Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
2 Capitulo 2 - Um cão sozinho e ferido
Notas iniciais
Sirius abriu os olhos para uma rua vazia e silenciosa. Diferentemente daquela na qual se encontrava até poucos instantes, esta estava banhada pela luz de vários lampiões, que brilhavam como olhos de besouro na noite negra.
Olhando por cima do ombro começou a andar a passos largos, quase correndo, tamanho o desespero que o consumia.
Estacou no jardim de uma casa azul e branca, outrora uma bela construção, mas que agora jazia em ruinas, tombada para um dos lados, como se um vento forte a tivesse apanhado, vergando suas estruturas.
Ele não conseguira. Chegara tarde demais. Essa certeza o atingiu em cheio, fazendo bambear, perder sua força. Falhara com seus amigos, falhara com seu irmão.
Era como se o chão tivesse sumido de debaixo de seus pés. Sentia-se tonto, perdido, sem ter onde se firmar. Sua cabeça zunia, como se um enxame de abelhas morasse dentro de seu cérebro; pesadas lágrimas turvavam sua visão.
— Não, não, não, não! Isso não pode estar acontecendo, não pode! – falava para si mesmo, tentando desesperadamente se agarrar a um fiozinho de esperança, que ele sabia já ter se arrebentado.
Por mais que quisesse continuar a andar e chegar a casa, parecia ter desaprendido como se fazia. Suas pernas se recusavam a obedece-lo, não conseguia se forçar a sair do lugar. Mais tarde, ao se recordar daquela noite, seria incapaz de precisar quanto tempo passara ali, de pé, consumido pela dor.
Conseguiu por fim completar a distancia que o separava do batente da porta. O que encontrou ao chegar ali, entretanto, o fez desejar intensamente voltar no tempo, refazer seus passos e continuar parado no jardim.
Se retrocedesse tudo seria diferente. Tudo voltaria a ser como era, tudo ficaria bem. Aquele pesadelo no qual sua vida se transformara naquele momento não seria real, seria apenas isso, um pesadelo, um sonho ruim do qual ele acordaria com o coração acelerado e que depois de se acalmar, contaria James, o amigo com certeza daria boas gargalhadas da cara de pânico que ele faria.
Para seu verdadeiro horror, não se tratava disso. A cena que se estendia a sua frente era uma realidade cruel, que esmigalhou seu coração, tirando-lhe o ar.
Diante do portal, jazia o corpo de James Potter, Pontas para os amigos, irmão para Sirius. Estava vestido com calças de pijama, uma camiseta velha e um robe; para quem o visse, parecia estar se preparando para ir dormir. A expressão em seu rosto era de determinação, como se estivesse pronto para enfrentar o que quer que fosse que o destino lhe reservara.
Sirius estava em estado de choque. Continuava parado no batente da porta, sem coragem para avançar, as forças lhe faltando ate mesmo para desviar os olhos do cadáver de seu melhor amigo.
Isso era tudo culpa dele. Ele os traíra. Entregara-o de bandeja para os braços da morte. “Porquê não seguira com o plano original? Porque fora ter aquela ideia estupida? Porque fora tão reticente em relação a ela?”. Sua teimosia custara a vida de Pontas, e ele jamais se perdoaria por isso.
Devagar, como se temesse que seus movimentos causassem ainda mais estragos, ele se aproximou do corpo de James.
Seus olhos se fixaram nos olhos castanho-esverdeados que conhecia tão bem, e foi ali, naquele momento, que Sirius Black desabou, se deixando levar completamente pelo peso da dor e pelo desespero e culpa que caiam sobre seus ombros.
Ajoelhou-se junto a Pontas, um rio de lágrimas descendo por suas faces. – Droga Pontas, você não pode fazer isso comigo! Não pode me deixar aqui, você prometeu! – Sirius quase gritava para o corpo a sua frente, sua voz soando atropelada por soluços.
Aos poucos seu pranto foi dando lugar a um choro mais baixo, o lamento de um cão ferido, enquanto murmurava ainda agarrado ao corpo frio e rijo do amigo: — me perdoe. Por favor, me perdoe...me perdoe...me perdoe...
Ele continuou ali pelo que pareceu uma eternidade, balançando-se para frente e para trás, como uma criança perdida. Em sua mente, passavam flashs, como cenas de um filme.
Flash back:
Sentado no sofá da sala de estar da casa de sua família, um menino de sete anos passeava os olhos pela paisagem ao seu redor com uma expressão de desinteresse e fadiga.
Mais um jantar tedioso na casa dos Blacks. Mais uma festa sem sentido que sua mãe inventara para exibir sua bela mansão para amigos e parentes, para se mostrar, na gloria de sua futilidade e frieza.
Sirius realmente não conseguia entender o que sua mãe achava de tão divertido naqueles jantares inúteis. Essas ocasiões só serviam para as pessoas inflarem seus egos umas sobre as outras e fofocarem sob as vidas alheias. Realmente nada de interessante.
E ainda havia suas primas e seu irmão. Aquelas criaturas horríveis que as pessoas insistiam em chamar de “crianças adoráveis”. A ultima coisa que ele achava de Bellatrix e Narcisa era que eram “ adoráveis”. Eram duas metidas, isso sim.
A única coisa boa daqueles jantares era que ele tinha a oportunidade de brincar com sua prima Andrômeda, a única das irmãs que parecia mais humana do que uma boneca de porcelana. Naquele jantar em especifico, no entanto, não teria a companhia da prima. Ela estava doente, de cama por causa de uma gripe forte.
Ainda entediado, Sirius correu os olhos uma vez mais pelo aposento, tentando achar algo que o interessasse e o libertasse daquele tedio. Acabou por pousar os olhos em um grupo de três pessoas que estavam junto a porta, sendo recepcionados por sua mãe, que exibia um grande e falso sorriso.
Tratava-se de um casal e um menino de cabelos espetados e óculos redondos, da mesma altura de Sirius, provavelmente da mesma idade que o garoto. Percebendo o olhar direcionado a ele, o garoto levantou os olhos e o encarou.
Sirius não desviou o olhar, mas logo sua atenção se desprendeu da família que era recebida para uma outra coisa, um pouco mais urgente. Sua prima, Bellatrix, vinha em sua direção com um sorriso assustador no rosto, um sorriso que só podia significar uma coisa: problemas.
— O que exatamente você está tramando, seu sapo horrendo? – falou Sirius para a prima, assim que esta se aproximou.
— Não estou tramando nada seu enxerido! Mas se fosse você, não deixaria sua mãe passar pelo corredor agora, ou minha querida titia vai ter um infarto, e você querido priminho, vai estar de castigo pelo resto da sua vida! – respondeu a garota, gargalhando ao se afastar.
As palavras da prima alarmaram Sirius. O que ela teria feito? Bellatrix adorava aprontar e jogar a culpa nas costas dele, que ficava de castigo pelo resto mês e ainda tinha que ouvir sua mãe reclamando que ele era uma vergonha na família, que não conseguia nem mesmo se comportar em um simples jantar.
Sirius pulou do sofá e saiu em disparada na direção que a prima indicara. Chegando ao corredor principal, deparou-se com um verdadeiro pesadelo. O chão do corredor estava completamente tomado por bombas de bosta. Mas que ótimo! Nunca conseguiria limpar aquilo antes que sua mão passasse pelo corredor.
Foi então que ouviu uma voz a suas costas:
— Você nunca vai conseguir se livrar disso sozinho. – virando-se para encarar quem era o gênio que colocava em palavras aquilo que ele já sabia no momento em que saira do sofá, Sirius viu-se encarando o menino que vira apenas alguns minutos atrás.
— Realmente, muito obrigado por essa observação, ajudou bastante, — respondeu sarcástico.
— Ei, calma. Eu disse que você não poderia fazer isso sozinho, não que não conseguiria se tivesse ajuda. E para a sua sorte, estou disposto a te ajudar. A proposito, sou James Potter.
— Sirius Black. – respondeu o garoto, surpreso com a resposta que recebera. – posso perguntar por que está afim de me ajudar? Você nem mesmo me conhece para começar...
— Estou disposto a te ajudar porque vi o que sua prima fez e honestamente, achei muito injusto. Além do mais, não conheço ninguém nessa festa e escolhi você para ser meu amigo. Podemos dar uma lição na sua prima por ter feito isso, o que acha?
Sirius adorou a ideia. Finalmente teria a chance de se vingar de Bellatrix por tudo que ela já havia feito para ele, e de quebra, arranjara companhia para aquelas longas horas de jantar que ainda teria que enfrentar.
— Como vamos fazer para limpar isso tudo? – indagou para James, já que não conseguira achar uma resposta por sua própria cabeça.
— Não vamos. – respondeu o outro. – Vamos fazer sua prima afundar nas bombas de bosta que ela mesma jogou, vai ser hilário! – continuou, seus olhos brilhando com a perspectiva da travessura.
E assim foi feito. James se aproximou de Bellatrix, dizendo a ela que sua mãe queria conhece-la e conseguiu atrai-la ao corredor, com o pretexto de que havia deixado seus pais por ali enquanto fora procura-la. Sirius, que havia se escondido atrás da porta aberta, mal conseguia conter a risada ao pensar na cara que ela faria quando descobrisse o que a esperava.
Por sorte, Bellatrix não se lembrou que aquele fora o corredor no qual ela jogara as bombas (os corredores na mansão dos Blacks eram todos muito parecidos), e quando ela colocou a cabeça para dentro do corredor, procurando enxergar na direção que James inocentemente apontava, Sirius pulou de tras da porta e a empurrou, fazendo com que ela provasse de seu próprio veneno (de maneira quase literal).
Os dois garotos rolaram de rir com a expressão enraivecida da garota quando se viu imersa em bombas de bosta. Riram até suas barrigas doerem, e aquela primeira travessura dos garotos ficou para a historia como a primeira de muitas peças dos marotos e o começo de uma amizade mais forte do que laços de sangue.
— fim do flashback –
A lembrança do dia em que conhecera seu irmão só fez apertar o nó na garganta do maroto. Aquilo não era justo, James não merecia isso. Ele tinha família, tinha um bebe, merecia ter a chance de ver seu filho crescer.
Naquele momento, a dor que sentia foi completada pela raiva. Faria aqueles desgraçados pagarem! Faria Pedro pagar pela traição que cometera, e depois iria atrás de Voldemort e daria um jeito de acabar com ele, nem que isso custasse sua própria vida, não deixaria que a morte de Pontas fosse em vão...
Apontando sua varinha para o corpo de James, ele o fez levitar, depositando-o com gentileza no sofá. Tinha que encontrar os corpos de Lily e Harry, devia deixar a família toda unida para descansar em paz, devia isso ao amigo.
Ainda sentindo suas pernas pesadas, cada passo lhe soando como se houvesse corrido quilômetros e quilômetros, ele começou a subir a escada em direção ao andar de cima.
Estava difícil andar. Não somente pelo peso imenso que sentia sobre si, mas também porque mal conseguia enxergar aonde ia, sua visão turva pelas lágrimas que teimavam em rolar de seus olhos.
Quando estava quase na metade da escada, um som que achou que não poderia mais ouvir naquelas circunstancias o fez estacar abruptamente. Aquilo que ouvia era mesmo...um choro?
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