Lágrimas de Sangue
1 Capitulo 1
Notas iniciais
Deitada em um galho de um grande carvalho observando a chuva cair das nuvens cinzas, a sua obra de arte. Adorava quando os Deuses pediam a ela e as outras fadas de sua espécie para que fizessem chover, sentia todo o seu poder fluir através do seu corpo sendo transmitindo para as nuvens brancas que logo se tornavam cinzas e carregadas; quando a chuva caia, ela se sentia em paz, era a única coisa que a acalmava.
Híale era uma fada solitária, seus pais haviam falecido há alguns anos na guerra dos três reinos. Muitas pessoas do seu povo haviam sido aniquiladas pelo exército do Reino Sombrio, mas o seu reino estava se recuperando aos poucos.
Ela ainda lembrava do rosto dos seus pais, sua mãe era uma fada do ar, assim como ela, e seu pai era um elfo da floresta. Graças a esta mistura, ela havia adquirido os longos cabelos ruivos da mãe e a pele esverdeada do pai. Em seu ombro havia uma marca em forma de nuvem, todos os seres nasciam com alguma marca no corpo, as marcas designavam a função do ser para o seu reino.
Híale queria um minuto para ficar sozinha, estava cansada de estar sempre com as outras fadas por perto, sim, ela as amava porque era a única família que ela tinha, mas precisava de um tempo para si. Podia ouvi-las rindo e brincando lá no alto acima das nuvens.
Abriu as suas asas e saiu do galho, dando piruetas no ar e sentindo a chuva cair sobre o seu corpo, logo as outras fadas voaram para perto dela.
“Vai se juntar a nós?” Perguntou Bridget, sua melhor amiga.
“Não agora, vou dar um passeio” Disse Híale, e se afastou do grupo das fadas.
Seu plano era ir até o Lago Branco e sentar-se à margem da água, ficava perto da floresta encantada. A floresta parecia inofensiva para algumas pessoas, mas por trás das lindas flores gigantes haviam perigos ocultos a noite. Híale estava distraída pensando em seus pais, se eles não tivessem se voluntariado para lutar na guerra ainda estariam vivos, droga, se sentia tão sozinha e abandonada agora. As lágrimas caiam sobre as suas bochechas, nem percebeu que estava perto do lago, pousou e sentou-se na areia logo a beira. A lua minguante brilhava no céu, refletia na agua, estava escuro, mas ela nem ligava.
Cantava baixinho a canção de ninar que seus pais costumavam cantar a ela todas as noites antes de dormir. Não queria chorar, então parou de cantar, o silencio tomou conta do local. Ouviu passos vindo da floresta, seu coração começou a bater mais forte, ficou imóvel, esperando para ver quem era, poderia ser algum animal, pensou ela tentando acalmar a si mesma. O barulho ficava cada vez mais perto, ela não tinha coragem para virar a cabeça e ver quem estava ali. Os passos pararam, alguém estava atrás dela, virou-se lentamente.
Era um elfo. Ela sabia por causa das suas longas orelhas e os olhos azuis quase brancos; além disso, ele tinha a pele acinzentada e os cabelos eram loiros. Híale sentiu um frio na barriga, pois nem todos os elfos eram bonzinhos como nos contos de fadas mundanos.
“Desculpe, não quis te assustar” Disse o elfo educadamente “Meu nome é Doyle, e o seu?” O elfo sentou ao seu lado, ela se afastou um pouco.
“Híale” Disse ela timidamente secando o resto das lágrimas que estavam em seu rosto.
“Eu ouvi você chorando” O elfo olhava para ela, Híale sentiu suas bochechas corarem. "Desculpe me intrometer assim na sua vida, mas porque estava chorando?”
Ela desviou o olhar, queria contar o motivo das suas lágrimas, mas não conseguiria contar sem chorar se estivesse olhando para ele.
“Meus pais morreram, e me sinto tão sozinha, é como se estivesse abandonada aqui e ninguém mais ligasse” Híale tentava manter o tom calmo em sua voz, mas acabou saindo mais chorosa do que ela desejava.
Doyle se aproximou dela, com um gesto pegou delicadamente em seu queixo, fazendo-a assim olhar em seus olhos. Ele acariciou a sua bochecha, ela fechou os olhos para sentir aquele toque desconhecido até agora.
“Eu também não tenho ninguém, Híale. Se você me fizer companhia não estaremos mais sozinhos, o que me diz disto?”
Ela abriu os olhos, seu coração parecia que ia sair pela boca, ele parecia um presente dos Deuses, agora ela não ficaria sozinha novamente, pela primeira vez em sua vida não se sentia totalmente só. Híale acenou com a cabeça, e Doyle não hesitou em aproximar os seus lábios contra os dela. Era o primeiro beijo da jovem fada.
As lagrimas não eram mais tão frequentes, pois Doyle estava sempre junto dela, a fazia esquecer de tudo, Híale estava apaixonada. Suas amigas pareciam gostar dele, Bridget dizia que ele estava fazendo bem para ela, agora a fada vivia voando e sorrindo pela Vila. Doyle contou a ela que não lembrava do seu passado, disse que uma família de elfos tinha o encontrado, na época ele nem lembrava o seu nome e vivia nas ruas confuso, a família tinha o criado até a sua adolescência. Ele não tinha marcas em seu corpo, nunca soube para que tinha nascido. Adorava passar os dias dentro da floresta encantada, queria conhecer cada canto inexplorado dela. Ela sentiu pena do jovem elfo.
Passavam as noites conversando sobre o que ela nunca pensou que contaria a alguém. Deitada sobre o peito do elfo ela se sentia segura, enquanto ele a escutava passando a mão em seus cabelos. “Porque resolveu se aproximar de mim aquele dia?” Perguntou ela.
“Quando ouvi o seu choro fiquei curioso para saber o que lhe fazia sofrer daquele jeito.” Disse ele.
“Ainda bem que você apareceu, espero não ter que sofrer daquele jeito mais” A fada disse se aninhando em seu peito, fechou os olhos.
“Sofrer não é uma coisa tão ruim” O elfo disse antes de dormir.
Na manhã seguinte ele não estava lá, ela achou que ele voltaria logo, mas não foi o que aconteceu. Doyle havia sumido, era como se ele nunca tivesse existido. Hiále chegou a pensar que fosse um sonho, mas sabia que ele era de verdade porque sua amiga havia perguntado por ele. Ela sentia um vazio em seu peito, a cada dia ficava mais difícil respirar, o ar parecia estar mais pesado, nem a chuva lhe trazia paz como antigamente. Precisava dele.
Nas semanas seguintes ele também não havia aparecido. Ela estava sozinha novamente, tinha sido abandonada pela única pessoa que ela foi capaz de amar. Todas as noites ela ia até o lago onde havia se conhecido, a cada barulho que vinha da floresta fazia seu coração se agitar, ela pensava que era ele, mas sempre estava errada. Sua vida estava pior do que antes, bem que suas amigas diziam, que o amor era um sentimento traiçoeiro, capaz de trazer felicidade e também tristeza. Sentia-se estúpida por ter se apaixonado por ele, agora só podia culpar a si mesma.
Mais uma vez estava ali no lago, esta noite a lua estava cheia, o que fazia a noite ser ainda mais bonita. Uma ideia idiota venho a sua cabeça: E se ela chorasse de novo? Talvez ele viesse novamente. Foi o que ela fez. Sua mente trazia todas as suas boas memórias sobre eles, logo as lagrimas brotaram de seus olhos. Por um tempo não ouviu barulho algum. Que ideia ridícula ela havia tido, obvio que ele não iria aparecer assim do nada. Secou as lagrimas em seu rosto, e ia abrindo as suas asas para sair dali, teria que seguir em frente.
“Híale” A voz conhecida a chamava. Ela virou-se, talvez estivesse se enganando novamente, mas no fundo ela rezava para que fosse ele. Doyle estava ali, realmente era ele. Recolheu as suas asas, e correu até ele, o abraçou o mais forte que pode, os braços dele estavam em torno de si.
“Aonde você estava seu idiota?” Ela disse com uma voz chorosa. Ele não respondeu nada, apenas a afastou do abraço. Ela percebeu que algo nele havia mudado, mas não sabia dizer o que era.
“ O que aconteceu, Doyle?” Perguntou ela.
O elfo olhou em seus olhos. “ Híale, não posso mais ficar com você.”
Aquelas palavras a feriram tanto. Ela lutava para que as lagrimas não saíssem de seus olhos novamente, estava cansada de chorar por ele.
“ Você é tão fraca e idiota, eu nem sei o que deu em mim para ter gostado de uma fada medíocre como você” Disse ele rispidamente.
“ O que deu em você, Doyle?” Ela disse. Estava chorando, era tarde demais.
Aquele não era o mesmo Doyle que ela havia conhecido, em seus olhos havia um brilho perverso, como se gostasse de vê-la daquela maneira. Híale estava ajoelhada no chão, sua mão contra o peito, uma tentativa de diminuir a dor que sentia ali, o ar estava pesado novamente. Doyle simplesmente olhava, a pele dele brilhava, e ela descobriu o porquê no momento que viu faíscas de energia que saiam de si sendo transportadas para ele. Naquele momento ela soube que espécie de elfo seu antigo namorado era. Um elfo negro.
Para ser um elfo negro não precisava necessariamente ter a pele escura, as vezes eram como elfos comuns, portadores de uma maldição. Eles se alimentavam do sofrimento alheio, aquilo dava força a eles. Doyle havia escolhido por ser a candidata perfeita para isso, por sofrer tão facilmente por sua causa. Uma vez que a vítima se entregava para o elfo negro não tinha volta, apenas morte, ele sugaria a sua energia até o seu último suspiro. Híale sabia que morreria em breve.
“Você é tão estupida” Ele disse rindo. Deu um chute de leve em sua barriga fazendo-a cair no chão. “Isso, sofra mais, minha pequena fada miserável, ninguém vai sentir a sua falta quando você se for.”
Ela ainda chorava deitada no chão, fechou os olhos e estava esperando a sua hora de partir. Ele tinha razão, ninguém sentiria a sua falta mesmo. Talvez Bridget sentiria nos primeiros dias, mas depois seguiria com a sua vida. Sentia todas as suas energias se esvaindo do seu corpo, seria melhor assim, se livraria de uma vez daquele sofrimento todo. Híale estava se entregando a ele.
“Nunca achei que seria tão fácil.” Ele se abaixou e sussurrou em seu ouvido “ Adeus, querida”.
Ele acariciou os cabelos dela pela última vez. Apertou os cabelos ruivos em sua mão, pegou-a no colo, estava mais leve do que uma pluma, ali roubaria o resto da sua vida.
Híale só queria que a morte chegasse de uma vez, ela sabia que ele estava demorando só para aumentar o seu sofrimento, para que ele roubasse o máximo de energia possível. Uma voz no fundo de si dizia que ela não podia se entregar tão facilmente, sim, a sua vida poderia ser miserável, mas ela ainda poderia ser feliz um dia, quem sabe. Uma parte de si queria ir logo, a outra lutava para sobreviver. Abriu os olhos por alguns segundos, viu um galho de arvore perto de suas mãos, se ela se esforçasse um pouco poderia pega-lo. Ele estava mais forte do que antes devido a energia roubada, ela não tinha chances de qualquer maneira, mas também não tinha nada a perder.
Pegou o galho, segurou o mais firme que conseguia, estava na hora. Usou toda a força que lhe restava, cravou o galho no pescoço de Doyle. Ele soltou um grito de dor, suas mãos largaram os seus cabelos, e Híale caiu no chão. Depois do grito de Doyle tudo ficou em silêncio, ela o esperava quieta vir para matá-la. Sentia-se tão cansada, sua mente apagou, era a hora final.
Acordou com o sol iluminando o seu rosto. Estava no céu com Deuses, estava em paz, foi o que pensou. Esfregou os olhos e olhou ao redor, o corpo de Doyle estava no chão, ela se aproximou dele. Os olhos estavam abertos com uma expressão assustada, não respirava, estava morto. Em seu ombro havia uma marca em forma de arco e flecha, aquilo significava que antes da maldição ele fora um elfo guerreiro. Foi até o lago limpar o seu rosto, viu o seu reflexo, não estava pálida, parecia estar mais saudável do que antes. Em seu ombro não havia nenhuma marca. Híale abriu a boca e botou as mãos conta os lábios, ela não era mais uma fada das nuvens, havia se tornado uma fada negra.
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