Lágrimas Na Escuridão
2 Surpresa
Notas iniciais
Droga- pensei comigo mesma- eu deveria ter saído mais cedo de casa, mas como diz o velho ditado : “ Não adianta chorar pelo leite derramado”. Agora serei obrigada a enfrentar esse maldito trânsito.
Cheguei extremamente atrasada na faculdade, mas felizmente, meu professor permitiu minha entrada para dentro da sala de aula. Sentei-me no meu respectivo lugar em silêncio e, ao invés de prestar atenção na explicação do professor chamado Adam, meus pensamentos viajaram entre as órbitas.
A vida é tão simples e ao mesmo tempo tão complexa.- pensei comigo mesma- O mundo vai continuar girando, com ou sem minha mera presença. Somos constituídos por matéria e faço-me a pergunta que muitas pessoas se fazem ao refletir sobre a vida e seus mistérios. Para onde vamos após nossos órgãos pararem de realizar suas importantes funções?, ou seja, existe vida após a morte? Essa é a questão mais discutida nos últimos tempos e devo admitir que é muito intrigante para mim.
A realidade é tão difusa com relação às injustiças entre os seres existentes que sinto-me enjoada e melancólica ao mesmo tempo.
Eu acredito em Deus, pois acho que cada ser existente no mundo foi desenhado por suas mãos hábeis. Eu me sentiria lisonjeada se pudesse ver o Criador do Universo ao menos uma única vez. Acredito, que minha primeira ação, seria abraçá-lo e logo em seguida choraria por um tempo indeterminável por tudo de ruim que fiz quando habitava na terra e choraria também pelos momentos eufóricos que deixei de viver por motivos banais, como orgulho ou timidez.
Não entendo o que está acontecendo comigo, sinto-me tão estranha com relação ao mundo, vazia, sem esperança, frívola e estou com um mau pressentimento, como se algo terrível estivesse para acontecer, como se o mundo estivesse prestes a desabar sobre mim.
Presumo que a palavra “felicidade” não consta no meu dicionário nestes últimos tempos. Ela está tão longe do alcance de minhas mãos, parece que se encontra em uma dimensão a muitos quilômetros de distância ...
– Isabella- vociferou Adam, interrompendo meus devaneios.
– Que?- murmurei um tanto desnorteada.
– Eu lhe fiz uma pergunta.- disse com rispidez- Não vou repeti-la- acrescentou dando um sorriso irônico logo em seguida.- Você anda muito distraída ultimamente e esta evidente falta de atenção vai lhe custar alguns pontos.
Quem você pensa que é?- pensei com frustração- Não tenho culpa se você anda revoltado com sua vida e quer descontar seus problemas me tirando alguns pontos.
– Desculpe-me professor, isso não vai se repetir novamente.- respondi com desalento.
– Espero que não!- exclamou sarcástico.
Depois desse “episódio” obriguei-me a prestar atenção nas aulas seguintes.
– Isabella!- gritou alguém atrás de mim- Espera-me por favor, preciso conversar com você.
Estávamos saindo da faculdade e eu estava perto do meu carro quando olhei para trás e vi a dona daquela voz que tanto chamava por mim, era minha amiga que estava também cursando ciências biológicas.
– Oi Bianca- cumprimentei-a um pouco desanimada- Tudo bem?
– Tudo! Aquele professor é um mala mesmo, onde já se viu tirar pontos de uma aluna apenas porque ela estava distraída? Você foi muito calma quando respondeu àquela provocação dele, se fosse comigo, ele teria ganhado uma má resposta. Você viu aquele sorriso irônico plantado no rosto dele? Fiquei abismada.- parou de falar para repor o fôlego e continuou- Mas, mudando de assunto, você vai na festa da Samantha não é? Vai ser o máximo!- exclamou animada.
– Não posso, vou fazer uma visita “surpresa” para os meus pais e o único dia que eu vou poder fazer isso é no dia da festa da Samantha.- respondi um pouco aérea.
– Mas não dá pra você ir à festa depois que visitar os seus pais? Vamos, por favor, a festa vai ser tarde da noite, vai dar tempo de você ir visitar seus pais e depois voltar para a festa, por favor vamos, por favor- implorou.
– Tudo bem, eu vou dar um jeitinho de visitar meus pais e depois vou para a “tal festa”, mas espero que a festa seja muito boa, pra valer tudo isso hein?
– Vai ser sim com certeza- disse ela quase explodindo de felicidade- Você não vai se arrepender- disse soltando risadinhas- Mas vamos ter que fazer algumas comprinhas, porque a festa dela promete.
– Ok, vamos sim- disse cabisbaixa.
– Bella, por que você está triste?
–Ah, Bianca, não é isso, eu estou com um mau pressentimento.
– Sei, isso acontece às vezes comigo também mas não acontece nada de ruim no final, não se preocupe, não é nada de mais, você vai ver- consolou-me ela- Temos que fazer compras urgentemente, pois a festa dela é daqui a duas semanas.
–Bianca, a festa vai demorar, você é muito ansiosa — afirmei.
– Talvez você tenha razão, mas é a festa do século, temos que comprar as melhores roupas antes que alguém vá lá e acabe com todo o estoque.
– Ah Bianca, isso nunca vai acontecer- comecei a rir- relaxa.
– Pode ser que aconteça, quem sabe uma garota rica que também foi convidada para a “festa” resolve ir à todas as lojas e compra as melhores roupas e sapatos existentes na cidade a fim de escolher com calma na sua bela casa o figurino perfeito?
– Acorda Bianca- alertei – moramos na Virgínia, tem muitas lojas das quais podemos ir para fazermos compras, relaxa amiga- disse soltando risadinhas.
– Tudo bem, vou tentar, mas não garanto que vai dar muito certo. Bella, vou ter que ir agora, tenho um encontro marcado às nove horas, até amanhã.
– Até- disse acenando com a mão.
Abri a porta do meu carro e sentei-me no confortável banco. Peguei um CD e o coloquei para tocar, a música que se seguiu é uma das minhas favoritas e representa muito bem tudo o que estou sentindo. Chama-se Down do cantor Jason Walker. É simplesmente perfeita e emocionante.
Saí daquele local e fui guiando meu carro em direção a uma lanchonete à poucas quadras de minha faculdade. Passo a maior parte do meu dia-a-dia comendo alimentos sem vitaminas, pois não tenho tempo para preparar algo realmente saudável. Tudo bem, admito que não sei cozinhar NADA.
Tenho medo de facas e qualquer objeto cortante, pois quando eu tinha cerca de onze anos, cortei minha mão quando estava picando uma verdura – estava no orfanato e éramos obrigados a ajudar em algumas tarefas domésticas- e devo dizer que foi um verdadeiro caos, pois estava sangrando muito e o corte foi relativamente grande. Resumindo: tive que ir ao hospital,- acompanhada por uma funcionária do orfanato obviamente- levei doze pontos, a partir dali não ajudei mais na cozinha daquele “inferno” e passei a encerar os pisos de alguns cômodos.
Entrei no estabelecimento, fiz meu pedido e sentei-me em uma das várias mesas disponíveis no local. Logo, a funcionária trouxe meu “jantar” que era constituído por uma lata de refrigerante Cola e uma empada tamanho família.
– Bella!- disse uma voz que não consegui identificar.
Então, olhei para o lado e vi um homem muito bonito que aparentava ter seus vinte anos.
– Não está me reconhecendo?- disse surpreso.
Olhei aquele rosto atentamente e aos poucos me toquei de quem se tratava, ele estava muito diferente não tenho dúvidas disso, mas com certeza era ele, Jacob.
– Ja-Jacob?- indaguei gaguejando.
– Sim. Você pensou mesmo que não te procuraria? – perguntou com um sorriso largo em seu belo rosto.
Jacob era meu melhor amigo quando estávamos morando no orfanato, quer dizer, era o meu único amigo.
Flash back on
15 de setembro
2005
– Crianças!- Tara chamou nossa atenção- esse é Jacob- anunciou apontando um garoto que acabara de chegar- sejam bonzinhos com ele, pois acabou de perder a mãe e ainda não se acostumou com esse triste fato.
Coitado- pensei comigo mesma- tanto pela morte da mãe quanto por todo sofrimento que está por viver aqui. Todos os novatos são recebidos por ovos podres, é o jeito da garotada mais velha dar o “seja bem-vindo, agora tornou-se um de nós”, eu sei disso tudo, porque passei por isso e também, porque estou vivendo aqui a um ano e meio, então já vi de tudo e também “ouvi de tudo”.
Mas algo no olhar do Jacob fez com que eu sobressaltasse do lugar em que me encontrava naquele momento, ele era diferente dos demais e eu pude enxergar nele os mesmos sentimentos que tive ao chegar aqui, tristeza profunda, desespero e a terrível sensação de que está por conta própria no mundo.
Vou avisá-lo do ato de “boas-vindas” e também pretendo conversar.-decidi naquele momento- Quero dar o apoio ao Jacob que nunca encontrei neste lugar quando cheguei. O ombro amigo que nunca encontrei, mas que precisava desesperadamente me apoiar.
Depois que as apresentações foram feitas, aproximei-me do Jacob com timidez.
– Oi- cumprimentei.
– Oi- respondeu ele cabisbaixo.
– Sinto muito pela morte da sua mãe, sei que está sendo muito difícil pra você.
– Obrigado- murmurou com ar de choro.
Olhei para os lados a fim de ver se alguém estava perto o bastante de escutar e comecei a falar:
– Jacob, sei que toda essa mudança é difícil de suportar, mas tome cuidado, pois os novatos são alvos de ovos podres, então se esquive da primeira vez que tentarem te acertar e não precisa se preocupar mais, porque eles atiram apenas uma vez, mas a mira deles é perfeita. Vivo aqui a um ano e meio e em todo esse tempo, apenas um garoto conseguiu sair ileso e caso você também conseguir se safar, não vai ganhar as surras que eles dão como “prêmio” aos “novatos ignorantes que não são espertos o bastante”.- sussurrei em voz muito baixa, apesar de não ter ninguém perto o bastante para ouvir nossa conversa.
– Obrigado por me avisar, er ...
– Prazer- disse estendendo a mão- meu nome é Isabella, mas pode me chamar de Bella.
Ele apertou minha mão e disse olhando no fundo dos meus olhos:
– Prazer Bella, meu nome é Jacob.
Flash back of
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