Lágrimas De Sangue
6 Capítulo 6
Enquanto cantava, Nyeji de olhos fechados sentia o mundo acabar, equilibrado em duas das quatro pernas da cadeira, sentado frente ao computador, via o mundo perdendo a cor e o sentido. Aquelas palavras não faziam sentido algum e mesmo assim ele estava ali, com o coração acelerado esperando as horas passarem. Já tarde da noite e o cansaço não chegava a aquela alma solitária.
Em um segundo não estava mais sentado. A cadeira caída no chão não foi a única coisa que ele deixou para trás quando pulou pela janela para o vazio da noite, com os olhos queimando feito brasa.
Calor lhe invadia a garganta, sentia suas veias pulsarem, enquanto recobrava a consciência paulatinamente. Mais uma vez estava com os lábios embebidos de um líquido rubro, enquanto se agarrava firme, as cedas daquele fino lençol. Já se acostumara a perder os sentidos quando não saciava a sede, como um animal ele bebia até a ultima gota, vendo aqueles lábios rosados de menina ficarem em um roxo pálido.
Finalizou com um beijo, manchando de vermelho aquela doce boca e saiu pela mesma janela que adentrara a poucos minutos.
Não tinha animo para voltar, encarar o que sempre fazia. Apesar do costume, ele não se desfazia da angustia e levava junto consigo cada vida que sugava. Em um longo suspiro ele fechou os olhos enquanto atravessava entre as árvores de um parque qualquer.
Cabisbaixo ele sentiu uma ardência e a fúria e o medo o possuíram. Uma bala o atravessou por completo, vinda das costas perfurou abaixo da ultima costela no lado direito. Na adrenalina do momento, ele corria de cinco sombras que tentavam acertar-lhe com muito afinco. Havia sido perseguido varias outras vezes, mas nunca tiveram a capacidade de lhe ferir como estava. O sangue deixava uma trilha fresca e luminosa naquele chão, refletindo a lua cheia.
Escondeu-se em um beco, enquanto via a distância três das sombras se separarem tentando acha-lo; Ouviu claramente a voz de uma mulher, que aparentava jovem. Sua visão ficou embaçada enquanto andava por aquele chão, desviando-se de latas e sacolas atiradas. Dobraria a direita naquele estreito corredor quando o brilho da lamina o fez desviar de um certeiro golpear que uma moça de cabelos castanhos cacheados tentava deferir-lhe. Seus olhos pareciam negros e sua expressão sombria e calculista, exata como cada movimento.
Tão real quanto a sua existência era a sua desvantagem. Não podia acreditar que aquela mulher o estava encurralado, tudo o que conseguia era desviar da fúria daqueles ataques. A camisa manchada de sangue lhe fazia a visão borrar, a sede tomava sua garganta enquanto tentava se concentrar para não ser cortado; Juntou o que lhe restava de força e correu desaparecendo da vista da garota que o atacava.
Entrou no esgoto e ficou imóvel atrás de um pilar que sustentava aquelas paredes de pedra. Ouviu a entrada de mais uma pessoa que pelos passos pesados julgava ser homem. O som da arma sendo destravada o fez gelar, a aproximação de passos lhe causou náuseas.
Aqueles passos pararam e saíram correndo para longe dele, voltando à escada. E a distância, observando das sombras ele viu Ryoshi, dando seus últimos passos, passar para fora daquela armadilha de cheiros.
Olhou para a barriga que apertava tão desesperado contendo o sangramento, encostou a cabeça na parede, enquanto tentava pensar em alguma desculpa, alguma resposta.
Todas as palavras, frases e sorrisos do amigo invadiam sua mente. Aquela sensação e o abraço que ele sentira. Aquele calor insuportável lhe subiu a garganta em uma golfada de sangue ele socou a parede com sua força fazendo-a rachar enquanto suas lágrimas se misturavam na face com o veneno daquelas gotas amargas.
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