tia Camila, a filha mais velha dela, se meteu em alguns problemas na vida. Por conta de todo o corrido, minha mãe não sorri. Muito raramente se ouvem suas risadas, que antes, contagiavam todos á sua volta. Eu, particularmente, estou bem. Bom, se eu falar isso, estarei mentindo, pois não estou nada bem. Sabe quando bate aquela saudade? Sem ela, nossa vida ficou horrível. A família separou-se de tal modo que fica difícil conviver com problemas do dia-a-dia. Muitas vezes, pesadelos me atormentam, dizendo que a culpa era minha, pois não dava atenção a minha vó. Todas as vezes que ela me mandava mensagem perguntando se não irei vê-la, dizia que não. Muitas vezes até a ignorava. Agora, penso que nunca a disse um “eu te amo”, e que perdi a oportunidade.
“Vovó, se a senhora pudesse ler, gostaria que soubesse o quanto te amo. Minha vida não é a mesma sem você. Eu gostaria de voltar no tempo e te dar muito mais atenção do que jamais dei. Você faz muita falta, e até hoje lembro de ti. Minha inspiração, meu amor, embora eu não demonstrasse. O único meio que tive para tirar esse peso das minhas costas é por meio da escrita. Eu te amo, a senhora foi a melhor vó que tive. Adorava passar as noites em sua casa, adorava quando você me ensinava matemática, quando me buscava na escola e me levava para sua casa. Sinto saudades de suas especiarias e aquele capuccino que você fazia, sempre que eu ia lá. Pena que tudo que é bom, dura pouco. Ah se eu pudesse voltar no tempo e consertar todos os meus erros cometidos à você. Nunca esqueça do meu amor.” Eu, nunca demonstrei minha tristeza, mas já perdi quantas vezes chorei sozinha em meu quarto. Um choro repleto de saudades dela. Minha guerreira, mãe da minha mãe. Aquela que, para mim, nunca morrerá, sempre estará viva em meu coração. Minha querida vovó Roseli.
“A morte é uma pétala que se solta da flor e deixa uma eterna saudade no coração.” (Desconhecido)
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