Lágrimas de Sangue
4 Vandalismo
Notas iniciais
"Um anjo me disse: Abra seus olhos grandes não parece tão longe, é no alvorecer do seu destino."
— Tal, Au Delà.
Era uma quarta-feira quando uma inspetora entrou em nossa sala chamando todos para fora. "Ordem da diretora", ela disse antes de nos levar até o pátio onde todas as turmas do colégio olhavam para a parede da entrada principal. Ao chegar ao lado de Cassandra olho para lá também e vejo a pobre imagem da diretora que apesar de ter seus belos cabelos brancos na vida real, fora retratada com ousado cabelo verde-musgo, sorriso amarelo e olhos dourados ao invés do brilhante azul-colbato encantava facilmente.
A fúria em seu olhar nunca fora tão evidente. O desenho grafitado era do corpo todo, e ao invés de mostrar a diretora com sua costumeira roupa social, mostrava a mesma usando calça cargo, tênis cano alto e uma camiseta com estampa colorida, o jogo de cores usado pelo artista — sim, artista, tudo estava tão bem feito — era, talvez um pouco pertubador, principalmente por conhecermos a modelo de seu trabalho.
As vozes dos alunos, alguns rindo, alguns comentando sobre, se fez ouvir.
— Nunca vi a diretora usar tantas cores. — brincou Cassie.
— Isso é... Perturbador. — diz uma voz masculina.
— Tirou as palavras da minha boca.
Me viro para ver com quem falava quanto vejo um lindo garoto moreno de cabelos escuros e olhos esverdiados.
— Sou Henry, Henry Williams. — diz estendendo a mão para um cumprimento.
— Constance Hiero. Nunca te vi por aqui, é novo?
— Me transferi para cá, meu primeiro dia.
— Seja bem-vindo. — diz Cassandra.
Meu Deus, tinha me esquecido dela!
— Sim, essa é minha amiga, Cassandra.
Eles se cumprimentam brevemente antes de serem interrompidos pela voz da diretora após a chegada da última turma a entrada do colégio.
— Silêncio, todos! — a voz da diretora nunca esteve tão autoritária e raivosa, parecia outra pessoa, diferente da doce diretora bondosa que só quando muito necessário dava uns puxões na orelha. — Hoje eu vi esta tremenda falta de respeito pixada na parede do meu colégio. Educação vem de casa, e isso não é coisa que se faça no lugar onde vocês passam a maior parte do tempo de vocês! O SCC também é a casa de vocês!
Admito, tive pena da diretora Lori.
— Nossa, isso é tipo... Bizarro! — escuto a voz da morena de olhos castanhos claros.
— Malima, meu amor, onde você se meteu? — diz Cassie, como sempre, animada.
— Eu estive aqui. O tempo todo.
— É porque você é tão pequenininha que a gente tem que te procurar com a Lupa, e eh esqueci a minha em casa, sabe como é... — brinco, e ela me dá um tapa.
— Então é mesmo real, Connie! Toda baixinha é invocada!
Malima mostra a língua, provocando risadas entre nós.
— Eu vou dar uma chance apenas de o culpado se apresentar na diretoria. Você tem 42h. Caso contrário, quando eu descobrir quem você é, e eu vou descobrir, você será expulso. Quem tiver alguma informação desse sujeitinho, compareça na diretoria.
~'~'~'~'~
Chegando no meu dormitório a primeira coisa que vejo é Malima conversando animadamente com Cassie.
— Advinha! — diz Cassie, assim que entro — A nossa adorável e raivosa anã de jardim descobriu quem é o pixador misterioso.
Cassie exibia um sorriso largo, de orelha à orelha.
— O Orfeu. — diz Mali.
Malima é o apelido de Mariana Lima, e Mali, o apelido do apelido.
— Orfeu? Quem é esse?
— Um pixador conhecido por suas obras mas ninguém sabe quem ele é exatamente. Ele surge do escuro deixa sua marca e se vai tão miseriosamente quanto surgiu.
Minha curiosidade começa a me incomodar.
— Então alguém aqui do colégio também faz trabalhos por fora?
— Na verdade, Connie, aí que as coisas complicam, seria quase impossível ele ser daqui, afinal esse Orfeu tem trabalho constante já faz uns trinta anos quase. Se foi alguém daqui, ou começou desde o berço ou trabalha aqui.
— Faz sentido. Professores, zeladores, até porteiros talvez. — digo.
— Ou até mesmo a diretora Lori.
— Acho que não, Cassie... — diz Mali.
~'~'~'~'~
Era intervalo, e Isabelle tentava jogar todo seu charme para cima de Henry. Não me surpreenderia se ele mordesse a isca daquela cascavel, ela era ótima nisso, e melhor ainda em se livrar das pessoas. No ínicio da meu primeiro ano no SCC eu fiquei amiga, pelo menos era o que eu imaginava, mas ela se livrou de mim, ku melhor, no fim eu que acabei livre dela.
Henry tentava se esquivar a cada tentativa da morena com a cara fechada.
Eu nunca tinha visto alguum garoto tentar ou conseguir se esquivar de um golpe daquela víbora!
Admito vibrei por dentro. E vibrei mais ainda quando ele se aproximou e pediu para sentar comigo, com Cassie, Mali e com o namorado alto, loiro e forte de Mali, Diego.
— Problemas no paraíso? — pergunto.
Ele dá de ombros.
— Já estou acostumado com as mentiras dela.
— Vocês se conhecem? — pergunta Mali.
— É, nos conhecemos. Eu era apaixonado por ela, mas quebrei a cara.
Como ele parecia não querer falar no assunto ninguém mais falou sobre isso. Dando espiadas rápidas pude ver a morena nos olhar com raiva.
Descobri que Henry quase caiu na minha turma, mas infelizmente isso não aconteceu.
Henry é um garoto legal, mas confesso, fiquei com um pé atrás com o lance dele com Isabelle, e com o que ela pode fazer.
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Era tarde, eu dormia na cama de cima esta noite, já que eu revesava com Cassie. Era perto de uma da manhã quando o meu celular acende com uma notificação de alguma rede social. Quando a luz do celular acende eu vejo: uma enorme barata na parede que costumo me encostar. Grito e rolo para o lado. O suficiente para cair no chão. Alguns caem e como instinto, colocam a mão na frente para não cair de cabeça. Aparentemente não nasci com esses instintos. Rolei como uma múmia, caí como uma pedra. E como se não bastasse, ao levantar rapidamente bati a cabeça na cama de Cassie.
Sonolenta, ela acende a luz.
— Connie? O que... ? Por que o escândalo às... — ela pega o celular — ... uma e meia da manhã?!
Aponto e com a voz esganiçada digo:
— Barata!
Cassie arregala os olhos e pula em cima de mim.
Quando conseguimos saímos do quarto. Algumas garotas que acordaram com meu grito saíram, curiosas, de seus quartos perguntando o que estava acontecendo. Inclusive Mali.
— Mali, nossa heroína, você precisa nos salvar! — exclama Cassie.
Mali era corajosa e principalmente mau-humorada quando estava com sono.
— Tem um monstro lá! — exclamo e estico meus braços. — Desse tamanho!!
Me olhando feio ela diz já sabendo do que se tratava:
— Cadê o chinelo? — Cassie lhe entra um e Mali antes de entrar diz para Cassie e para mim, respectivamente: — E vai cuidar desse corte na boca e desse galo na testa. Quem sabe vocês consigam faltar amanhã, assim eu não mato vocês.
Malima seguia fielmente o que sua mãe sempre lhe dissera: "A hora do sono é sagrada".
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Saí da enfermaria com um saco de gelo para segurar na testa e fiquei esperando na porta principal esperando por Cassie.
Vejo algo se mexendo perto de uma árvore ali perto. Parecia haver alguém lá. Tomo um surto de coragem que não tive quando vi a barata.
Não era possível ver seu rosto escondido por trás de um capuz. Me aproximo. Ele pixava a parede. Quando estava perto, dele a ponto de tentar descobrir sua identidade ele parece me escutar. Seu rosto estava pintado em forma de caveira, tudo que via era seus olhos claros, cuja cor era difícil de reconhecer no escuro. Escutamos um barulho e curiosa me viro em busca de mais alguém. Sinto mãos taparem minha boca enquanto eu era puxada bruscamente para trás de uma parede. Me rebato enquanto ele observava Cassie que me procurava enquanto segurava um pedaço de algodão na boca.
"Me larga" disse, mas com sua mão em minha boca não dava para entender o que eu dizia, mas dava para ter uma ideia.
— Cala a boca, droga! — ele diz alterado.
Reconheço aquela voz de imediato.
Quando Cassie some de vista consigo tirar sua mão de minha boca.
— Não brinca! Keanu?
Ele arregala seus olhos em minha direção.
— Como sabe... !? Deixa para lá.
— Você é doente ou o quê? Você pixou a sua vó na parede do colégio, seu insano!
— Cala a boca! E fale baixo, sua...
— Sua o quê? — provoco. — Eu sei demais, querido. — ameaço.
A fúria era evidente em seu olhar.
— Okay, Orfeu, qual é a da caveira na cara? E você não me parece ser velho o suficiente como os trabalhos do "Orfeu".
— Não é da sua conta, demônia!
— Nossa, partiu meu coração. — digo, sarcástica.
Ele sai somente dizendo: "Não lhe devo explicações". As vezes acho que esse garoto nasceu com algum problema mental raríssimo e grave, mas como ele poderia ter alguma deficiência no cérebro se ele nem ao menos tem um?
Olho para parede, havia somente um homem de terno, ele não tinha rosto e em suas mãos parecia ter... Expressões faciais, ou algo do tipo!?
Ao notar estar sozinha corro apressada para o dormitório onde Cassie já me bombardeia com perguntas do tipo "Onde você estava?".
Ofegante, tudo que digo é: "Eu sei quem é Orfeu".
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